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outubro 31, 2004
Montra Natura II
Este é um detalhe do ovaríolo de uma Drosophila melanogaster. Os microtúbulos, elementos essenciais do citoesqueleto, estão marcados a verde e a cromatina a azul. O núcleo do oócito, neste caso entre os estadios 7 e 8 da vitelogénese, está fortemente marcado a vermelho e inserido numa rede de microtubulos no canto que marcará a região anterior dorsal do futuro ovo. Embora pouco visível nesta imagem, o DNA de oócitos neste estadio apresenta-se condensado e com a forma de uma esfera oca, enquanto passa por uma longa e complexa fase inicial da meiose. ¿ esquerda do oócito nota-se uma camada de pequenas células em forma de epitélio. Estas células, de origem somática, formarão a casca do ovo através de uma série de processos morfogénicos orquetrados por cascatas de transdução de sinal entre elas e o oócito. O crescimento do oócito, por sua vez, é sustentado por 15 outras células germinais de suporte, à direita. Embora "irmãs gémeas" do oócito, estas células cedo adoptaram um programa de diferenciação diverso. Entre outros aspectos esse programa consiste em múltiplos ciclos de replicação do DNA e consequente poliploidia, aliás visível pelo tamanho considerável dos seus núcleos (bolas azuis à direita do oócito). Devido à continuidade entre as células de suporte e o oócito, uma série de compostos e organelos celulares são transportados, frequentemente ao longo de fibras de microtubulos, das primeiras para este último. Devido a este transporte e apartir deste estadio, o volume do oócito aumentará rapidamente em detrimento do das células de suporte que, no final do processo, acabarão por morrer. A maior densidade de microtubulos dentro do oócito sugere que o transporte e distribuição espacial de determinantes (tais como RNAs) é essencial para a organização antero-porterior e dorso-ventral do ovo, mesmo antes da fertilização ocorrer. Esta organização é indispensável para que, no processo ulterior da embriogénese, ocorra a definição de domínios de expressão genética, como tal como ilustrado na Montra Natura anterior. A barra no canto inferior esquerdo marca 50 micrómetros.Publicado por VB às 10:12 PM | Comentários (5)
outubro 30, 2004
O ovo e a galinha segundo Jeff Sachs
Trata-se de uma "pessoa de envergadura". A pinta esteve anteontem à vista de quem, na Universidade Rockefeller, assistiu à conferência entitulada Malaria and Economic Development: What Do We Know and What Can Be Done? Professor de Comércio Internacional na Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Harvard até 2002, Jeff Sachs culminou o "estrelato" ao aceitar o convite de Kofi Annan para tornar-se conselheiro especial da ONU na luta contra a pobreza e, quase ao mesmo tempo, o da Universidade de Columbia para tornar-se director do "Earth Institute" (EI). Interessado pelo tema do Desenvolvimento Sustentado desde quando era presidente do Centro para o Desenvolvimento Internacional de Harvard (CID), Jeff tem aos 49 anos um património de experiência que integra (diz-se) economia, política, biologia, ecologia, medicina e epidemiologia. Tal experiência permitiu-lhe desde cedo formular uma visão crítica dos processos "clássicos" de financiamento a países em desenvolvimento por parte da comunidade internacional. Como conselheiro económico na Rússia, na Polónia ou em Moçambique no momento dos respectivos abraço ao capitalismo, Jeff acabou com frequência numa posição de condenação às imposições do FMI sobre estes países. Considerado, contudo, como economista "de direita" pelo modo como aconselhou a actuação da "terapia de choque" dos processos de privatização na Rússia, Jeff tem hoje uma interpretação original (e interessante) do problema da malária. Por mais que a pobreza seja provocada pela doença, a luta contra a segunda é em grande parte uma questão política. Casos como o do Malawi ou o de Moçambique são provas disso. É claro que a comunidade científica pode fazer mais para alastrar a informação necessária à decisão política e isto tanto é verdade para o uso de células estaminais de futuro incerto no Ocidente, como para o uso certo e seguro de redes e insecticidas na luta contra uma doença evitável no Sul que, hoje, mata 3 milhões (1 milhão de crianças) e atinge 2 a 5 mil milhões de pessoas por ano.
Publicado por VB às 12:35 PM | Comentários (11)
outubro 29, 2004
Os três pecados de James Watson (em preparação)
Publicado por Conta Natura às 8:32 PM
Atrasados mentais?
Publicado por maradona às 6:12 PM | Comentários (8)
Clarificação sobre a interpretação da proposta da Costa Rica
A posição da representante dos EUA é a seguinte:
“SUSAN MOORE (United States) said her country strongly supported a ban on all cloning of human embryos, both for reproductive and so-called “therapeutic”, “research” or “experimental” purposes. It, therefore, supported the Costa Rican text. A ban that differentiated between human reproductive and experimental cloning would essentially authorize the creation of a human embryo for the purpose of destroying it. It would, thus, elevate the value of research and experimentation above that of a human life. Experimental embryonic cloning would, therefore, turn nascent human life into a resource or commodity to be mined and exploited, eroding the sense of worth and dignity of the individual.
For that reason, she said a partial ban that prohibited reproductive cloning but permitted therapeutic, research, or experimental cloning was unacceptable to the United States and many other countries. Experimental cloning had the potential of exploiting women, because it might create an incentive for egg donations for financial gain. The President of the United States had expressed his concern that “this would create a massive national market for eggs and egg donors, and exploitation of womenís bodies that we cannot and must not allow”.”
Publicado por PP às 11:23 AM | Comentários (5)
outubro 28, 2004
Portugal e EUA, unha com carne na tentativa de supressão de investigação em células estaminais na Assembleia da ONU

A comissão legal da Assembleia da ONU reiniciou o debate sobre duas propostas alternativas para banir a clonagem humana com fins reprodutivos. A proposta da Bélgica deixaria a cada país a decisão de permitir ou não, e de que forma, a investigação baseada em “clonagem terapêutica”. A segunda proposta, a dos Estados Unidos (que usam a Costa Rica como país proponente), é apoiada por mais 59 países, incluindo o Vanuatu, a Albânia, o Nauru, Saint Kitts and Nevin, as Fiji, o já famoso Palau, (Ö) Austrália, Timor-Leste, Itália, e last but not least, Portugal. Esta proposta pretende eliminar todos os tipos de clonagem, ponto final. Sugere ainda de uma forma estúpida e demagógica que esse dinheiro seja canalizado para resolver o problema da fome, da desertificação, e da SIDA. Custa a acreditar mas é mesmo verdade, confirmem. Como é que Portugal apoia uma proposta desta sem nenhum tipo de discussão nos meios de comunicação, Assembleia e sociedade em geral? Alguém conhece em detalhe o que se passa no nosso CNECV - Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida?
"5. Strongly encourages States and other entities to direct funds that might have been used for human cloning technologies to pressing global issues in developing countries, such as famine,desertification, infant mortality and diseases, including the human immunodeficiency virus/acquired immunodeficiency syndrome(HIV/AIDS)"
"Albania, Angola, Antigua and Barbuda, Australia, Benin, Burundi, Chad, Chile, Costa Rica, Côte díIvoire, Democratic Republic of the Congo, Dominican Republic, El Salvador, Equatorial Guinea, Eritrea, Ethiopia, Fiji, Gambia, Grenada, Guinea, Haiti, Honduras, Italy, Kenya, Kyrgyzstan, Lesotho, Liberia, Madagascar, Malawi, Marshall Islands, Micronesia, Nauru, Nicaragua, Nigeria, Palau, Panama, Papua New Guinea, Paraguay, Philippines, *Portugal*, Rwanda, Saint Kitts and Nevis, Saint Lucia, Saint Vincent and the Grenadines, San Marino, Sao Tome and Principe, Sierra Leone, Solomon Islands,Suriname, Tajikistan, Timor-Leste, Tuvalu, Uganda, United Republic of Tanzania, United States of America, Vanuatu and Zambia: draft resolution"
Publicado por PP às 10:54 AM | Comentários (9)
Naturalmente: a série de entrevistas em TRR
A primeira entrevista irá para o ar em ocasião oportuna... Por agora foi ao ar.
