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janeiro 31, 2005

Cadernos de guerra

Hoje queria destacar um site que serviu para que um jornalista de ciência descrevesse na primeira pessoa o aparecimento e desenvolvimento de um cancro. É um testemunho impressionante de todas as fases possíveis. O desespero da descoberta do tumor (neste caso cerebral), a quimioterapia, a cirurgia, a esperança da cura e o fim esperado, mas que ninguém queria assumir. Infelizmente, hoje foi o último dia em que Ivan escreveu no seu blogue.
André Faustino, 29 de Janeiro de 2005

O André é o mais recente reforço do Conta, assume papel de homem infiltrado no Texas e faz hoje a sua estreia.

Publicado por Conta Natura às 5:32 PM | Comentários (3)

janeiro 30, 2005

Orientação sexual e genética (pontos prévios)

Homosexuality.jpgO Conta Natura está morto-vivo ou, se quisermos ser simpáticos, praticamente moribundo. A culpa é quase só minha, que assumo o papel de cheerleader (sem pompons nem pujança aeróbica, faço notar). As desculpas são sempre as mesmas e não serão distintas das dos outros membros do Conta, que têm menos culpa mas também não podem começar a assobiar para o lado. A minha ideia era ter uma equipa que assegurasse um ritmo de produção de entradas que cobrisse as fases de menor inspiração e disponibilidade de um dos elementos do grupo. Idealmente, este espaço não precisaria de mim para nada.
Feito o desabafo, em jeito de provocação pública, o melhor é aproveitar os níveis de adrenalina e iniciar uma discussão sobre a orientação sexual. O momento é sempre oportuno, pela natureza controversa do tema, e ainda mais agora, pela natureza perversa da campanha para as legislativas que decorre em Portugal. Anda por aí um discurso cobarde ou simplesmente infeliz, rico em insinuações e nas técnicas da mais reles propaganda. E, tomando como exemplo a recente campanha para a presidência dos EUA, desconfio que a procissão ainda vai no adro.
Estamos claramente a caminhar num terreno minado, como é disso prova, por exemplo, a recente discussão de desfecho lamentável que teve lugar no Blogue de esquerda. Impõe-se, por isso, fazer 3 esclarecimentos prévios. O primeiro é apenas uma chamada de atenção: não há linha editorial no Conta; cada um é apenas responsável pelo que assina. O segundo é este: tentarei nas entradas seguintes manter a discussão centrada na genética da orientação sexual. E o terceiro: não sou um especialista nestas matérias, apenas um curioso.
Parte do que vou escrever as próximas entradas baseia-se nas seguintes leituras, que ficam desde já à disposição de todos: Council for responsible genetics, The gay gene, Is there a gay gene?, Goodbye to the gay gene, Is homosexuality genetic?

Ao tocar neste tema é inevitável não acabar na controvérsia do dia: será que devemos permitir a adopção de crianças por casais homossexuais? As entradas seguintes não abordam esta questão directamente e, a iniciar tal discussão, proponho que o façamos apenas nesta janela de comentários. Adianto que tenho dúvidas nesta matéria, mas as minhas dúvidas devem pouco às observações que geralmente oiço, mesmo aquelas vindas de pessoas normalmente sensatas e tolerantes. O meu contributo, muito modesto e pouco informado, fica para já resumido nos seguintes pontos:

