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dezembro 27, 2004

Ciência poética

¡timo de pó
(Carlos Rennó-1997)

Entre a célula e o céu
O DNA e Deus
O quark e a Via Láctea
A bactéria e a galáxia

Entre agora e o eon
O ião e o ”rion
A lua e o magnetão
Entre a estrela e o electrão
Entre o glóbulo e o globo blue

Eu, um cosmos em mim só
Um átimo de pó
Assim: do yang ao yin

Eu e o nada, nada não
O vasto, vasto vão
Do espaço até ao spin

Do sem-fim além de mim
Ao sem-fim aquém de mim
Den'de mim

Publicado por VB às 5:08 PM | Comentários (7)

dezembro 21, 2004

FELIZ NATAL

5babbo_big.jpg
(Desenho de Roberto Mangosi)
Após esta Quadra Natalícia aqui no Conta Natura haverá uma crítica (muito soft) à proliferação de Laboratórios Associados. Eles medram agora como cogumelos num campo abandonado...
Entretanto Boas Festas para todos. A minha prenda de Natal é o artigo "The Tragedy of the Commons" de Garrett Hardin (Science (1968). 162:1243-1248).

Publicado por Santiago às 1:27 PM | Comentários (1)

dezembro 19, 2004

Antes de...

Gut.jpg

Células germinais (verde) prestes a iniciarem um processo de migração celular

Publicado por maradona às 2:49 PM | Comentários (2)

dezembro 11, 2004

Ilhas de ARN...

Publicado por maradona às 11:59 PM | Comentários (4)

dezembro 10, 2004

A falar com quem responde

Volto à carga. Escrevi na minha entrada A falar para as paredes? sobre o “modelo de deficit” para a comunicação de Ciência, Sir Walter Bodmer, e de como as coisas ultimamente estavam a mudar. A palavra de ordem dos dias de hoje é "diálogo". Se, em comunicação de Ciência, andamos a falar para as paredes, então temos que fazer com que essas mesmas paredes comecem a responder-nos.
Durante os anos que se seguiram ao “Bodmer report” os cientistas adoptaram, de uma maneira geral, um modelo de deficit na comunicação de Ciência ao público. Tal modelo ignorava de sobremaneira vários pontos que são hoje considerados fundamentais. Para começar, esquecia que há variados públicos diferentes e assumia a existência de uma só plateia, que se supunha (1) não saber nada de Ciência e (2) querer saber mais. Como ignorava a existência de vários públicos, ignorava o facto que públicos diversos não só possuem conhecimentos diferentes, como também se apercebem e lidam com os vários factos de modo inteiramente diferente. Em segundo lugar, ignorava que uma colecção de factos científicos não ajuda os cidadãos, na sua vida do dia-a-dia, a compreender temas actuais e controvérsias científicas. Por fim, ignorava e retirava a possibilidade desses públicos virem a ter uma opinião que pudesse também ser ouvida.
Todas as avaliações demonstraram que, apesar do aumento das actividades de comunicação de Ciência no Reino Unido nos anos que se seguiram ao “Bodmer report”, o nível da literacia científica não aumentou. Vários estudos vieram também pôr em causa que o simples aumento do conhecimento científico de uma população aumente a sua paixão pela Ciência ou a forma como lida com factos controversos. Face a estas observações, em 2000 um relatório proveniente da Casa dos Lordes do Reino Unido (House of Lords Select Committee on Science and Technology-Science and Society) propôs trocar o "modelo de deficit" por um novo modelo de comunicação que envolve os públicos na actividade científica e promove o diálogo entre eles e os cientistas. A comunidade científica tem não só o dever de comunicar a Ciência que faz no laboratório, mas também a obrigação de o fazer de modo a que os públicos a que se dirige tenham a oportunidade de expressar a sua opinião. As novas palavras-chave são o diálogo, a discussão e o debate acerca da Ciência e suas implicações para a Sociedade e para os indivíduos.
Este novo tipo de comunicação envolve actividades tais como conferências de consenso, debates com cientistas e, cada vez mais, o uso da internet para troca de opiniões entre cientistas e os variados públicos (aqui no Conta já o tentamos fazer!).
Se tudo isto é relativamente trivial e louvável, o grande desafio, mais delicado e controverso, é a participação do público nos processos de decisão. No passado mês de Outubro saiu um editorial na revista Nature entitulado Going public onde se discutia se o público deverá ou não ter uma participação mais activa nos processos de decisão política, ética e de financiamento científico. Caminhando em direccção ao diálogo, a comunidade científica terá indubitavelmente que analisar a questão da participação do público nos processos de decisão. Em Portugal, o caminho a percorrer ainda é longo.