Publicado por Conta Natura às 2:23 AM
outubro 27, 2004
Nome de guerra
Entre os cientistas esta prática é mais subtil, mas existe. Sem os graus de liberdade que são dados aos artistas da pop e da hip hop, o jovem cientista está perante uma tarefa à partida fácil e monótona. Afinal, escolher o nome com que se vai passar a assinar os artigos resume-se a decidir quais os apelidos que ficam de fora, procurando-se simplificar ao máximo mas assegurando sempre uma combinação de nome(s) e inicial(ais) única nas bases bibliográficas. É claro que, postos perante este exercício, muitos não resistem à tentação de complicar o que é fácil e nesta etapa crucial os cientistas lusitanos são- digamos- um grupo de alto risco. Por quererem incluir o apelido materno, por falta de jeito para jogos combinatórios e pesquisas cuidadas nas bases de dados ou simplesmente numa manifestação reprimida do artist previously known as Prince que pula dentro de cada um de nós, o jovem cientista lusitano não resiste a hifenizar o apelido. Alguns vão mais longe; hifenizam os nomes próprios, hifenizam os artigos e infernizam-nos a vida. Para os anglófonos, ter quatro nomes de família é uma aberração. Ora, hifenizar o nome complica a vida ao leitor estrangeiro, que não sabe muito bem como gerir o vocábulo quimérico. Vão por mim; a mensagem é clara: jovem, se queres o mundo, na hora de escolheres o teu nome de guerra diz não ao hífen.
É claro que teorizar é sempre mais fácil do que pôr em prática. Estou aqui a tentar endoutrinar as gerações vindouras mas confesso que há uns anos, posto perante o problema, a minha vontade era incluir os meus quatro apelidos. Felizmente, a minha orientadora, ela própria previamente instruída por um alemão, aconselhou-me a simplificar tudo. Passei assim a ser o Vasco Barreto. O meu erro foi não ter verificado se já havia algum Barreto V. nas bases de dados... E é claro que existia. Aliás, existe. E, a julgar pelo registo de publicações, o estupor vai estar activo durante muitos anos. O meu homónimo é um bioquímico, especialista em técnicas cromatográficas. Como será este homem? Será uma mulher? O que estará ele a fazer agora? Quais os seus sonhos? Será que também gostava dos space invaders? Terá isto sido uma coincidência? Será que devo escrever à Bial e lançar-me a fundo nas ramificações paranormais da homonímia científica? Será que devo procurar uma colaboração e tentar a desconcertante publicação assinada por Barreto V e Barreto V? Quem somos? Para onde vamos? Enfim, já pensei em telefonar-lhe e convidá-lo a trocar de nome mas não sei muito bem como lançar o tema. Em todo o caso, resistirei ao hífen. Juro.
Publicado por Conta Natura às 11:37 PM | Comentários (6)
outubro 26, 2004
Quem são os paineleiros?
Em qualquer país do mundo desenvolvido organismos estatais, fundações ou indústrias, utilizam mecanismos de avaliação antes de investir em Investigação & Desenvolvimento (I&D). Em suma, é da responsabilidade de quem financia garantir que esses investimentos são atribuidos a quem reúne as melhores condições para desenvolver o melhor trabalho.
O governo português, que tem vindo a investir de uma forma sustentada em Investigação e Desenvolvimento (ver A grande t(r)eta), não é excepção, e criou ferramentas para avaliar as instituições de investigação científica lançando as bases para a selecção natural por mérito científico.
Eu tive a honra de acompanhar a avaliação feita ao ICVS (Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde criado pouco depois do nascimento da Escola de Ciências da Saúde, na Universidade do Minho), no passado mês de Fevereiro, e fiquei estarrecido com a leviandade desta avaliação. Este painel não perdeu mais do que duas horas e meia de visita ao ICVS, não discutiu qualquer projecto de investigação com qualquer chefe de grupo e/ou estudantes, não questionou quantos são os projectos em curso que têm financiamento próprio; qual a relação entre tempo dedicado à investigação e número de alunos em pós graduação; quantos alunos em pós graduação versus viabilidade económica do respectivo grupo de investigação, em suma, não fez qualquer pergunta chave cuja intenção fosse o diagnóstico da instituição. Ao responder à pergunta "Quem são os membros do painel de avaliação na área das ciências da saúde da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT)?", verifica-se que esta equipa é constituida por um cientista disfarçado no meio de seis médicos; os sete elementos são provenientes dos EUA; cinco deles vêm da mesma instituição; provavelmente nenhum deles tem a noção concreta de qual é a realidade das instituições portuguesas de I&D; last but not least, nenhum deles é excelente, de acordo com o critério de excelência que o próprio MCIES (Ministério da Ciência, Inovação e do Ensino Superior) estabeleceu. Qual é então a política da FCT quanto à avaliação dos grupos e dos institutos de investigação? Será que um dos pontos chave para a selecção meritocrata dos financiáveis não passa por ter a plena confiança em quem classifica e como é que classifica?
Publicado por às 6:52 PM | Comentários (5)
Estados Unidos da UE.
Depois do tratado de Amsterdão reinou a euforia da livre circulação de pessoas e bens. Porém, os cientistas portugueses (e, para o caso, os espanhóis e os gregos) nunca provaram desse "mel". Aliás, tanto quanto sei, ninguém do espaço comunitário há-de ficar diabético por essa razão. Pergunta: Porque é que os laboratórios portugueses têm que pagar mais que os ingleses ou franceses ou alemães pelo mesmo produto ? A resposta passa pelos "distribuidores" como o Grupo Hucoa Erlˆss ou o VMR International (que aliás é US-based). O nome vem entre aspas porque parece-me um eufemismo. Deviam chamar-se "sanguessugas". Sem querer dar ares de agitador à porta da fábrica, peço que leiam só mais um bocadinho: já não bastava que os investigadores usassem na bancada quase tudo o que lhes sai da hematopoiese, como ainda por cima vêm esses "distribuidores" sugar-lhes o resto do tutano. A sério, lá "nas Internetes" encontrei materiais inflaccionados para compradores portugueses entre 10 a 50% relativamente aos para ingleses! Somos do mesmo espaço económico mas é proibido (apenas pelas leis do mercado?) comprar directamente a quem as fabrica. Eu não entendo muito destas coisas. Alguém poderia explicar-me porque é que precisamos de intermediários na UE? Os preços aqui nos US não parecem flutuar muito de estado para estado embora as distâncias sejam maiores e a sagrada relação "procura/oferta" também varie. Os "distribuidores" dos produtos Eppendorf por exemplo são os mesmos para a Península Ibérica e para a França ou Inglaterra mas os preços das coisas continuam a ser diferentes. Porquê? Mas o "distribuidor" nem precisa aparecer para que seja visível que países pobres como o nosso, sofrem mais: a página inglesa ou alemã da Sigma está cheia de promoções do tipo descontos de n% sobre uma grande variedade de produtos, enquanto que a portuguesa e espanhola promete catálogos, chupa-chupas e erros ortográficos. Algumas pessoas pedem-me para comprar coisas através do lab onde trabalho e depois mandam o dinheiro. ¿s vezes chego a sentir-me um pouco como a Vera Drake. Mas isto é tudo uma tempestade num copo d'água. Pouca gente se queixa. Devem estar todos tão fartos desta história como o este blog da palavra "fulanizar". Ou então deve ser afinal verdade o que dizem: que há em Portugal dinheiro a mais para a Ciência... Publicado por VB às 5:24 PM | Comentários (1)
outubro 25, 2004
A grande t(r)eta
Tenho esperança que, removida essa distracção, possamos iniciar um debate útil sobre assuntos de financiamentos e de ciência e do que fazer e do que queremos ser. Há muitas perguntas importantes a fazer e em próximos posts irei dando conta de quais, no meu modesto entender, são elas.
