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novembro 30, 2004

All dogs are equal but some dogs are more equal than others

2lg_4lb_final(1).jpg
A crença na América é inabalável. Acredito no sonho americano. Acredito mesmo, não estou a ser irónico. E porque quero acreditar vou fechando os olhos muitas vezes. Prefiro continuar a pensar que o nepotismo nos EUA não tem a mesma pujança que na Europa (exhibit A: o actual presidente dos EUA é filho do penúltiplo presidente dos EUA) e que poucos usam o estatuto profissional que têm para alargarem os seus privilégios (exhibit B: no campus da minha universidade não é permitido andar a passear cães pelos corredores mas há três professores- um deles nobelizado- que o fazem de forma ostensiva; alguns alunos também violam a lei, mas só o fazem pela calada, a altas horas da noite, como fica bem a qualquer violação). Vida de cão? Bah, depende do grau académico...

Publicado por Conta Natura às 1:06 PM | Comentários (17)

novembro 29, 2004

"MC" Gomes

MCGOMES.jpg
Ainda não é a almejada conquista aos bárbaros, mas o Conta acaba de reforçar a sua posição na metrópole. E que reforço! Cláudio Gomes (CMG), antes também da FCT da UNL e agora em regime de exclusividade no ITQB, é o único MC que pode estar a discorrer durante três horas sobre EPR e NMR sem recorrer a cábulas (ena, 7 siglas numa frase). Co-autor do Rap da Cardosina, obra de culto que mudou a história do hip hop na região centro do país, quase um schoolar da ficção científica, este homem publicou antes dos 30 anos mais artigos científicos que os que o cientista médio português acumula até à reforma. O Cláudio entra como colaborador permanente com isenção de horário. Bem-vindo, rapaz (raios, logo agora que parecia que começávamos a equilibrar o sex ratio na redacção). Biólogas deste país, ACORDAI (com suporte harmónico à Lopes Graça)!!!

Publicado por Conta Natura às 4:32 PM

novembro 26, 2004

The view from the South: Feliz aniversário, Charles (enquanto ainda é tempo)

evolution.jpg Dia 24 de Novembro completaram-se os 145 anos da publicação de uma das mais revolucionárias obras de todos os tempos, “On the Origin of Species by Means of Natural Selection” do naturalista Charles Darwin. A primeira edição esgotou-se imediatamente; não era a primeira vez que os ingleses vitorianos corriam às livrarias para comprar tratados científicos, algo que hoje só aconteceria se o Paulo Coelho resolvessse escrever um. Darwin preparava o livro há décadas e acredita-se que só teria aceite publicá-lo postumamente, ou pelo menos após a morte de sua mulher, Emma, que era profundamente religiosa e a quem ele queria poupar a inevitável briga com a igreja que se seguiria à publicação. O próprio Darwin se afastou bastante da religião-mas este tópico é objecto de discussão entre seus biógrafos-especialmente após a morte aos 10 anos de Annie, sua filha favorita. Darwin se viu forçado a publicar porque recebeu do jovem Alfred Russel Wallace um manuscrito apresentando ideias semelhantes. Darwin e Wallace tiveram uma experiência profisional equivalente, trabalhando como naturalistas em viagens oceânicas: Darwin pela América (com sua famosa parada nos Galápagos); Wallace pelos arquipelágos do Oriente. Após um período de pânico que todo cientista conhece bem, Darwin e Wallace chegaram a um acordo e submeteram conjuntamente um artigo entitulado "On the Tendency of Species to form Varieties; and on the Perpetuation of Varieties and Species by Natural Means of Selection" à Linnean Society de Londres em 1858. A publicação do tijolo que todo biólogo tem em casa mas poucos têm paciência para ler (os vários capítulos sobre criação de pombos certamente não ajudam) veio um ano depois e levou a várias décadas de intensos debates dentro da comunidade científica, como entre os cientistas e a sociedade. O debate científico de fato ainda não está inteiramente resolvido, em parte porque, como aponta o grande evolucionista Ernst Mayr, a teoria de Darwin não é uma só, mas cinco: a evolução em si, isto é, a ideia de ëdescent and modificationí; a origem comum de todas as especies ; o gradualismo; a formação de espécies como fenómeno populacional e, finalmente, a seleção natural como mecanismo. Embora hoje não exista grande debate na comunidade científica sobre as duas primeiras teorias, as três últimas são objeto de estudos e discussões intensas- uma marca de vigor científico e não de tibieza, ao contrário do que pretendem fazer ver os criacionistas. Mas, afinal, será esta uma batalha que se considera vencida, pelo menos do que diz respeito à evolucão em si e excetuando cantos da terra onde a manteiga de Yak é a principal fonte de iluminação e aquecimento? Ledo engano. Aqui no Alabama provavelmente começaram já acendendo fogueiras e queimando cópias da Origem das Espécies. Recentemente fui informado por uma colega do laboratório que colabora com ensino de alunos do secundário que ela foi instruída para não usar a palavra “evolução” em sala de aula. E assim os idiotas passam da burrice pessoal- que não nos interessa- ao imperdoável, perpetuando a ignorânciaÖ *Nota ao editor: alguém precisa contribuir algo neste espaco comemorando o centenário do Mayr. Resposta: alguém precisa explicar ao Thiago que um teclado português não limita a escrita em inglês e que o inverso não é verdadeiro. O tempo que gasto a acentuar os textos de Birmingham, Alabama, podia ser investido noutras actividades como, por exemplo, contribuir com algo neste espaço comemorando o centenário do Mayr.
Perpetuando mesmo. Nao é infrequente pedirem aos biólogos exercícios de futurologia em jogos de festa (sim, de festas muito chatas) que passam invariavelmente por prever os caminhos da evolução humana nos proximos milénios. A imagem que mais se encontra é a de seres cabeçudos, com polegares enormes- um destilado da suposta importância crescente do aspecto intelectual na vida humana. Obviamente é tudo besteira; para mais, a imagem resulta de uma interpretação lamarquista de efeitos de uso e desuso. Infelizmente a visão baseada em princípios darwinianos, ou seja, medindo diferenças no sucesso reprodutivo, leva a um modelo muito pior: o gringo do futuro será um camponês medieval com armas nucleares e SUVís. Isto porque a análise das taxas de fertilidade mostra que os chamados red states (os que apoiaram George W. Bush), especialmente os profundamente religiosos, estão seguindo a dica de “crescei e multiplicai-vos”, enquanto os blue states ("godless communist bastards") estão seguindo a mesma tendência demográfica dos estados europeus, com acentuado declínio nas taxas de crescimento populacional, tendendo mesmo à contração. Atualmente a diferença reprodutiva entre a ëheartlandí americana e o povo das costas leste e oeste está em torno de 13%, mais do que suficiente para ter efeitos devastadores num futuro não muito longínquo. Pior, estes dados tomam cada estado como um bloco e não é improvável que dentro dos blue states se encontre uma tendência expansionista semelhante entre aqueles que votaram no partido republicano, o que se traduziria num enorme mapa vermelho em duas ou três gerações. Junte a isto relatos que circulam pela blogosfera de que os red states tem QIís médios mais baixos do que os azuis, tempere com as anedotas que circulam desde sempre nos EUA sobre casamentos consanguíneos no sul e temos a receita para uma futurologia darwiniana do Homo sapiens norteamericanusÖ

