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junho 30, 2005
Método científico

Nota: Esquimales=Esquimós
Publicado por SJA às 5:01 PM
junho 29, 2005
Darwin para leigos: chega de criacionismo
Referências aos criacionistas americanos têm sido frequentes no Conta. Geralmente adoptamos um tom jocoso, quando não perplexo, dando talvez a ideia errada de que as teorias de Darwin só são criticadas por um bando de religiosos ortodoxos. Parte desta confusão resulta justamente da estratégia desse grupo de fanáticos, gente intelectualmente desonesta ou de raciocínio tolhido, que instrumentaliza as críticas às teorias de Darwin em proveito próprio. O resultado final é que quase todas as últimas discussões para leigos das ideias de Darwin surgem no contexto da luta contra os criacionistas. Infelizmente, discutir com criacionistas é ir da razão ao desespero. Trata-se de um debate sobretudo emotivo, pesando pouco os argumentos. Afinal o que se poderia esperar do confronto entre o evidente e o transcendente?
Há uma outra esfera de discussão pública das ideias de Darwin, que importa trazer para aqui e inclui, entre outros tópicos: 1) a crítica epistemológica à impossibilidade de testar a teoria evolutiva de Darwin (o critério de Popper da "falsificabilidade"); 2) o confronto entre darwinistas ortodoxos e evolucionistas mais críticos das ideias de Darwin (da noção de gradualismo, por exemplo); 3) o impacto das interpretações da teoria evolutiva na forma de pensar (a sociobiologia) e agir (o eugenismo, as políticas educativas e formas subtis de elitismo genético) sobre a sociedade.
Sem muito mais tempo para desenvolver estes tópicos, optei por oferecer aos leitores do Conta uma colecção de entrevistas e debates (em ficheiro MP3) sobre alguns destes temas. Considero estas entrevistas exemplares a vários títulos, nomeadamente para se ter uma ideia de como a direita americana culta e académica discute estes problemas. O material está editado, pelo que a riqueza de informação e a clareza com que os temas são expostos são excepcionais. Espero que gostem.
Darwin under the microscope
Monkey Business
In whose image? Evolution and spirituality
Darwin¥s Ghost: sociobiology and human behavior
Disharmony of the spheres
It¥s the biology, stupid.
Como complemento, deixo uma sugestão de leitura:Did Darwin get it right?, de John Maynard Smith, um conjunto de ensaios sobre evolução muito acessíveis e pertinentes.
Publicado por Conta Natura às 5:49 AM | Comentários (7)
junho 28, 2005
Viagem à Etiópia
Finalmente a segunda parte do relato da Ana Franco! E como prometido, cá vai o contexto:
Neste momento há várias linhas de investigação científica para tentar reduzir a taxa de infecção com malaria, ou de mortalidade devido a esta doença. Como referido num post anterior, a malaria é uma das maiores causas de morte no mundo, afectando todas as faixas etárias. Continua-se a tentar desenvolver uma vacina. Estão-se a desenvolver várias abordagens para eliminar os mosquitos, torná-los estéreis ou afastá-los das pessoas. Caso alguma destas investigações tenha sucesso, para aplicá-la a nível global serão necessaries muitos recursos. Uma maneira de tornar qualquer solução mais eficiente, e outra abordagem para tentar conter a doença, é a investigação sobre os padrões de parasitismo dos seres humanos por parte do mosquito, que transmite o parasita que causa a malaria. Ou seja, a epidemiologia da interacção mosquito-hospedeiro.
É neste ultimo aspecto que a Ana Franco está a fazer o doutoramento. Combina o desnvolvimento de modelos matemáticos em Londres com visitas de campo a locais onde a malária é endémica para obter os dados necessários para validar ou ajustar os modelos.
2. Etiópia (24 Agosto- 30 Setembro e 22 Novembro a 15 Dezembro 2004)
Após a Tanzania, segui para a Etiópia. Neste país, 7 vezes maior do que Portugal, a malária é reconhecida como principal causa de morte e morbilidade.
Ao contrario da Tanzânia, na Etiópia consegui autorização imediata das autoridades regionais de saúde (Ethiopian Southern Region Health Office) para conduzir um estudo. A única condição foi que tal fosse não-invasivo; i.e. eu não poderia recolher amostras humanas ou animais, incluindo mosquitos. Obter autorização para tal recolha implicaria um período de espera de 1 mês. Devido à sazonalidade da transmissão da malária, essa espera iria condicionar a fazibilidade do estudo naquela época de transmissão, pelo que enveredei pela opção não-invasiva.
Após viajar ~600 Km para sul da capital, atravessando vales, montes e lagos esplendorosos, e após ser “perseguida” por babuínos esfomeados, cheguei ao local escolhido para trabalho de campo: Konso Special Wereda.

O estudo que conduzi tem como objectivo investigar a associação entre diferentes praticas de maneio de gado/pequenos ruminantes e o risco de contrair malaria.Tendo em conta que teria de ser não-invasivo, optei por um estudo epidemiológico designado casocontrole.
Os casos de malária de 9 kebeles (kebele = aglomerado de vilas) confirmados em
laboratório foram identificados dos registos do “centro de saúde” local. A habitação dos respective doentes foi localizada, e um compreensivo questionário foi aí conduzido, assim como numa habitação vizinha controle. Os controles eram indivíduos que não tinham apresentado febre durante o mês anterior ao diagnostico do respectivo caso, sendo do mesmo grupo etário. Uma série de potenciais factores de risco foram analisados, incluindo: demografia da população humana e animal, práticas de maneio do gado/pequenos ruminantes, construção das casas, e ecologia do ambiente em redor. O preenchimento dos questionários envolveu um misto de perguntas, observações e medições de distancias com fita métrica e com um aparelho de posicionamento
geográfico (GPS ñ Geographic Positioning System).
Trabalhar num país tão diferente como este, envolveu vários desafios. De entre os principais problemas que dificultaram os estudo, saliento:
1) Língua: a língua inglesa é falada apenas por uma pequena minoria do povo Etíope. Para além disso, ao contrário da língua oficial do Pais, Amharico, o dialecto do local do estudo, Konsigna, não é uma língua escrita, sendo apenas falado.
2) Identificação dos casos de malária: os registos do “centro e saúde” local são muito incompletos. A única informação disponível era 1º nome (nome próprio) e 2º nome (nome do pai) de cada doente, e nome do kebele (i.e. aglomerado de vilas) no qual o indivíduo residia, o qual pode conter 1000 a 2000 pessoas, muitas delas com o mesmo 1º e 2º nome. Para facilitar a identificação, elaborei novos formulários que incluíam o 3º nome (nome do avô) assim como o nome da vila e sub-vila de cada indivíduo.
3) Calendários distintos: No “centro de saúde” local a data de diagnostico é registada de acordo com o Calendário Etíope (C.E), no qual cada ano consiste de 13 meses, sendo bastante distinto do Calendário Gregoriano (C.G.) utilizado pela comunidade internacional. Por exemplo, o ano 2004 C.G. corresponde ao ano de 1996 / 1997 C.E. Para conseguir fazer uso da informação recolhida, tive de estabelecer a equivalência entre C.G. e C. E. Para alem disso, nas vilas onde trabalhei, as pessoas regem-se por um outro calendário (Konsigna) distinto do calendário etíope nacional. Para conseguir que os participantes no estudo se situassem temporalmente nas questões que lhes eram colocadas, tive de elaborar um calendário que fizesse referência ás estacões do ano (Fig 12). Face tal cenário, senti-me como uma personagem a viver cenas do filme “Missão Impossível”Ö