1. A orientação sexual tem uma base genética (envolvendo provavelmente muitos genes), que ainda não foi determinada.
2. Como para a generalidade dos comportamentos complexos, há também uma forte influência do meio.
3. Os grupos homossexuais, como os homofóbicos, têm pretendido condicionar o debate sobre as bases genéticas da homossexualidade, num sentido ou no outro, por motivações políticas, receio ou ódio.
4. A descoberta de genes envolvidos na determinação da orientação sexual não pode (por uma questão de bom senso) voltar a fazer com que a homossexualidade seja considerada uma doença. Noções elementares de genética e biologia de populações poderão ajudar a perceber que, a existirem, os "genes gay" não são "virulentos" (em todos os sentidos do termo).
5. O debate sobre as bases genéticas da homossexualidade toca apenas tangencialmente a questão da adopção de crianças por casais homossexuais.
6. Existe literatura científica demonstrando que as crianças educadas por casais homossexuais têm um desenvolvimento perfeitamente normal (indistinto do das crianças educadas por casais heterossexuais).
7. Argumentos contra a adopção de crianças por casais homossexuais que façam apelo ao que é e não é "natural"- recorrendo aos comportamentos no universo animal da National Geographic, por exemplo- não podem ser levados a sério.
8. O único argumento razoável - como ponto de partida para uma discussão- é, precisamente, a discriminação de que os homossexuais são alvo e o modo como isso pode comprometer os direitos de uma criança por eles adoptada. Há aqui uma ironia cruel: o único elemento que objectivamente pode prejudicar a criança adoptada é a discriminação social cuja eliminação defendo. Para desatar este nó seria importante que tivéssemos acesso a um vasto conjunto de elementos, que não domino (e que gostaria de ver mencionados, se a discussão arrancar): a) exemplos concretos de crianças que são educadas por casais homossexuais em Portugal; b) que "oferta" e que "procura" há em Portugal no que toca à adopção de crianças; c) que critérios são geralmente seguidos; d) qual a actual legislação e jurisprudência portuguesa para a atribuição da guarda dos filhos de pais separados em que um nos progenitores começou uma relação homossexual; e) que alterações houve (ou haverá) nos comportamentos (será qu os casais homossexuais começarão a preterir a adopção de órfãos em favor da adopção de crianças filhas de um dos elementos do casal e de um terceiro elemento?) Emitir uma opinião sem dominar esta informação é leviano, mas não queria esquivar-me. A minha opinião - que ainda não cristalizou- é esta: defendo que a adopção seja um processo altamente discriminatório. Os pais são seleccionados. A relação de parentesco, a estabilidade emocional, o bem-estar económico e muitos outros parâmetros de mensuração mais complexa entram em jogo, sobrepondo-se todos à orientação sexual. Muitos nunca serão pais adoptivos, mesmo que o desejem, por razões alheias à sua orientação sexual. A orientação sexual deve ser apenas mais um dos elementos a ter em linha de conta e nunca poderá ser condição suficiente para impedir a adopção (nem poderá vir a tornar-se no futuro condição suficiente para a assegurar). No processo de decisão devem ser levadas em consideração as dificuldades que um casal homossexual ainda encontra no dia a dia. Se o casal candidato tem condições (o conforto económico, a estabilidade emocional, o tipo de meio em que se movimenta, etc.) que compensem (ou atenuem) a discriminação de que a criança vai ser alvo, não vejo que lhe possa ser negado o direito de adopção. Sei que estou a sugerir um grau de exigência maior quando são avaliados os casais homossexuais e que, em absoluto, defendo práticas discriminatórias. Tendo em conta o nó cego que mencionei atrás e as características actuais da sociedade portuguesa, de momento não vejo outra solução.

Publicado por Conta Natura às 11:48 PM | Comentários (4)

janeiro 23, 2005

Portas abertas


Acidentalmente apagado, este post encontra-se em fase de restauro

Publicado por Conta Natura às 4:27 PM | Comentários (2)

janeiro 21, 2005

Destaque para um comentário


(repescado dos comentários ao post Inter-Cidades:
Antes de mais queria dar os parabéns aos "criadores" deste site... espero que fomente a interligação entre cientistas lusófonos...
Gostei da intervenção da Luísa pois acho que é essencial estabelecer o que é que se quer da Ciência feita em Portugal.
Queremos algo que nos dê reconhecimento internacional (e aqui acho que só lá vamos pela especialização numa ou duas àreas de investigação) ou que fique como está em que todos os professores universitários tem algum dinheiro para "brincar" aos cientistas (não quero ofender ninguém, mas eu considero que fazer investigação científica com 500 contos por ano é "brincar" aos cientistas)?
Para mim, a solução será algo intermédio, em que haverá duas ou três àreas (não mais do que isso) em que o investimento será muito forte e que permita concorrer a nível internacional (cerca de 70% do investimento), havendo outras àreas onde o investimento é forte (cerca de 20% do investimento), sendo que o resto dos 10% terá de ser distribuído por novos investigadores (independentemente da àrea) cujo projecto é suficientemente atractivo para merecer uma oportunidade para mostrarem se merecem ou não continuar a receber investimento. Na totalidade, menos de 30% dos docentes universitários iriam receber $$, mas qdo recebessem permitia realizar "investigação" a sério...
Claro que esta questão terá implicação nas carreiras docentes e não só, pois vamos ter os docentes universitários que fazem investigação e os que dão aulas (que eu acho que deveria ser a principal função de um docente universitário)...
Um abraço
André