Publicado por às 9:20 PM | Comentários (8)

novembro 25, 2004

Universidade Resistente

Klaphake.jpgO discurso de Mussolini a 10 de Maio de 1940 fez desfalecer ainda mais a já alquebrada moral dos governos aliados. Grande herói de muitos, Winston Churchill, respondeu com a sua memorável urbanidade, "...batendo com o punho na mesa": Collar the lot!. Isto é, prisão sumária aos residentes no Reino Unido, com mais de 16 anos e provenientes principalmente da Itália, Alemanha, ¡ustria e Checoslováquia. Da anterior guerra mundial voltou o paranóico temor da "quinta coluna", ou seja, da presença de "inimigos civis" infiltrados para trabalho conspiratório. Não obstante o elevado número de vozes contra esta medida de "intolerância preventiva", 27000 refugiados, judeus e gentios, activistas anti-fascismo, intelectuais e operários, mulheres e homens, lotaram os meios de transporte para "campos de internamento" espalhados pelo UK, Canadá e Austrália. Algumas viagens acabaram mal, como a do navio Arandora Star, torpedeado pelos alemães sem salvação dos prisioneiros que, pela da sua condição, iam encarcerados. Prolixo seria perguntar como se sentiriam os tais "civis inimigos". Um relato interessante é o do Nobel da Química Max Perutz, no seu livro I wish I'd made you angry earlier. Na prisão da Ilha de Sta Helena, no rio S. Lourenço em Montréal, entre receios, incertezas, separações e revoltas, fundou-se uma "universidade". Prisioneiros de várias formações organizaram aulas e grupos de estudo com quem quisesse aprender. Hermann Bondi deu um curso de análise vectorial. Com o astrofísico Thomas Gold, Hermann chegou mesmo a trabalhar no esboço de sua futura teoria sobre a expansão do Universo. Um pastor protestante e comunista alemão de nome Klaus Fuchs, dava física teórica. Fuchs acabou como "amigo" e trabalhou nas equipas da bomba atómica em Manhattan e Los Alamos embora tenha sido ulteriormente acusado de passar informação ao "lado de lá", já durante a guerra fria. Também noutros campos de prisioneiros apareceram modelos semelhantes de troca intelectual. Igualmente Nobel da Química, o físico Walter Khon fala da sua participação nas aulas dadas entre prisioneiros de campos ingleses "para dar continuidade aos estudos deixados à força". Outro químico e professor-na-prisão foi Wolf Klaphake, "internado" em campos na Austrália pelo tempo total equivalente a uma licenciatura em Bioquímica na Universidade do Porto. Mas uma vez que os "criminosos conspiradores" de ontem participavam da mesma natureza das "armas super mortíferas" iraquianas do presente, muitos puderam regressar a casa nos primeiros meses de 1941. Tal era a benevolente e magnânime mão do primeiro-ministro inglês, embora alguém sustenha ter sido esta uma decisão mais de ordem económica que de justiça. Sim, eram tempos dificeis e de grande confusão. Tal como Estaline ainda parecia amigo de Hitler, muitos cientistas presos foram afinal abordados pelo governo inglês para que aceitassem trabalhar em agências de defesa e aceitaram. Outros, como Perutz, foram convidados a ficar nos EUA, para inaugurar uma ala científica na recém-fundada New School of Social Research (uma instituição que ainda hoje existe e que, no campo da Antropologia e Sociologia mantém bastante intactas as motivações e princípios originais da Escola de Frankfurt) e recusaram. Provavelmente a criação das tais "universidades" era algo espontâneo naquela conjuntura. Ou então as pessoas estudavam juntas para distraírem o tédio de estarem presas. Eu prefiro imaginar esses exercícios como formas de resistência de quem, por ter fugido a um pesadelo, acabou noutro. Para mim, os livros, sinfonias e teorias elaboradas pelos "internos" não deveriam permanecer hoje apenas como documentos testemunhas do que foi, no mínimo, um crasso erro de julgamento. Deveriam antes ser tomadas com a seriedade de quem usou a sua arte ou ciência para tentar extrair o positivo possível de uma tragédia global.