Algumas conclusões preliminares podem ser adiantadas relativamente ao conhecimento local sobre métodos para prevenção de picadas de mosquito. A maioria das pessoas desconhece qualquer método, varias referem cobrir-se com um cobertor à noite e apenas algumas demonstram conhecimento da existência de redes mosquiteiras. No entanto, deste ultimo grupo, apenas uma minoria realmente usa as redes. A maioria das pessoas é demasiado pobre para as poder comprar.
Mas, mais grave do que isto, é que várias não sabem onde podem adquirir a rede, e algumas das pessoas que a adquiriram não a utilizam porque 1) não sabem como montá-la; ou 2) as dimensões da rede são demasiado grandes para permitir montá-la no pequeno espaço onde as pessoas dormem.
Tal cenário evidencia que, paralelamente à necessidade de investir na divulgação e na redução do custo das redes mosquiteiras, é também urgente promover o ensino do modo de utilização das mesmas.
Publicado por MM às 12:02 PM
junho 27, 2005
A Verdade Científica Reencontrada
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A semana em revista:
Desde os estudos de Freud que se compreendeu bem o efeito inverso, isto é, a acção do sistema nervoso sobre o corpo.
Continuamos ainda muito longe da compreensão de qualquer uma das funções neurológicas elementares, para além da actividade reflexa!
Falou-se mais uma vez de energia nuclear, mas também se falou dos 265.000m2 de superfície de paneis solares, contra os 3 milhões na Grécia; ou da disponibilidade para aumentar a exploração energética hídrica em mais 30%. Também não foi esquecida a biomassa florestal que é matéria gratuita e disponível para apanha todo o ano, em 35% do nosso território e que bem poderia aliviar os gastos com os incêndios durante o período de verão. Sobre o vento, parece que continua a soprar sem deixar trabalho para empresas portuguesas!
Publicado por RPA às 2:31 PM | Comentários (1)
junho 26, 2005
O papel ingrato da Astronomia
Desde que o ser humano começou a libertar-se das tarefas de subsistência e reservou um pouco de tempo para pensar, que se interroga sobre a sua natureza e de tudo aquilo que o rodeia. Foi movido por esta curiosidade inata que ao longo de milénios foi construindo aquilo a que hoje orgulhosamente chamamos civilização.
Na ânsia de querer compreender, o Homem cedo se apercebeu que havia alguns fenómenos na Natureza relativamente fáceis de prever: todos os dias o Sol nasce, todos os meses há Lua cheia, todos os anos há quatro estações, os planetas movem-se com uma certa periodicidade. O mundo terrestre parecia ser bastante caótico, mas tal não acontecia no reino dos céus, onde imperava a ordem. Assim surgiu a astronomia. Porém, tamanha perfeição só podia ser divina e como tal, ter influência sobre as actividades humanas. Tornou-se fundamental compreender os sinais do céu, para poder fazer previsões sobre o que se iria passar na Terra. Desta forma, os primeiros astrónomos eram fundamentalmente astrólogos, e só depois cientistas.
Já no século XVII, foi com uma luneta que Galileu conseguiu demonstrar que a Lua tinha montanhas, que Júpiter tinha luas e que Vénus tinha fases. Estas observações vieram pôr em causa todas as crenças que tinham sido adquiridas até então sobre o Homem e o Universo, dando origem à primeira revolução científica. Pouco tempo depois, Newton elaborava a sua lei da atracção universal, explicando a razão pela qual a Lua gira em torno do nosso planeta e este em torno do Sol. O método científico ganhou consistência e as descobertas científicas sucederam-se em catadupa até aos nossos dias.
Actualmente, a astronomia associada com a física ñ a astrofísica ñ continua a ampliar as fronteiras do conhecimento. Já no século XX, foi através de fenómenos astronómicos que se comprovou a teoria da relatividade geral de Einstein. Entre outras coisas, aprendemos ainda que o núcleo das estrelas é um reactor nuclear poderosíssimo e descobrimos os pulsares, estrelas com propriedades quânticas. Porém, numa sociedade onde a produtividade se tornou no critério número um de excelência, a astronomia tem dificuldades em sobreviver. Apesar de muitas das novas tecnologias de imagem terem sido inicialmente desenvolvidas para telescópios (lentes, CCDs, etc), é difícil a este ramo da ciência ñ cujo objectivo primordial é a compreensão do Universo ñ criar riqueza a curto ou mesmo médio prazo. A negação da utilidade da astronomia é hoje frequente, e tanto mais surpreendente quando parte de muitos físicos. É legítimo que o cidadão comum se preocupe mais com a investigação com o cancro do que com a descoberta de novos planetas ou a expansão do Universo. Mas que um físico despreze a astronomia, sejam quais forem as razões, é de lamentar.
É curioso pensar que, apesar de todos os nossos avanços tecnológicos, as perguntas fundamentais que o homem se colocou ao longo dos séculos ñ o que somos, como surgimos, que Universo é este que habitamos, etc. ñ tenham permanecido sem resposta. Muitos dirão que é por serem perguntas metafísicas, do âmbito da filosofia e não da ciência. No entanto, são elas que atraem todos os anos milhares de jovens em todo o mundo para as ciências. Existem universidades em Inglaterra e nos Estados Unidos que mantêm departamentos de astronomia/astrofísica para assegurar a motivação e captação de novos alunos para as ciências, em particular para a Física e a Matemática. Em Portugal infelizmente não é bem assim. No entanto, veja-se o sucesso do curso de Física/Matemática Aplicada (Astronomia) criado no Porto há já vários anos e do aumento exponencial de alunos no curso de Física em Lisboa desde que a variante em astronomia foi introduzida em 2003...
Alexandre Correia, astrofísico
Publicado por Conta Natura às 11:20 PM
junho 25, 2005
ParaBial
O cientista típico despreza o criacionismo, a parapsicologia e as farmacêuticas. Ora, há em Portugal uma entidade que por pouco não faz o pleno destes ódios de estimação: a Bial. Depois de o Barbosa ter denunciado o namoro entre a farmacêutica Bial e a parapsicologia, é agora a vez do Luís Graça dar uma amena cacetada, a propósito da mesma relação (supostamente) ilegítima. O Luís é Professor de Imunologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e o texto que se segue marca a sua estreia no Conta.
Descobri esta semana que uma das principais farmacêuticas portuguesas ñ a BIAL ñ tem um programa de apoio à investigação científica. Uma situação que claramente merece louvor. No entanto, fiquei surpreendido ao verificar que as suas áreas prioritárias incluem, de acordo com o website, as áreas da psicofisiologia e parapsicologia. Vale a pena ver a lista de projectos apoiados, por exemplo no último concurso, para observar que a maioria desses projectos estudam problemas como psicocinética, pressentimento, percepção extra-sensorial, experiências extra-corporaisÖ descobri que até existe um grupo no meu instituto a estudar “Telepathic behaviour associated with biochemical and neuroendocrine parameters”.
Provavelmente, nesta altura estão a ter a mesma reacção que eu tive ao saber deste programa da BIAL, e que inclui dizer alguns palavrões. No entanto, ao pensar um pouco mais neste assunto, considero que será importante utilizar o método científico para avaliar este tipo de fenómenos. Isto porque, se a nossa posição como cientistas é sempre lembrar que não existem dados experimentais que comprovem fenómenos paranormais, será importante realizar as experiências que possam conduzir a esses dados.
Importa contudo que os ensaios tenham um desenho experimental adequado e que incluam grupos de controlo. Caso contrário é possível que os resultados levem a conclusões erradas, como aconteceu com o tristemente famoso caso dos estudos de Jacques Benveniste sobre homeopatia e que nunca foram reproduzidos em condições controladas (ver Hirst SJ et al. Nature 1993; 366:525).
Infelizmente a informação no site da BIAL sobre os projectos anteriormente apoiados é francamente reduzida, não permitindo saber se o desenho experimental dos estudos é o mais correcto (apesar de em alguns casos as experiências parecerem francamente viciadas!). Se a BIAL pretende alguma credibilidade com este exercício, deveria fomentar a avaliação final dos seus projectos por cientistas de diferentes áreas, para além da publicação no seu website dos resultados detalhados, bem como as críticas aos mesmos, e as implicações sobre o continuar do apoio a estudos na mesma área. Se algum estudo sugerir a veracidade dos pressupostos, a BIAL deveria exigir a sua publicação numa revista científica credível.
Mas o que me parece ser mais criticável é a ausência do princípio de começar pelo básico: qualquer dia haverá projectos apoiados a fazer DNA-microarrays em telepatia, sem estudos prévios que confirmem a veracidade da telepatia para além de qualquer dúvida. Por outras palavras, parece-me que é colocar a carroça à frente dos bois.
Como aparte sugiro ainda a visita ao website da James Randi Educational Foundation que oferece 1 milhão de dólares americanos ao indivíduo que demonstre, em condições controladas, que possui poderes paranormais (tomei conhecimento desta fundação através de um documentário da BBC, onde seguiram uma tentativa de provar a eficácia da homeopatia para ganhar o prémio de um milhão de dólares. Em condições controladas o ensaio não funcionou).
Publicado por Conta Natura às 3:52 PM
junho 24, 2005
Crónicas de Sexta-Feira: ”bvio
Por vezes eí necessário estar preparado para ver o óbvio. Faz algum tempo, encontrava-me num Pub a beber cervejas com vários colegas do meu antigo instituto. Entusiasmado pelo álcool um dos professores mais antigos, uma pessoa brilhante mas cronicamente reservada, conversava alegremente comigo. De repente mudou de tom de voz. Notei uma certa frustração disfarçada de resignação. Contou-me que durante os finais dos anos 70 teria feito a seguinte experiencia. Irradiou células cancerígenas com raio-X e por incorporação de metabólitos radioactivos mediu a replicação do ADN. Surpreendeu-se porque as células cancerígenas em vez de replicarem o ADN mais lentamente do que as células normais, faziam-no mais depressa. Repetiu a experiencia 3 vezes, e acabou por atirar os resultados para a gaveta. Nao faziam sentido!
Dez anos depois outro cientista, hoje prémio Nobel, repetiu a mesma experiencia em levedura e entrou para os anais da ciência contemporânea.
Publicado por maradona às 7:14 AM
Crónicas de Sexta-Feira: Plantas mitológicas

A necessidade de tornar uma crónica de viagens mais interessante e colorida, a imaginação saudavelmente galopante de boa parte dos viajantes e o erro genuíno explicam o elevado número de plantas mitológicas que foram descritas durante a Idade Média. Estes mitos são fascinantes porque tipificam todo um imaginário colectivo agora perdido.
“The Barnacle Tree”: Uma árvore que tinha folhas/pétalas semelhantes a um mexilhão (ou uma craca) e que ao abrir libertavam do seu interior um ganso.
“Bohun Upas ñ a árvore dos venenos”: Esta árvore produzia fumos tóxicos capazes de matar seres humanos a vários kilómetros de distância.
A “árvore do conhecimento” e a “árvore da vida”: O Adão teve oportunidade de escolher entre a árvore do conhecimento (mortalidade) e a árvore da vida (imortalidade).
“A árvore do âmbar”: Uma arvore que produzia âmbar e que crescia no meio da água.
ëA árvore de Sodoma e Gomorra”: Uma árvore gigantesca, que produzia maçãs e que crescia perto do local original onde Sodoma e Gomorra teriam existido.
“A árvore de Zieba”: Uma arvore que continha um ninho cheio de seres humanos em tronco nu que passavam o tempo em eternas contemplações.
Para mais informação click aqui
Publicado por maradona às 1:06 AM | Comentários (4)
Crónicas de Sexta-Feira: Finding Nemo

What the movie "Finding Nemo" doesn't tell you about clownfish is that they're all transsexuals. In a study published in the journal Nature, evolutionary biologist Peter Buston and colleagues report that clownfish in Papua New Guinea reefs can change their sex at will for social reasons. Clownfish live in strict hierarchical communities. Each neighborhood is dominated by a top-ranking female breeder. Her male partner is next, followed by up to four progressively smaller, non-breeding fish. When the dominant female dies, her mate changes sex and becomes female. The top-ranking non-breeder becomes a sexually active male, and all the other fish shift up a rank. Clownfish also appear to regulate their size in order to remain part of the group. Each fish keeps its body mass 20 percent smaller than the fish directly above it in social rank, probably to avoid conflict. Fish who disrespectfully outgrow their rank are rejected by the clan.
Katherine Redding & Kathleen M. Wong
California Academy of Sciences
Publicado por maradona às 12:48 AM
Crónicas de Sexta-Feira: Bestiário Conta

Com objectivo de se vingar do rei Minos, Poseidon despertou no coração de Pasiph‰e uma paixão por um touro. Desta união nasceu um filho monstruoso, cabeça de touro e corpo de homem (Minotauro). O Minotauro alimentava-se anualmente de jovens atenienses até ter sido morto por Teseus (ver vasilhame).
Publicado por maradona às 12:30 AM
junho 23, 2005
Este neurónio é só teuÖ