Por hoje, terminarei esta contribuição com uma só dessas perguntas. Vai escrita de forma deliberadamente provocatória.
(Fontes: Principais indicadores estatísticos 2003 do Observatório da Ciência e do Ensino Superior; Relatório de Actividades 2003 da Fundação para a Ciência e Tecnologia)
A despesa de Investigação e Desenvolvimento (I&D) representa em 2003 0.85% do PIB em Portugal, cerca de 1.9% em França e 2% na União Europeia. A despesa pública (que é aquela que está sob controlo directo do Governo) representa 0.63% em Portugal (3/4 do total), 0.99% em França e cerca de 0.9% na UE (metade do total).
O dinheiro publico afecto a I&D cresceu em Portugal de 0.22% (1986) para 0.69% (2002), em percentagem do PIB (PIB esse que quase duplicou entretanto).
Que governos se podem gabar de ter estimulado mais fortemente este aumento do investimento publico em I&D?
A Taxa Média de Crescimento Anual (TMCA), calculada a preços constantes, do orçamento de I&D foi:
De 1986 a 1995 a TMCA da despesa publica para I&D foi 12.3%.
De 1995 a 2001 a TMCA da despesa publica para I&D foi 9.6%.
(1993 e 1994 foram anos de abrandamento económico, por isso se alguém quiser extrair ilacções politicas destes números é mais justo olhar para a TMCA entre 1986 e 1992: foi 19.5% !)
Portugal, assim, mais do que quintuplicou os fundos públicos afectos a I&D entre 1986 e 2002. Se há política governamental que tenha sido continuadamente aplicada nos últimos 20 anos independentemente da cor politica dos governos, é justamente o apoio ao sistema cientifico nacional. É verdade que houve anos maus (por exemplo as recessões de 1994 e de 2003, esta ainda para mais agravada pela crises orçamental e dos fundos europeus). Parece-me no entanto inequívoco que a tendência de longo prazo na afectação dos fundos públicos é elogiosa para todos os governos desde 1986, independentemente da sua cor partidária, e que ninguém tem direito a ter especiais motivos de orgulho.
(Para comparação: a França passou de 1.4% em 1986 para 0.99% em 2001 e a Grécia subiu no mesmo período de 0.20% para 0.30%. Em 2002 a Alemanha tinha 0.81%, a Austria 0.59% e a Itália 0.69%. Notem bem: o esforço publico em I&D é maior em Portugal do que na Austria, que até é um País rico!)
Mas esta coisa do dinheiro em Ciência tem que se lhe diga... Porque, a bem dizer, o dinheiro, nunca sendo demais, também nunca é de menos, pois não? Pode é haver gente a mais para a quantidade de dinheiro que existe...
(Isto é lógico não é? Afinal o dinheiro é gasto (em salários/bolsas, equipamento, consumiveis e etc.) pelo pessoal que trabalha em I&D...)
Como está então Portugal neste indicador?
O pessoal total envolvido em actividades de I&D, em permilagem da população activa, é de 4.4 em Portugal, 12.3 em França e 10.1 na média da UE(15). O número de investigadores, novamente em permilagem da população activa, é de 3.4 em Portugal (6.5 em França, 5.5 na UE (15)). Note-se que o número de Doutorados em Portugal tem vindo a aumentar a uma taxa de cerca de 10% ao ano (taxa essa obviamente muito semelhante à taxa de aumento dos fundos públicos).
Ou seja, a UE (15) tem 30% mais dinheiro público (em percentagem do PIB), mas também 60% mais investigadores e mais do dobro do pessoal total em I&D (medidos em percentagem da população activa).
Querem aumentar o orçamento publico para Ciência (um anterior Ministro defendeu recentemente ´a duplicação do orçamento público para Ciênciaª)? Para quê? A verdade verdadinha é que não há em Portugal gente que chegue para gastar o dinheiro que existe, quanto mais para gastar o dobro...
É verdade que Portugal é um País pequeno, periférico e pobre. É consensual hoje em dia (felizmente) que o melhor caminho de progresso passa por um investimento forte e sustentado no desenvolvimento do Sistema Cientifico. Os governos dos ultimos 20 anos (repito: TODOS os governos nos ultimos 20 anos) compreenderam isso e fizeram o que deviam: Apoiaram fortemente esse sistema.
Muitos dos que não estão satisfeitos com a situação actual têm muita razão para isso. A julgar pelos comentários que leio e oiço, todos pensam que o subdesenvolvimento cientifico português é culpa do Governo (dos governos) e da sua crónica incapacidade em entender que as politicas de Ciência são factores de progresso.
Não será altura de procurar a responsabilidade para o atraso no próprio seio da Comunidade Científica Portuguesa?
Publicado por Santiago às 3:13 PM | Comentários (12)
Nocturno
Hoje o pano não caiu de bom modo sobre uma experiência aqui no lab. “Correu mal”. Em dias como este acabo sempre a pensar que as probabilidades de ganhar no bilhete semanal da loteria por um lado e de clonar o gene por outro, estão cada vez mais chegadas. A ocorrência do primeiro evento tranquilizar-me-ia em relação à do segundo. Infelizmente, o inverso não é nem nunca será verdade. Mas mesmo quando vem aquele resultadão, quando “corre bem”, a tranquilidade nunca se torna 100% repousante. É como o que todos sentimos quando vemos o Figo a dar um baile aos holandeses ou o Kerry, ao Bush, uma "tareia" no debate... aquele remoto mal-estar
a rebarbar o prazer, aquela voz distante que nos diz: tudo isto é muito bonito mas não vai dar em nada. Talvez vá, mas o hábito torna-me pessimista. Bom mesmo era poder sempre rir, nestes tempos de cólera, como faz Bill Maher. Aliás no episódio desta semana do seu programa na HBO, o comentador político econtrou uma solução interessante para quem tem problemas de consciência relacionados com as embryonic stem cells. Publicado por VB às 2:41 AM
outubro 23, 2004
Biblioteca mínima: What is life? de Erwin Schrˆdinger
Suspeito que para os crentes esta questão não fará muito sentido. Eles (e elas) sabem bem como, saberão ainda melhor porquê, mas quanto ao que éÖ bom, seria engraçado saber, claro, mas não é uma questão particularmente importante, pois não?
Agnósticos como nós, no entanto, preocupam-se mais com o que as coisas são, do que com o porquê ou como...
Schrˆdinger foi galardoado (juntamente com Paul Dirac) com o Prémio Nobel da Física em 1933 pelos seus trabalhos em Mecânica Quântica. Foi um dos mais brilhantes expoentes daquela larga colecção de Físicos Teóricos cujo interesse por problemas biológicos (surgido já na meia-idade e após distintíssimas carreiras cientificas) veio a estar na origem da Grande Revolução do Século XX. Se houve um Pai na Biologia Molecular (e eu, que não sou crente, acho que houve, assim como acho que houve um Filho e que houve Espiritos Santos ñ terei ocasião de falar deles futuramente, já que uma biblioteca mínima oferece muitos pretextos), Schrˆdinger foi-o (mais correctamente: foi-O), sem a menor das dúvidas.
Trata-se do texto, em linguagem corrente, de uma série de licções públicas que Schrˆdinger proferiu em Dublin durante o período a que ele chamou ëMy Long Exileí, período esse que, grosso modo, corresponde aos anos da Guerra. Foi publicado em 1944 e oferece uma perspectiva fascinante das questões fundamentais da Biologia no fim da 2a Guerra Mundial (recordo aqui que o artigo de Oswald Avery, provando que a informação genética é transmitida pelo DNA, é do mesmo ano). A edição que eu tenho inclui ainda os ensaios Mind and Matter e Autobiographical Sketches.