Publicado por VB às 6:07 PM | Comentários (17)

novembro 24, 2004

Na senda de Tordesilhas (a alucinada megalomania, parte II)

m.jpg
Hoje, enquanto fazia tempo para mais um encontro antecipadamente lixado com a burocracia, entretive-me a consultar um Mapa Mundi de parede. Há um dado extremamente perturbador. Se recuperarmos o entendimento ptolemaico da geografia, a Sul e Oeste de Birmingham, Alabama, e a Norte e Este de Paris, França, estamos em território de bárbaros. São muitas milhas, demasiados rios, cordilheiras, mares, planícies e planaltos que se percorrem sem encontrar um único membro do Conta Natura. Fica pois o repto: se és lusófono e fazes ciência em remotas coordenadas geográficas, junta-te ao Conta. Não há salário mas a jantarada na metrópole continua de pé.

Nota: o Mapa é de Mercator e data de 1587.

Publicado por Conta Natura às 7:40 PM

novembro 23, 2004

A voz da Rambla

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É oficial. O Conta passa a contar com a Sofia Araújo, aliás, Sofia Jorge Araújo (SJA). Ao contrário do resto da malta- uma cambada de amadores- a Sofia possui uma pós-graduação em comunicação de ciência pela universidade de Londres. Por outras palavras, o Conta reproduz os vícios da nossa sociedade: para chegar aqui uma mulher tem de ser mesmo competente; aos homens basta terem ido uma vez beber umas cervejas comigo. Desiludam-se pois aqueles que esperavam poder contar com a minha geração para mudar a ordem das coisas. Adiante.
A Sofia é multifacetada. Infelizmente não estou autorizado a contar as histórias mais interessantes; fiquemos pelo essencial. Tem alternado as más escolhas de cidades com as boas. De Coimbra veio para Lisboa (boa escolha) estudar na Universidade Nova e no Instituto Gulbenkian de Ciência; mudou-se depois para Londres (má escolha), onde se doutorou em bioquímica. Há uns meses corrigiu o tiro e foi parar a Barcelona (boa escolha), onde se encontra a fazer um pós-doutoramento em biologia do desenvolvimento. Tem também alguns impulsos à da Vinci: pinta, é ceramista, cantou numa banda de Bossa-nova e jogou basquetebol (desporto que, a existir à época, Leonardo teria seguramente adorado e revolucionado). Disse-me também que em tempos foi escuteira, o que é prova de carácter (não o facto em si, mas a revelação).
Bem-vinda ao Conta, Sofia. Esta passa a ser a tua casa.

Publicado por Conta Natura às 2:03 PM | Comentários (1)

novembro 21, 2004

O Sonho

Na escuridão da sala do microscópio confocal o pos-doc dizia ao seu estudante: Em biologia celular temos que dar asas à nossa imaginação. Eu, que era o estudante deste episódio, pensei então no sonho de Kekulé, com cobras mordendo a própria cauda. Pensei que talvez não fosse do meu feitio estar sujeito a tão poucos critérios racionais no trabalho de experimentação. Mas de sonhar poucos escapam. Nem sequer os que pelos mundos da matéria viajam consumidos em concentração, num esforço prolongado de entender ou descobrir. Sonham os matemáticos com números e os físicos com partículas sub-atómicas. E esses sonhos, diz-se, inspiraram-nos quando, já acordados, partiram para o real. A ciência e o sonho, pois. Ou a ciência do sonho. Existirá? Sim. Ramificações do estudo do sono, alguns laboratórios acabam com nomes que resumem afinal a vida laboral de todos os cientistas, como o dito de sonho e pesadelo, no hospital do Sacré Cúur, em Montréal. Por outro lado, no Departamento de Neurologia do Hospital-Universidade de Berna foi recentemente descrito o caso de uma mulher idosa que perdeu a capacidade de sonhar após um acidente vascular cerebral. A lesão parece não só restrita a uma região bem definida mas também independente de certas manifestações neuropsicológicas que se pensava estarem associadas à falta de sonhos. Será este o centro tão procurando de onde emanam as imagens do nosso sono? Se é certo o que postulou Freud, os humanos encontraram a "...royal road to a knowledge of the unconscious activities of the mind”. Não sei se isso será bom ou mau. Eu cá continuo a sonhar, à procura de uma seixito filosofal que me permita menos apuros salariais. Até agora pouco me tem saído na rifa. sonho1.jpgMas algumas visões são bonitas. Uma delas foi a que tive a sonhar-me sentado no cinetocóro de um cromossoma em metafase, olhando milhares de microtubulos a convergir lá longe, num dos pólos do fuso mitótico.

Publicado por VB às 4:28 AM | Comentários (1)

novembro 19, 2004

O Google académico

Foi ontem lançado o Google Scholar, uma versão teste do que se poderá chamar de Google académico, uma versão restrita a publicações google.jpg académicas e científicas. A particularidade mais interessante é que quando se procura um determinado "paper", para além do "link" à página da revista também apresenta, nalguns casos, outros "sites" onde o "paper" pode ser descarregado(?) gratuitamente. Muito útil para alguns países...

