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maio 31, 2005

O ministro da Saúde anunciou

O ministro da Saúde anunciou hoje que o preço dos maços de tabaco vai aumentar "pesadamente ao longo dos próximos quatro anos", na ordem dos 80 por cento. Correia de Campos revelou ainda que a próxima legislação sobre esta matéria deverá interditar a compra de tabaco a menores de 18 anos.

Publico, on line

Para ser honesto compreendo a razão desta decisão mas isto de usar o vício das pessoas para pagar a divida publica e' muito questionável.
Por outro lado as vantagens para a saúde pública são óbvias. Qual e' a vossa opinião?

Publicado por maradona às 3:23 PM | Comentários (4)

A Ana Franco é uma

A Ana Franco é uma estudante do Programa Gulbenkian e está a fazer o doutoramento em epidemiologia da malária na London School of Higiene e Tropical Medicine. No ano passado, ela fez uma apresentação do trabalho de campo dela na Tanzania e Etiópia. A viagem e relato dela sao fascinantes e ambos eu e o Vasco achámos logo que seriam-no também para os leitores do ContaNatura. Cá vão alguns extractos do relatório que ela me mandou.

2. Tanzânia (24 de Junho a 13 de Agosto 2004)


A minha viajem em direcção ao Sul continuou até chegar à Ifakara, na Região de Morogoro. Para chegar a esta região o trajecto de comboio atravessa uma reserva natural enorme, Selous Game Reserve. Infelizmente, a certa altura o comboio embateu numa girafa, obrigando os passageiros a esperar um bom bocado até que conseguiram remover o corpo da girafa dos carris.

Este post já está um pouco comprido. Portanto, a Etiópia fica para a próxima Terça-feira. A não ser que voçês não queiram, claro!

Relato e fotografias de Ana Franco, adaptados por Maya

Publicado por MM às 9:48 AM | Comentários (6)

maio 30, 2005

A Casa da Verdade

Muitos nem romantizam a Universidade pelo lado prosélito nem pelo elitista. São os que a imaginam como a real universitate (a universalidade do conhecimento) ou o corpo de pessoas que o quinhoam. Desta natureza a Universidade adquiriu ao longo da História uma certa autonomia das referências políticas ou religiosas dominantes nas várias estruturas sociais. Essa liberdade, percebida gradualmente como essencial, permitiu o estudo mais ou menos rigoroso do tal cosmos, um estudo dirigido à Unidade (como é da própria etimologia de Universo). Da partilha deste tesouro muito se escreveu. Fala-se dele como veículo para a popularização da Filosofia e como um centro onde se define a cultura, onde se diz o que ela representa, onde se escolhe a autoridade canónica, onde se discute a moral e a ideia da pertencia ou não-pertencia, e onde se debatem as hierarquias de valores. Tais aspectos têm pois que ver com o que sentimos ser a Verdade.
Por isso mesmo foi para mim tão chocante a presença de George W. Bush na cerimónia de graduação no Calvin College, uma Universidade da Igreja Reformada fundada no fim do séc. XIX, denominada cristã progressista e de tendência política maioritariamente republicana. Ver o presidente dos EUA a discursar para aquela Academia despertou protestos procedentes de vários quadrantes, desde os próprios alunos e professores até à grande comunidade cristã. A divisão surge principalmente da política desta Administração no que se refere às relações internacionais. No entanto, a imagem de Bush (que parece ter dito um dia: one of the great things about books is sometimes there are some fantastic pictures) vestido "à doutor" e exortando os estudantes a construir uma sociedade livre e com compaixão (e a formar o seu carácter individual nas instituições onde este se configura: ... a família, a fé e as organizações cívicas como ...os escuteiros e os Rotary Clubs locais) deixou-me perplexo.
Não é o discurso de Bush que me pasma (pois nestes últimos anos cresci em tolerância) mas a desfaçatez de quem dirige o Calvin College. Estar tão aquém da verdade e tão para lá do desprezo arrogante com que este presidente fustiga constantemente as comunidades académicas, é atitude digna de nota. Ainda no último número do jornal da Sociedade Americana de Genética (GSA) encontrei a notícia do modo como um corte orçamental para a Ciência no ano fiscal de 2006 (que representará por exemplo uma diminuição de mais de 500 projectos financiados por dinheiro público) é mascarado por um aumento do capital facultado a programas de Homeland Security e Defense.
BushatCalvin.jpg

Publicado por VB às 4:31 PM

maio 29, 2005

Cuide do seu Coração.

