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agosto 31, 2005
Biogaffe - Os Dentes
Um artigo de divulgação científica saído anteontem na BBC noticia um estudo efectuado por um grupo da Universidade de Nova Iorque acerca da incidência de infecções bacterianas em crianças nascidas por parto natural ou por cesariana. A nota jornalística acaba também por involuntariamente demonstrar como a imprensa que populariza a ciência pode não apenas induzir em erro o leitor como potenciar os danos da má ciência junto da opinião pública. E isto por dividendos tão simples como salientar temas de (alguma) sensação ou simplesmente ocupar o espaço que sobra à edição.
O título e boa parte do artigo da BBC atraem os olhos falando da boca: de um grupo de 156 partos, as crianças nascidas por cesariana são infectadas por um agente da cárie (Streptococcus mutans) mais cedo que as nascidas por parto natural. O que o artigo da BBC deixa para o fim, após considerações especialistas acerca do benefício da vagina no desenvolvimento de resistências antibacterianas no recém-nascido, é que as mães em questão possuíam um nível cárie dentária superior à média e vinham de famílias do Alabama de baixo rendimento e com um historial clínico de doenças sexualmente transmissíveis. De facto, ao ler o relatório original, apercebemo-nos que os parâmetros estatísticos que dariam relevância ao factor "parto natural" para a transmissão de S. mutans são da mesma ordem de grandeza que os que sustentam o papel de factores como "tempo de gestação", "experiência de infecções transmitidas sexualmente" e "rendimento familiar".
É certo que embora limitando os planos de quem anseia uma família numerosa, a cesariana é prática constante nos hospitais europeus. Mas uma análise científica dos potenciais efeitos ou riscos, tanto sobre a criança como sobre a mãe, não pode, pela sua própria definição, seguir padrões ligados à superstição. Ouvimos falar das tendências depressivas dos nascidos por "parto cirúrgico" e que fazemos? Preocupamo-nos mais com o tratamento dos números que provam isso ou com a estratégia a aplicar para saber qual o modo como um(a) potencial namorado(a) veio ao mundo?
O desejo de, à base de iluminação néon, acender discussões públicas inexactas na decomposição do todo, não só instiga a decisões colectivas funestas como em nada melhora o interesse da comunidade pelo conhecimento científico. Os meios de comunicação social devem deixar de acreditar tanto na necessidade de "adocicar" os temas de investigação científica antes de dá-los (ou melhor, vendê-los) às massas.
Publicado por VB às 10:55 AM | Comentários (1)
agosto 30, 2005
O INQUÉRITO
Cá está o inquérito! Modo de resposta: um identificador pessoal (pode ser o nome, um nom-de-guerre, ou outro conjunto de caracteres que outras pessoas não utilizem); o instituto de investigação e a letra da pergunta, seguida do número da resposta.
Exemplo: Nome: Pocahontas
Instituto de investigação: Instituto de Biologia Molecular, Universidade de Madrid
Cidade: Madrid País: Espanha
A. 1
B. 3
C. 2
etcÖ
Mandem as respostas para maya.mendiratta@gmail.com
Quanto ao instituto de investigação, devem estar lá há pelo menos um ano, e pode ser Português ou de outro país qualquer, ligado a uma universidade (neste caso ponham a faculdade ou centro) ou independente.
INQUÉRITO AOS CIENTISTAS PORTUGUESES SOBRE A QUALIDADE DE INSTITUTOS DE INVESTIGAC√O
Nome:
Instituto de Investigação:
Cidade:
País:
Tuga à vista!
A: Quantidade de portugueses nas redondezas:
1 ñ zero
2 ñ um ou dois
3 ñ paletes
A cesta do lanche
B: Facilidade em arranjar bacalhau, chouriço, nestum com figos, etcÖ
1-os meus papás causam dores de cabeça aos serviços alfandegários
2-se estiver disposto a atravessar a cidade toda lá se arranja
3-há uma mercearia portuguesa na esquina
O líquido vital
C: Facilidade de encontrar uma bica decente:
1 ñ livrei-me do vício
2 ñ ao fim-de-semana tenho tempo de ir tomar um café de jeito
3 ñ o empregado do café mais próximo é português
O sexo fraco
Por favor respondam só a D1 ou D2 e não a ambos. (Respostas duplas serão desqualificadas)
D1: Qualidade do sexo feminino
1 ñ é o deserto
2 ñ de vez em quando lá aparece uma na cantina
3 ñ nem sei para onde me virar
D2: Qualidade do sexo masculino
1 ñ é o deserto
2 ñ de vez em quando lá aparece um na cantina
3 ñ nem sei para onde me virar
Os colegas de laboratório
E: Interacção com os colegas do lab:
1 ñ Enfio-me num canto e espero que ninguém me veja
2 ñ São simpáticos mas cada um tem a sua vida
3 ñ Saio com eles pelo menos uma vez por semana
The boss
F: Relação com o orientador, chefe, PI:
1 ñ Muito a custo lá me encontro com ele uma vez por ano
2 ñ Cordial mas distante
3 ñ Critico a roupa dele/discuto a ultima telenovela com ela/discuto os resultados do futebol com ele
A administração
G: Facilidade em tratar/obter papeladas, burocracias, documentos, a secretariaÖ
1 ñ ëO processoí de Kafka
2 ñ A custo, lá se vai conseguindo as coisas
3 ñ Eficientes e simpáticos
Em vista de acontecimentos recentesÖ
H: Nível e qualidade do material e apoio informático
1 ñ Tenho que partilhar o meu computador velhinho com várias pessoas
2 ñ Tenho um computador meu mas volta e meia há problemas sérios
3 ñ State-of-the-art
A Ciência pura e dura
I: O ëbuzzí científico no instituto:
1 ñ Nos corredores só se fala de futebol e televisão
2 ñ De vez em quando há um seminário interessante
3 ñ Há uma sensação de massa crítica intelectual
O tó (por sugestão)
J: A qualidade dos transportes para o instituto
1 ñ Só de carro ou a pé
2 - Há, mas são lentos ou caros
3 ñ Bons e baratos
A minha bancada é maior que a tua
L: A qualidade do laboratório
1 ñ Uma cave escura e fedorenta
2 ñ Apertados mas lá se aguenta
3 ñ Laboratório novinho em folha com tudo o que é preciso
Três anos à espera do anticorpo
M: Facilidade em obter o material de laboratório necessário
1-Tem que se contar os tostões e esperar séculos
2-Vou arranjando quase tudo o que preciso
3-Tudo o que eu peço chega no dia seguinte
O papel
N: Nível do salário/bolsa
1-Vivo de massa e durmo num beliche
2-Dá à rasquinha
3-Dá para tudo
A palavra final
Defina numa frase o que representa para ti o teu instituto:
Ocorreu-me agora que com disposição alegre dos portugueses, vocês poderiam não ser muito honestosÖ Portanto, sejam sinceros e se houver algo de positivo a dizer sobre o vosso instituto digam!
Publicado por MM às 4:09 PM | Comentários (10)
agosto 29, 2005
Tácticas

Publicado por VB às 10:06 PM | Comentários (0)
agosto 28, 2005
Crónica de um Parecer
Mesmo se o portal do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) não exibe os relatórios sobre o estado da aplicação das novas tecnologias à vida humana relativos aos últimos seis anos (relatórios que constituiriam por lei um recurso fundamental de informação científica ao Governo), os pareceres acerca de certas "questões actuais" no domínio das "Ciências da Vida" não têm sido emitidos com atraso. Ou melhor, tal como a mirada atenta do PP demonstrou, não têm sido emitidos com grande atraso.
O esforço português para legislar sobre o uso em investigação biomédica de embriões ou inviáveis ou excedentários das práticas de procriação médica assistida (PMA) parece, ele próprio, em início de gestação (apesar das exortações feitas pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa desde o ano da nossa adesão). Contudo, a publicação no ano passado do parecer do CNECV (44/CNECV/2004) acerca da PMA surpreendeu os informados, expressou uma vontade comum de passar do abstracto ao real e, repentinamente, colocou a esse respeito Portugal numa posição mais liberal que a da Alemanha ou Itália.
Excluo aqui a parte do parecer relativa a PMA pura e dura (por assim dizer), que elabora o fundamento moral para proteger do sofrimento o indivíduo estéril (pelo princípio da beneficência), [...]dos interesses da ciência o indivíduo humano (?), da substituição destemperada o naturalmente fértil (pelo princípio da subsidiariedade), e da transferência de mutações genéticas (a ponderar) os futuros pais. Excluo também toda a discussão acerca da protecção do futuro feto (pelo princípio da vulnerabilidade) contra a falta de um projecto parental, contra a "nefasta" influência dos casais homossexuais (artigo número 6), contra a [...]instrumentalização da vida humana, contra a intervenção de gâmetas "estranhos" (embora, se contemplem excepções que eventualmente justificam a doação de gâmetas, com as respectivas considerações quanto à comercialização do corpo humano ou fortuitas relações de identidade entre filhos e pais biológicos). Nestes domínios a nossa lei até já tem história. Por exemplo (e para que não se ande por aí a comentar de graça o machismo da sociedade portuguesa), o artigo 168o do Código Penal condena a entre 1 e 8 anos de prisão a quem [...]praticar acto de procriação artificial em mulher, sem o seu consentimento!
O parecer 44/CNECV/2004 enfrenta o uso de embriões excedentários de um modo algo desinibido quando comparado com o parecer de 1997. No presente documento, a utilização do embrião excedentário para fins de investigação científica é posta como alternativa extrema à sua destruição (artigos 19 a 21) por ser vista, de entre todos os males, como o "segundo menos pior". Pelo que entendi, a premissa do CNEV é concentrar toda a atenção moral do legislador sobre a dignidade dos nascituros (sem discriminação de estado embrionário), embora os pais, os trabalhadores médicos e os cientistas sejam também (pontualmente, alguns) considerados. O parecer inclui pois o esboço de uma tentativa de ordem moral de prioridades que culmina no artigo 22 onde se diz que, para evitar a destruição dos embriões excedentários, e descartada a possibilidade da investigação ser desenvolvida para viabilizá-los, derroga-se o enunciado geral para permitir uma investigação que, [...]não actuando em benefício dos próprios, resulte em benefício da humanidade. Os seis subsequentes (e últimos) artigos lidam com a regulamentação de procedimentos e moldes de legitimação das entidades a executá-los.