Publicado por PP às 12:52 PM | Comentários (5)

novembro 17, 2004

Palmadinha nas costas psicológica

A equipa do Conta acaba de contratar a ilustre Sofia Araújo. Dois esclarecimentos: 1) não há aqui nepotismo; o Ricardo e a Sofia partilham um apelido mas, até prova em contrário, não têm laços de parentesco; 2) não aderimos às quotas; a entrada de uma rapariga é perfeitamente acidental. Uma coisa é certa, rapazes: toca a engavetar os calendários de mecânico de automóveis que animavam a redacção.
Com a entrada da Sofia o nosso amigo Jorge Carneiro é promovido a colaborador permanente em dispensa de serviço, um título vitalício e honorífico, criado especialmente para os membros do Conta que, não tendo escrito uma linha, continuam a poder aparecer nos nossos jantares anuais.
E é assim. Resta escrever o parágrafo biográfico sobre a Sofia, publicar a foto tipo passe social e esperar pelo primeiro post da moça, lá da Rambla. Barcelooooooooooooooona (à Freddy Mercury)!

Publicado por Conta Natura às 3:23 PM

novembro 16, 2004

Just an old sweet song keeps Georgia on my mindÖ

They`re back! Na verdade, nunca chegaram a partir. O ensino da teoria da evolução em muitos estados do sul dos EUA há décadas que é ameaçado por gente que defende uma interpretação literal dos relatos bíblicos. Na Georgia estes senhores acabam de conseguir colar o seguinte texto em lugar de destaque nos livros de texto sobre ciência que são usados no liceu: "This textbook contains material on evolution. Evolution is a theory, not a fact, regarding the origin of living things. This material should be approached with an open mind, studied carefully and critically examined." O que temos aqui, sob a capa da abertura de espírito, é um exemplo de ignorância e da arte do politicamente correcto. Todas as interpretações em ciência são teorias e os factosÖ bem, os factos são factos. Qualquer teoria pode ser revista, afinada e rejeitada de acordo com as observações que vierem a ser produzidas. É assim que a ciência funciona. A existir uma teoria científica credível alternativa, justifica-se o seu ensino no liceu. Sucede que neste caso não existe nenhuma explicação alternativa que respeite critérios científicos. A teoria da evolução de Darwin tem sido sujeita a rigorosos testes desde que foi proposta, há mais de 150 anos; foi aperfeiçoada, criticada e revista, mas resistiu no essencial. É disso prova a comunidade de evolucionistas que hoje aprofundam as questões da evolução. Todas as explicações em ciência são teorias, mas nem todas se transformam em disciplinas. A verdade é que, a propósito da vitória dos criacionistas da Georgia, um spin doctor acaba de afirmar numa cadeia de televisão nacional que a teoria da evolução de darwin é muito controversa no seio da comunidade científica. A escolher entre aldrabões e fanáticos, prefiro os segundos. Mais valia este senhor ter logo dito que com o disclaimer que agora aparece nos livros das escolas da Georgia pretende-se deixar a porta aberta para o ensino do criacionismo "científico" numa sala de aula de biologia. Ora, com bojardas destas deste lado do Atlântico como é que querem que um ateu tenha compaixão pelo choradinho dos cristãos europeus, supostamente as novas vítimas da trituradora que é o politicamente correcto? Ah, "Just an old sweet song keeps Georgia on my mind" (voltarei ao tema).

Publicado por Conta Natura às 1:25 AM | Comentários (2)

novembro 11, 2004

Morreu Yasser Arafat. Ou será que não?

Desde o dia 3 de Novembro que os relatórios médicos apresentavam ao mundo o seu estado clínico: coma. Mas o que é afinal o “coma”?
A palavra tem origem grega em kôma, como tantas palavras do léxico médico, significando sonolência. Em termos gerais, referimos o estado de profunda diminuição da consciência, com perda da capacidade de interactuar e de comunicar com o meio envolvente. O que agrava a noção de ausência ou de distância de um indivíduo em coma é a fraca resposta aos estímulos, seja uma chamada enérgica, ou um toque mais doloroso para avaliar com que facilidade se poderá despertar. O toque aqui pode assumir laivos de agressividade, com torsão da pele e pêlos do peito, toque retromandibular e outros eventualmente mais dignos da cartilha de Torquemada...