Publicado por SJA às 3:37 PM

dezembro 9, 2004

Uma Excelente Notícia

Segundo o Diário de Notícias de hoje, o IPATIMUP vai receber apoio financeiro de 17 empresas, a título de Mecenato Científico. Entre estas empresas é de realçar a presença de alguns gigantes farmacêuticos, que assim gastam melhor alguns dos enormes lucros que realizam à custa do Serviço Nacional de Saúde. Esta é uma bela ideia e tanto o IPATIMUP como o seu Director, Manuel Sobrinho-Simões, merecem as nossas felicitações pela sua concretização.
Os montantes envolvidos não são muito elevados, é verdade. Suspeito que isto é porque a Industria Farmacêutica ainda acha que é melhor investimento pagar aos Snrs Drs Médicos as idas aqueles famosos (oh! e tão imprescindíveis...) congressos na Tailândia. É de saudar, no entanto, a iniciativa de financiar investigação de qualidade em centros de excelência nacionais porque pelo menos é um passo na direcção certa.
Bom seria que agora os Snrs Directores dos outros Laboratórios Associados fossem eles também à procura de financiamentos no sector privado. Se levantassem o rabinho da cadeira para trabalhar, talvez não os ouvissemos tantas vezes a choramingarem-se com o pouco dinheiro fácil que recebem do Orçamento de um Estado financeiramente exangue...

Publicado por Santiago às 10:28 AM | Comentários (4)

dezembro 7, 2004

Inovação ou sensacionalismo?

Decidi analisar o uso da palavra "novel" em títulos e abstracts de artigos científicos listados pela PubMed.
novel.jpg
O gráfico mostra que o uso da palavra "novel" tem aumentado todos os anos, de forma consistente, e em 2003, 4,5% dos artigos reportam algo "novel", enquanto que em 1990 apenas 1,1% o
faziam. A que se deve este crescimento? Será que de facto, a investigação que se faz em Biomedicina é cada vez mais inovadora, ou será que este aumento reflecte apenas a pressão cada vez mais maior a que os investigadores estão sujeitos para convencerem os seus "peers" da relevância do seu trabalho, e publicarem mais e em revistas com maior impacto?

Publicado por PP às 6:41 PM | Comentários (12)

dezembro 5, 2004

Human Accomplishment, the pursuit of excellence in the Arts and Sciences, 800 B.C. to 1950 de Charles Murray

7076413.jpgConto gastar algumas entradas a discutir este livro, o mais suculento que li em 2004. A obra e o autor despertam a atenção por vários motivos. Murray é provavelmente o sociólogo mais odiado dos EUA, em parte por ser co-autor do controverso The Bell Curve, livro que, de uma penada, procura provar que há uma base genética para as diferenças entre o QI de brancos e afro-americanos e avança soluções políticas entre o conservadorismo saudosista e o eugenismo light (para ser simpático com os autores; cedo ou tarde este livro será também aqui discutido). Murray voltou agora à carga contra os defensores do multiculturalismo, com a seguinte tese: a excelência na ciência e nas artes é um parâmetro objectivo, passível de quantificação. O seu livro é rico em informação, mas não estamos perante os recitais de erudição à Boorstin (a série Criadores, Descobridores, Pensadores) ou ao estilo do From Dawn To Decadence, de Barzun. O que Murray fez foi aplicar a sua tese, recorrendo a métodos estatísticos para uma meta-análise dos mais importantes inventários que listam cientistas, filósofos e artistas, bem como os momentos mais marcantes na epopeia do conhecimento humano. Tão ou mais interessante que o resultado final é a discussão que Murray faz sobre o método que usou, as suas limitações e todas as decisões que foi obrigado a tomar para que, de todo o conhecimento humano que aconteceu entre 800 A.C. e 1950, conseguisse retirar e hierarquizar o essencial. Estamos perante um material altamente combustível e convém avançar devagar. O que farei primeiro é descrever o essencial dos métodos de Murray (1 entrada), depois os resultados mais pertinentes na Biologia, na Medicina e em tudo o que diga respeito a Portugal (várias entradas), as conclusões e a discussão que Murray faz (1 entrada) e, por fim, a minha leitura deste trabalho (1 entrada). Por outras palavras, nas primeiras entradas serei totalmente acrítico e procurarei apenas respeitar a produção de Murray. Estimo que alguns leitores do Conta terão vontade de comentar os resultados que aqui aparecerão e espero que a discussão arranque, mas reservo todos os meus comentários para a última entrada e só depois participarei nas discussões entretanto iniciadas, se me parecer pertinente. O efeito sedutor de tipo Trivial Pursuit que estas listas sempre despertam é aqui perfeitamente secundário. É sobretudo o método de Murray, o seu alcance, limitações e falácias que importa discutir, bem como algumas das suas conclusões. Em jeito de provocação, importará discutir se é justa umas das conclusões que saltam à vista depois da leitura desta obra e que é esta: uma das duas únicas contribuições relevantes de Portugal e dos Portugueses para a ciência e a filosofia universais foi uma técnica cirúrgica hoje datadíssima; a outra é uma consequência acidental da política anti-semita que praticávamos no século XVI. Fica pois o aviso: o que aí vem é pouco aconselhável a patriotas fanáticos. Fica também outro aviso: vale a pena traduzir este livro, se ainda não foi feito.