Publicado por Santiago às 10:13 AM | Comentários (14)

janeiro 20, 2005

Montra Natura

marrocos.jpg
Volubilis, Marrocos

Publicado por Conta Natura às 8:40 PM | Comentários (1)

janeiro 13, 2005

Darwin 1: Evangelistas 0

Lembram-se da última investida dos criacionistas nos liceus da Geórgia? O caso foi a tribunal e o juiz acaba de decidir: é inconstitucional colar um aviso, nos livros de texto de biologia, que diz, entre outros subentendidos, ser a teoria da evolução apenas uma teoria. Na sentença proferida pelo juiz, podemos ler (a tradução é minha): "os termos em que a evolução é descrita como uma teoria comprometem o seu ensino, para benefício dos cidadãos que gostariam de manter entre os estudantes a versão da religião sobre a origem da vida" . Ganhou-se uma pequena batalha numa guerra que não tem fim à vista.

Publicado por Conta Natura às 5:34 PM | Comentários (15)

janeiro 10, 2005

Novo design

O Conta está neste momento a passar por uma discreta revolução estética. A altura é ideal para comentários sobre a funcionalidade das opções, problemas com browsers, etc.

Publicado por Conta Natura às 3:15 AM | Comentários (5)

A Vida, após 100 anos de física quânticaÖ

einst_la25.jpg A chegada de 2005, venho falar-vos de física. Para um blogue de biologia, eis as minhas desculpas: 1º, acima de biólogos somos cientistas; 2º, o objectivo é sugerir um livro que tenta fazer o elo entre biologia e física.
Parabéns, Mr. Einstein!
Celebra-se este ano o centenário das duas primeiras contibuições extraordinárias de Albert Einstein: a explicação do efeito fotoeléctrico; e a proposta da teoria da relatividade restrita (que antecedeu por uma década a sua teoria da relatividade geral).
A primeira estabeleceu que a luz pode ter uma natureza corpuscular (para além da ondulatória fundamentada pela física clássica), e está na base da produção de electricidade a partir de metais sensíveis à luz. Esta interpretação, associada à definição de “quanto” (parcela individual de energia) proposta por Max Planck em 1900, produziu a relação de Planck-Einstein, E=hν (E, energia; h, constante de Planck; ν , frequência da radiacao) e marcou o início da mecânica quântica.
A segunda introduziu o conceito de espaço-tempo, no qual o tempo não é absoluto mas depende do espaço, e estabeleceu a velocidade da luz como a velocidade máxima atingível por qualquer objecto. Forneceu-nos também a equação mais conhecida em Ciência, E=mc2. O maior problema desta teoria da relatividade restrita (muito exacta para objectos com velocidades próximas da da luz) consistia na sua incompatibilidade com as leis gravitacionais de Newton, tão precisas na descrição do comportamento de planetas (a velocidades muito inferiores a da luz). Einstein demorou 10 anos a encontrar a solução para este problema: a descoberta que o espaço-tempo nao é plano, mas curvo. A presença de um corpo com massa altera o espaço-tempo, de tal modo que os raios de luz que atravessam o corpo se ëdobramí. Estas considerações, substanciadas por um formalismo matemático notável, permitiram a Einstein prever com sucesso as órbitas dos planetas do sistema solar (até melhor do que Newton, para o caso de Mercúrio), dando corpo à teoria da relatividade geral.
Bruno Silva-Santos

Depois da Maya, é a vez do Bruno fazer a sua estreia no Conta. As nossas portas continuam abertas.