Ao contrário daqueles que desenvolvem sonos tão profundos, que resistem a qualquer medida que tente devolver-lhes a consciência, as pessoas em coma não são despertáveis, por outras palavras, perderam a reactividade conferida pela chegada de estímulos aos orgãos sensoriais como os ouvidos, os olhos e a pele. Para quantificar a sua gravidade foi definida em Glasgow em 1974 uma escala de 3 a 15, sendo o valor mais elevado relativo a lesões ligeiras e 3 referente a estados de extrema gravidade. Em causa estão três parâmetros avaliados: os movimentos palpebrais, a resposta verbal ao estímulo e a resposta motora à dor.
As possíveis causas são variadas, entre as doenças com distribuição focal e difusa. No primeiro grupo estão as hemorragias, os enfartes de tecido cerebral (que se designam por acidentes vasculares cerebrais isquémicos), os tumores, os abcessos e as infecções. Nas lesões difusas, as causas traumáticas com aparecimento de edema cerebral difuso são muitos frequentes nos acidentes de viação, às quais se juntam os efeitos sistémicos da intoxicação alcoólica, barbitúrica, os opiáceos, os anfetamínicos, a aspirina e outros tóxicos que podem provocar danos graves, por vezes irreversíveis. As alterações metabólicas do tipo da diabetes, a hipóxia, as insuficiências renal e hepática normalmente evoluem rapidamente para situações de alteração do estado de consciência e coma, se nada for feito para restaurar a normalidade.
O que no caso vertente motivou a tão referida hemorragia que poderá ter causado a acentuada deterioração do estado de saúde deste lutador, continua ignorada. No entanto, uma vez diagnosticado o Coma por que razão terá sido tão complicado anunciar a sua morte? Será possivel a um homem de 75 anos oscilar entre dois estados existenciais aparentemente tão distantes: a vida e a morte?
As questões políticas não serão aqui referidas, o que não significará que tenham menor relevância para a compreensão dos factos.
A medicina sim, aborda este tema, como tantos outros de forma criteriosa, mas sempre, sempre passivel de discussão. De facto, a morte à luz do senso comum parece ser um prolongamento do coma, e este, um claro prolongamento do sono. Do ponto de vista técnico, a morte é hoje definida pelos critérios de Harvard ( que envolvem essencialmente o conceito de morte cerebral). Uma pessoa está morta se o seu cerebro estiver morto, se não apresentar sinais de actividade reflexa e de actividade motora. Basta uma única resposta a um ponto de luz, ao toque na córnea com encerramento das palpebras e haverá exclusão imediata do diagnóstico. Confirma-se que não sofre de intoxicação por qualquer fármaco ou doença metabólica, que a ausência de resposta não é motivada pela hipotermia, que não está em choque e que quando se retira o apoio ventilatório que não ventila de forma independente ( o que parece perfeitamente compreensivel!) e finalmente poderão ser usados os meios auxiliares de diagnóstico para testemunhar a observação clínica: a TAC (tomografia axial computadorizada), a RM (ressonância magnética) e o EEG ( electro-encéfalograma).
Daqui se compreende a estranheza de muitos quando se apelida de morto um individuo que tem a pele mais ou menos quente e com a tonalidade mais ou menos rosada, e em quem se poderá reconhecer o pulso mais ou menos vigoroso e que precisará de auxilio para respirar (recorre-se a um aparelho que insufla os pulmões para ultrapassar a inércia dos músculos respiratórios imobilizados- o ventilador), pelo que o seu torax se move...
Mais estranho será pensar que depois da morte, o nosso cabelo, a nossa barba e as nossas unhas continuam a crescer, e que a morte do todo, não significa a morte de todas as partes. Aqui faço outra pausa para introduzir a questão da vida depois da morte, em que um elemento imaterial se poderá comportar segundo muitos como a parte mais resistente do todo em progressiva putrefacção. A ciência nesta matéria muito tem opinado. Ficará para mais tarde a recordação deste vital assunto.
De volta ao falecido líder palestiniano, o que provavelmente terá ocorrido foi um conflicto entre o senso comum, com a observação concreta de sinais de vida, e a verdade médica que ao presente momento assevera que a morte se declara quando todo o cérebro está morto. Uma coisa que fique clara: se está morto não faz qualquer sentido a referência à eutanasia ou ao homicídio, como chegou a sua mulher a protestar.
Se de facto não se encontrava morto, se estava inconsciente, sem reactividade ao meio ambiente, o coma foi o diagnóstico correcto. Normalmente estes casos evoluem para uma recuperação nos primeiras semanas ou então, a morte passa a ser o epílogo. Outras alterações do estado de consciência, como o estado vegetativo persistente, poderão suceder o estado de coma. Aqui, são frequentes os movimentos, pode haver maior estabilidade cardio-resperatória, manutenção dos padrões de sono e até choros ou gargalhadas ocasionais. Aqui, poderíamos entrar numa realidade que continua completamente ignorada, mas não o vamos fazer.

Yasser Arafat já não está em coma. Yasser Arafat morreu.

Publicado por RPA às 5:13 PM | Comentários (3)