Na semana que hoje começa, termina o mês dedicado à saúde cardiovascular. Nunca será excessivo alertar para os riscos do sedentarismo, muito frequente nos ambientes dos laboratórios, do tabagismo e do alcoolismo (os cientistas não sabem o que isto é), e claro está, o monstro da obesidade, que já colocou Portugal num dos lugares cimeiros da liga europeia dos obesos. Para clarificar os espíritos, um terço das crianças portuguesas tem excesso de peso! Se nada for feito, as prevalências de factores de risco cardiovascular aumentarão seguramente, e com estas os enfartes do miocárdio e os acidentes vasculares cerebrais em que somos recordistas por motivos não totalmente conhecidos.
A propósito do coração, na passada quinta-feira o calendário português brindou o povo luso, que está a curar a embriaguez do fim-de-semana com a vitória do Benfica e a digerir o anúncio das medidas orçamentais restritivas para a eliminação do défice orçamental (parece que é desta que conseguimosÖ), brindou este povo alegre com um feriado! Se reflectirmos bem sobre o encadeamento da semana, talvez a sucessão de episódios não tenha sido ocasional, pelo menos no que toca à intersecção entre o calendário do campeonato nacional de futebol e o da actividade governativa. No que toca ao calendário litúrgico, dia 26 foi dia de descanço para o coração agitado dos portugueses, e este já estava há muito tempo definido como dia do Corpo de Deus.

Para recordar, esta é uma festividade que celebra o milagre eucarístico da tranformação do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo e que foi registado pela primeira vez no séc. VIII por Lanciano, apóq duvidar da autenticidade das espécies consagradas. Muitos outros se registaram noutros países, pelo que sei nenhum em Portugal, mas as relíquias de Lanciano são uma das mais importantes. A pedido do Vaticano estas relíquias foram estudadas por uma comissão independente, indicada pela OMS em 1973, que renovou a observação de um perito médico italiano uns anos antes: o tecido estudado é claramente tecido muscular cardíaco humano e o sangue é do grupo sanguíneo AB!
Como saberão, o sistema AB0 (a última “letra” lê-se zero) é um dos critérios ou parâmetros de classificação da composição do sangue de cada individuo, com vista à sua transplantação ou transfusão. Este “AB0” corresponde a uns resíduos de açucares que estão associados a proteínas presentes nas membranas dos glóbulos vermelhos (g.v.) ou das células endoteliais que recobrem todos os vasos sanguíneos e que foram identificados por um cientista vienense no princípio do século, ao descobrir as hemaglutininas.

BloodAntigens.jpg

As hemaglutininas são proteínas globulares do tipo dos anticorpos e que se ligam aos g.v. provocando a sua agregação e posterior hemólise! Com esta relação entre os anticorpos e os seus doces alvos, o Dr Karl Landsteiner identificou também o código das transfusões (mostrado na tabela e é bem mais simples que o código genético) que permite hoje em dia reestabelecer rápidamente os números de g.v. perdidos numa hemorragia ou recuperar os níveis de hemoglobina; permite em suma tratar as anemias!

TransfusionRule.jpg

O que é curioso observar é que um indivíduo que não tem as moléulas A ou B, ( e por isso se chama 0) apresenta em circulação anticorpos que reconhecem A e B. A origem destas hemaglutininas associa-se à nossa flora bacteriana intestinal, onde alguns espécimens apresentarão paredes celulares com uma estructura semelhante aos grupos sanguíneos humanos, com provável benefício conferido por toda a imitação de boa qualidade!
Na prática, se dermos sangue de A ou de B ou de AB a um indivíduo 0, ele poderá morrer em pouco minutos, com trombo-embolismos múltiplos ou em insuficiência renal aguda ou com um enfarte. Por outro lado, o AB poderá receber sangue ou derivados de qualquer pessoa A, B e 0, e por isso se chama receptor universal!
Claro está, que pessoas com o grupo 0 só poderão receber sangue do mesmo grupo sanguíneo mas poderão dar sangue a todos, e por isso são chamados- Dadores Universais (sem esquecer o grupo Rhesus que terá de estar ausente -Rh- - exactamente pelo mesmo motivo).
Já agora e como curiosidade; o tal sangue de tipo AB está presente em apenas 0,5-1% da população italiana onde é originária a relíquia, mas ronda os 15% na zona da actual Palestina!