Adeus, determinismo. Olá, incerteza.
Em mecânica quântica, tudo é quantificável em parcelas individuais (“quanta”); não só a energia, mas também o calor (entalpia) e a desordem (entropia) que a compõem. Como consequência, o mundo não é contínuo (como se pensava em física clássica), mas descontínuo: apenas algumas quantidades são possíveis. E é um descontínuo incerto, pois quanto melhor se conhece a posição de uma partícula, menos se sabe acerca da sua velocidade - o famoso princípio da incerteza de Heisenberg (1926). Como tal, a mecânica quântica não prevê um resultado único e definitivo para uma observação, mas antes oferece um número de resultados descontínuos possíveis, e as suas relativas probabilidades de serem observados (isto é, medidos). Associada a uma concepçção pragmática da realidade (uma teoria é verdadeira se funciona), a mecânica quântica veio destruir o determinismo científico (proposto por Laplace no século XIX, inspirado pela obra de Newton) e a sua aspiração a um modelo de previsão exacta do futuro.
Além disso, a teoria quântica contém a espantosa dualidade onda-partícula, observada por Einstein para a luz (não só onda, mas também partícula) e por Dividson e Greimer (1923) para o electrão (não só partícula, mas também onda), e formalizada para qualquer partícula em movimento por Louis de Broglie (1924). O comportamento ondulatório de uma partícula só é observável quando esta é de pequenas dimensões e move-se num espaço da mesma ordem de grandeza do seu comprimento de onda. Este é o caso do electrão no átomo, pelo que a sua descrição necessita de uma função de onda, como a proposta por Erwin Schrˆdinger (para o átomo de hidrogénio) em 1926. Apesar de ser uma entidade puramente matemática, a função de onda foi interpretada por Max Born (1926) como correspondendo a uma função de densidade de probabilidade da posição do electrão no átomo.

A Vida, segundo Schrˆdinger
Com Schrˆdinger (Prémio Nobel da física em 1933) chego à minha sugestão de leitura: o seu livro “O que é a Vida?”, da Editorial Fragmentos (ou o original “What is Life?”). Trata-se de uma colecção de conferências dadas por Schrˆdinger no Trinity College de Dublin em 1943, sobre as perspectivas de um físico (brilhante) sobre a célula e o organismo vivo. Eis algumas das ideias interessantes avançadas por Schrˆdinger:
- Apesar da tendência para a desordem (entropia) da mobilidade térmica a 37∞C (lembre-se a segunda lei da termodinâmica: um sistema tende para o estado de entropia máxima), um gene, agregado de milhares de átomos, é extraordinariamente estável. Por exemplo, o gene responsável pelo “Habsburger Lippe” (deformação do lábio inferior da dinastia dos Habsburgos) foi conservado funcionalmente desde há mais de meio milénio.
- A estabilidade de um gene deve-se ao facto de ser uma (macro)molécula: parte de DNA, em que os átomos estão agregados em nucleótidos. E as moléculas são incrivelmente estáveis (algumas porventura inalteradas desde o início dos tempos).
- A estabilidade molecular só e explicada pela teoria quântica, aplicada a quimíca das ligacões atómicas por Heitler e London.
- “A vida parece ser um comportamento ordenado e regrado da matéria”. A matéria viva “alimenta-se de entropia negativa” para atingir o “equilíbrio através da ordem”. A morte é o estado de entropia máxima do organismo.
- A forma de como o organismo vivo se liberta da entropia que produz é a troca de matéria (envolvendo o exterior) que designamos por metabolismo.
- O desafio da física e biologia teóricas é a interpretação dos dois mecanismos possíveis para atingir o equilíbrio: o mecanismo estatístico, que cria ordem a partir da desordem (como observado no mundo inanimadp, estudado exaustivamente por físicos e químicos); e o mecanismo biológico, que cria ordem a partir de ordem.
O livro inclui ainda um segundo capítulo, “Espírito e Matéria”, em que Schrˆdinger (em 1956) abordou questões como a base física da consciência, ciência e religião, e o futuro da compreensão do mundo. Escrito para todos por uma mente brilhante, eis um livro indispensável*.

Para contrariar a hegemonia das mais famosas fotografias de Einstein - Einstein de bicicleta e Einstein com a língua de fora- eis uma fantástica colecção de fotografias do físico.

* O livro escolhido pelo Bruno havia já sido mencionado no Conta pelo Santiago, sob uma perspectiva diferente, embora igualmente elogiosa.
Bruno Silva-Santos

Publicado por Conta Natura às 1:35 AM | Comentários (2)

janeiro 7, 2005

Inter-Cidades

Graças à irrepreensível disponibilidade do Paulo Querido (webmaster), retomo a bloga. Há textos de colaboradores para publicar, algumas promessas por cumprir, ideias no ar. Começo com um relato feito por um dos participantes ao primeiro encontro conjunto de estudantes de doutoramento em biologia e medicina, que reuniu as escolas doutorais de Lisboa (PGDB), de Coimbra (CNC) e do Porto (GABBA). Teve lugar no Porto, entre 16 a 20 de Dezembro (2004).