novembro 6, 2004

Jerónimo e as dores menstruais

jerome.jpg Verso inicial da canção de abertura de Roque Santeiro, quem se lembra? Jerónimo é um herói anónimo. O da Dalmácia não: é santo e pilar da Patrística. Jerónimo foi homem sabedor de muitas línguas e artes clássicas mas acabou conselheiro de um papa de origem vimaranense (Dâmaso) e estudioso de textos um pouco mais "áridos", os da Bíblia. De tanto estudá-la Jerónimo escreveu a Vulgata, tradução oficial da Escritura para o latim. Enfim, para que vejam, falar de santos vem muito ad hoc agora, nestas terras onde vivo, que muitos já ousam chamar Jesuslândia. Tudo começou em 2002 quando se soube que W David Hager era a figura preferida de Bush a nomear para a comissão dita Reproductive HealthDrugs Advisory Committee da Food and Drug Administration (FDA). Nessa altura, um artigo da Time lançou a notícia e deu a conhecer ao mundo a figura deste indivíduo. Professor universitário "part-time", ginecologista, obstetra e sobretudo muito cristão, Hager foi com a esposa autor de dois livros que nesse ano tornaram-se "quentes": As Jesus Cared for Women: Restoring Women Then and Now e Stress and the Woman's Body. Neste último, Hager (e a esposa) aconselham a leitura da Bíblia como modo "integrado" de combate às dores menstruais (sério). Ora, se uma amiga minha toma 200mg de um analgésico para deixar de sentir as dores do período e eu preciso de 600mg do mesmo produto para combater uma dor de cabeça forte, como é que isto funciona com os hagger.gif Livros Sagrados? É por páginas ou por versículos? Espero que seja por versículos porque para ler 600 páginas de Bíblia prefiro a enxaqueca. É aqui que entra Jerónimo. Agora que vejo a sua iconografia com "outros olhos", não encontro realmente qualquer sinal de dores físicas, o que é muito intrigante conhecendo a biografia do santo. O mesmo artigo da Time invoca acusações de pacientes solteiras a quem Hager recusou a prescrição de receitas para a pílula. Aliás, por alguma "sacra" razão, este indivíduo aconselhou a abstenção sexual para quem não está casado e condenou a proposta de legislação para legalizar a day after pill. O tema da religião e medicina não é novo neste país (nem noutros, não é?). Mas aqui Bush literalmente reina. Embora o vendaval de polémica em torno da possível nomeação de Hager para a comissão da FDA tenha soprado do Céu e do Inferno, tal como na maioria das batalhas contra esta Administração, os "maus" perderam. Mas a nomeação de Hager há dois anos não só se consumou como, há pouco mais de dois meses voltou a acontecer. Mais, fala-se agora da promoção de Hager a presidente da mesma comissão. Que fazer? Aceitar que o médico tenha o direito (e até o dever) de deixar transparecer na sua prática o seu sistema religioso? Se sim, o que é que isso implica? Comprometer a capacidade de obter um conselho científico objectivo acerca da saúde da mulher (ou seja, de metade da população)? Um crucifixo na parede dos consultórios? O regresso ao sub-mundo medieval da recta ratio desenhada por quem nem sequer tem que parir?

Publicado por VB às 1:21 AM

novembro 5, 2004

O Nome da Mosca

morgan001p1.jpgDesde a origem, com Morgan, do estudo da genética da mosca do vinagre, os "Drosophilistas" são os investigadores mais originais a dar nome a genes. A originalidade vem do facto de se nomear cada gene de acordo com a expressão fenotípica de mutações em vez da função desse gene num determinado processo molecular. Entre outras vantagens, a identificação do locus com o fenótipo mutante permitiu, em 1913, aos "famosos" da sala de Fly Pushing da Universidade de Columbia, uma maior flexibilidade em racionalizar o mapeamento genético em função da frequência de recombinações entre dois loci. Ficaram assim "baptizados" os primeiros genes de Drosophila como speck, pois os adultos mutantes têm um ponto negro na base de cada asa ou white, por terem os mutantes olhos brancos em vez do vermelho característico do tipo nativo. Com o crescimento da comunidade de investigadores, a ideia do Name It as You See It foi ficando, para muitos, confusa e arbitrária. Ao aparecerem nomes como aurora ou hu li tai shao cuja função ou fenótipo não parecem óbvios à maioria dos que pela primeira vez ouvem falar deles, o puritasimo levantou-se contra a "alcunha". Este é contudo um argumento tacanho. Todos sabemos que há muito mais a aprender acerca do objecto no momento do primeiro contacto e, para quem já conhece, não há diferença entre chamar a um gene gurken ou TGF-alfa. A tradição na nomeclatura genética em Drosophila introduz um elemento transcendente na linguagem científica que, em paralelo com o discurso técnico, desafia o ouvinte a um conhecimento mais global. Assim, chamar a um gene Lot porque os mutantes têm uma apetência anormal para o cloreto de sódio, pode ter piada no contexto judaico-cristão, assim como baptizar um gene ken and barbie pode ser engraçado para quem venha a saber que estes mutantes não apresentam genitália exterior. Porém, noutros casos, os investigadores deixaram de se preocupar com a associação do nome ao fenótipo mutante, tornando ambígua a actividade de dar nome a genes. A desorganização está por vezes ao nível das fantasias num baile de máscaras. A Babel chegou à genética. Por exemplo: porque um gene codifica um repressor de always early, passa a chamar-se british rail. Outro exemplo: o gene ring chama-se assim porquê? Porque os autores não sabiam nada acerca dele embora continuassem a achar que se tratava de um (RING - Really Interesting New Gene). Deixo ao vosso juízo, ou diversão, uma página com nomes de genes de Drosophila, para que vejam que cientistas sem mais nada para fazer não se dedicam apenas a escrever blogues.

Publicado por VB às 1:29 AM

novembro 4, 2004

Conan, a mulher dele, o pai dela, o sogro dele, e os bárbaros anti-estaminais


fertilization.jpg A “Proposition 71” foi aprovada no Estado da Califórniaconan.jpg , o que permitirá o investimento de três mil milhões de dólares em investigação em células estaminais, durante o período de dez anos. Embora o Governador Schwarzenegger tenha apresentado o resultado do referendo como uma vitória pessoal, é preciso referir que não é responsável pela proposta, e que só no dia 18 de Outubro, quando sondagens indicavam uma vitória para o Sim, é que publicamente revelou o seu apoio.

Schwarzenegger: "It will save so many lives. It will help so many illnesses, including my father-in-law, who has Alzheimer's disease." E uma fortuna considerável, talvez? Embora Arnold não seja, de todo, um homem pobre, as campanhas nos EUA saem muito caras. Digo eu...