Isto diria eu ao Brad Pitt se tivesse a oportunidade de o conhecer. Ao que parece, e contra muitas teorias, possuímos um neurónio dedicado a cada pessoa. Um para a mãe, um para o pai, um para o primo, e mesmo um para cada pessoa famosa. Eu tenho um neurónio que é do Brad Pitt, por exemplo.
Esta semana foi publicado na revista Nature uma experiência que levou a concluir que neurónios individuais no nosso cérebro reagem especificamente às caras das pessoas. Um neurónio diferente para cada uma delas. Numa experiência que possibilita ver a actividade neuronal numa àrea cerebral chamada lóbulo temporal médio, oito indivíduos foram sujeitas a várias fotos de pessoas, conhecidas ou não, durante apenas um segundo. Os resultados à medida que os examinados foram vendo as fotos revelam quão selectivos são estes neurónios. Por exemplo, um neurónio de um dos pacientes respondia quase unicamente à imagem do Bill Clinton, mesmo quando lhe mostravam fotografias diferentes do ex-presidente. Imagens da Jennifer Anniston (que para quem não sabe, é a ex-mulher do Brad Pitt), produziram o mesmo efeito noutra pessoa. Mas em todos os casos, se o fotografado era uma pessoa diferente, então a actividade era detectada noutro neurónio. No caso da pessoa com actividade neuronal relativa à Jennifer Anniston, fotografias do Brad Pitt não activaram o mesmo neurónio, apesar da imagem “famosa” dela poder ser associada à dele.
Actividades deste tipo sempre se julgaram como “multi-neuronais”, ou seja, muitos neurónios activos ao mesmo tempo para muitas fotografias diferentes. Este estudo vem a dar-nos uma pista, que se calhar usamos menos células neuronais para reconhecimento de objectos e pessoas.
E eu aproveito para pôr uma foto do Brad Pitt no Conta. Lembrem-se que um neurónio dos vossos é dele, só dele e de mais ninguém.
Publicado por SJA às 6:42 PM | Comentários (3)
MotoMosca

Da autoria de Dejan Ninov, irmão do meu colega Nikolay Ninov, e feito em honra dos Drosophilistas deste mundo!
Publicado por SJA às 4:14 PM
junho 22, 2005
Príncipe das Astúrias
Peço desculpa por interromper a programação do Paulo Pereira mas senti urgência em anunciar que hoje de manhã galardoaram com o Premio Príncipe de Asturias de Investigación Científica y Técnica o neurobiólogo português António Damásio. O prémio foi atribuído como reconhecimento pelo seu contributo para a ciência cognitiva, para o entendimento de processos neurodegenerativos em humanos e para a aproximação das Neurociências à sociedade, através de um excelente trabalho de divulgação. Claro que com as voltas que o mundo dá ao seu fuso horário, os leitores na Europa devem estar todos a dizer: olha a novidade! Para esses, as minhas desculpas.
De modo que o grupo dos portugueses famosos vai crescendo (juntamente com a Amália e os futebolistas). Ah, granda Damásio!
Publicado por VB às 10:11 PM | Comentários (2)
A arte e a ciência ao serviço da utopia

Publicado por PP às 11:32 AM | Comentários (1)
Pseudo-ciência
Na primeira vez que li os textos preditivos de Norman Spencer diverti-me bastante. Este economista decidiu, já perto da idade da reforma, dedicar-se ao estudo de toda a ciência e tecnologia, e passado 20000 horas de trabalho conseguiu sumarizar tudo em cerca de 10000 “proposições”, e daí a escrever um livro com previsões para os próximos 60000 anos foi um passo muito simples. As previsões, como podem ler mais abaixo, são do género combinado de louco furioso com vocabulário técnico alienado, que já são regra neste tipo de contexto. Claro que previsões tão lúcidas tiveram sempre público, neste caso no Evening Post de Wellington (NZ), e em grupos de seguidores fanáticos. Claro que pensando bem este tipo de situação é muito pouco divertido, o homem perdeu os anos de reforma inutilmente, o público foi iludido como pretendia, a Ciência perde credibilidade e geram-se expectativas lunáticas. É tristeÖ Deveriam os cientistas preocupar-se de forma mais activa com este tipo de pseudo-ciência?
”By 2020, gene-therapy cures will be available for approximately half of the diseases afflicting mankind, and the first genetically upgraded baby will be born. The general genetic upgrading of the species, by embryo gene transfer, will have become a realistic and achievable objective. By 2200, DNA rejuvenation techniques will raise the life expectancy of advanced 'genos' to 150 years, and genetic intelligence enhancement will have increased the IQ geno/ non-geno gap to the degree that a race of Mark II super-humans is developing.
As nanobio science and technology is not well known to the general public, a few comments here may be appropriate. Biologists already use enzymes to cut and splice DNA, and they use viral syringes to inject DNA into bacteria. In future, programmed nanobio assemblers will build nanobio machines to probe, modify and repair cells ... and human life-spans will be greatly extended. Molecular systems will be able to disassemble and assemble every system found within every cell. Genetic engineers have now programmed bacteria to make a wide range of proteins. It is noteworthy that some biocells have specialised functions, such as motors, bearings, assemblers, and so on. Using gene-machines to write DNA 'tapes', bio- engineers will be able to programme molecular assemblers to build any matter whatsoever, atom by atom, including edibles, liquids, cloth, and materials tougher than metals. Also, nanobio computers will be of tiny dimension and incredibly fast. Nanobio technology will bring revolutionary changes which will affect virtually every aspect of life.”
Publicado por PP às 10:52 AM
junho 21, 2005
E viva Portugal!
Desculpem continuar neste tema. Mas vocês podiam não ter reparado nesta noticiazinha numa das edições da Science de Abril. E ainda não tenho o resto do relato das viagens da Ana Franco pela Etiópia pronto.
Portugal é o país industrializado com maior percentagem de mulheres cientistas (40%). Na figura abaixo só estão alguns dos 30 países ñ nos EUA, por exemplo, 26% dos cientistas são mulheres. Não consegui apurar se são contabilizados os estudantes de doutoramento