Esta demarcação entre o individual e o colectivo é, pelo aprendido da nossa experiência histórica, um factor verdadeiro de segurança. A disponibilidade para o uso científico dos embriões, sem contudo escapar à etiquetagem da Ciência como "sempre-vilã", acrescenta ainda uma possível via positiva para o progresso do conhecimento.
Mesmo se ainda no adro, a procissão rumo ao vigor da primeira lei "real" espicaça uma curiosidade vagamente semelhante à do mendigo diante da nota de mil. Como foi possível ao CNECV ultrapassar tão amplo impasse ideológico, de teor transnacional? Com a licença do Gabriel Alves, até o Conselho da Europa, que é um órgão habitualmente tão escorreito na arte de chegar a consensos, parece encontrar especial dificuldade na deliberação. Não olhando senão para a composição do corpo de conselheiros do CNECV, apenas descobri (o que já foi muito bom) que a ética é independente da geriatria e que princípios filosóficos ditos (pelos redactores do parecer) "universais", são afinal eficazes na ultrapassagem da mera imposição legal de opiniões. Será mesmo verdade que o factor tempo não joga somente a favor dos processos evolutivos segundo Darwin?
A cor política aqui tampouco importa. Não parece determinante o facto de o 44/CNECV/2004, embora mais abrangente, ter emergido de duas propostas de lei da "esquerda" (uma do PS e outra do Bloco). De resto, a última proposta de lei sobre o tema foi aprovada a decreto (vetado pelo Presidente da República em 1999) pelo voto conjunto do PS e do CDS/PP (com a abstenção do PSD e os votos contra do PCP e do PEV). É contudo difícil (e até incompetente) discernir quem representa quem no CNECV. Ainda que a filiação partidária seja por princípio relativamente independente da ética, chegou-me ao ouvido rumores de que a abstenção de Daniel Serrão na votação para a versão final do 44/CNECV/2004 (quanto às ditas derrogações da restrição de uso de embriões excedentários para a investigação) causou certa indignação nos círculos socialistas. Sem querer estar a creditar falsos testemunhos, pergunto-me se não será Agostinho Almeida Santos (outro conservador neste campo) a voz da "vigilância bioética" do PS. Ou ainda pior, pergunto-me se não planeará Sócrates aderir à "antiga" linha do Partido Socialista (a que foi capaz de atrair o voto CDS) e até tentar alterar o "relativo" equilíbrio de forças a que chegaram os actuais conselheiros do CNECV.
Ao ler a declaração de voto de Serrão quanto ao "quente" artigo 22 do parecer, fica-se consciente não tanto de uma inflexão de opinião mas de uma concessão ao "adversário" pela já referida escolha tipo "do mal o menos". A razão desta "mudança" continua oculta. Teria sido por pressão de alguma "agenda" escondida? Teria sido o desgaste da contenda no Conselho da Europa ou a digestão cuidada do significado que ele próprio deu ao seu vínculo com os princípios da ética personalista? Teria sido a posição do metodista William F. May, antigo membro do Conselho para Bioética da Administração Bush, e recentemente presente no Fórum Gulbenkian de Saúde Pública?
Talvez tenha sido apenas um esforço para colocar a posição de Portugal ao centro onde, dizem, está o melhor: entre a Alemanha e a Inglaterra. Fica tudo arrumado, destacamo-nos do fundamentalismo religioso estado-unidense e, fora do templo, levemente acenamos cúmplices ao efeito cristão (ainda subsistente) sobre o poder de Estado na Europa.
Publicado por VB às 6:12 PM | Comentários (11)
agosto 27, 2005
Sondagem no Conta Natura
Como qualidade é mais importante que quantidade e como o sitemeter não é tudo senti necessidade de fazer esta sondagem pelo que por favor carregue aqui e escolha a opção mais adequada (mesmo que não seja absolutamente correcta).
Muito obrigado, Rui
Ps. A sondagem acabou de ser actualizada de modo a responder a algumas das críticas
Publicado por maradona às 4:40 PM | Comentários (13)
agosto 26, 2005
Crónicas de sexta-feira: Bronze
As células da crista neural formam-se numa zona adjacente ao tubo neural. Uma vez formadas estas células migram ao longo do embrião e dão origem a diferentes tipos de células: neurónios e células glia do sistema nervoso periférico, cartilagem e ossos da cara e maxilar e as células da pele responsáveis pela produção de melanina (melanócitos). A melanina eí sintetizada por melanócitos localizados na zona basal da epiderme e tem um papel fundamental na protecção da pele contra os efeitos nefastos da luz solar (o “bronzeado” resulta de um aumento de produção de melanina na pele). Existem varios síndromes humanos associados a uma função deficiente dos melanócitos. Em casos extremos tais doenças são associadas a uma situação de albinismo em que o indivíduo possui uma pele rosácea, cabelo branco, pupilas vermelhas, rosáceas ou azuis. Outros casos menos graves podem ser caracterizados, por exemplo, por zonas de descoloração da pele (geralmente as mais distantes do sitio original de diferenciação dos precursores de melanócitos. A cor da pele em seres humanos, mas também em muitos outros animais, resulta portanto da actividade de uma fascinante população de células cuja a formação ocorre num sitio bem determinado e que durante o desenvolvimento embrionário se espalham por toda a superfície do organismo.
Publicado por maradona às 11:45 PM | Comentários (0)
Crónicas de sexta-feira: Africa
Entre uma classe dirigente tragicamente corrupta, poderosos interesses económicos e uma crónica indiferença do ocidente o continente africano arrasta-se. Um continente geograficamente único possui muitos dos mais importantes ecossistemas do nosso planeta. Fazendo jus a uma tradição de excelência editorial o numero de Setembro da National Geographic (edição americana) foi inteiramente dedicado a ¡frica.

"On northern Kenya's dry plains, nomadic Rendille herders live in settlements called gobs, where valuable livestock is protected by circular pens made of thorn bushes surrounded by the herders' homes. In places where water and green pastures are scarce, pastoralists must remain mobile to survive."
National Geographic
Publicado por maradona às 10:24 PM | Comentários (0)
Glória aos Cientistas Portugueses
São 3 os portugueses que surgem destacados numa lista de 250 cientistas obtida a partir da selecção de 22 áreas científicas: António Damásio, António Coutinho e Carlos Duarte, dois médicos e um biólogo marinho. Estes nomes, já bem conhecidos de todos, surgem citados num relatório da Thomson com base nos dados fornecidos pelo Institute for Scientific Information (ISI).
Da minha parte faço aqui do Conta expressão pública da minha admiração para com o António Coutinho, não apenas pela sua gigantesca dimensão intelectual e humana mas também por se manter fiel à nacionalidade portuguesa! Do grupo de sangue luso, ele é the last of the mohicans! Parabéns aos cientistas portugueses!
O Ricardo pediu-me para colocar uma imagem alusiva ao post. Fiz uma montagem em que, da esquerda para a direita, aparecem os Profs . Damásio, Coutinho e Duarte. Houve alguns problemas técnicos com o Photoshop que merecem dois esclarecimentos: 1) o tamanho da cabeça dos cientistas não está representado à escala do seu impacto nas respectivas comunidades; 2) o aspecto algo diáfano -e mesmo fantasmagórico - da fotografia foi um acidente e não uma tentativa de evitar a acusação de que no Conta praticamos o culto da personalidade. VMB
Publicado por RPA às 3:34 PM | Comentários (13)
agosto 25, 2005
O Dalai Lama e a Ciência

O Dalai Lama está no centro de uma discussão entre cientistas sobre os seus planos de vir a dar um seminário na conferência anual da Sociedade de Neurociências que irá realizar-se em Novembro próximo. Este seminário deriva do interesse crescente de como a meditação Budista pode afectar o cérebro humano. Alguns investigadores, que consideram estes estudos como “má ciência”, dizem que boicotarão a conferência se o Dalai Lama vier a público discutir as influências da meditação. Muitos outros cientistas partilham da opinião de que não é apropriado ter um líder religioso numa reunião científica.
O Dalai Lama acredita que o corpo e a mente podem ser separados e passados a diferentes pessoas. No entanto, não existem bases científicas sólidas que o provem. Desde sempre, o Dalai Lama tem demonstrado um interesse em ciência e disse uma vez que se não fosse monge seria engenheiro. Durante a última década ele tem encorajado muitos neurocientistas a estudar os efeitos da meditação budista, dando entrevistas e seminários em universidades Norte-americanas.
Tipicamente, os monges budistas passam bastantes horas por dia em meditação e pensa-se que esta prática poderá aumentar os seus poderes de concentração. Meditadores treinados declaram poder manter a sua atenção num único objecto durante horas sem distracções ou mudar a sua atenção cerca de 17 vezes num segundo. Ambas as reivindicações estão contra o pensamento científico actual que diz que a atenção não pode ser mantida por tanto tempo nem mudada tão rapidamente. Alguns cientistas já começaram a realizar estudos para conseguir provar estes factos. Alguns acreditam que estas habilidades dos monges podem ser devidas à plasticidade neuronal, a capacidade de adaptação e mudança que está presente mesmo em cérebros de mamíferos adultos. Parte destas investigassões já foi publicada em Novembro passado pela equipa liderada por Richard Davidson, no jornal científico PNAS. Neste artigo, os autores sugerem que as redes neuronais cerebrais de pessoas treinadas em meditação são melhor coordenadas. Estes cientistas, que incluem Matthieu Ricard, um monge budista com um doutoramento em Biologia Molecular, dizem que as diferenças cerebrais observadas podem explicar a elevada consciência que os monges dizem possuir.
Richard Davidson faz parte do grupo de cientistas que convidou o Dalai Lama a dar o seminário que será o primeiro numa série que busca aumentar o diálogo entre a neurociência e a sociedade. Carol Barnes, a presidente da Sociedade para a Neurociência, disse: “O Dalai Lama tem tido um grande interesse em Ciência e mantido um diálogo constante com os neurocientistas desde há mais de 15 anos, esta é a razão por que foi convidado a falar nesta conferência. Foi concordado que o seminário não será sobre religião ou política. Nós compreendemos que nem todos os membros concordem com todas as decisões e respeitamos o seu direito a discordar” (fonte The Guardian, UK)
Um pequeno grande pormenor acerca de toda esta discussão é o facto da maioria dos cientistas opoentes ao seminário do Dalai Lama serem de origem chinesa. O Dalai Lama tem vivido no exílio na índia, desde que escapou às tropas chinesas no Tibete em 1959.