Vou citar do livro: ëThe large and important and very much discussed question is :How can the events in space and time which take place whithin the spacial boundary of a living organism be accounted for by physics and chemistry ?íA resposta, óbvia para qualquer mente inteligente naquele ano de 1944, é:ëThe obvious inability of present-day physics and chemistry to account for such events is no reason at all for doubting that they can be accounted for by those sciencesí
Com um rigor que parece ser inato em Físicos Teóricos (Honni soit...), Schrˆdinger discute brilhantemente o problema da vida numa perspectiva molecular e indica que tipo de soluções poderão existir que, por um lado expliquem a magna questão da hereditariedade, e por outro sejam compatíveis com as Leis da Física. Foi isto que eu aprendi com este livro: a Biologia, afinal, é parte da Física. Se for verdade que as Ciências Sociais e Humanas (e até a Economia) são ramos da Biologia das Populações (como eu acredito), e se, além disso, a Biologia das Populações for uma disciplina biológica (do que ninguém duvida), então, meus amigos, andamos todos, há anos e anos, a trabalhar na mesma coisa...
Diz Schrˆdinger num subtitulo: ëThe Working Of An Organism Requires Exact Physical Lawsí. Este conceito foi de enorme profundidade na época, e revelou-se capaz de inspirar até um gigante como Francis Crick (desapareceu este ano, infelizmente).
É um livro de uma enorme importância na História da Biologia. Apresentou ao mundo outro Físico, Max Delbr¸ck de seu nome, que, a meu ver, é a única personalidade cientifica àcerca da qual se pode dizer o mesmo que se diz do nariz de Cleópatra (se fosse outro, este mundo seria diferente). A discussão do ëDelbr¸ckís Modelí (que, sinteticamente, diz que a estabilidade da informação genética , tal como a estabilidade de qualquer molécula, obedece às leis da Fisica Quântica) é imperdível. Imperdível é também o capitulo 7 ëIs Life Based on the Laws of Physics?í, e a citação de Unamuno : ëSi un hombre nunca se contradice, será porque nunca dice nadaí (que grande verdade)...
E depois a vida (afinal o que é isso?) continuou... A guerra acabou... Jim Watson leu este livro e, eventualmente, aderiu ao ëPhage Groupí... O Oitavo Dia da Criação lá passou...
and...
the rest...
as they say...
is history...
Publicado por Santiago às 9:44 PM | Comentários (3)
outubro 22, 2004
Os Neurolímpicos
Inicia amanhã em S. Diego, Califórnia mais um congresso anual da Society for Neurosciences (SFN). A NSF passa de modo discreto ao largo da clássica (e acesa) discussão moral acerca do financiamento da investigação científica no Ocidente, que levanta, por exemplo, estudiosos da Malária contra os do Cancro. De facto, este talvez seja não só o maior de todos os encontros de cientistas como também um dos mais solidamente patrocinados. O encontro é tão grande (quase 29 mil congressistas no ano passado) que, para evitar demasiado volume e peso com a informação dos abstractos, os participantes passam a receber um CD-ROM no momento da inscrição, com Itinerary Planner e tudo! Para além dos milhares de posters, o programa inclui dezenas de simpósios cobrindo diversos temas relacionados com as neurociências nos mais variados campos: Desenvolvimento, Fisiologia, Sistemas Sensoriais e Motores, Homeostasia e Neuroendocrinologia, Comportamento, Neurologia e Psiquiatria, História e Ensino de Neurociências, Imunologia e Inovação Tecnológica. O encontro tem uma base histórica na troca de informação e no ensino, através de "aulas" dadas por eminências em diversas áreas. Este ano as "estrelas" convidadas abordarão temas (ainda) "quentes" da biologia e fisiologia celular (RNAi, migração celular e redes neuronais) assim como assuntos do âmbito do debate público (por exemplo Neuroética, a polémica associada ao que é inato, o processamento cerebral da "recompensa" ao nível laboratorial e respectivas repercussões sociais). Cada uma destas aulas e simpósios dá créditos a médicos estado-unidenses que se encontrem associados à Educação Médica Contínua (CME). O encontro da SFN deste ano traz também uma novidade: jovens investigadores poderão participar em mini-simpósios cujos temas acompanharão os simpósios grandes promovendo assim a interacção entre os participantes. Como devem calcular, a versão impressa do programa deste ano tem demasidos bit mas nada que impeça um bom "bloguista" de visitá-lo no respectivo portal.Publicado por VB às 8:59 PM | Comentários (1)
Afinidades
Publicado por Conta Natura às 7:02 PM
Uma nova escola de medicina.
Os resultados são visíveis no dia a dia. Elevadíssimos índices de motivação, especialmente nos alunos. Porque este método de ensino exige muito mais domínio teórico dos assuntos leccionados os professores desanimam menos, motivam-se mais, trabalham melhor. Apesar do ratio professor/aluno ser o que a lei manda (aproximadamente 1/8 durante os primeiros 3 anos básicos e 1/4 nos seguintes 3 anos clínicos), os alunos estão infinitamente mais acompanhados e aconselhados do que noutros estabelecimentos de ensino.
Uma das jóias da coroa é seguramente a tarefa Projectos de Opção, novidade introduzida desde o primeiro ano de licenciatura. Todos os anos, os alunos são “convidados” a apresentar uma ideia do que gostariam de fazer durante três semanas. Esta é a primeira grande oportunidade para muitos partirem a descoberta do mundo. Há o exemplo de uma aluna que estagiou numa escola médica em Sheffield para observar in situ as diferenças entre este método de ensino em Portugal e no Reino Unido. Outros partiram à descoberta das desigualdades sociais entre diferentes regiões do país: um foi ao Algarve seguir uma doente com cancro da mama, e outro seguiu os mesmos passos com uma doente de Coimbra. Há inúmeros projectos deliciosos dos quais destaco o aluno que reparou que os pais de bebés internados em unidades de cuidados intensivos neonatais recorrem com mais frequência à ajuda prestada por outros pais em situações semelhantes, do que ao médico de serviço; e a aluno que foi aprender como funciona a Saúde numa prisão do norte do país. Apesar da maior parte dos alunos optar por experimentar a realidade hospitalar (>50%), é curioso verificar que a percentagem de alunos que desenvolve interesse pela investigação científica (básica e clínica) aumenta ao longo do curso e atinge cerca de 20% no terceiro ano da licenciatura. Um número bastante elevado e que poderá vir a ser a força motriz para a investigação clínica, deserta neste país, com algumas excepções a confirmarem a regra. JPP
Publicado por às 6:05 PM
Das tripas coração!

Por enquanto, deixo um link sobre Evolução, de elevado conteúdo educativo!
Publicado por às 5:54 PM
outubro 21, 2004
A fuga no cérebro
Promover o regresso ou a vinda de cientistas excepcionais segundo critérios de selecção explícitos só pode ser aplaudido. O problema desta proposta é que o grau de exigência é tão elevado que, muito sinceramente, não sei quem poderá regressar. Parece que, de um modo maquiavélico ou simplesmente incompetente, este governo, sob a capa dos intocáveis critérios de excelência, põe toda a gente em xeque... Xeque-mate, acrescente-se.
Em Portugal, já há alguns anos que se são postos em prática critérios objectivos para a avaliação de projectos e de laboratórios. Quando aplicadas de um modo razoável e sóbrio, estas medidas são indispensáveis para contrariar vícios instalados que corromperam a investigação feita nas universidades e nos institutos nacionais. Mas convém ter presente que, em si, a aplicação de critérios objectivos de selecção não é garantia de coisa nenhuma. Acima de tudo, os critérios devem ser razoáveis, o que parece estar ausente da presente proposta do governo. Pelo contrário, o que descubro nesta proposta é uma preocupante dose de imprecisão, megalomania, demagogia e eureka político.