Publicado por Conta Natura às 5:38 PM | Comentários (4)

dezembro 1, 2004

A falar para as paredes?

Neste início da minha participação no ContaNatura surge-me uma pergunta que considero importante: “Será que para além da comunidade científica, alguém mais lê o ContaNatura?”. A razão que nos leva a usar o nosso tempo para escrever umas coisas na internet é porque gostaríamos que alguém as lesse, caso contrário não faz sentido. No meu caso, e penso que no caso de todos os outros colaboradores do Conta, gostaría de ser lida não só pelos meus colegas, homens e mulheres de ciência, mas por mais gente. E não só gostaria de ser lida por outras gentes, mas também gostaria de saber o que pensam essas pessoas dos nossos artigos no Conta. Por isso temos comentários. Para que as opiniões possam ser expressas e também lidas.
walterbodmer.jpgHá cerca de 20 anos, foi publicado pela Royal Society do Reino Unido um documento da autoria de Sir Walter Bodmer com o nobre título de “The public understanding of Science” (mas que ficou conhecido para a posteridade apenas por “Bodmer Report”). Este relatório marcou o início da era moderna do movimento de divulgação e comunicação de Ciência no Reino Unido e criou o movimento de Public Understanding of Science (PUS) chegando mesmo à criação de uma comissão responsável pela coordenação geral e financiamento de projectos de comunicação de Ciência (Committee on the Public Understanding of Science, ou COPUS, o que pronunciado em português gera sempre uns risinhos abafados na audiência).
images 2.jpgMas o que disse Sir Bodmer no seu relatório? O ponto fulcral foi que a compreensão científica por parte do público é de extrema importância para o funcionamento democrático de uma nação moderna. Isto é, à medida que as sociedades desenvolvidas se tornam mais dependentes da Ciência e da Tecnologia, torna-se cada vez mais necessário que haja compreensão desta mesma Ciência e Tecnologia por parte dos cidadãos. Comunicar Ciência passou a ser então o dever de todos os cientistas e a popularização do conhecimento científico ficou legitimada.
O “Bodmer report” foi publicado em 1985 e desde aí as actividades de comunicação de Ciência no Reino Unido aumentaram de sobremaneira. O movimento PUS passou a estar deste modo completamente engrenado na estrutura científica do Reino Unido. O que se passou de seguida foi que a análise de todos estes anos de comunicação de Ciência não teve na realidade os resultados esperados. O impacto da Ciência na sociedade não atingiu ainda os valores tão esperados na década de 80. Em vários relatórios publicados depois dos 10 anos do aparecimento do COPUS, notou-se que, embora o interesse do público na actividade científica continuasse o mesmo, não houve aumento no conhecimento que este mesmo público possuía sobre a Ciência. Reparou-se que o modelo usado durante todos estes anos não era o mais correcto, que nós os cientistas e os vários comunicadores de Ciência se basearam demasiado num modelo de deficit em que se pensava que o público precisava de receber ensinamentos científicos e que o necessário era apenas uma dinâmica escolar, de professor (que ensina factos) a aluno (que os recebe e poderá digerir ou não consoante a sua motivação). Assumiu-se que o público possuía uma ignorância científica e que o necessário era estritamente o fornecimento dos factos. A ideia geral e o argumento mais vezes ouvido era que quanto mais o público ouvisse falar de Ciência mais entenderia e mais se apaixonaria.
Correntemente, o movimento está em fase de mudança e passámos do que se chama o “modelo de déficit” a um modelo mais interactivo, em que o público também terá uma palavra a dizer. Sobre esta nova fase voltarei mais tarde (noutro dia), porque já me alonguei demasiadoÖ Querendo acabar como comecei, gostava só de dizer que nós não estamos aqui para “mandar umas patacoadas” científicas para o nosso próprio prazer. Queremos ir mais longe e ouvir os vossos comentários (não só os nossos)!

Publicado por SJA às 5:15 PM | Comentários (18)