Publicado por SJA às 10:11 AM | Comentários (6)
agosto 24, 2005
O desígnio inteligente
O título é exactamente aquilo que parece: uma má tradução da expressão intelligent design (ID), que se torna surpreendentemente correcta, como se uma falácia anulasse a falácia original. Simplifiquemos.
O debate em torno do criacionismo não é estimulante do ponto de vista intelectual, como já tive oportunidade de escrever. Mas é um sinal dos tempos que, de resto, contradiz a tão propagada ideia de que assistimos hoje a um ataque à religião. Eu diria que assistimos antes a uma retaliação. Aqui no conta tivemos já um post do Thiago, um do Vitor e outro meu sobre o assunto. Desta vez vou procurar desmontar o embuste que é o ID, avançando por pontos.
1. Da mesma forma que alguns partidos políticos têm braços armados (organizações terroristas, em regra), o ID deve ser visto como a célula operacional dos criacionistas que se tenta infiltrar no mundo da ciência. O problema do criacionismo é a sua profunda estupidez. Se alguém acredita num mito de criação de um modo literal, sem ponta de alegoria ou metáfora, deve conseguir explicar por que motivo escolheu um entre centenas. Deve depois esclarecer se aceita ou não os dados da ciência que são incompatíveis com tal mito da criação. Rejeitando esses dados sem um fundamento científico válido, deve justificar o que o leva a não rejeitar a ciência tout court. Uma vez percorrido este caminho, que nos deixa entre a Idade da Pedra Lascada e Roger Bacon, podemos concluir que o criacionismo não é compatível com a razão e o epíteto de "estúpido" soa até a elogio. O criacionismo é, na verdade, irracional. Ora, este mel para fanáticos transforma-se em fel quando chega às elites e criou um problema de credibilização do criacionismo junto da opinião pública mais ou menos esclarecida. A solução encontrada foi o ID, que se apresenta como um corpo teórico credível e científico. A jogada não foi propriamente subtil e a presença do termo "intelligent" no nome da teoria soa a acto falhado.
2. A estratégia de credibilização do ID está alicerçada em três mandamentos: 1) serás um cientista; 2) falarás com um cientista; 3) não pronunciarás o nome de Deus em vão. O terceiro mandamento soa vagamente familiar, mas aqui cumpre outro papel. Não se trata de proteger o nome de Deus, mas antes de camuflar a colagem óbvia ao criacionismo. São vários os pseudónimos alternativos: uma "força", uma "entidade inteligente", uma "entidade complexa". Com a possível excepção dos entusiastas da saga Star Wars, ninguém sabe exactamente quem ou o que são estas entidades. Na dúvida, o mais simples é continuarmos a falar de Deus.
3. O primeiro mandamento é parte de uma pequena tragédia. Cientistas crentes deixam de conseguir separam o mundo da ciência do mundo da religião e tornam a primeira escrava da segunda. Aqui importa fazer um ponto de ordem. Não é pacífico saber até que ponto a ciência é compatível com a religião. Tenho uma opinião sobre o assunto, mas sei que o espectro de posições é vasto. Defendo que não há incompatibilidade alguma, desde que a ciência e a religião não se toquem. A ciência trata de compreender como o universo funciona, o que não é da competência da religião; a religião ocupa-se das questões filosóficas para as quais a ciência não tem tido resposta. Com alguma disciplina mental deve ser possível separar estes dois mundos. Uma coisa é certa: não há qualquer guerra aberta entre cientistas crentes e cientistas não crentes, ao contrário do que se possa pensar. Outro dado seguro: a religião não tem o monopólio da ética e da moral, pelo que um cientista ateu (ou agnóstico, mas não vamos entrar nestes detalhes) não é um Dr. Frankenstein em potência. A guerra só se instala quando uma minoria de cientistas crentes entende que é altura de misturar estes dois mundos. Para quem quiser ler mais sobre este assunto, recomendo este artigo do NYT (PDF), que o Santiago me indicou.
4.O segundo mandamento é o mais pertinente. Seria também o mais divertido, se o que estivesse em causa não fosse grave (sobretudo nos EUA). O debate em torno do ID, isto é, da existência de um plano divino, precede a discussão sobre a teoria da evolução. É também uma discussão de alcance mais vasto, que ultrapassa a biologia e se estende aos seres inanimados. Grandes filósofos - Platão, São Tomás de Aquino, Hume- debateram o tema no passado e a sua importância percebe-se facilmente: a existência de um plano para o universo concebido por uma inteligência seria uma prova da existência de Deus. Um dos argumentos pró-plano divino mais conhecidos foi imaginado por William Palley e diz essencialmente o seguinte: se eu tropeçar numa pedra e me perguntarem como a pedra foi ali parar, poderia muito simplesmente dizer que a pedra sempre esteve ali e a resposta não seria descabida; porém, se eu tropeçar num relógio, a resposta anterior já não é válida, porque é óbvio que as partes do relógio não foram montadas ao acaso e para o relógio haverá seguramente um relojoeiro. Argumentos contra o plano divino também não faltam. É frequente fazer notar que nenhum Deus desenharia um mundo com tantas catástrofes (argumento que se ouviu aquando do maremoto que recentemente varreu a costa de partes da ¡sia, em discussões decalcadas a papel químico das que tiveram lugar por altura do grande terramoto de Lisboa, quase 250 anos antes). Cenas horripilantes do mundo natural, dignas de um Aliens V, levaram também Darwin a duvidar da mão do Criador. No ciclo de vida das vespas da família Chneumonidae, os ovos são injectados em lagartas de heminópteros, que cumprem o papel de hospedeiros involuntários, condenados a uma morte atroz, quando as larvas das vespas os começam a devorar por dentro. Não pondo de lado a hipótese de se tratar de um capricho do velho Charles, creio que, caso opinassem, as borboletas estariam de acordo com ele quanto ao absurdo que é pensar num plano divino da autoria de um Deus, enfim, decente. A lista de argumentos a favor e contra é vasta, mas o importante aqui é notar que são argumentos que recorrem à lógica, à metáfora, à alegoria, a truques de retórica. Os defensores do ID tentam ir um pouco mais além, apresentado "dados científicos". É aqui que a discussão se torna interessante.
(continua)
Publicado por Conta Natura às 10:16 AM | Comentários (6)
agosto 23, 2005
The report of my death was an exaggeration...
A esperança é que alguém me cale na caixa dos comentários com uma tirada à Mark Twain, mas a julgar pela página da Sociedade Portuguesa de Genética (SPG), a Sociedade morreu. Ao consultar a página, o leitor tem acesso a informações imprescindíveis, como o número de fax do segundo vogal. A única dúvida é saber se o número de fax ainda funciona. Isto porque o último número do RNA mensageiro (o boletim informativo da sociedade) data de Janeiro de 2003. A suspeita cresce quando verificamos que um dos últimos anúncios é para um curso que teve lugar de 3 a 7 de Maio de 2004. O nome do curso ainda é mais inquietante: MÉTODOS DE CONSERVA«√O A LONGO PRAZO (...): CONSERVA«√O PELO FRIO. Será que a SPG resolveu criopreservar-se? Da altura em que a sociedade ainda dava sinais de vida sobrou uma lista longa com títulos de artigos publicados mas sem enlaces para os respectivos pdfs. É pena, pois os artigos são pertinentes e foram escritos em Português por cientistas, fazendo a sempre difícil ponte entre a literatura especializada e literatura de divulgação científica (ou jornalismo) da autoria de quem não tem uma formação científica de base.
Bem sei que a qualidade de uma página de internet não é um critério suficiente para julgar a SPG. Estas sociedades, sobretudo num país como o nosso, vivem muitas vezes da carolice de uma mão cheia de pessoas. Se há a sorte de aparecer um mais voluntarioso e com queda para o web design, a página fica uma maravilha. No entanto, não deixa de ser preocupante constatar quão inactiva a página parece estar. Não estamos propriamente a falar de apicultura (com o devido respeito que os apicultores merecem). A par da informática, a genética foi provavelmente a disciplina científica que mais cresceu, se colocarmos sob a sua alçada a biologia molecular (o que não me parece desajustado). É também a disciplina que gera mais falsas e legítimas esperanças, falsos e legítimos medos. Um país como Portugal não se pode dar ao luxo de ter uma Sociedade de Genética adormecida. Oxalá esteja enganado, mas é o que parece.
Publicado por Conta Natura às 4:31 PM | Comentários (5)
Inquérito
⁄ltima oportunidade para dar sugestões para o inquérito para eleger o melhor instituto de investigação para cientistas Portugueses. Para já, ficou estabelecido que é importante perguntar sobre a facilidade de encontrar comida portuguesa e outros Portugueses. Também houve sugestões no sentido de perguntar sobre a qualidade de transportes para o instituto de investigação, e sobre a qualidade do sexo oposto.
Começo a preparar o inquérito esta semana mas ainda podem ir dando sugestões!
Publicado por MM às 4:25 PM | Comentários (2)
Sobrevoando a floresta

"Vista aérea" de astrócitos do cérebro de um ratinho, marcados com fluorescência. Em plena era estaminal, convém mostrar uma das maiores esperanças da formação e regeneração de tecido cerebral em mamíferos.
Fotografia de Gordon Fishell, Professor associado e investigador no Skirball Institut of Biomolecular Medicine, New York University.
Publicado por VB às 4:14 PM | Comentários (9)
agosto 21, 2005
O Ouro Genómico
Embora a história seja muito mais longa, tudo parece ter começado no fim da década de 80. O DNA passava definitivamente para o âmbito público como instrumento inequívoco na descoberta do criminoso, do pai e, às vezes, de ambos ao mesmo tempo. Visto como manancial de respostas para qualquer pergunta, o DNA deixou de ser objecto do gozo académico de Watsons e Cricks ou base molecular para justificar Mendel e Darwin. O DNA saiu à rua. Na opinião do público com algum tempo de sobra na actividade de sobreviver, repentinamente mais sensível aos assuntos biomédicos depois daquela calamitosa década, percebeu-se (um pouco instintivamente) um novo "capital popular": o genoma.