A megalomania . Começo com uma pequena digressão. Quando entrei para a faculdade, no ano da primeira PGA, concorri ao Instituto Superior Técnico e à Faculdade de Ciências de Lisboa. Ambas as universidades avaliavam os alunos através de uma prova de matemática. Todos os que fizeram as duas provas repararam que a do técnico era extremamente fácil e a da faculdade de ciências muito difícil. Nunca cheguei a conseguir explicar este fenómeno. No caso do Técnico, talvez aquela fosse uma forma de inflaccionar as médias de entrada, por uma questão de imagem. No caso da Faculdade de Ciências, talvez o pessoal do departamento da matemática estivesse desligado da realidade do ensino da matemática no país. A verdade é que ambas as universidades perderam na capacidade de discriminar os alunos (se para o Técnico éramos todos uns craques, para a Faculdade de Ciências não passávamos de uns azelhas). Na hora de ser feita a verdadeira triagem, com a gaussiana do gráfico de distribuição de notas comprimida e atirada para a direita (Técnico) ou para esquerda (Faculdade de Ciências), a selecção feita pelas universidades não contou quase nada e o que pesou, na prática, foi datada PGA e a média do liceu. Este exemplo pretende apenas mostrar que a existência de critérios de selecção não é suficiente. A fasquia deve ser colocada a uma altura razoável. Ora, o principal problema da proposta em discussão é o grau de exigência. Na minha área (admito que não seja assim em todos os campos, o que só viria confirmar o que acima escrevi) quase ninguém tem mais de 100 publicações científicas. Dir-me-ão que isso não é incompatível com a fasquia dos 100 artigos, porque o que se pretende é, justamente, seleccionar os fora-de-série. Sem esquecer este reparo, acompanhem-me no seguinte exercício. Ainda não fiz a estatística adequada, mas pegando em apenas alguns nomes e numa ferramenta de pesquisa, conclui-se facilmente que quase ninguém em Portugal ou no estrangeiro tem condições para concorrer, a menos que acumule mais de 20 anos de experiência de investigação. Pessoas na casa dos quarenta e com enorme responsabilidade e prestígio científico em Portugal (na minha área) têm entre 30 e 90 publicações. Cientistas portugueses de topo a trabalhar no estrangeito, também na casa dos quarenta anos, têm idêntico número de publicações. Em Portugal, cientistas um pouco mais velhos conseguem ultrapassar as 100 publicações, mas são poucos. Pessoas com carreiras fora-de-série, hoje directores de institutos em Portugal, cumprem os critérios, mas quando ultrapassaram as 100 publicações levavam já mais de 20 anos de actividade científica (considerando a data da publicação do primeiro artigo como o ano do início da carreira científica). Em suma, com base nestes dados não arrisco muito se afirmar que ninguém (ou quase ninguém) na minha área ou áreas próximas (ciências da vida/biologia celular/imunologia/biologia do desenvolvimento/ genética/etc) com um doutoramento posterior a 1985 estará em condições para concorrer a este incentivo. A medida tem na mira cientistas que deixaram o país há muitos anos, mas que não pertenceram à vaga de doutorandos que começou com o programa Ciência e que não tem abrandado.
Este simples exercício visa esclarecer algumas pessoas que estão pouco familiarizadas com esta realidade, pois foram vários os amigos e familiares que já contactaram colegas da minha geração, iludidos de esperança. Põe também a a nu a fragilidade desta estratégia: será este enigmático incentivo o chamariz indicado para cientistas extremamente bem sucedidos e a meio das suas carreiras. Em regra, estas pessoas estarão bem instaladas no estrangeiro e duvido que optem por voltar por causa desta medida. Por fim, fica esclarecido que o problema da saída de mão de obra especializada do país, que tem vindo a aumentar, não se resolve, a menos que se aceite um esquema de formação que passa por vinte anos de actividade científica no estrangeiro antes do regresso (convém manter uma certa abertura de espírito nestas questões).
A demagogia e o Eureka político. Na prática, prevejo que esta medida vá ajudar a financiar laboratórios dirigidos por cientistas de prestígio e já instalados em Portugal. Será uma medida que consolidará o status quo e que vai passar ao lado do propósito original. O facto de trazer mais algum dinheiro para a ciência, ainda que apenas para os laboratórios mais ricos, pode ser vantajoso. Porém, há dois riscos óbvios: 1) o de se financiar laboratórios que produzem pouco actualmente, apenas porque são dirigidos por alguém que tem um currículo que cumpre o critério do número de publicações; 2) o de não se fazer mais nada para promover o regresso de cientistas com menos de 40 anos, usando como desculpa a implementação desta medida. Enfim, estamos perante mais uma solução "inspirada" que deixa sérias dúvidas (será esta a forma mais adequada de investir a verba disponível para a ciência?). Reconheço, ao menos, que está em sintonia com o que já ouvi do actual director da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Colocado perante o problema da saída de mão de obra especializada, disse, por duas vezes e em ocasiões distintas, que "até era bom que nem todos pudessem voltar". Em absoluto, não está errado. Dito daquela forma, transforma um problema grave de planeamento que dura há mais de 15 anos numa solução original, que faz dos investigadores portugueses no estrangeiro embaixadores forçados da pátria. Com tantos Eureka!, há 2003 anos teríamos rivalizado com os gregos. No mundo em que vivemos, estamos condenados a competir com os gregos, também.
Publicado por Conta Natura às 9:48 PM | Comentários (6)
Do Além...
As bolsas ditas de "Investigação Científica" da Fundação Bial são uma fraude. Desde 1994, todo o pós-doc à procura de sustento no estrangeiro pôde encontrar com regularidade bi-anual, anúncios de concursos às tais bolsas pelas paredes de muitos Consulados ou até entre os classificados de revistas internacionais tipo Nature. A água fria só caía no momento da leitura mais cuidada dos regulamentos. Numa página de design moderno diz-se que as bolsas são destinadas a incentivar o estudo neurofisiológico e mental do homem, despertando o interesse dos investigadores das áreas da Psicofisiologia e da Parapsicologia, em instituições nacionais e estrangeiras. Ao lado, uma foto de mulher trajando de bata, atitude profissional diante do microscópio, demonstra que a diferença
entre ciência e superstição pode afinal ser invisível a olho nu. Se o pos-doc fôr perseverante na sua incredulidade, pode ainda dar um salto à colecção de projectos já financiados no passado. Exemplos? Talvez não seja uma boa idéia ocupar o espaço da nossa hemeroteca com tais documentos. Contudo, quer o destino quer o valor do financiamento destas "ciências" parecem ser igualmente ocultos, como se vê pelo caso do "investigador" Joseph Conboy, que foi pago de 1994/12 a 1997/08 para trabalhar no seu projecto Physiological responses to spiritual stimuli:prayer and healing. Esta pessoa aparece uma única vez no procurador Google, como vencedora, é claro, de bolsa da Fundação Bial.
A julgar pelo nome, Luís Portela é o herdeiro do império Bial, companhia formada a 19 de Abril de 1924
pelo capitalista ¡lvaro Portela, tal como se lê na respectiva entrada na página da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Família de comendadores e condecorados, os Portela têm em Luís um campeão dos galhardetes. Apesar de contar apenas três anos de prática clínica, o relato do seu "amplo" CV inclui os títulos de Comendador da Ordem de Mérito e do da Grã-Cruz. Além disso, Luís tem discursos escritos em Universidades, na Ordem dos Economistas e até num encontro da Fundação Luso-Americana versando o papel dos pos-docs portugueses no desenvolvimento de Portugal. Foi também homenageado por dois Presidentes da República desde a inauguração da Fundação Bial. Quanto à produção literária, escreveu alguns títulos à Paulo Coelho (Para Além da Evolução Tecnológica, ¿ Janela da Vida, Esvoaçando , Serenamente e Spirit of Life), trabalhos que o Conta ainda não teve disponibiliade para avaliar.