Pela positiva é preciso destacar um sistema democrático que permite o referendo popular sobre uma questão complexa e divisória como esta, e que desafia a orientação do Governo Federal. Convém não esquecer que em muitos pontos a imberbe e pouco transparente democracia Portuguesa têm muito a aprender com o confuso mas plural sistema democrático dos EUA. Se é comum se referir que nos Estados Unidos há falta de perspectiva histórica e cultural, ninguém (e muito menos Portugal) deveria levianamente esquecer a longa tradição democrática neste país.



Publicado por PP às 5:32 PM | Comentários (5)

novembro 3, 2004

CNECV

Quem conhece a estrutura dos Conselhos Nacionais de Ética europeus sabe que o CNECV português partilha as estruturas, as preocupações, as esperanças, o perfil dos membros que os compõem. Ou seja: o facto de ser um órgão independente e consultivo, que felizmente é, tem como “contrapartida” uma estrutura de apoio modesta, sem orçamento autónomo e sem “bioeticistas contratados”.
Uma das preocupações logo no início do III mandato (Setembro 2003) foi dotar o CNECV de uma estrutura mais transparente permitindo o acompanhamento do seu trabalho a todos os que por ele se interessam. Por isso site foi reorganizado. Claro que está longe de ser “o site”, mas vai tendo toda a informação sobre a “vida” do CNECV actualizada e, em breve, será melhor!
Como órgão consultivo o CNECV “depende” dos pareceres que lhe vão sendo solicitados e também dos que por sua iniciativa vai elaborando. No seu “primeiro ano de vida” foram concluídos quatro pareceres, o último dos quais, devido à sua complexidade, ocupou várias sessões plenárias.
Formalmente não foi solicitado ao CNECV nenhum parecer sobre a posição que Portugal deveria adoptar na 59™ Assembleia da ONU sobre clonagem, pese embora estivesse na competência do CNECV elaborar parecer sobre a matéria. E, não sendo os pareceres vinculativos, nada obrigava, de facto, a segui-lo. Também concordo que a discussão sobre a clonagem não é simples nem pode ser reduzida a um “pró e contra”. A sua defesa (ou a defesa da sua proibição) deverá obedecer, na minha opinião, a uma estratégia própria e a uma fundamentação coerente e não pode ser reduzida a uma “posição política” como tantas vezes algumas questões são reduzidas.
No percurso que o CNECV vai construindo na discussão da bioética em Portugal, e para que combatamos de vez esta tendência lúgubre de que “nada se discute em Portugal”, porque não participar no Seminário dos dias 26 e 27 de Novembro “Ciência e Ética ñ da célula ao embrião” organizado pelo CNECV? Vamos falar das várias perspectivas (científica, ética e jurídica) mas vamos dedicar também um painel às questões práticas com algumas pessoas que, “no terreno” podem partilhar a sua experiência. Com a discussão muito próxima dos projectos de lei sobre PMA e investigação em embriões este é, sem dúvida, um momento muito oportuno para o fazer.Paula Martinho da Silva, presidente do CNECV

Publicado por Conta Natura às 5:06 PM | Comentários (3)

novembro 2, 2004

CNECV de viva voz

Tendo em conta a natureza de algumas polémicas que estão a ter lugar no Conta e o facto de o CNECV - Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida- ter sido por nós mencionado algumas vezes, seria do interesse de todos ouvir algum representante deste Conselho de viva voz. Pois bem, graças aos esforços diplomáticos do nosso Santiago acabámos de receber uma mensagem do presidente do CNECV, a quem desde já agradecemos a atenção (o conteúdo será divulgado amanhã no horário de expediente, de acordo com o fuso horário de Nova Iorque). Não percam!

Publicado por Conta Natura às 9:06 PM | Comentários (1)

Montra Natura III

Rui1 copy.jpg(Figura mistério! Mais informação hoje ou talvez amanhã!)

Publicado por maradona às 6:21 PM

Biblioteca mínima: THINKING ABOUT SCIENCE Max Delbr¸ck and the Origins of Molecular Biology, por Ernst Peter Fischer e Carol Lipson

Le nez de Cléopâtre: s'il e˚t été plus court, toute la face de la terre aurait été changé
Blaise Pascal, Pensées