Por todo o "mundo ocidental" (que misteriosamente relaxa o seu significado geográfico para incluir a Oceânia e o Japão), começaram a aparecer grandes repositórios de amostras de DNA genómico humano. Pessoas desejosas de contribuir de algum modo para o avanço de qualquer conhecimento que permita combater as disfunções hereditárias que as afligem, colocaram voluntariamente à disposição de organismos públicos ou semi-privados (quase sempre centros de investigação associados a hospitais universitários) o próprio DNA. Citando um relatório elaborado pela National Bioethics Advisory Commission (EUA), o jornalista de ciência Pedro Lima, informa que em 1999 estimava-se em cerca de 282 milhões o número de amostras de DNA humano armazenadas naquele país, mais de 2 milhões das quais destinados à investigação. No mesmo artigo Pedro narra como "novas políticas" fizeram descarrilar do rumo inicial a função dos bancos de DNA na Europa.
Exemplos não faltam. Um dos mais falados refere-se ao projecto Chronos, iniciado em 1991 em conjunto com o Centro de Estudos do Polimorfismo Humano (CEPH). Abstraída a ironia do nome, este projecto, através de anúncios na imprensa, logrou recolher DNA de 800 franceses com mais de noventa anos, para estudar a base genética da longevidade, isto é, para isolar e caracterizar genes ...cuja função natural seja a de controlar o envelhecimento e proteger o indivíduo contra doenças. Com efeito, os primeiros estudos pareceram prover resultados de notável interesse. No entanto, em Abril de 1996 a direcção do CEPH anunciou a assinatura de um contrato com uma agressiva empresa francesa de biotecnologia (Genset) e que incluía como mercê, o direito exclusivo de valorizar os resultados do projecto Chronos. Como contrapartida o CEPH recebeu uma contribuição financeira de mais de 5 milhões de euros. Obviamente, este negócio foi fechado longe do "inconveniente" conhecimento dos doadores e representou ao mesmo tempo uma decisão autocrática (quanto ao objectivo original do banco como instrumento de investigação fundamental) e uma mentira a centenas de pessoas idosas. Além disso, alguns cientistas que constituíam o corpo inicial de investigadores foram despedidos após denunciarem os efeitos adversos de tais manobras. Não obstante as batalhas jurídicas e alguma inevitável cobertura dos meios de comunicação, o resultado foi sem surpresas: cod fish waters.
Para quem já foi insensibilizado pelos mecanismos, pobres em escrúpulo mas ricos em versatilidade de meios, com os quais tantas pessoas ou entidades efectuam uma produção maciça de capitais, não há muita inocência sobrante para fazer crer que este foi apenas "um caso isolado". O próprio CEPH esteve na base de uma controvérsia anterior à do Chronos, a propósito da negociação do acesso exclusivo do consórcio estado-unidense Millenium a um banco de DNA para o estudo da diabete. Quantas sociedades norte-americanas dedicam-se hoje, de maneira exclusiva ao retalho do DNA? Só há informação de que existem mas muito poucos números. Parte da explicação reside no facto de que a maioria da compra e venda de direitos de acesso a determinados bancos de DNA existe sob a égide da famosa alma do negócio. Os acordos chegam pois à luz do dia muito discretamente ou quando já é demasiado tarde para tentar evitar o derramamento do leite. E as leis? Por alguma razão, igualmente secreta, estas compartem pelo menos uma propriedade das fezes do obstipado: custam muitíssimo a sair. Entre pareceres de comissões de ética (com pouco efeito legal) e relatórios encomendados a cientistas com frequentes "ligações perigosas", algumas medidas vão sendo tomadas. Esperemos que a tempo.
Porquê a urgência? Porque, ironicamente, as famílias geneticamente isoladas e com muitos filhos portadores de uma doença específica são particularmente interessantes para os geneticistas que, estudando-as, podem isolar mais facilmente os genes em causa. Ora,
famílias numerosas + forte consanguinidade + interesse dos grandes laboratórios = países do Terceiro Mundo e América Latina.
O já batido tema da falta de regras éticas no jogo dos genomas poderá levar a uma aceleração da comercialização do gene como mais uma matéria-prima, qual petróleo ou urânio. E a gravidade deste perigo não se limita ao drama do instituto público que tem que pactuar com as biotechs para conseguir o financiamento necessário a pelo menos alguma da sua investigação, nem ao do cientista que põe "óculos de couro" para concentrar-se apenas no que tem sobre a bancada e (com um pouco de sorte) continuar com o emprego. O perigo está também num novo tipo de ...colonialismo científico, que assegura o acesso de laboratórios privados a amostras de doentes...em troca de um simples convite a uma conferência científica ou de uma citação num artigo científico, para o médico ou investigador local, como diz Ségolène Aymé, directora de investigação do instituto francês de saúde e investigação médica (Iserm) e presidente da Federação Internacional de Sociedades de Genética Humana (IFGHS).
Para evitar equívocos: o mal não está nas interacções público-privado. Tais parcerias são uma óbvia fonte de financiamento para um grande número de projectos científicos. Mas deve ser salvaguardada a base moral dos procedimentos. Vale recolher amostras de DNA de um grupo de pessoas contra informadas (como por exemplo na região mexicana do Iucatão) para depois satisfazer os apetites da era farmacogenómica? Como se poderá coadunar a questão do anonimato de dadores de DNA em bancos formados para ensaios clínicos, com a necessidade de salvaguardar o seu direito à informação (e à decisão) quanto a outros estudos com o mesmo DNA (e com potencial valor comercial no futuro)? Não será legítimo pensar que parte dos lucros produzidos por um tratamento desenvolvido graças ao estudo de uma população é devida a essa mesma população e que deveria ser revertida para o seu próprio benefício?
Publicado por VB às 6:47 PM | Comentários (22)
agosto 19, 2005
Crónicas de sexta-feira: Tempo
A origem das espécies segundo Darwin explica a evolução recorrendo apenas a três princípios básicos: acaso, selecção e tempo. O acaso cria de uma maneira estocástica e não dirigida variedade de opções. Esta variedade de opções leva ao aparecimento de potenciais soluções para diferentes problemas. A selecção natural leva a uma escolha pragmática das melhores soluções. No entanto isto não significa que seja a melhor opção a longo prazo, antes pelo contrário a selecção natural escolhe apenas a melhor solução para o preciso momento em que ocorre. Esta discrepância potencial entre as vantagens presentes e as eventuais desvantagens futuras explica parte das extinções em massa ocorridas no passado. O terceiro principio eí o tempo e apesar da sua importância ser evidente o seu verdadeiro significado eí pouco compreendido pela opinião pública. Quando alguém afirma que apenas Deus pode explicar a complexidade do ser humano está a demonstrar uma completa incompreensão da importância do factor tempo. Quando falamos em evolução estamos a falar em dezenas ou centenas de milhões de anos. Acontece que tais unidades de tempo são pouco intuitivas para o ser humano. O tempo torna o impossível possível, o improvável provável e o acaso ganha uma dimensão omnipotente apenas comparável a deus. Se uma pessoa atirar uma moeda ao ar 10.000 vezes a probabilidade de sair sempre “coroa” e nunca “cara” eí quase nula (de facto pode mesmo ser considerada probabilidade zero) no entanto tal situação não viola qualquer lei física e se houver tempo suficiente para o fazer mais cedo ou mais tarde vai inevitavelmente acontecer. O tempo torna o improvável inevitável.
Publicado por maradona às 11:55 PM | Comentários (0)
The Soul Gene

(figura adaptada de um interessante texto de Robert Williams)
São notáveis as semelhanças entre o genoma humano e o dos grandes primatas (gorilas, orangutangos, chimpanzés).
As diferenças na sequência de nucleotidos constituem menos de 2% das 3,2 mil megabases presentes nestes genomas, facto que é usualmente interpretado como uma fortíssima evidência para a existência de uma espécie ancestral, comum ao Homem e aos outros Primatas.
A diferença mais significativa entre os genomas destas espécies é cariotípica e está ilustrada na figura: O cromossoma 2 humano é o resultado de uma fusão, topo a topo, de dois cromossomas (chamados 2p e 2q) independentes, que existem nos outros Primatas. Chimpanzés, no exemplo da figura.
A evidência experimental para a ocorrência desta fusão parece ser irrefutável: Na figura, as setas indicam que (A) o cromossoma 2 humano reteve o centrómero do cromossoma 2p, (B) a sequência do centrómero do cromossoma 2q do chimpanzé é reconhecível numa região pseudo-centromérica presente no cromossoma 2 humano e finalmente (C) o resquício dos dois telómeros originais se encontra na posição esperada...
Parece-me que, se há explicação genética para as óbvias diferenças entre os humanos e os outros primatas (mais óbvias nalguns casos do que noutros, concedo...), ela deve ser procurada nesta região (peri-centromérica) do nosso cromossoma 2...
Ora, tendo em mente o que distingue os humanos dos chimpanzés, que espécie de informação genética é provável que esteja contida nesta região?
Não será certamente o gene dos polegares oponíveis e não deverá ser também (admitindo que o Luís Figo é um mero humano) um gene repressor do hirsutismo...
Nada disso! A meu ver é aqui, na região peri-centromérica do braço longo do cromossoma 2 humano que viremos a encontrar o gene da Alma (chamem-lhe, se preferirem, 'Consciência', 'Inteligência', 'Self-Awareness', ou 'whatever'...
Aguardo por isso, ansioso e impaciente, a publicação da sequência completa (anotada, de preferência) do cromossoma 2.
Post-fácio com uma pergunta aos partidários do Intelligent Design:
Que aconteceu no atelier do(a) hipotético(a) Grande Desenhador(a)? Será que, insatisfeito(a) com o amacacado resultado dos 48 cromossomas originais, decidiu continuar com o 'cut and paste' (coisa facílima de fazer em Photoshop), ou antes, chocado(a) com o produto risível dos 46 cromossomas, decidiu cortar tudo aos pedacinhos, mas foi interrompido(a) a meio?
Publicado por Santiago às 4:24 PM | Comentários (2)
agosto 18, 2005
A Associação Viver a Ciência
A Associação Viver a Ciência é uma associação sem fins lucrativos formada por jovens cientistas que, maioritariamente, desenvolvem a sua investigação em Portugal. Tem como objectivo principal envolver os cidadãos na promoção da Ciência e das carreiras em investigação científica. Surge da convicção por parte de cientistas da área das Ciências da Vida de que, para assegurar o continuado desenvolvimento do país, é necessário reforçar o investimento em Ciência e Tecnologia, envolvendo directamente as entidades privadas e os cidadãos. A Associação Viver a Ciência dedica-se a organizar iniciativas, eventos e acções de divulgação de Ciência, sempre baseados na criação de espaços de diálogo entre cientistas e cidadãos, e a angariar fundos privados destinados ao apoio financeiro de projectos e investigadores científicos.