Em conjunto com o Conselho de Reitores, a empresa de Luís Portela organizou a cerimónia de lançamento da Fundação com o título Aquém e Além do Cérebro. Por outro lado, o prémio Bial, considerado pelo Jornal de Notícias como o maior prémio pecuniário português e um dos maiores, no campo da Saúde, na Europa tem sido um pouco mais realista chegando mesmo a recompensar relatórios de isolamento de genes envolvidos em processos do Desenvolvimento
e até doenças humanas! Qualquer referência à Bial e ao modo como apoia a "ciência", encontrada nas diversas fontes de informação hoje em dia dispoíveis, é elogiosa. Com base na notícia SIR-6361169 da Agência Lusa citada pelo researchCafe.net, o número de candidaturas e de países abrangidos pelo concurso deste ano atingiu um valor record. Diz Luís Portela que se tomarmos em conta o número total de cientistas a trabalhar nos dois nichos abarcados pelas bolsas, a neurofisiologia e a parapsicologia, vemos que as bolsas Bial acabam por abarcar uma percentagem muito importante do total. Se sim ou não um Medium deve ser considerado cientista, foi questão que nunca ocorreu nem ao Prof. Nuno Grande (grande referência pedagógica do Instituto Abel Salazar e Vogal da Fundação Bial), nem aos que apontam a Bial como exemplo, nem pela própria Presidência da República ou por todos os jornalistas do país. É certo que, segundo o Expresso, a Bial é um gigante económico que investe cerca de 11% da sua facturação anual na investigação. Também é certo que a empresa- tal como o FCP, por exemplo- participa em campanhas de saúde na Superliga e até respondeu ao apelo sincero do Kofi Annan para aderir à Global Compact. Contudo, talvez seja urgente abrir de novo esse debate tão antigo acerca da definição de Ciência. Não se trata de defender a proibição formal da doação de capital privado a qualquer actividade humana. O que devemos impedir é a salada entre os alhos e os bugalhos, antes de mais por uma razão de ordem prática: o Governo necessita da nossa ajuda para perceber a realidade científica em Portugal. Prova-o o caso por todos nós conhecido dos 100 artigos no CV, ou o facto da FCT considerar a Bial como uma das 100 empresas com maiores despesas em Investigação.
O que poderá acontecer se um dia o financiamento da ciência no nosso país depender completamente desses projectos-embrião de mecenato científico promovidos pelo MCIES? Será que, devido ao elevado preço das Bolas de Cristal, a futura Fundação António Champalimaud terá que financiar estudos de populações de crianças com memórias de outras vidas?
Publicado por VB às 2:59 PM | Comentários (6)
outubro 20, 2004
Acrobacias financeiras no MCIES
As instituições em causa são: o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), o Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) e a Escola Nacional de Saúde Pública - da Universidade Nova de Lisboa; o Instituto de Ciências Sociais (ICS), o Instituto Bacteriológico Dr. Câmara Pestana, o Instituto de Orientação Profissional e o Observatório Astronómico de Lisboa - da Universidade de Lisboa. Todas elas se manifestaram preocupadas com o seu futuro após esta notícia. É de salientar também que não é a primeira vez que este governo ataca a ciência nacional de semelhante maneira; com o anterior primeiro ministro ñ Cherne Barroso ñ foram extintos 11 institutos públicos relacionados com ciência. Claro que a escolha dos institutos a extinguir nessa altura esteve de acordo com a cor política dos seus criadores ou administradores correntes. Certamente que estes laranjinhas novos também tiveram em mente a cor da camisola para escolher os institutos a abater orçamentalmente.
Só tenho a dizer que isto é uma vergonha e um enorme tiro no pé do nosso querido país, presentemente a ser vendido ao desbarato ao turista e ao construtor civil. Será que não há ninguém com cabeça que tome conta deste país?
Publicado por MM às 5:20 PM | Comentários (15)
Premiar o inevitável?
Por exemplo, boa parte dos Prêmios Nobel foram atribuídos a descobertas que mais cedo ou mais tarde seriam inevitavelmente feitas...
Publicado por maradona às 12:10 AM | Comentários (4)
outubro 19, 2004
Ira Herskowitz: 1946-2003
Ira Herskowitz tinha a mente certa para o organismo modelo e os problemas que resolveu estudar. Todos lhe reconheciam uma capacidade invulgar para decompor um problema complexo e desenhar a experiência chave. Não sou da área dele (a genética de levedura), mas tive o privilégio de confirmar a sua reputação quando assisti a umas conferências que ele deu no IGC, há já alguns anos. Excelente pedagogo que era, a verdade é que a recordação mais sólida que tenho daquelas aulas foi o pedido desesperado que ele fez quando terminou a última conferência: "can I get a guitar?" Percebi-lhe o vício, aquela vontade visceral de pegar num instrumento que tantas vezes toma conta de quem toca alguma coisa. Deixo aqui alguns links para quem realmente pode dizer algo sobre Ira Herskowitz e um breve artigo sobre o seu legado. O obituário de Herskovitz inaugura a colecção de obituários do Conta Hemeroteca.Publicado por Conta Natura às 9:11 PM | Comentários (1)
Obituários
Publicado por Conta Natura às 9:05 PM | Comentários (1)
outubro 18, 2004
Biblioteca Mínima: The eight day of creation, Horace Freeeland Judson (expanded edition)
Trata-se de uma versão posterior à que Horace Freeland Judson publicou em 1979. De certa forma, é a história oficial das primeiras 3 décadas da Biologia Molecular. Começa sensivelmente onde a obra de Mayr termina, mas com duas diferenças claras. Ao contrário do vasto espectro e relativo academismo da obra de May, aqui é dada atenção exclusiva à biologia molecular e o estilo aproxima-se muito do trabalho jornalístico (muito material do livro vem de entrevistas feitas aos protagonistas). Tem sobre as obras escritas pelos protagonistas a vantagem de dar um retrato mais objectivo do que se passou. O relato acaba em meados dos anos setenta do século passado, mas o mundo que descreve já (e ainda) é o mundo da biologia moderna. Publicado por Conta Natura às 11:23 PM
A grande experiência da biologia

Publicado por Conta Natura às 10:30 PM
Cappo di tutti capi
Publicado por maradona às 6:17 PM | Comentários (2)
O Lugar de Portugal
Ainda não sei qual é esse lugar no âmbito da ciência em geral, mas no da Biologia Molecular sei que fica na cidade de Cambridge, nas traseiras do Trinity College. Para esclarecer o que foi escrito no post O Comércio da Dupla Hélice, Portugal Place é uma pequena rua que une o Clube Universitário e o rio. Lugar tranquilo onde ficava a casa do (Francis) Crick antes da sua partida para a Califórnia em 1977. Foi centro de "soirées" científicas e de convívios nerdeantes. Encontrar a residência não é difícil porque obviamente está marcada com o ícone habitual.Publicado por VB às 4:37 PM
outubro 17, 2004
Biblioteca mínima: The Growth of Biological Thought, Ernst Mayr
Aquela que é provavelmente a melhor síntese das ideias sobre evolução, diversidade e hereditariedade até meados do século passado foi escrita em 1982 por Ernst Mayr, que completou 100 anos de vida este ano. 
Entrevistas: aqui e
aqui .