A principal conclusão foi que os tempos estão a mudar, é preciso agarrar as oportunidades que estão a surgir em paletes com ambas as mãos e que quem precisa de emprego em Portugal basta querer obtê-lo. Força, camaradas, etc e tal. Isto, curiosamente, foi o discurso dos vários cientistas (e não só) portugueses convidados para o encontro, todos já com emprego permanente em instituições de ensino portuguesas. Adiante.
Temas quentes:
1. A concentração da investigação científica Portuguesa em determinadas áreas para aumentar a competitividade ñ sim ou não? A opinião de Matthias Hentze, da EMBL, e de Mary Ritter, do Imperial College foi de que deve-se permitir uma selecção natural em que áreas mais produtivas (em qualidade, claro) sejam mais beneficiadas. Não deve, no entanto, ser imposta uma ordem externa de prioridades. O presidente da FCT mencionou, no entanto, a criação de blocos de investigação e o abandono de pequenos grupos.
2. As universidades Portuguesas como "forças de bloqueio". A única informação concreta que se tirou foi a de que o estatuto da carreira docente já está há 20 anos para ser mudado e que o estatuto revisto que neste momento está em proposta à Assembleia já vai na 16™ versão.
3. A investigação clínica em Portugal.A FCT defende que o estatuto de investigador clínico é da competência do Ministério da Saúde. Pelo lado positivo, os médicos já podem fazer parte do internato num laboratório em vez do percurso normal. E já faz parte da avaliação de um hospital a quantidade e qualidade da investigação que se faz lá.
Ideias para o futuro:
1. O António Jacinto falou de uma associação para fomentar parcerias da ciência com a indústria, divulgar a ciência em Portugal junto de não cientistas e outros objectivos nobres. Já existe -chama-se ASSOCIA«√O VIVER A CI NCIA- e podem devem fazer-se sócios.
2. Os alunos do PGDB2 (programa de doutoramento do Instituto Gulbenkian de Ciência) estão a pensar em fazer encontros científicos temáticos totalmente organizados por estudantes de doutoramento portugueses. Há bolsas a que se podem candidatar e é preciso mais pessoas interessadas na organização da coisa. Contactar o Alexandre ou o Eduardo:
anevesA.R.R.O.B.Afhcrc.org
eduardoslexandreA.R.R.O.B.Ayahoo.com
3. E, para mim, o melhor de todosos projectos:a criação de um calendário estilo ëWomen¥s Instituteí de cientistas Portugueses.

Maya Mendiratta

Publicado por Conta Natura às 12:56 AM | Comentários (9)

janeiro 4, 2005

Jeff¥s view

claudio1.jpgDescobri recentemente as ëJeffís Viewí, uma série de comentários de Gottfried Schatz, que são regularmente publicados no FEBS Letters. Schatz esteve envolvido na descoberta do ADN mitocondrial e durante a sua carreira científica desenvolveu um trabalho pioneiro, contribuindo entre outros aspectos, para a compreensão da organização e biogénese destes organelos. Por volta de 2000 retirou-se da vida científica activa deixando o seu laboratório e a posição de Professor na Universidade de Basileia, passando a dedicar-se exclusivamente à tarefa de, como o próprio afirma (pdf), ëajudar a preparar terreno para a nova geração de investigadoresí. Os seus textos versam sobretudo áreas como a política de ciência (pdf), ou as perspectivas (pdf) para investigadores (ou ausência delasÖ), mas dois dos mais recentes ñ ëPostdocsí (pdf) e ëFive easy steps to get rid of your labí- abordam vários aspectos importantes sobre o que é ser orientador e orientado, num estilo coloquial, quase confidente, e sobretudo irónico. Se lerem estes textos, ficam a saber porque é que ëpostdocs are neither here nor thereí ou de que forma escolher um favorito num grupo de investigação contribui para acelerar a reforma científica do chefe. Para além disso, e para quem as quiser reter, fica uma boa mão cheia de recomendações e avisos à navegaçãoÖ CMG, 15 Dez 04

Aproveito para deixar aqui um pedido de desculpas, ao Cláudio, que ficou com o texto a marinar na minha caixa de correio durante o período das festas, e ao Vitor, cuja área tomei a liberdade de utilizar para publicar o texto do Cláudio, pois durante o período das festas varreu-se-me da memória a senha que dá acesso à minha área no Conta. Estes incidentes são sinais de uma decadência moral e física galopante, que conto combater em 2005. VMB

Publicado por VB às 1:55 PM

janeiro 3, 2005

Verdes são os campos...