O lançamento oficial da Associação Viver a Ciência decorreu a 24 de Novembro de 2004, na Academia das Ciências de Lisboa e contou com a presença do Presidente da República, Jorge Sampaio, da então ministra da Ciência e do Secretário de Estado da Ciência e Inovação, bem como de vários representantes das áreas científicas, empresariais e políticas do país. No seguimento deste evento de lançamento a Associação Viver a Ciência iniciou a preparação de actividades para 2005, assim como a sua apresentação a possíveis patrocinadores.
Para cumprir um dos seus objectivos (trazer mais recursos privados e empresariais para a investigação científica) a associação lançou, em Fevereiro de 2005, dois importantes prémios para cientistas: o prémio Crioestaminal, no valor de 20.000 euros, que financia o melhor projecto a dois anos de investigação em Biomedicina em Portugal, e o prémio Citomed, no valor de 3.000 euros, que financia 3 participações em conferências científicas internacionais, a cientistas que desenvolvam o seu trabalho em Portugal. O prémio Crioestaminal ainda não foi atribuído e o primeiro prémio Citomed foi atribuído, entre 34 candidato(a)s, a uma investigadora da Universidade do Algarve, para a participação numa conferência na Bélgica.
No âmbito da promoção da Ciência, a Associação Viver a Ciência, em colaboração com os laboratórios Pfizer, realizará em Dezembro deste ano uma exposição de fotografia científica no Centro Cultural de Belém em Lisboa. Esta exposição, intitulada “Laboratório de imagens” pretende explorar o valor artístico gerado durante o processo de investigação científica, proporcionando ao público uma perspectiva diferente do modo como actualmente se faz Ciência em Portugal.
A nível local, decorreu de Janeiro a Junho de 2005, o “Oeiras vive a Ciência” patrocinado pela Câmara Municipal de Oeiras e em colaboração com outras instituições, visando a promoção do conhecimento, a interacção e o envolvimento de cidadãos e estudantes nas actividades científicas desenvolvidas no Concelho de Oeiras.
A nível nacional, a Associação Viver a Ciência começou um projecto aprovado pela Comissão Europeia, cujo objectivo principal é promover o diálogo entre políticos pertencentes à comissão parlamentar para a Ciência e cientistas. Para tal, a Associação Viver a Ciência produzirá uma brochura para dar a conhecer alguns exemplos de histórias de sucesso na Ciência portuguesa.
A Associação Viver a Ciência conta também com actividades destinadas a incentivar os investigadores a comunicarem melhor o seu trabalho ao público e aos meios de comunicação. O segundo workshop Comunicar Ciência, decorrerá em Setembro, no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, esperando-se novas edições nos próximos anos tanto na àrea de Lisboa como em outras partes do país.
Desde a sua fundação, a Associação Viver a Ciência, tem vindo a percorrer um longo caminho, num curto espaço de tempo. O apoio que tem tido dos vários sectores da sociedade e o esforço dos seus membros tem-se revelado essencial para o seu progresso. É, no entanto necessário que este seja um esforço contínuo e que o número de membros continue a aumentar.
texto de Margarida Trindade e Sofia Jorge Araújo
Publicado por SJA às 10:03 AM | Comentários (0)
agosto 17, 2005
Evangelical Scientists Refute Gravity With New "Intelligent Falling" Theory
KANSAS CITY, KSóAs the debate over the teaching of evolution in public schools continues, a new controversy over the science curriculum arose Monday in this embattled Midwestern state. Scientists from the Evangelical Center For Faith-Based Reasoning are now asserting that the long-held "theory of gravity" is flawed, and they have responded to it with a new theory of Intelligent Falling
(resto aqui...)
Publicado por maradona às 10:31 PM | Comentários (11)
agosto 15, 2005
Sean Taverna

Apresentado através de um comentário de Barba & Cabelo na semana passada, o cartoonista/cientista Sean Taverna tem esta "entrada directa" no Conta.
Se bem que para os "amantes" da biologia celular uma legenda aqui poderá "estragar a piada", talvez seja conveniente refrescar a memória dos menos familiarizados com o tema: histonas são proteínas altamente conservadas que interagem entre si formando uma unidade estrutural repetitiva essencial para a organização tridimensional do DNA.
Publicado por VB às 6:13 PM | Comentários (7)
agosto 14, 2005
O Mundo do Nicolau

No seu best-seller O Mundo de Sofia, o ex-mestre de Filosofia (agora novelista e dramaturgo) Jostein Gaarder, popularizou a visão do ensino da crítica racional e respectiva história.
Tendo como premissa que toda ...a incultura científica é simplesmente incultura, outro professor do secundário, Carlos Chordá, publicou recentemente a sua versão de como levar a ciência à mente de um adolescente. O paralelismo com Gaarder talvez não seja do inteiro agrado de Chordá, mas a tentação é irresistível. (O livro ultrapassa porém a leviana intenção de mostrar ao "grande público" que a ciência não só é bela como também é útil) Na verdade, tal como Gaarder, Chordá leva pela mão um jovem e revela-lhe o assombroso mundo natural com a mesma intensidade com que lhe expõe o seu próprio entusiasmo em conhecê-lo. A linguagem de Chordá é simples (embora sem limitar muito o conteúdo) e usada com a mestria que é só dos verdadeiros professores. A explicação do "alfa", do desígnio do cientista (e do cabeçalho implícito desta página) exemplifica:
Qual é o objecto da Ciência? O movimento dos astros, a maturação de um fruto, a estrutura do átomo, o interior da Terra, o efeito de um tóxico, a causa da chuva, a evolução da vida, a mente humana, a natureza da luz, o parasitismo, a saúde dos oceanos, a química da respiração, o desenvolvimento dos embriões, a idade do Universo, a sexualidade, a biodiversidade, as combustões, a cor da pele, a acidez, a temperatura do Universo, as emoções, a sida, o buraco no ozono, a fotossíntese, a resistência dos materiais, a vida extraterrestre, a radioactividade, os comportamentos anti-sociais, a fauna da Antárctica, a percepção visual, as adições, a corrente eléctrica, o voo da libélula.
Ciencia para Nicolás (à falta de tradução portuguesa, Editorial Laetoli, 203 p. 2005, 15Ä) é o segundo volume de uma colecção resultante da colaboração entre uma casa editora e a Universidade Pública de Navarra. Esta colecção deve o seu título (Dois Mundos) ao princípio da ambivalência no diálogo entre Ciência e Humanidades, elaborado pelo físico inglês C.P. Snow em 1959 e posteriormente divulgado no seu famoso livro The Two Cultures. Abrindo com a edição em castelhano de Atom. An Odyssey from the Big Bang to Life on Heart... and beyond (que não li) do físico teórico estado-unidense Lawrence Krauss, este conjunto de publicações não pretende alternar livros "técnicos" com obras mais "literárias" acerca de ciência. A apreciação da lista de futuros números permite prever que a alternância residirá antes nos temas a publicar.
Louvável como medida e esperançosa como teor: razões suficientes para agredecer a iniciativa ao Vicerrectorado de Estudiantes y Extensión Universitaria da Universidade de Navarra. A Chodrá, um obrigado do imaginário Nicolau aparece logo no prefácio do livro, com a Carta de Nicolás a Carlos Chordá, pelo punho de o director do Planetário de Pamplona Javier Armentia.
Publicado por VB às 12:21 AM | Comentários (2)
agosto 13, 2005
Teorias

Publicado por VB às 6:01 PM | Comentários (1)
agosto 12, 2005
Crónicas de sexta-feira: Zygomaticus major

As expressões faciais transmitem informação emocional ou social tendo por isso um papel fundamental durante uma conversa. O sorriso aparece muito cedo durante o desenvolvimento de um bebé e o seu significado é essencialmente o mesmo independentemente do contexto cultural ou social onde foi feito. O sorriso espontâneo traduz prazer, alegria ou satisfação. Apesar do significado de “sorrir” ser bem definido e universal, o acto de “sorrir” parece variar de um modo significativo de indivíduo para indivíduo. No entanto se o aparecimento do sorriso resultou da necessidade de comunicar informação entre diferentes indivíduos de um grupo então sorrir tem necessariamente de possuir um conjunto de princípios estereotipados de modo a facilitar o seu reconhecimento e uma correcta interpretação do seu significado. O aparecimento do sorriso espontâneo com os cantos da boca virados para cima resulta da actividade do músculo facial Zygomaticus major. Um estudo recente sugeriu que o aparecimento do sorriso providencia a maior parte da informação que leva à sua correcta interpretação pelos observadores. A reacção espontânea a um sorriso parece resultar acima de tudo de uma resposta às fases iniciais de um sorriso e não às suas fases subsequentes. Os observadores de uma imagem de sorriso (a qual durava em média 3-4 segundos) activaram o seu próprio Zygomaticus major em apenas 0.3-0.4 segundos. Estudos quantitativos de diferentes tipos de sorrisos espontâneos foram capazes de identificar uma base de movimentos altamente estereotipados que ocorrem independentemente de factores físicos, emocionais ou sociais. A fase de aparecimento do sorriso devido à actividade do Zygomaticus major representa um sinal consistentemente produzido em diferentes tipos de sorrisos espontâneos. Ou seja, apesar de o sorriso ser com frequência modificado por outras expressões faciais e apesar de existirem diferentes tipos de sorrisos, o sorriso como expressão facial é constituído por diferentes componentes temporalmente organizados sendo o aparecimento do sorriso (e não a sua manutenção) que providencia a sua correcta percepção.
Publicado por maradona às 2:19 AM | Comentários (1)
Crónicas de sexta-feira: O meu link da semana
Ideal para qualquer pessoa que queira aprender um pouco de genética.
Publicado por maradona às 1:47 AM | Comentários (0)
agosto 11, 2005
Ressaca
A tolerância ao álcool permite-nos beber mais resistindo durante mais tempo à embriaguez. Esta tolerância é diferente de pessoa para pessoa e é um dos factores que pode induzir à dependência alcoólica. Pessoas com elevados níveis de tolerância têm a tendência a beber mais do que outras, simplesmente porque necessitam uma dose superior para atingir o mesmo efeito.
Hoje, no jornal Nature, o grupo de Ulrike Heberlein publicou que mutantes de Drosophila que não têm um gene chamado hangover (em português, ressaca) possuem uma tolerância inferior ao álcool que outras moscas selvagens. Ou seja, emborracham-se mais facilmente! O gene hangover codifica para uma proteína que activa outros genes, provavelmente os responsáveis pela resposta ao stress. As moscas mutantes para hangover morrem mais jovens e não são muito capazes de lidar com factores de stress como o calor excessivo.