Publicado por Conta Natura às 11:45 PM
Coreia do Norte da ciência
Publicado por maradona às 8:36 PM
outubro 16, 2004
NOBEL 2004, parte II- O Cheiro e o Lixo
Ao longo dos anos 70 e 80 os três demonstraram que as células regulam de maneira extremamente ordenada o seu ciclo de proteínas. Se por um lado a síntese de proteínas já era processo estudado em rico detalhe, pouco era conhecido sobre como era tratada a eliminação do “lixo”. Os premiados deste ano demonstraram que as células utilizam a ubiquitina, um pequeno polipeptídeo de 76 amino ácidos, como um rótulo que marca outras proteínas para destruição. Proteínas marcadas pela ubiquitina são entaão destruídas pelo proteossomo, uma espécie de triturador do lixo proteico das células (a ubitiquina é libertada da proteína logo antes da degradação, sendo então reaproveitada). Este processo, conhecido como ubiquitinação, permite às células regularem fenómenos tão diversos como a divisão celular e a diferenciação, bem como uma resposta eficiente a estímulos externos. A ubiquitinação tambem é vital na degradação de proteinas defeituosas ou tóxicas, inclusive formas potencialmente carcinogénicas. Ao longo das duas décadas subsequentes à sua descoberta, deficiências na ubiquitinacao foram implicadas na etiologia de diversas doenças, como a fibrose cística e algumas formas de cancer cervical.
Como nota de rodapé, preciso lembrar que assim como Che Guevara, Richard Axel, vencedor do Nobel em medicina e fisiologia de2004, também foi imunologista antes de “cheiroso”. Nao sei bem como este fato crucial escapou a Susana no seu o ótimo texto sobre o assunto, até porque estamos perante um padrão recorrente. Veja-se o caso presente da ubiquitinação: sua função mais importante certamente diz respeito à apresentação de antígenos aos linfócitos T! Está dada a dica: jovens, a imunologia é o caminho para a glória e sucesso.
Amanhã explico como a Nastassja Kinski era feinha e solitária antes de sua breve aventura com linfócitos, assim como o estudo das imunoglobulinas levou Edson Arantes do Nascimento a se tornar Pelé, o maior futebolista de todos os tempos.
Publicado por às 10:58 PM | Comentários (1)
O Comércio da Dupla Hélice
Quanto ao Top Azeiteiro, dificuldade ainda maior na eleição. Acabei por escolher os dois CDs de música sintetizada com a tecnologia (isto é a sério) DNAudio . Os títulos são: "Music from the DNA of Whales, Dolphins and Porpoises" e "Aroma Therapy - Music from the DNA of Plants". Também havia uma colectânea de sucessos de Jazz entitulada "Jazz in the Lab" e editada pela mesma CSHL. Todos os músicos eram-me desconhecidos mas, curiosamente tinham todos o primeiro nome a começar pela letra J. Tal como James Watson. Coincidência? Vejam o resto da lista no link que segue.
A senhora da loja disse-me que o que se está a vender mais são uns bibelots tipo "boublehead" do Watson. Não dá para imaginar: uma estatueta do cientista com a cabeça a dizer que sim e que não e já com auto-colante nos pés para colar ao tablier do automóvel!
Na secção do vestuário, entre as habituais t-shirts, casacos e camisolas de malha tricotada (tudo com motivos de DNA), reina uma vasta gama de gravatas. Parece que tudo começou ainda em Portugal Place, quando o "grupelho" dos ácidos nucleicos criou o "Clube da Gravata do RNA". O recorte de jornal não mente: Francis Crick, James Watson, Leslie Orgel e Alexander Rich, todos com gravata semelhante, de molécula bordada, numa foto de 1955.
Na secção para cientistas "mais desenrrascados" há bolas de golf, relógios dourados (para pulsos e estantes), colares, brincos, anéis, perfumes, alfinetes de gravata e jogos de cálices de vinho com a haste em forma de dupla hélice.
Na secção do cientista mais classe-média há chapéus de basebol e de pescador, pulseiras, porta-chaves, saca-rolhas, molas ("slinkies"), tapetes para o rato, canecas, mochilas, sacos, malas, carteiras, porta-moedas, cintos, cordões para trazer o BI ao pescoço, trelas para cão, tiras fluorescentes e maleáveis anti-stress, marcadores de livros, postais, pins (tipo "stop Bush" mas a dizer "no Alzheimer", ou "no AIDS") e penduricalhos para o espelho retrovisor.
Finalmente, na secção das crianças há mais roupa, livros de pintar, jogos, CD-ROMs e legos do tipo "Monta o teu próprio DNA!". Até têm uma versão tipo para menores de cinco anos, em que os átomos sao bolinhas de esponja, não tóxica embora óptima para o engasgamento.
Publicado por VB às 4:46 AM | Comentários (2)
Catastrofismo, catastrofista, catástrofe?
Catastrofista foi George Cuvier (1769-1832), o gigante da anatomia comparada contemporâneo de Lamark. Cuvier, aliás, o barão Cuvier, explicou o desaparecimento de espécies do registo fóssil recorrendo a cataclismos naturais de natureza diversa, a que se seguiria uma fase de regeneração das formas vivas por instrução divina. Sabe-se hoje que este creacionismo a prestações não tem fundamento. Menos certezas temos quanto às previsões negras que o ecologista Paul Ehnrlich tem vindo a fazer nas últimas décadas. 200 anos depois de Cuvier, é dado a Ehnrlich o epíteto de catastrofista, mas pela forma como lê o futuro. Com uma obra de divulgação vastíssima, foi recentemente entrevistado por Carlos Vaz Marques (TSF). Publicado por Conta Natura às 1:15 AM
outubro 15, 2004
?

Ainda estou a preparar o texto para esta entrada, mas deixo já um desafio: quem foi este homem? Não há prémio, apenas uma monumental chapelada. Eis a pista: lembrei-me da criatura depois de ter lido a entrada "Algures em Long Island..."
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Publicado por Conta Natura às 7:43 AM | Comentários (9)
Algures em Long Island, para o Conta...
Olhando ao redor, quase nada distingue o CSHL de uma abadia medieval Beneditina. A mesma disposição de pequenas celas pela floresta de pinheiros, ao redor do centro comum onde todos se reúnem; a mesma ideia comum de que tudo depende muito do quanto se trabalha (ora et labora). Mesmo à entrada alcatifada, os "peregrinos", chegados dos mais distantes lugares, baixam a voz durante suas animadas conversas: ali está, do chão ao tecto, em bronze banhado a ouro, o objecto da sua devoção... a dupla hélice. A solenidade daquele silêncio! Alguém que se entrega a uma quase genuflexão. James Watson convertido em patriarca. E o sino que toca, anunciando a "aula maior", na "sala de capítulo". Sacerdotes, presbíteros e noviços, o Congresso de Células Germinais vai começar! Oremus.
Publicado por VB às 12:56 AM | Comentários (2)
outubro 14, 2004
A vida curiosa do Dicrocoelium dendriticum
É aqui que a história se torna finalmente bizarra! Um dos cercariae comido pela formiga migra para o cérebro desta, mais precisamente para o gânglio sub-esofagíneo. Aí induz uma mudança comportamental com o objectivo de transmitir a infecção para o hospedeiro final, por exemplo, de novo a vaca. A formiga infectada com Dd, ao fim do dia, quando a temperatura baixa, em vez de voltar ao formigueiro, sobe ao cimo de uma folha de erva (numa pastagem qualquer), morde a folha e fica imobilizada até o amanhecer. Com a alvorada, a formiga acorda do transe e volta à sua vida normal. Mas de novo ao entardecer, a formiga volta a subir a uma folha de erva e a pernoitar ao relento, à espera de ser comida por uma vaca. Como os herbívoros pastam geralmente ao crepúsculo, o comportamento da formiga aumenta grandemente a probabilidade de o Dd se transmitir ao hospedeiro final.
Há mais duas coisas interessantes neste ciclo de vida do ponto de vista biológico: 1) o cercariae que migra para o cérebro da formiga não se reproduz mais, visto não formar cistos no abdómen da formiga, o que é um exemplo de auto-sacrifício pelo bem maior (está por explicar como é determinado qual o indivíduo que irá migrar para o cérebro e não se reproduzir mais); 2) as formigas que ficam imobilizadas no cimo de uma folha de erva são nalguns casos assistidas por outras formigas que as alimentam e lhes dão algum conforto moral.