Publicado por RPA às 8:27 PM | Comentários (5)

Talking machines

Generally, the tests show that people are less persuaded by female voices than by male ones, though people are more likely to be antagonised by a male voice. On the up-side, male-voiced machines are perceived to have energy and authority.
An example of this can be found in Japan, where a stockbroking company used a female voice on its machine to give information on stocks and shares but then a male one to make the actual sale.

[...]

In Germany men reacted against being given directions by a female voice

[...]

(BBC News)

Publicado por maradona às 4:19 PM

maio 28, 2005

Homeopatia

Após 15 anos de evangelização reconheço que a salvação do meu intelecto passa necessariamente por aceitar sem qualquer tipo de restrições ou impedimentos a importância da dúvida metódica.
A minha absoluta subserviência ao método indutivo faz com que eu negue de uma maneira veemente a validade da homeopatia. Homeopatia não faz qualquer tipo de sentido, a sua natureza cientificamente herege eí disfarçada por um conjunto de princípios e proposições gerais impossíveis de falsear. E no entanto, apesar de uma absoluta convicção na veracidade da minha posição, dúvidas ainda persistem.
Ao ser confrontado com cientistas que afirmam de uma maneira peremptória que homeopatia funciona fico confundido. Falo de pessoas inteligentes, algumas com carreiras científicas absolutamente invejáveis. Quando tento metodicamente atacar a suas convicções, recusam-se a explicar as razões da sua crença para alem do habitual argumento “Experimentei, e funcionou”. Tal capacidade de ter fé em algo obviamente ilógico confunde-me. Fico intelectualmente frustrado, o que me leva a pensar se eu não deveria ao menos aceitar a possibilidade de estar errado.

Publicado por maradona às 2:36 PM | Comentários (7)

maio 26, 2005

Ser o não selo

dedicate-stamps.jpgNo passado dia 6 foi lançada pelos serviços postais dos Estados Unidos (USPS) uma nova edição de selos estampados com a esfinge de quatro cientistas famosos: a geneticista Barbara McClintock, o matemático John von Neumann, o físico-matemático (os da USPS chamam-lhe "termodinamicista"!) Josiah Willard Gibbs e o físico Richard Feynman. A cerimónia de lançamento efectuou-se na Universidade de Texas em Dallas (Richardson), situada no coração da Telecom Corridor, e contou com a participação de Alan MacDiarmid e Russell Hulse. Parece que o grande capital começa a dar crédito de homenagem ao valor individual de cientistas já mortos. Oxalá comecem também os vivos a entrar nas listas mediáticas. Com o patrocínio das empresas grandes poderemos até ter esperança de um dia ver surgir um Club Med para biólogos (Club Bio?). "Congressos", ou seja, férias pagas no Caribe. Ai, ai...

Publicado por VB às 4:39 PM

maio 25, 2005

A poda cíclica

Untitled-1.jpg
“I have only begun the analysis of what remains to be discoveríd, hinting several things about it, and leaving the Hints to be examiníd and improvíd by the farther Experiments and Observations of such as are inquisitive.” Isaac Newton, 1704, Opticks.
Isaac Newton tinha já 62 anos quando incluiu esta frase na sua segunda obra maior, Opticks, um conjunto heterogéneo de análise matemática, cosmologia e metafísica, onde poucas questões ficam por abordar, desde a composição do arco-íris até ao calor e à putrefacção, passando pela refracção em cristais, electricidade, e pela teoria corpuscular da luz. Esta frase fez-me pensar em duas questões distintas, pelo menos inicialmente assim me parecia embora, afinal, talvez estejam relacionadas. A primeira questão é saber o que leva cientistas notáveis em todas as áreas a afirmar, com uma frequência regular, durante os últimos 300 anos, que pouco sobra para ser descoberto, que a moldura de paradigmas e leis está completa, que falta somente tratar de algumas pontas soltas. Alguns chegam até a raiar a provocação niilista ao afirmar que ramos inteiros da ciência se encontram moribundos, estimulando a visão da Ciência como uma árvore do conhecimento que precisa de ser sujeita a uma “poda cíclica”. Estarão as luminárias na onda certa, ou será o advento do discurso da “poda cíclica” sintoma do aproximar do fim de uma carreira brilhante, uma fuga ao reconhecimento que qualquer contribuição individual, por mais marcante e revolucionária que seja, se irá sempre diluir num futuro imprevisível de outras contribuições, quiçá também brilhantes e até rivais? Basicamente, a minha questão resume-se, na minha cabeça claro, a escolher entre as alternativas “poda cíclica” ou “posso cair, mas pelo menos caímos todos”. Para ser sincero, e usando esta subtil e elaborada metáfora botânica, parece-me que há ramos que secam de forma natural como há ramos mal enxertados que caem de forma dramática, novos ramos que despontam, e um tronco comum que é insubstituível e que conserva marcas de todos estes ramos.
Fiz agora uma pausa para reler esta ultima frase... Não sabia que era capaz de uma análise tão detalhada, admirável.Untitled-3.jpg
Talvez seja melhor se a segunda questão ficar para outra contribuição individual deste vosso criado, e se me permitem gostaria de ser um dos primeiros a nível individual, senão mesmo o primeiro, a afirmar que O Bloguismo Morreu e que são todos bem-vindos para cair comigo.