Este gene poderá ser usado para ajudar a identificar pessoas em risco de se tornarem alcoólicas. O objectivo final destes estudos é identificar alvos para o tratamento do alcoolismo.
Publicado por SJA às 5:47 PM | Comentários (3)
Sexo, drogas e rock n'roll

Cartoon original de John Chilton, para o Conta Natura.
Publicado por SJA às 3:19 PM | Comentários (6)
Parte II- Drogas
Falámos de sexo. Agora falemos de drogas. Mais concretamente de álcool e cocaína. Os mecanismos de actuação destas drogas podem também ser estudados usando a mosca da fruta, Drosophila melanogaster. Quantas vezes já vimos uma mosquinha a sobrevoar o nosso copo de vinho e até mesmo a cair dentro dele. Nessas ocasiões, a conversa às vezes converge para a piadinha sobre a mosca bêbeda e o “ai que elas que elas gostam tanto de copos como nós”.
No seu ambiente natural, que consiste de plantas em fermentação, a Drosophila está em contacto com níveis elevados de álcool. Estas moscas estão bem equipadas para lidar com os efeitos tóxicos do etanol (àlcool mais comum da fermentação); usam-no como fonte de energia e para biossíntese. As semelhanças entre a Drosophila e os mamíferos não se restringem ao modo como ambos metabolizam o álcool. Os comportamentos gerados pelo consumo elevado de álcool são bastante semelhantes entre a mosca e, por exemplo, o Homem. As moscas também mostram sinais de intoxicação aguda, que variam entre estimulação a doses baixas e a sedação completa a doses mais elevadas. Tal como nós, as moscas desenvolvem tolerância ao etanol e parecem gostar bastante de “uns copitos”, mostrando uma clara preferência por meios contendo álcool.
Surpreendentemente, as concentrações de álcool (20 mM) que despertam comportamentos alcoólicos na Drosophila, são aproximadamente as mesmas que produzem efeitos em humanos que não estão habituados a beber. Imediatamente depois de serem sujeitas a esta concentração de álcool, as moscas respondem aumentando a sua velocidade de locomoção. ¿ medida que o etanol começa a acumular-se, as moscas entram uma fase mais prolongada de hiperactividade que dura algum tempo. Finalmente, começam a abrandar, caem de costas e assim ficam sem poder levantar-se. Enfim, nada que não se testemunhe, entre humanos, em qualquer bar por volta da meia-noite ou duas da manhã!
Por sua vez, o consumo de cocaína pelas moscas também produz comportamentos semelhantes aos dos mamíferos. Doses intermédias produzem comportamentos anormais, tais como caminhar em círculos e sem rumo enquanto que doses mais elevadas produzem excessivos movimentos rápidos e descontrolados e podem mesmo causar a morte.
Vários estudos têm sido feitos usando a Drosophila como modelo bioquímico e de comportamento após a administração de várias drogas. Apesar dos mecanismos de dependência no Homem serem bastante mais complexos e não poderem ser totalmente imitados pela mosca, o conhecimento dos mecanismos que modelam as respostas crónica e aguda às drogas pode continuar a ser aumentado por estudos em Drosophila melanogaster.
Publicado por SJA às 2:24 PM | Comentários (4)
agosto 9, 2005
Falemos de mamas (II)
Ninguém hoje contesta a ideia de selecção sexual, mas muitos têm sérias reservas em aplicar o conceito ao homem. Este estatuto de excepção fora já evocado no século XIX, na altura a propósito da selecção natural. A religião defendia aqui o seu último bastião e, na discussão, o próprio Wallace - pai bastardo do princípio em causa - argumentou que a nossa excepcional inteligência não podia ser um produto da selecção natural. Com a selecção sexual o que alimenta a polémica é menos a questão religiosa e, sobretudo, a preocupação com o estatuto da mulher. Se eu aqui escrever que a mama na mulher evoluiu principalmente pela pressão da selecção sexual, para muitos isto será uma ideia de taberna. O problema que algumas feministas têm com esta tese - ao ponto de deixarem a biologia de fora numa obra académica de fôlego sobre a História da Mama - é que nela vêem a materialização somática da redução da mulher a objecto sexual. Dito assim, parece um pesadelo e uma dupla derrota, pois não só a mulher teria sido feita à imagem do corpo que o homem idealiza, como a própria obsessão masculina pelos seios ficaria biologicamente legitimada. Sem querer abrir aqui a polémica mais geral sobre estratégias de reprodução, investimento parental e outras noções da biologia aplicadas ao homem, que sempre despertam variadíssimas paixões, o que farei a seguir é enumerar as diferentes teorias sobre a evolução da mama na mulher.
(Esta série avançará a conta-gotas, e desde já rejeito a acusação de que assim é para que possa continuar mostrar fotografias vistosas).
Publicado por Conta Natura às 10:40 PM | Comentários (12)
A causa fumegante?
O tom da minha entrada sobre os fogos florestais em Portugal foi criticado numa discussão interna entre elementos do Conta. É pouco importante averiguar agora se foi ou não pertinente fazer uso da triste ironia em temas tão sérios. A resposta da praxe é que a ironia só faz sentido com temas sérios. Mas há uma outra ideia que o tom vagamente niilista do post pode erroneamente deixar transparecer, e que gostaria de clarificar. Ao contrário de alguns, como o maradona, considero o problema dos fogos uma catástrofe sazonal. Escreve o maradona: "Nos milhares de hectares ardidos no ano passado, ali para a zona do Cachopo, por exemplo, é lindo ver que é preciso contar 200 árvores para descobrir uma que não esteja a rebentar de ramagens e folhas novas após ter sido varrida pelos fogos do ano passado. Em contrapartida, em Espinhaço de Cão e Monchique, por exemplo, é também bonito (eu diria muito mais bonito) de ver ainda coberto de cinzas negras de morte todo o eucaliptal e pinhal ardido pela mesma altura." Ele depois conclui que tudo o que se lê e se ouve sobre os incêndios na comunicação social é "puro bloco-esquerdismo". Ora bem, a ideia de enquadrar fogos provocados pelo homem (estima-se que mais de 90% dos fogos em Portugal têm origem criminosa ou resultam da nossa negligência) como parte essencial do ciclo de vida da flora mediterrânica, dando-lhes inclusive um estatuto de justiceiro acidental, capaz de matar o eucalipto invasor (e eu que pensava que o eucaplito rebenta bem após um fogo), só pode ser uma provocação. Quanto a saber se temos floresta a mais, como escreve o João Miranda, eu diria que a discussão é interessante, mas vem fora de época. É preciso lembrar que Portugal arde mais do que qualquer outro país europeu, mesmo os países do Sul, incluindo a Grécia. Ainda podemos contra-argumentar, dizendo que Portugal não tem meios para vigiar uma área florestal tão vasta, mas tal não explica que todos os anos aconteça a mesma tragédia e que continuemos cada vez mais vulneráveis a flutuações climáticas. Sobre as causas dos fogos, as acções a tomar, as consequências, aquilo que não foi feito, etc, não falta material na internet (deixo uma pequena selecção já a seguir). O que eu não entendo é por que razão não começamos a discutir o problema em Novembro, fazendo as perguntas certas e pedindo para ir vendo que medidas vão sendo tomadas durante o Outono, o Inverno e a Primavera. Antes que chegue o Verão. Se a blogosfera se orgulha de ser já uma força na sociedade civil, que tal começar um movimento para exercer uma pressão continuada sobre o governo a propósito dos fogos, mas durante os meses em que chove? Problemas sazonais não se resolvem com preocupações sazonais.
Na imagem vê-se Portugal a arder (2003)
Leituras recomendadas sobre fogos:
Noções básicas I
Noções Básicas II
Noções Básicas III
Este e os restantes posts do João Miranda, no Blasfémias
Editorial da Quercus Ambiente
Portal do Governo
Direcção Geral dos Recursos Florestais
Publicado por Conta Natura às 3:43 PM | Comentários (16)
Inquérito tuga
Recentemente tem havido muitos inquéritos sobre a qualidade das instituições científicas, em termos de oferta a post-docs ou a alunos de doutoramento.
Mas nenhum foi desenhado a pensar especificamente no cientista português. Achei que já era tempo de colmatar esta falha.
Esta semana queria pedir-vos sugestões sobre o que pôr no inquérito. Aquelas coisas que determinaram a vossa felicidade ou infelicidade numa unidade de investigação. Aqueles aspectos que vos levaram a recomendar um sítio aos amigos.
Há as perguntas óbvias: é fácil arranjar bacalhau nas redondezas? E um café decente? Como é a relação com o pessoal do laboratório? Mas deve haver muitas coisas de que não me lembrei. Ponham as vossas sugestões nos comentários e eu preparo o inquérito para lançar daqui a uma ou duas semanas.
Publicado por MM às 11:09 AM | Comentários (7)
agosto 8, 2005
Amizades
No seu recente comentário ao livro de Rebecca Goldstein Incompleteness: The Proof and Paradox of Kurt Gˆdel Jim Holt deixou-nos uma apreciação elegante do conteúdo científico da amizade entre Einstein e Gˆdel durante os anos em Princeton. Por essa razão está transcrito na hemeroteca do Conta. Junte-se a esse outro motivo: um sumário acessível das teorias que cada um dos dois senhores elaboraram.
E ainda mais outro: a narração desse impacto (aparentemente inevitável em todos os génios) com o extra-físico. Será que ao inteirarmo-nos da vida de qualquer grande cientista teremos que constantemente enfrentar esse "capítulo"? Em tal caso porque "assim é a existência de cada um"? Ou porque a maioria dos biógrafos não encontra outros modos de atrair o interesse das massas?
Publicado por VB às 12:13 PM
agosto 7, 2005
O Enigma de Fermat
O Juiz Supremo na Corte Criminal Soberana do Parlamento de Toulouse (também conhecido por matemático e cientista) Pierre de Fermat (1601-1665) não andou simplesmente a brincar aos números. A sua contribuição no domínio do cálculo infinitesimal e geométrico para a determinação de áreas e do centro de massa de diversos corpos, foi exposta de modo mais notável quando se soube que o próprio Newton usou os seus cálculos.