A Biologia Molecular nasceu em Novembro de 1943 com a publicação de um artigo* num número da revista Genetics (número esse que por sinal saíu já em 1944), assinado por Salvadore Luria e Max Delbr¸ck com o título : ëMutations of bacteria from virus sensitivity to virus resistanceí (Genetics.1943. vol:28, page:491).
Este artigo demonstra que a resistência (hereditária) de uma bactéria particular (Escherichia coli tipo B) a um vírus específico (alpha, hoje em dia chamado T1) é uma propriedade adquirida pela bactéria antes de contactar com o vírus. Dito de outra forma: o fenótipo hereditário não resulta da ´adaptaçãoª da bactéria pós-contacto com o vírus, mas sim de uma mutação genética prévia.
Essa demonstração revelou-se fundamental na história da Biologia. É a prova formal que a teoria da evolução das espécies proposta por Darwin é correcta no seu essencial (não me façam aqui entrar em polémicas, por favor), enquanto que Lamarck, e a hereditariedade dos caracteres adquiridos, ficaram definitivamente enterrados algures entre esse fim de 1943 e esse início de 1944. Nomeio por isso este artigo para o Concurso das Grandes Experiências Em Biologia*
Os argumentos, essencialmente matemáticos, apresentados são explicados numa linguagem que prima pela clareza e simplicidade. Tão legíveis, e claros, e simples, e irrebatíveis são eles que até os biólogos daquele tempo (notÚriamente incapazes de compreender argumentos matemáticos que exigissem conhecimentos para além das quatro operações elementares...) não tiveram dúvidas: é uma obra de génio!
Uma Opera Prima que, juntamente com a (justa) publicidade obtida pela divulgação do modelo propondo que mutações genéticas são afinal descontinuidades quânticas*, colocaram Max Delbr¸ck na posição de mais influente personagem da Ciência Biológica após o fim da guerra.
Max, Luria e ainda Al Hershey (um que há-de merecer um post só para si, contando como ele demonstrou que a tecnologia é fundamental para o progresso científico: usando o que de mais moderno havia na altura (um copo misturador) provou que o acido nucleico é o constituinte do fago responsável pela sua infecciosidade) foram galardoados com o prémio Nobel da Fisiologia e Medicina de 1969. Estes três criaram o Phage Group, recrutado de entre os participantes dos cursos que Delbr¸ck leccionou em Cold Spring Harbour durante 26 anos. Nesse grupo encontramos grande parte dos que, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e meados dos anos 60 do século passado, descobriram o segredo da vida (ler, a propósito, The Eight Day of Creation por Horace Freeland Judson).
Este livro conta a vida deste personagem singular. É o resultado de um projecto, iniciado como dissertação de Doutoramento por Carolyn Kopp, cujo objectivo era preservar a memória de Max Delbr¸ck. Em grande parte transcreve as suas próprias palavras e mostra bem como ele analisava, humildemente, as suas enormes contribuições para o espectacular progresso científico que o Século XX testemunhou.
Para além de uma nova disciplina devemos também a Max Delbr¸ck o Institut f¸r Genetik-Universit‰t zu Kˆln, onde ele trabalhou entre 1961 e 1963. Este Instituto relançou a investigação universitária na Alemanha do pós-guerra e foi o maior legado que este cientista de excepção deixou à sua terra natal. Funcionava, em moldes revolucionários para a época, tendo como Co-Directores todos os responsáveis dos diversos departamentos (os quais podiam ser, ou não, Professores Catedráticos da Universidade de Colónia). Revezavam-se no cargo de ëChairmaní da Direcção, estando assim impedidos de utilizar a posição de Director (que, na realidade, não existia) como veículo de auto-propaganda, ou como base para o exercício, tantas vezes mesquinho, de poder pessoal.
A propósito desta inovadora regra de gestão institucional escreveu Max Delbr¸ck, numa carta dos EUA para o Reitor da Universidade de Colónia:
ëI thought we had created a new type of Institute for Germany and Europe and hoped that would set an example. The main point for me was to set up a group of people within the university, that could compete with the best modern institutes in teaching molecular genetics and in the corresponding research. In addition to that I wanted to demonstrate ad oculos at a European university the polycephaly principle as it is known here. It is this principle and not the money that is the true secret weapon of the American universitiesí
Isto aplica-se tanto à triste Alemanha de 1964 como, passados os habituais 40 anos de atraso, ao pobre Portugal de hoje...

Publicado por Santiago às 1:28 PM | Comentários (1)

novembro 1, 2004

É o mercúrio, ó "cromo"!

Muitos pensavam (e talvez ainda pensem) que o problema da acumulação de metais pesados poluentes, em animais aquáticos comestíveis fosse mais uma fabricação alarmista dos "fanáticos do ambiente". A ausência do tema nos meios de comunicação social parece ser um sinal de tranquilidade para a maioria: longe da vista, longe do coração. Um pouco como o "caso do buraco no ozono", que embora conhecido desde 1974, só explodiu na consciência dos cidadãos 20 anos mais tarde. Mesmo os casos bem reais de efeitos teratogénicos resultantes do excesso de mercúrio na alimentação da mãe, foram sempre apresentados ao colectivo ocidental como casos "isolados", nos remotos mundos do Japão ou da Amazónia. kennedy_200x244.jpg Alguns sinais recentes sugerem porém que já ignorámos excessivamente este assunto. Não podemos continuar a fazer de conta que não existe porque agora somos nós as vítimas. Nos EUA, as mulheres passaram a ser advertidas pelos seus médicos para o perigo de mercúrio no peixe, entre 4 a 6 meses antes do início da gravidez. As instruções são detalhadas ao ponto de ajustar quantidades consumidas a factores como espécie, modo de preparação e frequência de consumo. Apesar da letargia de quem escreve e aprova leis e, sobretudo de quem poderia reverter uma boa parte das fontes de poluição, este país (assim como muitos outros, supõe-se) proibe por razões de saúde pública, a pesca e consumo de animais provenientes da maioria das massas de água doce existentes. Parece que, por outro lado, é daí que vem a maior parte da água que abastece as massas humanas. Parece que embora quem acumule o mercúrio sejam os peixes, estes devem ser comidos com moderação caso contrário os nossos filhos nascerão com lesões cerebrais. O Kenedy Júnior, Robert de seu nome, iniciou uma campanha pessoal de informação neste campo escrevendo um livro entitulado "Crimes Against Nature". Embora sendo um ataque directo à Administração Bush pela sua política ambiental o livro de Robert abriu um debate nacional sobre o tema. Não sei o que se passa em Portugal. O nosso atum não tem mercúrio? O Quim Barreiros poderá continuar a cantar a sua cantiga preferida? É bem caso para perguntar, como um índio do Quebeque falando da Madre Tereza de Calcutá: De que adianta darem-nos uma cana-de-pesca sempre que nos queixamos da fome?

Publicado por VB às 9:43 PM | Comentários (3)