Publicado por PP às 2:21 PM | Comentários (1)

maio 24, 2005

Viagem pela Tanzania e Etiópia

A Ana Franco é uma estudante do Programa Gulbenkian e está a fazer o doutoramento em epidemiologia da malária na London School of Higiene e Tropical Medicine. No ano passado, ela fez uma apresentação do trabalho de campo dela na Tanzania e Etiópia. O relato da viagem é fascinante e eu (Maya) e o Vasco achámos logo que seria material para o Conta. Eis alguns extractos do relatório que ela me mandou.

Tanzânia (24 de Junho a 13 de Agosto 2004)

"A minha viajem em direcção ao Sul continuou até chegar à Ifakara, na Região de Morogoro. Para chegar a esta região o trajecto de comboio atravessa uma reserva natural enorme, Selous Game Reserve. Infelizmente, a certa altura o comboio embateu numa girafa, obrigando os passageiros a esperar um bom bocado até que conseguiram remover o corpo da girafa dos carris."

(Continua)

Publicado por Conta Natura às 9:49 PM

maio 23, 2005

A Recompensa

lehmann1.jpg Uma das mais prestigiadas associações de cientistas do nosso tempo, a National Academy of Sciences (NAS), define-se como society of scholars "dedicated to the furtherance of science and its use for the general welfare". Desde a sua fundação em 1863, a NAS emite pareceres acerca de aspectos importantes da actividade científica com grande impacto na cultura. Os mais recentes têm a ver com a Teoria da Evolução, Protecção do Ambiente e Células Estaminais. Entre os novos membros deste ano figura Ruth Lehmann, famosa bióloga do desenvolvimento, estudante de uma premiada com o Nobel, pos-doc de um espanhol ilustre e presentemente professora e investigadora na Universidade de Nova Yorque (NYU).
Distingue-se assim a inteligência de uma pessoa com grandes conhecimentos no domínio da Genética e reconhece-se também a igualdade dos géneros na Ciência, com um número record de mulheres eleitas este ano para a NAS. Não é trivial que uma organização controlada por homens desde a sua fundação se abra para esta realidade. A orgânica da NAS, todos o sabem, é de certo modo viciada. Trata-se de um sistema do tipo “entre e depois meta os seus amigos”, com grupos ou “escolas” crescendo e sucedendo-se. Esta abertura significa pois uma oportunidade para levar a toda a comunidade (e fazer crescer) o sentido da equivalência de oportunidades no mundo da investigação científica.
Porém, nem Ruth nem outras investigadoras da NYU, parecem acreditar na existência de sexismo na Ciência. Talvez este seja mais um efeito da tendência que eu tenho para ver problemas em tudo, mas sinceramente achava o contrário. As leitoras do Conta que me esclareçam, mas não é verdade que os “finalistas” de grande parte dos concursos para posições de Investigador Principal são maioritariamente homens? Não é certo que existe um desequilíbrio em números começando ao nível do fim do pos-doc, com mais mulheres que homens a abdicar da carreira? Não são as candidatas a chegar às fases mais avançadas dos concursos quase sempre solteiras e sem filhos? A própria Ruth confiou um dia ter decidido renunciar à maternidade em nome da carreira.
A Ciência é afinal um "oásis" onde as mulheres não são consideradas menos capazes nem estão sujeitas a uma pressão maior que os homens para o mesmo tipo de trabalho. Aqui elas nem são obrigadas a prescindir de mais elementos extra-curriculares para chegar ao mesmo estatuto nem sofrem a diferença média de salários entre homens e mulheres, visivel em tantos outros sectores laborais deste e de muitos outros países do “Ocidente desenvolvido”.
Para investigar os números reais seriam necessários tempo e recursos que não tenho. Mas olho para Ruth, uma pessoa absolutamente “enfocada” no seu trabalho, e fico sem saber se tanto “enfoque” é apenas paixão ou também um dos poucos meios ao dispôr de um cientista (mulher?) dos nossos dias para chegar onde ela chegou. Dizia Ruth num “lab meeting”: pelos dados de que dispomos agora creio que essa experiência é imprópria. Não duvido de que se tratava de um bom teste no passado, quando ainda não sabíamos tanto acerca desta proteína, mas agora a realidade mudou. A realidade mudou! Em vez de ser o humano a adaptar as suas estratégias de conhecer, através das colheradas de informação que vai retirando do objecto, parece que é afinal a realidade a girar à volta de quem conhece.
Não andarão os cientistas a necessitar de um Copérnico deontológico?