Contudo, a razão pela qual Fermat criou fama diante da grande maioria dos "mortais" (nós que contemplamos a matemática com admiração embora guardando as devidas distâncias), dá a impressão contrária. De um magistrado (naturalmente) com poucos amigos, enclausurado pela peste na solidão do entretenimento numérico, essa razão chega ao presente com patente de teorema e diz o seguinte: 3, 4 e 5 formam a única tríade possível em que a soma dos quadrados dos dois primeiros números iguala o quadrado do terceiro (32+42=52).
Assim, no séc. XVII, enquanto os russos passavam o inverno a escrever romances, os franceses passavam-no a tentar comprovar esta condição. Tão premente foi a "obsessão" que depressa alastrou-se até paralelos onde aquela estação nem se nota. Mas em matemática é especialmente difícil provar que algo é realmente falso. No caso, provar que mais nenhum grupo de três números consecutivos obedece a esta característica (ou outra qualquer, tipo xn+yn=zn).
Como é próprio da nossa natureza, muita inteligência foi aplicada para obter a solução de um problema aparentemente lúdico. Fez-se uso de tecnologia e programação de métodos que pudessem chegar, minimizando o esforço neuronal e o gasto de grafite em papel, à desejada excepção, talvez perdida nas abissais profundezas do enigmático "8 deitado", que bloqueia o pensamento mais apressado com uma simples palavra: infinito. Ao contrário do super computador Deep Thought na série Hitchhiker's Guide to the Galaxy, a resposta não foi um número inteiro. Mas o sentido do resultado obtido depois de anos com as máquinas reais a trabalhar para o último teorema de Fermat (isto é, nenhum), é em parte compartilhável com o da obra de Douglas Adams: I think the problem, to be quite honest with you, is that you've never actually known what the question is.
Quem nunca esteve de acordo com esta opinião foi Andrew Wiles cujo sonho, desde a infância em Cambridge (UK), parece ter sido a resolução do tal problema (depois eu é que sou o nerd!). De uma família simples, começou do zero etc, etc, etc... Quem conta bem a história é Simon Singh (autor do Livro dos Códigos, ed. Temas e Debates, 402 pp 1999) num livro que não encontro em português: Fermat's Enigma. Aí, Singh narra como Wiles dedicou a sua vida provando a veracidade de Fermat, trabalhando em outros temas "para não levantar suspeitas" e "para ganhar a vida". Um dia, ao apresentar algo aparentemente "menor" diante de um congresso de matemáticos, Andrew começou a "levar a água ao seu moinho" enquanto a audiência ia tombando no mais retundo silêncio. Uns esfregando os próprios olhos, outros beliscando-se, todos pensando "Será um pássaro? Um avião? Não! É a demonstração do Teorema de Fermat!" Após a apoteose e o transporte a ombros, reviu-se o documento escrito com a prova (seiscentas e tal páginas!) e encontraram-se dois erros. Por sorte estes não interferiram directamente com a essência do resultado e com o feliz Quod Erat Demonstrandum final.
A conclusão desta "saga" levou até à composição de um musical aqui em Nova Iorque, Fermat's Last Tango, para dar seguimento ao já tradicional "teatro científico" de Copenhagen (de Michael Frayn) e Proof (de David Auburn). Mais mediático (e valoroso) ainda foi quando o Paulo Almeida, no barnabé, falou do assunto ao homenagear Emídio Guerreiro (que não se fale mal dos matemáticos portugueses).
Publicado por VB às 9:33 PM | Comentários (1)
agosto 6, 2005
No hay que creer en ellas, pero que las hay... las hay...
Dizia o Ricardo num comentário ao post mais escaldante aqui no Conta que 'Há prioridades para a política externa, para a agricultura e pescas, para a Defesa, mas ninguém sabe muito bem quais são as da área da Ciência.'
Ele perdoar-me-á certamente por eu dizer que não tem razão... as prioridades existem, são bem definidas e estão aí à vista de todos... como alguém certamente deve ter dito alguma vez: 'It's the money, stoopid!'

Dados do OCES,Financiamento das Despesas de I & D 1995-2001
O quadro mostra a percentagem de fundos do Estado investidos no apoio às Ciências Sociais e Humanas em 1995 e em 2001- aumentou de 17.2% para 23.9% do total. Para comparação indicam-se também as percentagens investidas na área das Ciências da Saúde- diminuiram de 10.4% para 9.96%.
As sub-áreas temáticas das CSH incluem a economia, a gestão, as ciências juridicas, as ciências politicas, a sociologia, a demografia, a antropologia, a geografia, a psicologia e a linguistica.
Há ainda (juro que é o que vem lá escrito): as ciências da educação, as ciências da comunicação, a filosofia, a história e arqueologia, a arquitectura e urbanismo, os estudos literários e os estudos artísticos.
Estas últimas, originalíssimas, disciplinas 'cientificas' gastaram em 2001, no seu conjunto, 65.5 MÄ! Mais do que os fundos de Estado aplicados nas Ciências da Saúde...
Mesmo dando de barato que os orçamentos públicos de Ciência andem inflacionados com a inclusão de verbas "extra", por assim dizer, os fundos de Estado aplicados em Ciências Sociais e Humanas excedem os 84 MÄ, 34% mais do que o que é usado para apoiar as Ciências da Saúde.
Se isto não identifica uma prioridade, talvez os 'Cientistas da Linguística' nos possam fazer o favor de gastar mais algum dinheiro para re-escrever o Dicionário...
Todo este dinheiro gasto em Portugal nas Ciências Sociais e Humanas não parece resultar em produção cientifica de monta: como se indicou aqui, as CSH são responsáveis por apenas 3.6% das 3878 publicações científicas portuguesas em 2001. É verdade que, como nos chama a atenção este divertido texto do OCES, "o enviesamento linguístico inerente aos produtos editados pelo ISI, com fortíssima presença de revistas anglo-saxónicas, [justifica a dificuldade em] aceitar como inteiramente válida e pertinente a medição da sua actividade através dos índices construídos pelo ISI." (adivinhem lá que cientistas é que realizaram este estudo...), mas o 'Coeficiente de Divergência' (ie: %Produção Nacional/%Produção na OCDE) é de -0.6, ou seja, os CSH portugueses publicam quase 3 vezes menos que os seus colegas da OCDE.
O impacto que estas (poucas) publicações têem também deixa algo a desejar... segundo o ISI (nos 'Essential Science Indicators') os artigos dos CSH portugueses recebem 1.97 citações em média (os holandeses, só para mencionar um País pouco anglo-saxónico, publicam 24 vezes mais artigos de CSH e conseguem 3.75 'cites per paper', em média)
Esta prioridade atribuída em Portugal às CSH será correcta? Será esta a melhor estratégia para aplicar os recursos finitos de que o Estado Portugês dispõe para apoiar a Investigação Científica?
Naquele texto que citei no famoso post, o autor (a propósito: Ninguém tentou adivinhar quem era. Lá vou eu ter de ficar com o Manifesto...) diz também o seguinte, àcerca do que deveria ser o papel de um Ministro para a Ciência:
"... reforçar as instituições nos sectores públicos, dotá-las de novas missões e de novos quadros, adequados aos tempos de globalização que vivemos, ligá-las e forçar a sua interacção com as actividades económicas, com a sociedade, com a educação e com a cultura."
Ou nos está a fazer falta uma Política Científica, ou então faz-nos falta outra Política Científica.
Publicado por Santiago às 1:36 PM | Comentários (9)
agosto 5, 2005
Crónicas de sexta-feira: Ciência na primeira pessoa
Hoje passo a palavra a Luís Ferreira Moita que acabou de ter um artigo publicado na Immunity.
A malária continua a ser hoje, como foi durante séculos, uma ameaça para a população mundial. Em risco estão 2.5 mil milhões de pessoas, principalmente aqueles a viver em países tropicais e sub-tropicais. Anualmente, estimam-se 300 milhões de infecções que resultam em perto de 3 milhões de mortes, principalmente de crianças com menos de 5 anos na ¡frica sub-Sahariana.
O controle da malária é baseado num diagnóstico rápido e correcto, tratamento farmacológico, protecção de grupos de risco e o controle do mosquito vector. O combate eficaz da malária tem sido raro e difícil devido à emergência de resistências farmacológicas nas várias espécies do género Plasmodium causadoras da doença e resistências aos insecticidas nos respectivos vectores mosquitos. Novas descobertas que permitam uma melhor compreensão da complexa patogénese da malária são um contributo importante para o seu controlo. Historicamente, os maiores sucessos foram conseguidos através do controlo do vector.
A transmissão do agente etiológico, parasitas do género Plasmodium, obriga ao desenvolvimento sequencial em dois organismos: o hospedeiro humano e o vector invertebrado (mosquitos do género Anopheles). O facto do parasita ser completamente destruído em estirpes de mosquito refractárias à infecção por Plasmodium e sofrer perdas numéricas acentuadas mesmo em estirpes susceptíveis tem atraído muita atenção para a resposta imunitária inata que o mosquito vector da malária monta contra vários grupos de microorganismos. Os mecanismos na base desta resposta imunitária continuam largamente desconhecidos e inexplorados.
Actualmente ha um esforço intenso para perceber a base molecular destes mecanismos ao nível molecular. Muitos acreditam que um dia será possivel usar estes conhecimentos para ëcriarí mosquitos trangénicos que sejam completamente refractários a uma infecção por parasitas causadores de malária e desta forma interromper o ciclo de transmissão do parasita em regiões endémicas. Contribuições importantes para este objectivo foram a sequenciação do genoma do Anopheles gambiae (Science. 2002 Oct 4;298), o desenvolvimento de tecnologias para introdução de genes em mosquitos (Nature. 2000 Jun 22;405(6789):959-62) e a possibilidade de usar RNAi in vitro (Cell. 2001 Mar 9;104(5):709-18) e in vivo (EMBO Rep. 2002 Sep;3(9):852-6).
O meu trabalho agora publicado teve como objectivo identificar genes in vivo que sejam relevantes para a resposta imunitária celular (fagocitose) e a sua contribuição para a sobrevivência do mosquito em resposta a infecções bacterianas. Este estudo lança as bases para o estudo sistemático dos mecanismos moleculares da fagocitose A. gambiae. Dado que a resposta imunitária inata foi conservada ao longo da evolução, desde os organismos mais simples até ao homem, os princípios verificados em organismos modelo (como os insectos) têm contribuído de forma única para a nossa comprensão do sistema imunitário dos vertebrados. Eventualmente, este trabalho poderá também contribuir de forma substancial para um conhecimento mais detalhado e integrado da biologia do mosquito A. gambiae, um passo fundamental para novas estratégias de controle do vector da malária.