Freedom in a commons brings ruin to all(Garrett Hardin: The Tragedy of the Commons)
al_St_Exupery14_Les_Moutons.jpg(moutons de Antoine de St.-Exupéry)
Hardin foi buscar o título do seu artigo a um texto publicado em 1833 por William Foster Lloyd. Nesse texto Lloyd alertava para o perigo que correria uma aldeia em que existisse um Campo de Pastoreio ('the commons') aonde todos os habitantes fossem livres de levar os seus rebanhos a pastar. O curso natural, se cada habitante tentasse maximizar o seu proveito individual, seria o aumento contínuo do número de ovelhas: o prejuízo que cada um suportaria por ter mais uma ovelha (em diminuição da quantidade de pasto disponível) era dividido por todos (porque o campo era propriedade comum), enquanto que o lucro seria só dele (porque as suas ovelhas não eram de mais ninguém).
O resultado final deste comportamento egoísta, se generalizado, é a exaustão eventual dos recursos e a morte à fome de todas as ovelhas.
(É interessante notar aqui que data do Séc XVI a primeira publicação fazendo referência a este tema:
Gados que pasceis/Com contentamento/ Vosso mantimento/ Não no entendereis. Ofereço esta quadra, como lema, à Comunidade Científica Portuguesa)
O panfleto de Lloyd foi usado como refutação à Mão Invisível de Adam Smith. O artigo de Hardin generalizou o argumento para concluir da necessidade imperiosa de limitar o aumento populacional no nosso Planeta. Esta problemática continua em acesa discussão, como sabemosÖ
Este post não é para discutir ciência económica, nem para me queixar de o Luis Vaz nunca ter sido citado por nenhum Grande Economista. É só para alertar para as consequências de distribuir recursos finitos (sejam eles ëervasí, sejam eles ëfinanças públicasí) por um número crescente de consumidores (sejam eles 'ovelhas', sejam eles 'laboratórios associadosí)Ö
Dantes havia 15 Laboratorios Associados, agora há 21, e anuncia-se que em Janeiro mais cogumelos como estes florirão(*) neste jardim à beira-mar plantado.
Meus amigos, o financiamento total aprovado para sustentar esta mushroom cloud é 238 MegaEuros, a distribuir por 10 anos. Dividam por 15: dá uma média de 15.86 MegaEuros por Lab. Dividam agora por 21, dividam depois por >21... etc etc etc, ad infinitum... Vai haver cada vez menos euros por Laboratório e por ano, não vai?
Ah! Resolva-se o problema aumentando os 238 MegaEuros originalmente orçamentados... Brilhante ideia esta! Há três maneiras de fazer isto sem obrigar esta Pátria nossa amada a violar o Pacto de Estabilidade e Crescimento e a perder os fundos europeus... (e então: TILT!!! GAME OVER!!! INSERT COIN!!!).
São elas:
1) cortar dinheiro noutras areas de C&T, por exemplo no financiamento de projectos: Até era boa ideia, por acaso... andar a financiar mais de 30% deles é mais do que absurdo: é coisa que só em Portugal...
2) cortar dinheiro noutros sectores do OGE, por exemplo as pensões, ou a prevenção rodoviária, ou os salários da função pública, ou os subsídio de desemprego ou a prevenção de fogos florestais, ouÖ: Digam lá onde querem cortar... e depois digam se acreditam mesmo que existe a mais mínima das condições políticas...
3) aumentar os impostos: esta não precisa de discussão, pois não?
Aqui fica por isso uma crítica (muito soft, conforme prometido) a estas medidas: é má ideia criar tantos Laboratórios Associados...
(*) Os cogumelos não dão flor, pois não? Bolas, lá estou eu outra vez a misturar as minhas metáforas.

Publicado por Santiago às 9:30 PM | Comentários (4)