Publicado por VB às 4:25 PM

maio 22, 2005

Sacarrão

sac1.jpgJá tardava prestar aqui homenagem ao Prof. Germano Sacarrão, que marcou uma geração de biólogos, e representa um expoente maior na defesa do rigor dos conceitos e da Verdade em biologia. A sua obra “Biologia e Sociedade” é disto elevado exemplo e cuja leitura fortemente recomendo.


Outros textos de Germano Sacarrão disponíveis online encontram-se aqui.

Publicado por RPA às 3:18 AM

A besta mostra a sua raça!

Esta semana fui surpreendido com a notícia sobre a difusão de um questionário nas escolas primárias brasileiras onde perguntas relacionadas com a identificação e classificação de caracteres morfológicos pretendem estabelecer um regime de quotas para as diferentes “raças brasileiras” nos níveis mais altos da pirâmide escolar.
A problemática é arcaica mas tão actual que me deixa sempre aquele travo amargo, não só pelas responsabilidades da Ciência nestes temas, como também pela persistente ignorância daqueles que querem usar esses mesmos erros, passados ou outros mais contemporâneos, em seu benefício próprio. Aliás, tem ficado bem patente em toda a documentação sobre a II Guerra Mundial, que temos recordado com as comemorações dos 60 anos sobre a assinatura do armistício, o abuso e a distorção de algumas teses taxonómicas bem como da essência do Darwinismo, com vista a uma propaganda com resultados quantificados: 6 milhões de judeus mortos de um total de 50 milhões de vítimas.


Os primeiros esboços de actividade “científica” remontam às classificações de toda a natureza que se estabeleceram metodologicamente com Aristóteles. A taxonomia renascerá muito mais tarde com todo o vigor, muito impulsionado pelos descobrimentos portugueses e castelhanos. No entanto, a classificação dos seres vivos termina no conceito de espécie e variedade de espécie sem discriminar ainda a humanidade de forma sistemática. A divisão em categorias, abriu caminho à divisão em raças que se estabeleceu mais tarde com os grandes naturalistas do séc. XVIII como Lineu, Buffon, Blumenbach e Cuvier. Desde aí estala a perseguição que o domínio colonial do séc. XIX veio alimentar.

A palavra “raça” foi introduzida no séc. XVI no léxico francês com origem aparente no italiano razza (qualidade, modo de ser) que por sua vez deriva de ratio “razão”, “ordem das coisas”. A antiguidade da disponibilidade da palavra no vocabulário contrasta com a modernidade da introdução de uma outra- racismo- que só é identificada no Dicionário Larousse a partir de 1932. Claro que o racismo será mais antigo, havendo alguns registos que apontam para a antiguidade, mas mas os movimentos doutrinários racistas só adquirem real significado e impacto social na Europa durante o séc. XX.

De facto, as primeiras classificações taxonómicas da espécie Homo sapiens já estabeleciam uma relação de superiodade/ inferioridade apontando sobretudo para as características morfológicas e fazendo uso de um vocabulário bastante depreciativo (branco, preto, amarelo, vermelho). Hoje, sabemos que estas diferenças não espelham as diferenças populacionais quando observadas de forma apropriada e sistemática.

Quando queremos observar hoje a diversidade genética de uma população usamos marcadores como os grupos sanguíneos (AB0, Rh), os antigénios de histocompatibilidade ou ainda, marcadores de proteínas mitocondriais herdadas exclusivamente das mães, ou à distribuição de proteínas codificadas no cromossoma Y, herdado exclusivamente do pai. Por outro lado, o projecto genoma humano veio de facto garantir que os seres humanos são todos 99,9% idênticos e que as diferenças que referi se enquadram todas nessa pequena casa decimal! Mas o importante ainda é a questão das populações nacionais. Hoje, sabemos que um “African-american” é genéticamente mais próximo da restante população americana do que de qualquer população africana de onde originaram os seus antepassados; de facto as nações são a verdadeira sede da diferença genética e não a nossa classificação racial, apenas baseada em meia-dúzia de caractéres superficiais: pele, faneras e olhos!