Publicado por MM às 1:29 PM | Comentários (7)
junho 20, 2005
O Homem na Encruzilhada
Para além da impressionante cortina de vidro colorido sobre o palco da sua principal sala de espectáculos, o Palácio de Belas-Artes da Cidade do México (1904-1934), um dos maiores edifícios em Arte-Nova/Arte-Deco do mundo, contém uma valiosa colecção de murais saídos das mãos dos grandes representantes da Escola Mexicana de Pintura. A sua proposta estética (primeiro com Orozco, Siqueiros e Rivera e, mais tarde, com Tamayo, Montenegro, Rodríguez Lozano e González Camarena) constitui um insubstituível testemunho da vontade que animou a procura de uma expressão artística tipicamente mexicana. Contudo, "O Homem na Encruzilhada" ou, como mais tarde rebaptizado, "O Homem Controlador do Universo", retrata, nessa colecção de murais, uma visão de Diego Rivera que transpõe as fronteiras do México. Trata-se de uma réplica reduzida e simplificada da magnífica obra encomendada no início dos anos 30 para o edifício da RCA (agora pertença da multinacional General Electric), o mais alto do Centro Rockefeller em Nova Iorque, e posteriormente destruída por conter uma figura de Lenine de mãos dadas com pessoas de outras raças. (Apesar de expulso do Partido Comunista Mexicano, Diego Rivera deixava transparecer com frequência, segundo muitos, um certo radicalismo político associado a propaganda marxista nos seus trabalhos. Estes parecem ter assustado as consciências estado-unidenses mais do que as tropas Nazis, também representadas no mural. Talvez ainda não fossem claras as intenções de Hitler em 1933.)
"O Homem na Encruzilhada" representa um humano (por sinal homem, loiro e de olhos azuis), vestido de operário e controlando uma complicada máquina situada no centro da pintura, onde cruzam duas elipses gigantes, uma preenchida com corpos celestes representando o mundo macroscópico e outra com figuras celulares de várias origens, representando o microscópico.
Ao longo do eixo vertical, ao centro, vê-se como a Máquina controlada pelo Homem assenta sobre os mundos mineral e vegetal que emanam do solo, e que, por terem sido estudados e compreendidos, podem suster a existência das comunidades humanas. Horizontalmente, o mural exorta-nos a uma contemplação histórica do mundo das ideias. Duas gigantes estátuas partidas representam o devir do pensamento: uma de Platão, decepado das mãos e com um terço ao pescoço, e outra, sem cabeça, representando o fascismo. Convulsões sociais e assimetrias económicas de classes evoluem da direita à esquerda da "máquina" tendo como plano de fundo a ameaça latente de um conflito armado de imensas proporções. Charles Darwin aparece discreto em frente a uma máquina de raio-X, na pose de alguém que ensina. Junto a uma série de espécies animais e medindo a altura de uma criança, Darwin parece querer explicar o equívoco que a interpretação limitada da sua teoria induziu nas sociedades humanas do séc. XX.
Originalmente projectado como tríptico, "O Homem na Encruzilhada" ainda assim desdobra-se em muitos "ambientes" representando distintas populações e situações. Um das que mais me chama a atenção é a de um grupo multi-étnico de estudantes universitários, sentados no canto inferior esquerdo, contemplando através de uma lente gigante o objecto em frente ao "homem-máquina", isto é, ao centro do centro da história: uma mão humana segurando firmemente uma esfera de vidro contendo um fuso mitótico.
Publicado por VB às 2:20 PM | Comentários (10)
Mário Corino de Andrade
Mário Corino de Andrade faleceu, com 99 anos, na cidade do Porto no passado dia 16 de Junho. Neurologista e professor universitário foi responsável pela identificação da paramilóidose ou“doença dos pezinhos”, também conhecida por “doença de Andrade”. A paramilóidose é uma condição neurológica hereditária típica das regiões piscatórias do Norte e Centro de Portugal e que foi depois identificada em outras regiões litorais do Mundo (por exemplo, no Japão e na Suécia). Nos anos 50, Corino de Andrade detectou esta doença ao observar pescadores da zona da zona da Póvoa de Varzim que não sentiam dor quando se cortavam nas cordas dos barcos.
Politicamente activo, Corino de Andrade não escapou à opressão da PIDE e, durante o Estado Novo, foi perseguido pelas suas ideias chegando mesmo a ser preso.
Embora com algum atraso, fica aqui hoje a minha homenagem a Corino de Andrade, um grande homem da Ciência portuguesa.
Publicado por SJA às 10:55 AM | Comentários (2)
junho 19, 2005
¿ procura da verdade científica
Esta semana o Conta abordou um tema chave. Não tive oportunidade então de participar na discussão, mas fez-me recordar uma vez mais um episódio passado sobre pintura, que aqui resumo. O jornal “Público” mostrava na sua primeira página de há uns quinze anos atrás o resultado de um concurso de artistas plásticos no Reino Unido com um prémio de avultado valor. A particularidade do concurso estava na simplicidade das suas regras e no anonimato total dos concorrentes. A avaliação por um painel de espertos, universalmente reconhecidos, ditou que uma criança de 8 anos fosse o vencedor do prémio a que tinham concorrido os maiores!
Para além da qualidade e alto valor intelectual que abunda no meio da investigação, na realidade, a ciência não nasce quando um grupo de pessoas (pois a ciência no singular já é coisa do passado) publica o seu trabalho em jornais próprios, que foi antecipadamente avaliado por um pequeno grupo (os tais 2-3 ) de colegas da sua área. Apenas a reprodutibilidade dos resultados e a sintonia nas conclusões fazem descer mais tarde sobre os dados, a chacela da verdade científica.
De facto, o estar apenas publicado num jornal de grande impacto não é nos dias que correm grande garantia de se ter alcançado essa marca, como possivelmente já o não era há cinco ou mais décadas atrás. A representatividade dos dois ou três que julgaram e criticaram o trabalho é de facto hoje muito menor em cada área ou tema do que era no princípio do século passado ou no precedente.
No entanto, se não é o único elemento de aceitação do trabalho, a publicação é uma etapa fundamental. O prestígio, o valor e a qualidade de um nome medem-se hoje em dia em número de publicações e no impacto que estas apresentam. Não há tempo, nem sequer interesse em reproduzir todos os trabalhos publicados.
O valor das publicações, parece-me, é no entanto desajustado face ao rigor e independência que “os cientistas” revelam no julgamento desse trabalho científico. A revisão dos trabalhos não garante isenção credivel nem o rigor necessário para justificar o elevado valor atribuido por todos nós ao adjectivo ñ científico.
A identificação das fontes, a lista de autores e a afiliação são uma quebra de imparcialidade inaceitável perante a pressão de produzir e de criar conhecimento que rentabilize o investimento.
Todos nós conhecemos situações em que fulano ou cicrano foi claramente beneficiado. Os mais novos têm clara percepção dessa realidade e atropelam-se para chegar a um laboratório onde se publique muito e em grandes revistas, ou que o chefe seja Prémio Nobel. Estes desvios não serão extremamente lesivos para a Ciência, mas atrasam e bloqueiam o processo de busca da verdade e agravam distorções económicas importantes, quando afectam a determinação da nacionalidade das patentes. Apenas para citar um caso que deu que falar, a descoberta do HIV é um pequeno exemplo das jogadas de bastidores e do que está em causa quando o tema é verdadeiramente hot! Aconselho a leitura do livro publicado pela Relógio de ¡gua “História da SIDA” de Mirko Grmek.
Estou persuadido de que o caminho far-se-á seguramente pelo lado da manutenção das revistas, porque estas já representam um espaço de rentabilidade económica importante e porque a publicação pública também enferma de outra assimetria e injustiça- cada publicação tem milhões de escrutíneos diferentes, como diferentes são todos os leitores, sem assegurar uma base de homogeneidade como o método actual permite, sem demérito de todas as opiniões ulteriores (talvez aqui se compreenda o seu êxito na área da Física, porque não são muitos)!
Mas a mudança deverá ser radical. Por um lado a “dupla cegueira” de avaliadores e avaliados, em que um esquema semelhante ao da distribuição automática dos PIN pelos destinatátios de contas bancária poderia mesmo diminuir a interferência do editor, que também me parece excessiva e por vezes mesmo, abusiva.
Permanece contudo o tema da eficácia da avaliação. Estou convencido que os referees deveriam ser remunerados pela sua actividade de consultoria que prestam a uma empresa chamada revista tal! Assim, poder-se-ía garantir uma melhor prontidão nas respostas e até no cuidado revelado pelos revisores na elaboração dos seus comentários.
Em suma, o anonimato de autores, instituições, avaliadores e a remuneração destes pelos serviços prestados às revistas, estou convencido, trariam grandes surpresas mas acima de tudo mais justiça, maior eficácia na produtividade e menores perdas de tempo com politiquices para os chefes de laboratório!
Publicado por RPA às 1:02 AM | Comentários (2)
junho 18, 2005
Cartoon do dia

Publicado por SJA às 7:33 PM | Comentários (5)
junho 17, 2005
Crónicas de Sexta-Feira: Nota de um editor
Com o objectivo de facilitar o funcionamento interno do Conta Natura a partir de hoje todos os meus posts vão ser publicados à sexta-feira. Eu tenho controlo editorial e sou portanto absolutamente responsável pelo seu conteúdo. Eu não tenho qualquer tipo de pretensões em fazer qualquer tipo de pedagogia científica ou divulgação de ciência (neste blogue existem outras pessoas bem mais competentes para este fim). Tenciono apenas fazer um conjunto de posts relacionados com ciência, divertidos, mas no fundo essencialmente inconsequentes.
Um abraço, Rui Martinho
Publicado por maradona às 7:00 AM | Comentários (7)
Crónicas de Sexta-Feira: Chocolate
Os Maias chamavam à árvore do cacau “cacahuaquchtl” e a palavra chocolate vem da palavra Maia “xocoatl”. Os Astecas atribuíam a criação da árvore do cacau ao deus Quetzalcoatl que ao descer dos céus roubou a árvore do paraíso. Ao chocolate atribuíam-se propriedades mágicas e afrodisíacas. O imperador Asteca Montezuma bebia chocolate tingido de vermelho, o qual era servido num copo de ouro que apenas deveria ser utilizado uma vez. Confirmando a importância do chocolate, após a conquista de territórios vizinhos os Astecas exigiam com frequência o pagamento de um resgate em sementes de cacau. Como os Astecas desconheciam o açúcar adicionavam-lhe diferentes especiarias ou malaguetas para lhe dar mais sabor.
O prazer, a vontade e o vício do chocolate eí frequentemente explicado pela presença de substâncias farmacologicamente activas. No entanto a simples presença destes compostos não garante psicoactividade. O chocolate satisfaz duas preferências inatas no ser humano: preferência por doces e preferência por alimentos com textura cremosa. Adicionalmente o chocolate, ao contrario do café ou do chá, encontra-se associado à ideia de que se trata de um alimento que deve ser evitado (pouco saudável, engorda) o que faz com que o seu consumo tenha uma dimensão adicional de prazer e/ou transgressão. O consumo de chocolate e a capacidade de induzir prazer resulta portanto de uma combinação complexa de factores psicológicos, sociológicos e farmacológicos. Consistente com esta complexidade o consumo de cacau em cápsulas (sem sabor) não consegue satisfazer a vontade de comer chocolate.
De entre as substâncias farmacologicamente activas no chocolate, duas substâncias são particularmente populares como potencialmente responsáveis pelo seu efeito psicoactivo ñ feniletilamina e o canabinol anandamida. No entanto recentemente foi demonstrado que as metilxantinas presentes no chocolate (cafeína, e um derivado chamado teobromina) são significativamente mais potentes na indução de efeitos psicoactivos associados com chocolate. Tal observação eí particularmente interessante porque o chocolate, o café e o chá são a nível mundial a principal fonte dietética de metilxantinas.
Publicado por maradona às 6:23 AM | Comentários (4)
Crónicas de Sexta-Feira: Bestiário Conta

Cereberus: cão com três cabeças e cauda de dragão (ou de serpente, em alguns mitos),filho de Tifon e Equidna, que vigiava a entrada do Hades.
Publicado por maradona às 5:55 AM
Crónicas de Sexta-Feira: Gary Larson

Primitive Peer Pressure
Publicado por maradona às 5:11 AM | Comentários (1)
junho 16, 2005
Sexo, drogas e rock níroll
Parte I - Sexo
A mosca e o sexo. Podemos aprender muito ao estudar a mosca do vinagre (Drosophila melanogaster). Desta vez venho falar-vos de estudos de comportamento. Numa tentativa quase desesperada de aumentar a audiência do Conta Natura, decidi usar o truque baixo de escrever a palavra sexo no título deste post. Truques bastante usados por todos os meios de comunicação e que sempre criticamos. Mas a verdade é que venho mesmo falar de sexo, mais concretamente do comportamento de cortejamento da mosca do vinagre.
O cortejamento da mosca é bastante sofisticado e feito essencialmente pelo macho. O macho de Drosophila persegue a fêmea até conseguir copular. Começa por caminhar atrás dela. Em seguida, toca-lhe com as patas da frente. Depois, canta-lhe uma canção que toca fazendo vibrar uma das suas asas. Aqui, se tudo estiver a correr bem, lambe os órgãos genitais da fêmea e, curvando o seu abdómen, tenta copular com ela. O comportamento da fêmea de Drosophila é mais passivo e basicamente, pode ser descrito como de constante fuga às tentativas do macho. Mas apesar disto, não é um comportamento desencorajador para o pobre macho que se esforça tanto. As fêmeas produzem uma feromona que incita os machos a começar o cortejamento. Durante a dança de engate do macho, se a fêmea não copulou recentemente, e ele lhe agrada, parará de fugir dele e abrirá as placas vaginais para facilitar a copulação.
Um dos genes que regula este comportamento chama-se fruitless e fez furor nalgumas notícias há duas semanas. Fruitless é um gene famoso, porque ao regular o comportamento sexual de Drosophila, também regula as suas preferências sexuais. Fruitless é conhecido desde 1965, como um gene regulador do comportamento sexual da Drosophila. Desde então se tem tentado compreender como funciona e regula este processo. Há duas semanas foram publicados no jornal Cell mais dois artigos que iluminam um pouco mais este processo. No artigo mais falado, os cientistas implicados fizeram uma mosca fêmea geneticamente modificada na qual inseriram o gene fruitless tal e qual aparece no macho. O resultado foi que esta fêmea começou a cortejar outras fêmeas, adoptando o comportamento do macho da espécie. Fruitless é apenas um dos muitos genes envolvidos no comportamento da Drosophila, mas este trabalho demonstra a sua importância na definição do comportamento sexual da mosca do vinagre. Atenção que não se pode extrapolar daqui até à homosexualidade humana como parecia nalgumas notícias acerca deste trabalho.
Bem, espero que depois deste post não ponham um aviso “para maiores de 18 anos” no Conta. Para a semana volto com a parte II desta série e escreverei sobre drogas!
Publicado por SJA às 4:03 PM | Comentários (4)
Vermelho, Verde e quase Bacalhau