Tendo em conta os desafios do presente, é pertinente investigar até que ponto-e de que modo- as mudanças de comportamento induzidas por parasitas explicam as acções de alguns políticos.
Publicado por MM às 9:14 PM | Comentários (1)
O monge faz o hábito

Publicado por Conta Natura às 4:46 PM | Comentários (4)
O urânio português
Publicado por PP às 2:47 PM
Não perca o grande combate

Publicado por Conta Natura às 12:48 AM
outubro 13, 2004
NATUREza humana
A história resume-se assim: Quist e Chapela publicaram um artigo na Nature com dados que indicam ter havido introgressão de DNA transgénico proveniente de culturas industriais em populações nativas de milho em Oaxaca, México (Nature 414:541-543). O artigo dava crédito a preocupações acerca do impacto ambiental da alta produção de organismos geneticamente manipulados (GMO) e punha em cheque toda a indústria de GMO. Bem depressa grupos de cientistas de "outros quadrantes" publicaram comentários e comunicados na mesma revista, refutando a veracidade do trabalho daqueles autores. Por exemplo, um grupo encabeçado por Nick Kaplinsky, também de Berkeley, publicou um texto rico em tempos verbais no condicional (Nature 416:601-602) acusando Quist e Chapela de terem baseado as suas conclusões em artefactos de PCR sem contudo apresentarem resultados provando o contrário. Nesse mesmo número outros dois autores apresentam uma interpretação "alternativa" à análise genómica de Quist e Chapela (Nature 416:600-601). Tais "evidências" parecem ter sido suficientes para uma decisão editorial muito pouco comum na história da revista, isto é, a retractação da publicação de Quist e Chapela.
A parcialidade desta decisão editorial foi desmascarada por um comentário ulterior, escrito por três outros investigadores de Berkley (Nature 417:897) demonstrando a associação de Kaplinsky e dos os autores "críticos" ao capital do grupo de biotecnologia Novartis/Syngenta. Curiosamente, estes o trabalho destes últimos também é financiado pelo mesmo capital. Reparem na declaração de roda-pé no final desse comentário, uma tentativa óbvia de sobrevivência a uma possível "vendeta"...
Percebe-se também que outro grupo, Monsanto, tenha recorrido a uma estratégia de descredibilização do artigo, dando uso a uma recente arma on-line (a "propaganda vírica") e inventando vozes críticas de pressão sobre os editores da Nature. Mas sigam os links, sigam os links...
Publicado por VB às 8:17 PM | Comentários (1)
Conta Natura Hemeroteca
Publicado por Conta Natura às 12:04 PM | Comentários (2)
Fernando Gonsales

Publicado por às 12:26 AM | Comentários (5)
outubro 12, 2004
Olho nele

Conheci o Nuno Farinha na FCUL. Ficámos amigos e gostávamos de trabalhar juntos. Ele viria mesmo a ser muito importante para a minha formação. Por exemplo, eu pensava que tinha um certo jeito para o desenho, até reparar num poliqueta * que o Nuno rabiscara a esferográfica nas costas de um caderno. Foi já há uns 13 anos e desde então nunca mais arrisquei um boneco. O Nuno, não; sorte nossa ele nunca mais ter parado: dos bancos dos cursos de ilustração levantou-se como professor e das contracapas das sebentas os desenhos dele começaram a circular, foram premiados nos EUA e têm aparecido em inúmeros livros e revistas. Este olho de dinossauro, por exemplo, foi pirateado da National Geographic Portuguesa e saíu das mãos do Nuno. Se nos processarem por esta violação dos direitos de autor, é coisa que vem por bem. Não estou com o Nuno há tanto tempo que até num tribunal não me importava de o reencontrar.
*O vulgar casulo que se apanha na praia e serve de isco.
Publicado por Conta Natura às 7:21 PM | Comentários (1)
Nuestro comandante
É só uma questão de tempo até o Thiago tentar vender a tese de que o nosso colega mais famoso de sempre foi Ernesto Guevara de la Serna, imunologista, guerrilheiro e revolucionário. O currículo de Che na área não está ao nível do número de posters e T-shirts com a sua cara, nem das violentas paixões que despertou. Uma coisa é certa: a tese do Thiago não é descabida. Eis a prova:
Acta Allergol. 1953;6(3):197-207.
Clinical and experimental concepts of pathogenesis of allergic state; importance of food sensitization. PISANI S, POIRON JM, PISANI DE POIRON M, GUEVARA E, BOCCIC LESSI L.
Sem Med. 1952 Apr 24;100(17):516-8. Experimental production of allergic hereditary disposition in guinea pig; preliminary communication. PISANI S, POIRON JM, POIRON M, GUEVARA E, SCHERB N.
Sem Med. 1957 Oct 31;111(18):883-7.Determination of histaminase in human organs. PISANI S, GUEVARA E, SANCHEZ DE LA VEGA W, POIRON JM, BOCCIOLESI L.
Publicado por Conta Natura às 3:51 PM | Comentários (2)
Para uma fé descafeínada
O aparecimento de comportamentos supersticiosos entre pessoas que vivem do próprio cepticismo já não me surpreende. No andar de cima, no Instituto onde agora trabalho (NY), um outro laboratório apenas necessitou de três anos para desenvolver espontaneamente um complexo ritual. De acordo com o mito fundador desta prática, alguém terá ganho um gato de porcelana na rifa do Natal e não gostou da peça. O bicho terá sido esquecido no lab, sobre o parapeito de uma janela. Mais tarde, outra criatura, por ter achado piada ao gato, limpou-lhe o pó e colocou-o ao lado de uma pequena planta de estimação. Em menos tempo do que se leva a dizer ácido desoxirribonucleico, já era praticamente obrigatório, antes do envio de um artigo para qualquer revista (mesmo para as outras todas de “não tão boa ciência”), enrolar o manuscrito de um modo pré-estabelecido e com o canudo tocar três vezes na cabeca do gato.
Dizem-me que somos todos assim, que acreditamos sempre em algo, que não somos capazes de viver em plena desconfiança de tudo o que nos trazem os sentidos. Dizem que os cientistas longe da bancada entregam-se facilmente à crendice básica. Que, afinal, eles também são humanos.
Discordo. Conheço muita gente “livre” entre as quatro paredes do laboratório. Ao desconfiar da prática de deveres aparentemente absurdos ou imaginários, essa gente não encolhe os ombros nem segue o rebanho. Nunca esperam que algo que não seja mensurável ou sujeito a experimentação venha a perturbar o seu discernimento.
Espero que um dia sejam essas as pessoas a ter a última palavra para dirigir o modo como procuramos conhecer. Estaremos então mais perto da realização do desejo da Maria das Flores: que a falta de cultura e a ignorância científica sejam consideradas como dois pecados no mesmo cartório. Cruzemos os dedos.
Publicado por VB às 1:11 AM | Comentários (1)
outubro 11, 2004
O nosso Southern Writer...
Thiago Lopes Carvalho: desterrado no Alabama, este luso-brasileiro orgulha-se de ter recebido uma carta manuscrita de John Maynard Smith, declinando um convite para um encontro sobre Evolução. Mau futebolista, mau cantor, amante de méritos duvidosos, só diante de um naco de carne e de um grelhador Thiago salva a reputação. A mais recente contratação do Conta possui a piada mais rápida que conheço, mas ainda não sei como isto se traduzirá em posts.Publicado por Conta Natura às 10:47 PM | Comentários (1)
Temos os dias contados...
O Conta fica a fazer figas para que o Ciência Hoje tenha uma vida cheia de sucessos e não extermine a raia miúda. Aqui fica o contacto do novo gigante: jmassada@cienciahoje.pt
Publicado por Conta Natura às 4:04 PM | Comentários (2)
Fragrância Nobel
Linda Buck e Richard Axel receberam este ano o Premio Nobel em Fisiologia e Medina pela descoberta dos receptores olfactivos. Buck era pós-doc no laboratório de Axel na