O que se tem detectado são raças geográficas! Ainda recentemente uma publicação na área, dava conta da proximidade genética da população portuguesa (com base na distribuição de um marcador usado na tipagem dos transplantes) com a população berbere do norte de ¡frica em comparação com a restante população europeia! Outros relatos com base no sistema sanguíneo Rhesus (factor Rh do sangue) aproxima mais os europeus dos africanos do que dos indo-asiáticos, apesar das aproximações e afastamentos forçados baseados apenas na cor da pele!

Este conceito muito mais recente e que se baseia em extensas análises de variados marcadores fenotípicos, destroi totalmente o conceito de raça. No entanto, será ainda necessário muito tempo para o fazer desaparecer. Não deixará de ser significativo que a aparente acalmia dos movimentos racistas tenha dado lugar a perseguições religiosas violentas. Mas em todo o caso, seja a Ciência, seja a Religião, o exercício do Poder tem um pragmatismo tal, que a Verdade perde a sua importância e o seu lugar.

A discriminação e a intolerância continuam a ser qualidades que aproximam o Homo sapiens da raça animal e que continuam a diminuir a grandeza impressa, por milhões de anos de evolução, à substância cortical cinzenta. Marcar as crianças que fazem o seu processo de integração social, de tolerância e de solidariedade com um questionário que lhes recorda as suas diferenças e que as projecta nas suas origens pré-hominídeas, não serve nenhum objectivo pedagógico, administrativo ou de justiça social! Serve apenas para desenterrar a besta humanaÖ

Publicado por RPA às 3:14 AM

maio 20, 2005

Conta Natura, novo fôlego

O Conta é o exemplo típico daquilo que inquina projectos colectivos não remunerados: a diluição de responsabilidades. Durante meses estivemos moribundos. Neste regresso, com vista a evitar o título de morto-vivo, optámos por alterar a orgânica do blogue. Cada um dos editores passará a ser responsável pela animação de um dos dias da semana. O Vitor, o nosso revolucionário em stand by, toma de assalto a Segunda-feira. A Maya Mendiratta, uma estreia na equipa, conjugará à Terça-feira o doutoramento em genética humana que faz em Londres com a escrita no Conta. O Paulo Pereira e eu vamos alternar à Quarta-feira, não querendo com isto dizer que iremos juntos a bares mal afamados. ¿ Quinta teremos a prosa da Sofia, directamente de Barcelona. ¿ Sexta quem não gosta dos textos do Rui Martinho deve evitar o Conta. O agnóstico Santiago assegurará o Sábado e o católico progressista que é o Ricardo brilhará ao Domingo. Com isto o Conta será um blogue para todos os dias do ano. É claro que este esquema assegura apenas o nível basal de actividade (um post diário), mas todos os editores, colaboradores regulares e esporádicos são livres de enviar os seus textos a qualquer hora de qualquer dia.

Publicado por Conta Natura às 4:17 PM | Comentários (6)

maio 17, 2005

Sand dollar embryo

sanddollar2.jpgSingle confocal section through four cells of an eight-cell sand dollar embryo fixed and stained with anti-tubulin (Microtubule, green) and phalloidin (F-actin-red). Vegetal cells are dividing asymmetrically to make micromeres and macromeres (George von Dassow)

Publicado por VB às 6:51 PM | Comentários (1)