Publicado por VB às 3:38 PM | Comentários (2)
junho 15, 2005
Ciência, Tecnologia e Criatividade
Distinguir ciência de tecnologia é uma discussão recorrente entre cientistas, quase sempre entediante e inconsequente. Confesso que não tinha pensado em trazer esta estucha para o Conta. Sucede que ontem, quando menos esperava, deparei com o seguinte comentário: "A propósito, não sou nem nunca fui um cientista. Em tempos cheguei a pensar nisso mas a Guerra impediu-o. Limitei-me a ser um técnico [numa fábrica de tintas] toda a minha vida". As palavras são de Primo Levi em conversa com Philip Roth (Shop Talk). Levi respondia a um comentário de Roth sobre como no relato dos seus últimos dias no campo de concentração nazi (Se questo è un uomo) o seu raciocínio científico e pragmático foi preponderante e necessário para a sobrevivência do escritor. O facto de Levi logo esclarecer que nunca foi formalmente um cientista mas sem rebater o essencial da observação de Roth pareceu-me muito avisado. O "pensamento científico" não é exclusivo dos cientistas profissionais nem -creio bem - condição indispensável para se vingar na profissão.
O reparo de Levi tocou-me também por me ter parecido de uma modéstia extrema, mas receio que tal se deve à minha (de)formação profissional. Vejamos. A ciência é considerada à partida uma actividade mais nobre do que a tecnologia; o objectivo da ciência é produzir conhecimento e o da tecnologia fazer utensílios. Isto não desperta grandes estados de alma. O problema surge quando se confunde tecnologia com "linha de montagem" e, sem desprezar o lado utilitarista - a ciência aplicada não é vista com idêntico desdém, por exemplo -, é negado à tecnologia aquilo que para o cientista é mais caro na ciência. Ora, o que o cientista mais preza - e esta é uma opinião que tenho tido ocasião de confirmar ao longo dos anos - não é o rigor, nem o espírito crítico, nem sequer a inteligência, mas sim a criatividade. Entre cientistas, quando ausentes os entraves do politica e profissionalmente correcto, cultiva-se um certo desprezo pelo "técnico de laboratório". O cientista vê o técnico como um robot humano, que cumpre a função que lhe é atribuída, mas sem a centelha do criador. Nas fases mais melancólicas, o estudante de doutoramento autoflagela-se, sussurrando: "não sou capaz de ter ideias, não passo de um técnico". Com uma razoável dose de racismo e falta de sensibilidade para as circunstâncias em que uns e outros emigram, numa população cosmopolita de cientistas certas etnias de cientistas são olhadas com total desconsideração - os tais robots, de novo- e desconfiança. Faço aqui uma associação semântica algo tosca entre "técnico" e "tecnologia", mas pergunto-me até que ponto outros não a farão também. A falácia desmonta-se facilmente recorrendo ao exemplo do inventor prolífico, como Edison. Edison produziu sobretudo tecnologia, mas com uma capacidade inventiva que provavelmente nenhum cientista conseguirá superar. Creio mesmo que Edison não é uma excepção e que mais facilmente encontramos exemplos de criatividade pura na Tecnologia e nos congressos de inventores do que na ciência e nos encontros que habitualmente frequentamos. Só que, ignorando esta evidência, ou dela se apercebendo mas temendo ser associado a procedimentos reputados de pouco científicos (à base de tentativa e erro), o cientista opta por preterir o engenhocas em favor do artista. O fascínio do cientista pelo artista não é simples snobismo; trata-se de mais uma manifestação da sua obsessão pela criatividade. Sucede que falamos de um namoro frequentemente não correspondido... quando chega a ser notado, bem entendido.
(Continua)
Publicado por Conta Natura às 9:22 AM | Comentários (1)
junho 14, 2005
The dawn of man...

Publicado por maradona às 5:52 PM | Comentários (3)
Referendo
Imagine lying on a table at a fertility clinic. Across the room are three Petri dishes containing embryos made from your eggs. Given your genetic history, at least one of the embryos probably has a fatal blood disease. You don't want to implant the sick embryo or embryos, but the law says you have to. On a judge's orders, every one of those embryos will be inserted through a catheter into your womb, whether you like it or not.
Is this Rosemary's Baby? The Handmaid's Tale? Nope. It happened last year to an Italian woman under that country's IVF law. Today, Italians held a referendum on whether to change the law. Thanks in part to vigorous opposition from the Catholic Church, the referendum failed.
Slate.com
Publicado por maradona às 2:08 PM
Em defesa das pessoas. E abaixo o mosquito!
No seu célebre ensaio “O valor da Ciência”, Richard Feynman argumentava que a Ciência tem valor porque tem piada fazê-la. Porque é fascinante tentar descobrir uma maneira de melhor perceber e explicar o mundo à nossa volta.
Confesso que neste aspecto a minha opinião difere um pouco deste físico que é em tudo o mais a minha imagem firmde do que um cientista deve ser ñ ele adorava investigar física, mas também outras áreas científicas, e além disso viajar, tocar percussão, conhecer novas culturas, etc.
Para mim, há alguma Ciência que tem um valor adicional ñ aquela que tem por objectivo directo salvar a vida das pessoas (a vida no sentido de existência digna, claro). E esta componente tem tanto mais valor quanto mais vidas salva. E, creio que devido a ser essa espécie estranha que é a mulher-cientista, muito falada no ContaNatura e outros meios de comunicação, acho que o valor aumenta em relação inversa à idade das vidas salvas. Ou seja, combinando o meu instinto maternal com o conceito evolutivo de que só vale a pena salvar indivíduos que ainda não passaram a idade reprodutiva, salvar a vida de crianças.
Segundo esta minha visão do mundo, há poucas investigações que têm mais valor do que aquelas feitas na área da malária. Uma das maiores causas de morte (excepto para aquelas pessoas para quem uma vida num país desenvolvido vale mais do que uma num país em desenvolvimento), a quarta maior causa de morte infantil.
A investigação científica na malária tambêm tem valor porque é difícil ñ não há bons modelos animais e portanto é mesmo preciso interagir com pessoas. Poder conduzir uma experiência em malária sem interferência não significa acertar o pH da solução- tampão ou esterilizar a bancada, significa arranjar uma maneira de entreter crianças, encontrar um jipe para alugar ou um tradutor para o dialecto local.
Creio que são este tipo de obstáculos (ou seja, tudo o que tem a ver com lidar com pessoas) que tem impedido o avanço de encontrar uma cura ou modo de prevenção para a malária que possa ser aplicado globalmente. Mais do que o facto de ser uma doença do terceiro mundo. Neste aspecto, os cientistas podem ser considerados responsáveis por não aceitarem o desafio. Com outras doenças, pode-ser escolher o caminho mais fácil de fazer investigação num laboratório com ar condicionado e com biotério. Mas o facto de ser mais difícil fazer experiências científicas em malária não significa que não há investigação científica a ser feita, com urgência e dever moral.
Saiu uma notícia na semana passada nos jornais ingleses sobre terem desnvolvido um fungo inofensivo para os seres humanos, mas que infecta e acaba por matar os mosquitos. Um passo em frente, talvez?
Na próxima semana continuo com o relato da Ana Franco. Apesar de haver algumas pessoas que acharam desadequado ao site, houve outras pessoas que gostaram de ler por isso basta-me para continuar. Todos apontaram (inclusive a própria Ana) o problema da falta de contextualização do relato. Por isso, e pela minha ausência na passada Terça as minhas profundas desculpas. Ambas as questões serão remediadas!
Publicado por MM às 11:36 AM | Comentários (3)
Associação Portuguesa de Mulheres Cientistas
Tenho sempre uma opinião ambivalente no que se refere a este tipo de projectos mas suponho que sejam úteis. Pelo que aqui vai o link para as eventuais interessadas:
Associação Portuguesa de Mulheres Cientistas
Publicado por maradona às 5:26 AM | Comentários (3)
junho 13, 2005
Insectos Sociais
Quando estava a fazer o trabalho de doutoramento em Inglaterra perguntaram-me certo dia se não teria espaço no meu apartamento para alojar um tal Toru Miura durante os meses de Verão. Pelo nome, foi de um forcado amador de Coruche em digressão pela Europa que primeiro pensei se tratasse. Não era o caso. Toru era um biólogo japonês que vinha trabalhar no departamento de Zoologia. Depressa ficámos amigos, o que se reflectiu na oportuna partilha de cervejas e também na troca característica de pequenas "truques", como quando eu ensinei-lhe a fazer malabarismo com três objectos e ele ensinou-me a dizer clister em japonês.Tampouco faltou-nos tempo para falar de ciência. Ele apresentava-se às pessoas, meio a rir, como uma das três maiores autoridades do mundo na biologia de uma certa espécie de térmitas (Hodotermopsis japonica) e concluía, sempre com a mesma expressão no rosto, que isso era porque não havia mais do que esse número de pessoas a estudá-la. O problema central desse seu trabalho relacionava-se com um fenómeno denominado polifenismo, que consiste nas diferenças morfológicas e comportamentais ocorrentes em indivíduos do mesmo tipo genético, supostamente como resposta a determinados estímulos ambientais. Resumidamente: sendo as térmitas (insecto social) de uma colónia todas geneticamente semelhantes, filhas da mesma mãe, como ocorrerá a "diferenciação de castas" (como por exemplo a dos "soldados" e a dos "obreiros")?
Miura isolou genes expressos especificamente em "soldados", analisou a expressão desses genes em estruturas características do organismo e estudou de modo comparativo o desenvolvimento embrionário de indivíduos de diferentes castas com e sem essas estruturas. Com este trabalho, o meu amigo não só ganhou no ano passado o prémio Denzaburo Miyadi para a investigação em Ecologia, como também contribuiu de modo significativo para o conhecimento da base molecular do mecanismo de selecção de parentesco: um mecanismo evolutivo que selecciona indivíduos com "comportamento altruístico" apesar de uma aparente desvantagem, à luz dos princípios básicos da selecção natural.
Publicado por VB às 1:32 AM
junho 11, 2005
Do Exótico
Neste lado do Atlântico a semana que hoje expira passou recoberta de acontecimentos quase super-reais, especialmente para o intelecto científico. A saber:ii) Um flutuante automóvel, tipo táxi inglês, é interceptado pela polícia de imigração de Miami antes de chegar à praia e, portanto (?), enviado à origem.
iii) Sobre os subúrbios de uma cidade do estado de Nova Iorque caem do céu pedaços carbonizados de um corpo humano.
iv) Pela primeira vez na história um tubarão branco ataca humanos na costa de Nova Jersei.
Uma prova desta incapacidade colectiva, e mais um acontecimento sibilino desta semana, vem afinal da Europa. Trata-se do anúncio de que um tradicional festival de "cultura africana" na Alemanha, chamado "African Village", terá lugar este ano em Augsburg... no jardim zoológico da cidade! O dito festival, com comida típica, música e artesãos a fazer trancinhas de missangas aos visitantes, abrirá ao público na próxima quinta-feira, entre a jaula dos macacos e o pavilhão da exposição temporária acerca da vida na savana. Felizmente assistiu-se também a uma forte mobilização de consciências contra o racismo, estendida concerteza ao conjunto "bloguista".
Biologia à parte, quem poderá refutar Norbert Finzsch, da Universidade de Colónia, quando declarou quer os organizadores do festival quer os responsáveis do zoo, culpados de uma profunda insensibilidade cultural? São-no não só por evidenciarem a falsa "otherness", de uma população humana, como também por separar essa população da realidade presente, perpetuando assim, gratuitamente, os estereótipos modernos e o racismo subliminar. Que tipo de impacto terá para uma mente de origem africana a observação de uma tal ocorrência hoje, numa região do planeta onde há bem pouco tempo os seus próprios antepassados ainda eram expostos, quem sabe, nesse mesmo zoológico durante os "espectáculos etnográficos" (ou Vˆlkerschauen) ? ...one of the organizers was born in Africa and has black skin. (...) You can be sure that this wasn't a mistake in planning. I think the Augsburg zoo is exactly the right place to communicate an atmosphere of the exotic, escreve a directora do zoo de Augsburg em defesa às acusações de racismo. Trata-se então do exótico. Alemães brancos a cortar as unhas dos pés constituirão uma imagem suficientemente exótica para ser mostrada num zoológico do Benim? Zangar-se-iam os portugueses se a "pega de caras" aparecesse num episódio do National Geographic?
Publicado por VB às 4:56 PM
junho 10, 2005
Menino ou menina?
A natureza não tem mentalidade de engenheiro, tem antes mentalidade de “engenhocas”. A evolução improvisa, recicla elementos e no processo encontra novas soluções. Se o criacionismo estivesse correcto, Deus teria necessariamente de ser português.
Dimorfismo sexual eí uma característica extraordinariamente bem conservada em muitos organismos multicelulares. Tal dimorfismo resulta das vantagens associadas com o uso de reprodução sexual. Sexo significa variedade e variedade significa capacidade de sobreviver ao inesperado. Mas apesar de bem conservada os mecanismos moleculares responsáveis pela determinação sexual variam.
Nos mamíferos a determinação sexual do embrião estaí na maioria dos casos associado com os seus cromossomas. Ou seja, com a presença de um segundo cromossoma X (fêmea) ou com a presença de um cromossoma Y (macho). O cromossoma Y eí crucial para a determinação sexual do embrião uma vez que contem o gene responsável pelo desenvolvimento dos testículos. Pelo contrário na aves a situação eí inversa e os machos têm dois cromossomas sexuais idênticos (ZZ) enquanto que as fêmeas tem dois cromossomas sexuais distintos (ZW). Em Drosophila o cromossoma Y eí irrelevante e a determinação sexual do embrião resulta de um simples processo de contagem do número de cromossomas XXs versos cromossomas somáticos (não sexuais). Nos repteis a situação eí mais complexa, enquanto que em alguns grupos (cobras e lagartos) o sexo dos embriões eí determinado pela existência de cromossomas sexuais, noutros grupos (tartarugas e crocodilos) o sexo eí determinado por factores ambientais tais como a temperatura a que o ovos se desenvolveram. Em alguns invertebrados a determinação sexual estaí relacionada com o local onde o embrião se desenvolveu (por exemplo proximidade de uma fêmea). Em muitos outros organismos o processo de determinação sexual ainda eí relativamente desconhecido, o que sugere a possibilidade de existirem outras soluções para a determinação do sexo.
Publicado por maradona às 2:39 PM | Comentários (6)
Larson Classic