maio 16, 2005

Chuva de Estrelas

mars.jpgNo passado dia cinco de Janeiro cumpriu-se o primeiro aniversário da chegada da sonda-robot Spirit a Marte. Juntamente com o outro "astromóvel" Opportunity, também movido a plutónio, Spirit pretende fulfill the Vision for Space Exploration. O interesse das mais poderosas nações da Terra na corrida para Marte (através da recolha de dados cartográficos com as sondas Viking e Phobos, com a primeira estação espacial marciana Pathfinder/Carl Sagan e com o satélite Global Surveyor na órbita de Marte desde 1999), "gravita" em torno da romântica e utópica ideia da “presença humana no espaço”. Em nome desta "paixão", Bush viabilizou mais três mil milhões de dólares públicos para um projecto conjunto da NASA, do Departamento de Estado da Energia e do Departamento de Energia Nuclear da Universidade da Flórida, chamado Prometheus. Apesar do nome, este projecto não visa o fogo mas o nuclear. Mais especificamente, e de acordo com a nova febre da Administração estado-unidense por esta fonte de energia, a concepção e desenvolvimento de uma nave com motor de propulsão atómica. A pricipal dificuldade de financiamento das aventuras espaciais tanto da NASA como da ESA tem a ver com a coadunação da massa dos futuros foguetes e a duração da viagem. A chegada de Sean O'Keefe à direcção da NASA, foi outro sinal de que o "Renewed Spirit of Discovery” é tema e política levados muito a sério pela presente Administração que requeriu para ele 16244 milhões de dólares ao Senado para o orçamento de 2005. Antigo Secretário de Estado para a Marinha no governo de Bush I, OíKeefe foi também colaborador de Richard Cheney no Pentágono e é, segundo um coordenador da Global Network Against Weapons and Nuclear Power in Space, um “ardente defensor da propulsão nuclear”. A honestidade de OíKeefe não deixa espaço para dúvidas: uma motivação principal para a corrida ao espaço é de ordem securitária e económica. As suas declarações públicas sempre realçaram o entusiasmo pelo projecto Prometheus e a intenção de usar futuras missões da NASA para testar tecnologias civis e militares. Neste contexto, um elemento chave é o estabelecimento final da Estação Espacial Inernacional ISS que não só serviria como plataforma the lançamento de novas missões como também asseguraria um controle superior do espaço aéreo do nosso planeta.
A corrida ao espaço e o desenvolvimento tecnológico a ela associado parecem assim recobertos de uma certa "maquiagem", de poeira cósmica para os olhos do terráqueo comum. A busca de um manancial inesgotável de energia, cujo controle assegura o poder "supremo", está decorada com a pomada da "descoberta", do "conhecimento" e do "espírito (palavra perigosamente comum neste campo da propaganda científica) empreendedor". Mas pouco pode o pó-de-arroz contra as alusões de OíKeefe diante do senado: The Administration is also prepared to address issues associated with obtaining foreign transportation services to the Space Station, including provisions of the Iran Nonproliferation Act, but, until the ISS Partnership adopts a specific implementation strategy, it is premature to identify specific issues. Aliás é mais fácil, desconfiar da intenção de uma frase do tipo: Building on NASA's long history and extensive and close ties with the space and research agencies of other nations, we will actively seek international partners in executing future exploration activities "that support U.S. goals" or "wherever appropriate", do que encontrar na Net quem explique quais são os ditos “U.S goals”. EUA, UK, Rússia e China, todos na corrida ao espaço, recusaram a ratificação do Tratado da Lua, o qual aplica a distribução equitativa dos recursos naturais deste satélite, no âmbito do Direito Internacional. Será a luta pelo ouro dos asteróides e o Magnésio, Cobalto e Urânio de Marte um "appropriate goal"? Citando John S. Lewis, co-director de um centro de investigação ligado à NASA e autor do livro Mining de Sky: Untold Riches from the Asteroids, Comets and Planets: (...) parece impensável que um país decida consagrar importantes créditos à exploração espacial por simples amor à Ciência. Talvez tenha sido esse "outro amor" a motivar a famosa Halliburton a colaborar com a NASA para o desenvolvimento de novas tecnologias de prospecção adaptadas ao solo marciano.
Apesar da nota na nova proposta de orçamento indicando o abandono da Space Launch Initiative e a própria demissão de OíKeefe no fim de Janeiro, só o futuro dirá o que levarão essas naves na bagageira. Por agoram abraracourcix.gif levam apenas o meu medo de que os acidentes do satélite militar americano em 1964 e da missão russa em 1996 (ambos com propulsores nucleares) nem se repitam nem cresçam de proporção. É certo que o progresso exige o desenvolvimento de tecnologias, mas porquê fazê-lo no sentido, por exemplo, de criar uma atmosfera respirável em Marte? Não seria mais facil e barato ressuscitar o Sahel? Ou talvez eu seja achacado aos sindromas do meu tetravô do Restelo. Em qualquer dos casos, não é agradável a preocupação adicional de que me caia agora o céu na cabeça.