Publicado por maradona às 3:58 AM
junho 9, 2005
Detalhe

Detalhe de um tubo do sistema respiratório do embrião de Drosophila melanogaster, a mosca do vinagre (ou da fruta). A verde as células que formam o tubo, a vermelho a membrana interior, impermeável.
Publicado por SJA às 7:25 PM | Comentários (2)
Anonimato científico
Ultimamente, tem-se discutido muito aqui no Conta sobre o anonimato e a liberdade de expressão. Os direitos e os deveres de se poder ser anónimo, o bem e o mal que daí advêm. Há dois tipos de anonimato. O primeiro diz respeito a escolhas e expressões de opinião. O voto é geralmente anónimo e os defensores argumentam que é para bem da liberdade de escolha. Os “do contra” lembram-nos que o anonimato (especialmente noutras coisas que não em eleições por sufrágio universal) favorece o abuso, a desresponsabilização e gera a falta de credibilidade. O segundo tipo de anonimato diz respeito, não a escolher mas a ser escolhido. Somos anónimos em importantes exames escritos para pôr fim ao suborno e às “cunhas”. Não somos anónimos em entrevistas de emprego nem em manifestações. ¿s vezes podemos escolher e noutras somos obrigatoriamente anónimos. Nalgumas coisas “damos a cara”, noutras não. Em Ciência passa-se algo muito interessante e que se pode, e deve, discutir à luz dos mesmos argumentos. Refiro-me à selecção de artigos científicos a publicar em revistas de especialidade.
Os cozinheiros cozinham e assim mostram o trabalho que fazem. Se o prato é excelente, o cozinheiro terá uma carreira prometedora. Possivelmente abrirá um restaurante com três estrelas Michelin. Se o prato é mau, enfim, ficar-se-á pelo snack-bar da esquina a fazer pregos no prato. Os cientistas fazem experiências e, para mostrar o seu trabalho, quando conseguem demonstrar uma teoria (por pequena que seja) terão que a publicar. Se os artigos publicados são bons, é mais fácil obter financiamento para novos projectos e, no futuro, ser chefe de um laboratório de cinco estrelas. Se não há artigos publicados ou se estes são medíocres, bem, eventualmente poderemos acabar no snack-bar da esquina a fazer pregos no prato com o nosso amigo cozinheiro.

O processo de publicação de artigos científicos faz-se servir de um anonimato unilateral. O processo base é o seguinte: o manuscrito de um artigo é enviado a uma determinada revista científica devidamente “assinado” por todos os que contribuíram para esse trabalho; o editor da revista decide se o trabalho é bom e merece ser examinado por cientistas da mesma área; se decide que sim, então esse artigo é enviado a dois ou três cientistas de boa reputação que após o analisarem enviam um relatório, por vezes extensivo, ao mesmo editor; neste relatório escrevem a sua opinião, decidem se os autores do trabalho devem fazer mais experiências e oferecem o seu parecer sobre se o dito artigo deverá ser publicado ou não. Ora, aqui está o fulcro da questão e o ponto onde eu quero chegar. Estes examinadores de artigos, guardam o seu anonimato e a sua identidade nunca é revelada aos autores do trabalho analisado (aparte claro, de excepções, quando os comentários são demasiado reveladores e identificam o cientista anónimo).
A discussão sobre a avaliação de artigos científicos é bastante extensa e as opiniões muito variadas. Há quem defenda o processo por dizer que assim é salvaguardada uma análise honesta e uma crítica que, fora do círculo anónimo, não existiria (penso que todos nós sabemos quão difícil nos é aceitar a rejeição e as críticas, mesmo quando estas últimas são construtivas). Há quem critique o processo por desresponsabilizar quem critica e rejeita. Há ainda outros que defendem o completo anonimato (tanto dos autores como de quem decide), porque este daria mais força ao bom trabalho em vez do laboratório mais conhecido ou o chefe mais famoso. Há opiniões para todos os gostos e cada cientista pensa possuir a solução perfeita para uma publicação de artigos mais honesta, livre, transparente e desinteressada. Esta semana na The Scientist aparece mais um artigo a discutir o assunto. Nele, David Kaplan, apresenta as suas soluções para melhorar o processo de selecção nas publicações científicas.
A discussão continua e é necessária, mesmo que não se encontre uma solução perfeitaÖ
Publicado por SJA às 2:49 PM | Comentários (18)
This is like deja vu all over again
Para quem não conhece este senhor, o Mr. Yogi Berra, poder-se-ia apresentá-lo como o João Pinto (o original) do baseball. Ele é autor de comentários famosos, ou Yogismos, tais como: "This is like deja vu all over again." e "I made a wrong mistake." O comentário do Yogi sobre a previsão do futuro acaba por ser mais insinuante e interessante do que imagino tenha sido a sua intenção inicial. Em Ciência, qual é o valor de previsões sobre metas e resultados, quer a médio quer a longo prazo? Em primeiro lugar, são essas previsões minimamente correctas e abrangentes? E serão úteis, e se sim em que sentido? Só como exemplo, o Físico Teórico Michio Kaku na introdução das suas "Visions"(1998) prevê os seguintes desenvolvimentos em Biologia e Medicina até 2020:

Este parágrafo é infeliz, repetindo generalizações e exageros, mais habituais em jornais e telejornais, do que em obras de cientistas sérios. No geral, "Visions" tenta abranger as principais áreas científicas e tecnológicas, e consegue ser bastante interessante e estimulante em alguns pontos, mas nunca consegue afastar a sensação de que se trata de "deja vu all over again". Pensando bem, nunca li nenhuma tentativa deste género que não me deixasse um pouco frustrado. Estou disposto a uma última tentativa, sugestoes?
Publicado por PP às 11:19 AM | Comentários (5)
junho 8, 2005
Big-bad companies?
Ronald McDonald, the iconic mascot clown of fast food giant McDonald's, is to be given a sporty new makeover. Traditionally famous for his red hair and yellow jump suit, Ronald will be seen juggling fruit and snowboarding in a TV advert to be screened on Friday. The leaner, more health-conscious Ronald will encourage children to get up and join him playing sports. Images of hamburgers and fries, the food McDonald's is best known for, will be noticeably absent from the campaign.
BBC news
Isto lembra-me a situação caricata das companhias de cigarros fazerem anúncios sobre o efeito nefasto do tabaco. Mas esta noticia levanta algumas questões interessantes, entre as quais ate' que ponto as companhias de "fast-food" têm responsabilidade no actual surto de obesidade? Ou será que este também e' devido a determinadas disfuncionalidades sociais e familiares que levam a uma redução do tempo disponível para cozinhar.
Publicado por maradona às 4:23 PM | Comentários (1)
junho 7, 2005
Sobre o anonimato no Conta
Pedindo desde já desculpa pelo tom anti-climático com que corto a suculenta prosa do Barbosa, é talvez altura de termos aqui uma discussão recorrente na blogosfera: como lidar com os comentários anónimos? Entendo que o anonimato na blogosfera é um mal pequeno, por vezes um sério problema e, com sorte, uma mais-valia.
Mal pequeno porque qualquer comentador anónimo que abuse do privilégio do anonimato (com insultos baixos, com calúnias, etc) pode ser facilmente calado. Neste tipo de situações não tenho grandes pruridos com a liberdade de expressão. O anonimato não é só um direito, também se merece. Mal pequeno também, porque gera algum desconforto e irritação - mas não mais do que isso - discutir com alguém que não revela a cara. Veja-se, a título de exemplo, a discussão que corre na caixa de comentários ao último post do RPA.
O problema mais sério resulta de não sabermos que credibilidade devemos dar ao comentador anónimo. Nem sempre é fácil topar uma consciência ao ler um texto, por mais extenso e revelador que possa ser. Fica sempre a dúvida. Não sendo o Conta um local passível de comprometer a reputação de um chefe de família, qual a razão do anonimato? Vontade de eternizar o ciberespaço como uma espécie de recreio, onde ainda nos permitimos algumas fantasias? Porreiro. Sede de heteronímia? Enfim, respeite-se uma das tais "características intrínsecas" do lusitano. Pouca vontade em investir no comentário e nenhuma vontade de ficar associado a um texto menor, a umas bocas atiradas para o ar? Pronto, está bem, desde que não aborreça muito. Impulso chibo-cobardolas para libertar aquilo que não se tem coragem de dizer dando a cara? Intuito manipulador? Já se percebeu; há um contínuo que vai da carolice saudável a lados mais sombrios e não é fácil avaliar onde cai um tipo que se apresenta como "Bonifácio Dinamite".
A mais-valia surge quando o comentador funciona como fonte anónima, facultando informações ou exprimindo opiniões válidas que, noutras circunstâncias - e podemos imaginar algumas - não poderia adiantar. Sendo este o exemplo máximo das vantagens dos comentários anónimos, é claro que um(a) garganta funda não aparece todos os dias. Mais frequente é a situação do comentador anónimo que ganha espaço e credibilidade à custa da qualidade do que pensa e escreve, fazendo literalmente nome na praça. Há alguns exemplos destes na ainda nova blogosfera portuguesa. Se aqui se fizer mais um, não virá mal ao mundo, antes pelo contrário.
Publicado por Conta Natura às 11:53 PM | Comentários (17)
Erectile or Change
Com a luz da aparição, caiu do cavalo e cegou. Saulo e a sua Epifania. Por razões diferentes também perderam a visão alguns dos 20 milhões de homens que actualmente tomam Viagra, em circulação no mercado desde 1998. A condição clínica irreversível é conhecida como NAION (neuropatia isquémica óptica anterior não arterítica) e representa uma das principais causas de perda de visão entre indivíduos acima dos 50 anos. A manifestação desta doença em pacientes entre os 50 e 69 anos de idade até 36 horas após a ingestão de citrato de sildenafilo (agente activo do Viagra) e a correlação hipotética entre a NAION e potenciais condições cardiovasculares dos pacientes antes de lhes ser administrada a droga, são descritas por Howard Pomeranz, da Faculdade de Medicina da Universidade do Minnesota num artigo do Journal of Neuro-Ophalmology. Sem intenções metafóricas, Pomeranz afirma:Sildenafil was known to cause temporary colour changes in some men's vision.
Mas continua: ...but NAION was a much more serious condition. Eu creio que este aparenta ser mais um exemplo do modo como a Food and Drug Administration (FDA) deixa que efeitos indesejáveis de drogas com "pressa" para entrar no mercado sejam expostos no período pós-marketing. Por exemplo, é estranho que o Viagra, cuja descoberta se associa à investigação para tratamento de doenças cardiovasculares, tenha sido originalmente aprovado pela FDA sem um estudo dos possíveis efeitos em indivíduos com problemas de coração (digo, do músculo cardíaco).
Entre os políticos mais conservadores da direita cristã dos Estados Unidos, quase todos homens, poderosos e dentro da faixa etária de maior "risco", é difícil, portanto, discernir se a cegueira advém de um encontro messiânico de terceiro grau ou da farmacodinamia do Viagra. O certo é que uma inesperada nuance manifestou-se recentemente nesta sociedade norte-americana. Trata-se do escândalo da comparticipação de agências do estado na compra de Viagra para culpados por crimes de abuso sexual. A descoberta de que por todo o país arguidos em crimes de violação, violação de menores e violação de idosos compravam Viagra com desconto durante os últimos cinco anos (200 casos só no estado de Nova Iorque, o que equivale a cerca de 93000 dólares do erário), causou a sensação esperada entre os meios de comunicação social e despertou uma resposta rápida por parte das autoridades.
Pergunta: qual é o alcance deste escândalo? O senador democrata de Nova Iorque Charles Schumer afirmou erradamente: The bottom line is, giving convicted sex offenders government-funded Viagra is like giving convicted murderers an assault rifle when they get out of jail. Digo erradamente porque o exemplo não é bom por soar a ironia, considerando a legislação de muitos estados quanto ao porte de armas. Salvando a desnecessidade óbvia de uma metáfora, seria melhor ter usado uma imagem tipo dar isqueiros grátis aos pirómanos ou algo do género.
Mas voltando à supracitada questão: acabará aqui a polémica? Uma visita às sedes "internéticas" da Medicare e da Medicaid, dois serviços públicos de saúde para cobertura de custos médicos, permite-nos ver que nenhum deles contempla o custo da pílula. Ou seja a Medicaid ajuda a pagar o tratamento de problemas de erecção mas não compartilha as despesas no planeamento familiar.
"Honey, my Viagra is covered finally!"
"Too bad you can only use it to masturbate to internet porn now, as my pills are not covered."
Pode ser que, da sua "epifania", Goerge Bush também tenha saído com os ouvidos um pouco afectados para que andem tão moucos às vozes que reclamam. Mas a própria piedade do presidente pode estar comprometida por isso. Segundo o ex-governador de Nova Iorque, Mario Cuomo: ...quando eu rezo, falo com Deus; quando Bush reza, Deus fala a Bush. Ou então, como me foi sugerido, o empenho do governo republicano concentra-se no retrocesso da tendência actual para o envelhecimento da sociedade.
Publicado por VB às 3:07 PM | Comentários (2)

Publicado por maradona às 3:02 PM
junho 6, 2005
Quando os chocados também chocam.
Em poucas palavras, por certo muito chocantes (pelo que recomendo algum cuidado nesta leitura), revela-se o aparente ocaso dos LE, justificado pela diminuição do financiamento público, pelos sucessivos atrasos nas respostas do Estado aos problemas de equipamento e de apoios para viagens, e pela rigidez “na gestão de recursos que os LE geram“, e estou a citar.
De todos os portugueses que fazem alguma ciência eu gostaria de saber quais são aqueles que, onde quer que estejam neste momento, têm um "alguém" que lhes consiga financiamento, que lhes encomende material de laboratório, contrate pessoal novo ou que os exporte para outros departamentos e que gira de forma flexível “os recursos gerados nesse laboratório? E no caso desse “senhor” se chamar Estado, quantos haverá por esse mundo Luso fora?
Estou persuadido que não serão muitos, nem em países muito protectores da sua investigação científica como a França. Em Portugal são mesmo todos aqueles que conseguiram o "lugar quente" próximo do braseiro do dinheiro de todos nós!
Eu estou de acordo que há áreas prioritárias de investigação e que são fundamentais para a defesa dos interesses do País e da sua soberania. Acontece que em Portugal nem existe uma política de ciência, como tão pouco existe quem saiba e decida as prioridades do Estado para a investigação dele próprio.
Como saberão a produtividade dos LE é a mais baixa de todos os laboratórios portugueses e que além disso consomem quase dois terços do orçamento do estado para a Ciência sem qualquer necessidade de avaliação peer review ou requisito de escrita de candidaturas a FCTs ou instituições internacionais. Em resumo, dinheiro tem vindo directamente dos cofres do tal Estado, sem passar por qualquer avaliador de eficácia ou de qualidade científica.
Pois eu também estou chocado e por isso mesmo, peço daqui, directamente do Conta Natura, ao Sr. Ministro Mariano Gago que estenda as medidas restritivas dos gastos orçamentais ao seu ministério, e reveja o modo de financiamento dos LE que estão sob a sua tutela directa, canalizando o pouco que ainda existe, para a Ciência deste País, para os laboratórios que de facto publicam, que fazem parcerias rentáveis com empresas e que têm directores que não estão à espera do estado para encomendar pipetas!
Já bastará de tanta choraminguice para uma área em que lá fora a Comissão Europeia começa a abrir os cordões à bolsa para grandes projectos nos domínios do aeroespacial, telecomunicações e investigação biomédica e clínica. Agora, não será o Estado, e muito menos o Português que lhes servirá de bandeja, nem os projectos e muito menos as ideias que não têm.
Todos teremos o direito à indignação e mesmo ao estado de choque, como refere um Sr. Director do INETI, mas não temos o direito de lamentar eternamente um direito a um estatuto que é ultrajante para todos os que se esfolam para garantir o financiamento dos seus projectos e que já sabem o que investigar, sem que o Estado lhes envie por FAX ou por correio as coordenadas, ordens ou, quem sabe, o pedido do NIB.
Continuo sem perceber do tal artigo de opinião, quais são os tais recursos gerados pelos LE que ficam à espera do Estado para que os venha gerir? Mas estou habituado a não ter respostas imediatas para as minhas questões. Fica aqui manifesto o desejo de o descobrir brevemente e a promessa de o revelar.
Publicado por RPA às 8:21 PM | Comentários (13)