Publicado por VB às 11:23 PM

maio 13, 2005

"Vou andar por aí"

Ainda pensei no "até amanhã, camaradas" (que teria deixado o Vitor Barbosa deliciado), mas acabei por ceder às modas. "Vou andar por aí", mas não aqui. Não tenho tido tempo para escrever no Conta como gostaria e é pouco provável que isso venha a acontecer nos tempos mais próximos. Creio que o melhor é sair. Este projecto não se desenvolveu exactamente como tinha pensado, mas é possível que a página continue, com os restantes membros da equipa e com novos editores. Bom trabalho e boa sorte aos que ficam e aos que agora começam.

Publicado por Conta Natura às 4:42 PM

Edgar R. Gomes

O Conta Natura não pode, nem deve, ficar indiferente a determinados artigos...


Nuclear Movement Regulated by Cdc42, MRCK, Myosin, and Actin Flow Establishes MTOC Polarization in Migrating Cells

Edgar R. Gomes, Shantanu Jani1 and Gregg G. Gundersen

1Department of Anatomy and Cell Biology, Columbia University, New York, New York 10032
2Department of Pathology, Columbia University, New York, New York 10032

Summary

"The microtubule-organizing center (MTOC) is reoriented between the nucleus and the leading edge in many migrating cells and contributes to directional migration. Models suggest that the MTOC is moved to its position during reorientation. By direct imaging of wound-edge fibroblasts after triggering MTOC reorientation with soluble factors, we found instead that the nucleus moved away from the leading edge to reorient the MTOC, while the MTOC remained stationary. Rearward nuclear movement was coupled with actin retrograde flow and was regulated by a pathway involving Cdc42, MRCK, myosin, and actin. Nuclear movement was unaffected by the inhibition of dynein, Par6, or PKCζ, yet these components were essential for MTOC reorientation, as they maintained the MTOC at the cell centroid. These results show that nuclear repositioning is an initial polarizing event in migrating cells and that the positions of the nucleus and the MTOC are established by separate regulatory pathways."

Cell, Volume 121, Issue 3, 6 May 2005, Pages 451-463

Publicado por maradona às 1:20 AM

maio 12, 2005

Acupuncture

Acupuncture for Patients With Migraine - A Randomized Controlled Trial

JAMA. 2005;293:2118-2125.

ABSTRACT

Context: Acupuncture is widely used to prevent migraine attacks, but the available evidence of its benefit is scarce.

Objective: To investigate the effectiveness of acupuncture compared with sham acupuncture and with no acupuncture in patients with migraine.

Design, Setting, and Patients: Three-group, randomized, controlled trial (April 2002-January 2003) involving 302 patients (88% women), mean (SD) age of 43 (11) years, with migraine headaches, based on International Headache Society criteria. Patients were treated at 18 outpatient centers in Germany.

Interventions Acupuncture, sham acupuncture, or waiting list control. Acupuncture and sham acupuncture were administered by specialized physicians and consisted of 12 sessions per patient over 8 weeks. Patients completed headache diaries from 4 weeks before to 12 weeks after randomization and from week 21 to 24 after randomization.

Main Outcome Measures Difference in headache days of moderate or severe intensity between the 4 weeks before and weeks 9 to 12 after randomization.

Results: [...]. The proportion of responders (reduction in headache days by at least 50%) was 51% in the acupuncture group, 53% in the sham acupuncture group, and 15% in the waiting list group.

Conclusion: Acupuncture was no more effective than sham acupuncture in reducing migraine headaches although both interventions were more effective than a waiting list control.

Publicado por maradona às 5:10 AM | Comentários (1)

maio 10, 2005

From wolfs to foxes...

"Dogs have an unusual ability for reading human communicative gestures (e.g., pointing) in comparison to either nonhuman primates (including chimpanzees) or wolves. Although this unusual communicative ability seems to have evolved during domestication, it is unclear whether this evolution occurred as a result of direct selection for this ability, as previously hypothesized, or as a correlated by-product of selection against fear and aggression toward humans óas is the case with a number of morphological and physiological changes associated with domestication. We show here that fox kits from an experimental population selectively bred over 45 years to approach humans fearlessly and nonaggressively (i.e., experimentally domesticated) are not only as skillful as dog puppies in using human gestures but are also more skilled than fox kits from a second, control population not bred for tame behavior (critically, neither population of foxes was ever bred or tested for their ability to use human gestures). These results suggest that sociocognitive evolution has occurred in the experimental foxes, and possibly domestic dogs, as a correlated by-product of selection on systems mediating fear and aggression, and it is likely the observed social cognitive evolution did not require direct selection for improved social cognitive ability.

(Current Biology, Vol 15, 226-230, 8 February 2005)

Publicado por maradona às 1:53 AM