Publicado por maradona às 4:21 PM | Comentários (3)
Novo reforço
Graças aos esforços do nosso RPA, o Conta ganha mais um colaborador, o Alexandre Correia. A apresentação é feita pelo Ricardo.
"Coerente com o rumo definido para o alargamento das áreas científicas, e apostando num aumento das intervenções dos cavaleiros da Ciência Lusa, o Conta Natura apresenta agora um Físico, de Lisboa, que faz da sua formação e actividade académicas uma verdeira graçola ao seu tímido peso pluma.
Desde há um ano exilado na terra dos Ovos Moles, é ilustre professor e continua a manter viva a sua paixão que desde a infância lhe aponta a testa para o alto e fá-lo questionar-se sobre os submundos da estrela da madrugada - O Planeta Vénus- especialidade que chama sua, neste sistema solar.
Com passagens sempre marcantes pelo mundo da francofonia, primeiro no Observatoire de Paris e depois no de Genève, para arrefecer os motores, Alexandre Correia é o exemplo de uma cabeça aberta pela expansão do universo mas disciplinada pela matemática do movimento.
O Conta abre hoje os braços às áreas pré-biológicas, começando com a Física, e deseja a todas as leitoras e leitores que se deixem levar pelas histórias deste Venusiano de sucesso.
Bienvenue, Alex!"
Permitam-me só mais uma achega. O "All science is either physics or stamp collecting" de Rutherford ecoará para sempre nos egos feridos dos biólogos, mas muito mudou desde que tais palavras foram proferidas. Curiosamente ou não, os pioneiros daquela que foi a grande revolução na biologia dos últimos 50 (o aparecimento da biologia molecular) eram físicos de formação em busca de novos problemas. Ainda estamos longe de uma fusão da física com as ciências da vida, mas o vitalismo é hoje apenas matéria para bons relatos de história da biologia. Até prova em contrário, não há necessidade de inventar novas leis para os seres vivos além das leis da física.
Como se não bastasse, o Alexandre é especialista em Vénus. Ora, muito embora Marte recolha a preferência dos escritores de ficção científica, é Vénus que tem sido alvo das mais acesas especulações quanto à existência de vida extra-terrestre no sistema solar.
Como se vê, temos motivos de sobra para que a chegada de um físico ao Conta não se estranhe; entranha-se logo. Bem-vindo, Alexandre!
Publicado por Conta Natura às 12:53 AM
junho 5, 2005
Housekeeping Fellowships
Nobelist Christiane N¸sslein-Volhard says she is tired of watching young women scientists struggle to balance family and career. So the developmental geneticist has launched an initiative to help pay for household help.
The Christiane N¸sslein-Volhard Foundation will give roughly $600 a month to a handful of top-notch, early-career scientists who are mothers. N¸sslein-Volhard, director of the Max Planck Institute for Developmental Biology in T¸bingen, Germany, says the money is not primarily intended for daycare but to pay someone to help with cleaning and cooking.
It's maddening "when a top woman scientist can't make it to a seminar because she has to go home and do the laundry," says Maria Leptin, a developmental biologist at the University of Cologne in Germany and a member of the foundation, which has so far raised over $500,000. "She should concentrate on what is most important--doing her work and spending time with her family--and nothing else." The first awards, lasting 1 to 3 years, will be made later this year and then annually.
Entristeci-me com a contradição entre o que tanta gente diz acerca da ausência de discriminação sexual em Ciência e a necessidade encontrada por N¸sslein-Volhard de criar uma bolsa S” para mulheres, como se de uma minoria se tratasse.
Também lembrei-me de um artigo de A. D. Cousins publicado recentemente no Journal of the History of Ideas e cujo resumo está na nossa hemeroteca. Nele, analisa-se um poema de Thomas More, o santo mártir católico que perdeu a cabeça não por uma mulher mas pela fidelidade à sua fé durante a reforma Anglicana. Eram outros tempos. Tempos em que quem tinha autoridade para ditar normas acerca de temas como "feminilidade" eram... os homens. Na mesma análise fala-se do conteúdo dos trabalhos de "humanistas" como Erasmus, Vives e Boccaccio e os seus juízos acerca de como devem ser educados os humanos do sexo feminino.
Nesta tarde de Domingo, onde em tantas partes já se adivinham os ansiados aromas do Verão, pede-se às pessoas de bom senso que não se "aqueçam" muito com esta leitura pois ela também inclui o debate, com o contributo literário de mulheres desses séculos, como Christine de Pizan e Anna Maria van Schurman. Se, mesmo assim, o aborrecimento prevalecer mas a sombra for boa e a brisa agradável, pode ser que Cousins pelo menos nos ajude a evocar uma sesta redentora.
Publicado por VB às 10:19 PM | Comentários (2)
junho 4, 2005
Propagação da Biogaffe
A comunicação de Ciência passa, maioritariamente, do cientista ao público através dum intermediário. Os cientistas fazem descobertas, comunicam o seu trabalho a revistas de especialidade e, a partir daí, estas passam ao domínio público. A linguagem destas comunicações a revistas técnicas é, normalmente, incompreensível para quem não trabalha na área em questão. É necessário um tradutor que passe a mensagem. Na maioria dos casos as revistas científicas ou os próprios institutos/universidades têm gabinetes de imprensa que lançam comunicados. Estes comunicados chegam aos computadores de jornalistas que lhes pegam e lhes dão formato de notícia. Geralmente, estes jornalistas não possuem formação científica. Lêem o comunicado de imprensa e reciclam-no para uma página de jornal, um noticiário da rádio. Se há um erro no comunicado de imprensa, este propaga-se, como um vírus da gripe, por todas as notícias referentes ao mesmo assunto. Por isso, é necessário ter muito cuidado quando se escreve um comunicado de imprensa. Assim, acho imperdoável que uma agência noticiosa como a Lusa tenha cometido uma biogaffe tão básica como a de chamar mosquito à Drosophila.
As vozes fazem-se ouvir de que não interessa, porque quando voam sobre um copo de vinho as moscas e os mosquitos parecem iguais. Os cientistas discordam.
PS ñ E os meus parabéns ao jornal Público por ter chamado mosca à mosca! Na moscaÖ
Publicado por SJA às 4:54 PM | Comentários (2)
junho 3, 2005
Darwin bisa
Através do Barnabé cheguei à lista dos livros mais nefastos publicados nos séculos XIX e XX, segundo a Human events. O painel que seleccionou as obras é ultra-conservador e o top 10 é um inventário dos pesadelos que afligem aquelas mentes: o comunismo, o comunismo, o totalitarismo, a revolução sexual, o feminismo, o relativismo moral, as investidas contra a religião, o Estado Providência e, não esquecer, o comunismo. Trivial. Notável, só mesmo o facto de além de Marx, o papão-mor, o único outro escritor a bisar na lista alargada ser Darwin, que aparece com o Origin of the species e o Descent of man.
Publicado por Conta Natura às 9:29 PM | Comentários (3)
A origem da Biogaffe do dia
"A investigação incidiu apenas no mosquito "drosophila melanogaster", mas os cientistas julgam ter encontrado a chave de novos conhecimentos essenciais do comportamento sexual, incluindo o dos seres humanos.
O mosquito em causa é um dos animais modelo da biologia e tem um genoma muito semelhante ao do ser humano."
Da Agência Lusa
Assim se propagam os erros em jornalismo científico...
Publicado por SJA às 8:47 PM
Biogaffes (II)
"O trabalho de investigação incidiu apenas no mosquito "drosophila melanogaster", mas os cientistas julgam ter encontrado a chave de novos conhecimentos essenciais do comportamento sexual, incluindo o dos seres humanos. O mosquito em causa é um dos animais modelo da biologia e tem um genoma muito semelhante ao do ser humano." Lido no site da TSF ( 18:32 / 03 de Junho 05 )
Não se pede de um jornalista que tenha a entomologia por passatempo e as notícias de última hora são uma espécie de jornalismo em trapézio sem rede. Ainda assim, no dia em que a mosca do vinagre (Drosophila melanogaster) passar a ser mosquito, chamem-me orangotango.
Publicado por Conta Natura às 8:12 PM | Comentários (5)
Nota de um editor:
Um blogue colectivo não e' uma síntese de opiniões, e' uma síntese de blogues. Hoje apaguei um post porque um dos editores achou inapropriado para o blogue. No entanto tal não vai voltar a acontecer.
Rui Martinho
Publicado por maradona às 8:11 PM
Sarcasmo
Sarcasmo eí talvez uma das mais interessantes capacidades cognitivas do cérebro humano. Para além da compreensão literal de uma mensagem, exige-se a detecção dos exageros e distorções lógicas/ linguísticas necessárias ëa sua compreensão.
O sarcasmo eí geralmente acompanhado por um conjunto de expressões faciais ou construções linguísticas que ajudam a clarificar o verdadeiro sentido do que foi dito. No entanto tais pistas nem sempre estão presentes, e neste caso uma sequência complexa de capacidades cognitivas são necessárias para a sua detecção.
A compreensão do sarcasmo exige uma correcta percepção do estado mental/ intenção do emissor. Isto ajuda a distinguir um “erro” de um “sarcasmo”, e ajuda também a identificar se aquilo que o emissor diz eí consistente com o que se espera que ele diga. Não eí portanto de surpreender que ironia e sarcasmo sejam talvez uma das ultimas capacidades cognitivas que as crianças desenvolvem.
Num artigo recente na Neuropsychology foi demonstrado que pacientes com lesões cerebrais na região pré-frontal do cérebro demonstram dificuldades em identificar sarcasmo. Tais dificuldades são especialmente evidentes em pacientes com lesões no “right ventromedial region” do cérebro. Ora isto sugere que o “right frontal lobe” ajuda ëa compreensão do sarcasmo através da integração de informação emocional (“affective processing”) com análise conceptual da mensagem (“perspective taking”).
Falta-me a terminologia correcta em português. Alguém me pode ajudar? Obrigado
Publicado por maradona às 3:47 PM
Confiar em estranhos?
Um snife