Publicado por maradona às 4:00 PM | Comentários (29)
Crónicas de sexta-feira: Gripe
"A number of recent events and factors have significantly heightened concern that a specific near-term pandemic may be imminent. It could be caused by H5N1, the avian influenza strain currently circulating in Asia. At this juncture scientists cannot be certain. Nor can they know exactly when a pandemic will hit, or whether it will rival the experience of 1918-19 or be more muted like 1957-58 and 1968-69. The reality of a coming pandemic, however, cannot be avoided. Only its impact can be lessened. Some important preparatory efforts are under way, but much more needs to be done by institutions at many levels of society."
Michael T. Osterholm
Preparing for the Next Pandemic
Entretanto em Portugal o ministério da saúde continua tragicamente com a sua habitual estratégia da avestruz.
addendum:
Scientists warn tens of millions may die if more is not done to contain the unpredictable virus.
The global avian flu pandemic is coming, and it's a case of when, not if. Even as they counsel people not to panic but to "be prepared", scientists are warning that tens of millions may die.
A year ago, the World Health Organisation was playing down the threat to humans of bird flu, officially influenza A (H5N1) virus, Z strain. But at a bird flu conference last week in Vietnam, Shigeru Omi, WHO Western Pacific regional director, said: "The world is in the gravest possible danger of a global pandemic."
Why this fuss for a virus that has killed about 60 people and 1.5 million chickens (with 140 million more culled)? This compares with the human death toll for the severe acute respiratory syndrome virus, SARS, which was 774. There are two reasons: confirmation of the first probable human-to-human transmission of the virus and a mortality rate for infection of 75 per cent. Only ebola (50 per cent mortality) and rabies, slightly higher, can come close to it. The SARS rate was 9.6 per cent.
With every outbreak, the fears of mutation grow. Vietnam is struggling to control the disease in northern and southern provinces. Twelve people have died there since mid-December.
"This virus is bad news in almost any way you can think of... it's highly pathogenic in a whole range of animals including humans, it causes severe disease and death, and it affects a whole range of organs, not just the lungs," Dr Scott Dowell, director of Bangkok's International Emerging Infections Program said.
"You have to be cautious with the rhetoric. You can't keep saying the sky is falling month after month and continue to be taken seriously. If there's one thing we know about it, it's unpredictable," he said.
"We are not ready. We have a better sense of what can and should be done, but we are not ready to contain and control it."
The first widely accepted human-to-human transmission case occurred in Thailand last September in a family cluster in Kampaeng Phet, 51/2 hours north of Bangkok.
"We did crude modelling on what would have happened if the transmission had been efficient. The girl died on September 2, in the 21 days until (we) got up there, another 600 would have been infected, 10 days after that it would have been 6000," Dr Dowell said.
The influenza outbreak of 1918, which is often used as a benchmark for infectious disaster, killed more than 30 million, but the mortality rate was only 1-2 per cent of those infected.
"With this virus the mortality rate has been 75 per cent. We can't begin to get our heads around it," Dr Dowell said.
Other developments that have raised concern include:
∑ The virus is resistant to most classes of antiviral drugs.
∑ It is becoming more pathogenic in mammals, such as ferrets that have a similar disease response to humans.
∑ The increasing number of human cases.
∑ Poultry farmers say it is becoming more potent. Previous outbreaks killed 10 per cent of their flock, now up to 90 per cent are dying.
∑ Ducks, thought to be benign, are now seen as silent carriers, who can shed the virus for up to 17 days through their stools before they get sick.
After SARS, there was a level of scepticism in the community, a sense that the media had overplayed the significance of the virus.
WHO Western Pacific region spokesman Peter Cordingley disagrees. "The global community was very, very lucky with SARS. When people were transmitting the virus they were already showing signs, so it could be picked up at airports with temperature controls," he said.
"With (bird) flu you can be infectious before you show any signs." But he said there was no threat to tourists travelling to Vietnam as long as they used common sense, and did not pluck chickens themselves.
Chicken meat cooked at 70 degrees was safe, he said.
The world is finally taking notice of the wider threat. This week European Union health experts held a two-day meeting to review pandemic contingency plans.
The British Government announced it will buy 14.6 million courses of oseltamivir, the only antiviral drug effective against H5N1, and in January the Thai cabinet set aside 4.7 billion baht ($A156 million) to fight the virus.
The US asked Thailand this week to hold trials of the world's first human avian flu vaccine. However, Thailand's The Nation newspaper said such a vaccine would not be ready for two years.
"Quite clearly it will be up and running well before that. It will travel round the world at the speed of a jet. All the vaccine can do is slow down the progress of the pandemic," Mr Cordingley said.
That's the worst-case scenario. Asked for a best-case scenario, Mr Cordingley said the virus might never develop the ability to be a danger to humans, then added: "The best case scenario is a very long-odds punt."
Science, March 5, 2005
Publicado por maradona às 2:47 AM | Comentários (5)
Explicação do fogo
Há um argumento a favor dos fogos de Verão que ainda não vi discutido em Portugal. A coisa é algo animista e nunca chegará aos jornais, mas não é improvável que os incêndios resultem do desejo legítimo que o território nacional tem de emigrar. É um direito indiscutível que assiste os portugueses e que deve ser defendido também para o País. Sim, para a terra, as árvores e as pedras portuguesas. O mármore português ainda beneficia das exportações e deixa Portugal de forma legal. Mas imaginemos a agonia de um carvalho centenário, literalmente enraizado dentro de uma reserva natural. Que hipóteses tem esta respeitável árvore de sair legalmente de Portugal? Nenhuma. Não acham isto trágico? Eu acho. Depois admirem-se que ande por aí tanta árvore a imolar-se pelo fogo e a abandonar o país na forma de cinzas levadas pelo vento.
Publicado por Conta Natura às 12:17 AM | Comentários (10)
agosto 4, 2005
Eu clono, tu clonas, ele clona
Já há um cão clonado. Depois da famosíssima ovelha Dolly, e do furor sobre a clonagem dos gatos nos EUA, foi hoje publicado na Nature um artigo sobre a clonagem canina. Snuppy foi clonado a partir das células da orelha de um galgo afegão e é o único sobrevivente de uma experiência usando 1095 embriões implantados em 123 cadelas. Uma equipa de 15 cientistas do laboratório de Woo Suk Hwang, na Universidade de Seoul na Coreia do Sul, demorou dois anos e meio a conseguir este cachorro saudável.
Muitos mamíferos foram já clonados usando a transferência do núcleo de uma célula somática para um ovo (célula germinal) de onde foi previamente retirado o núcleo. A lista vai longa: ovelhas, ratinhos, vacas, cabras, porcos, coelhos, gatos, uma mula, um cavalo, uma ninhada de três ratazanas e agora um cão. Dá para pensar em jardins zoológicos ou quintas cheias de animais clonados e na possibilidade de podermos clonar a nossa mascote preferida. Mas a grande pergunta é mesmo o que é que a “mega-clonagem” nos traz de novo? Clonamos tudo, mas para quê? Hwang diz que o sucesso em clonar cães, juntamente com a sequenciação do genoma do cão, abrirá as portas para linhagens caninas que modelem doenças humanas. O mesmo poderia ser dito pelos criadores dos outros mamíferos clonados. No entanto, tendo em conta o parco sucesso destas experiências (no caso de Snuppy, 1 em 1095) teremos muito que esperar até conseguirmos esse canil de cães doentes que existirá para o bem da humanidade. Além disso, a clonagem de mamíferos não é necessária para criação de modelos de doenças humanas em animais. Já temos moscas, ratos, ratazanas e até mesmo cães que são modelos de várias doenças sem ser necessária a clonagem.
Snuppy e o doador de células de orelha
Publicado por SJA às 3:57 PM | Comentários (8)
agosto 3, 2005
o suplemento
Retirado do site da FCT:
"...
Bolsas de Gestão de Ciência e Tecnologia (BGCT)
Destinam-se a licenciados, mestres ou doutores para obterem formação complementar em gestão de ciência, tecnologia e inovação em instituições de investigação científica e tecnológica.
Nota: O subsídio mensal de manutenção das Bolsas de Gestão de Ciência e Tecnologia no país pode variar, consoante as habilitações académicas dos bolseiros, entre os valores correspondentes indicados na tabela e os valores obtidos adicionando-lhes 500 Euros; a concretização dos valores referidos será feita pela FCT atendendo, nomeadamente à natureza e complexidade das actividades a desenvolver pelo bolseiro e à sua experiência anterior. "
Não faço a mínima ideia se, de facto, estas bolsas existem ou se são apenas delírios regulamentares, mas achei muita piada a terem criado este suplemento de 500 Euros para recompensar o bolseiro de Gestão de Ciência pela complexidade do seu projecto, em especial quando se compara com todos os outros projectos em Biologia, Física, Química, Medicina, Matemática, etc etc. Ficam a saber sobre a baixa complexidade do problema da formação de orgãos e galáxias quando comparada com o sistema de gestão de ciência português.
Publicado por PP às 6:35 PM | Comentários (2)
PRÉMIO LITER¡RIO FERNANDO CATARINO

REGULAMENTO
1 ñ O Prémio Literário Fernando Catarino destina-se a divulgar o mundo da Biologia através da ficção e aceita originais de todos os que forem professores, alunos ou licenciados de Biologia.
2 ñ A única obrigatoriedade do conteúdo dos contos a enviar é a referência a actividades de investigação em Biologia, ou utilização de dados referentes à área.
3 ñ Devem ser submetidos a concurso oito cópias do original, obrigatoriamente escritas em língua portuguesa.
4 ñ Os originais não podem exceder os 30.000 (trinta mil) caracteres, incluindo espaços.
5 ñ O prazo de entrega dos originais a concurso termina a 31 de Dezembro de 2005, devendo a entrega ser feita em mão ou pelos CTT, com verificação da data de carimbo, para o seguinte destino:
Marcelo Teixeira
Oficina do Livro
Rua Bento de Jesus Caraça, 17
1495-686, Cruz Quebrada, Portugal.
6 ñA acusação de recepção dos originais será feita por recibo emitido pela Oficina do Livro.
7 ñ A selecção preliminar dos 20 (vinte) melhores contos submetidos a concurso será efectuada por Clara Pinto Correia (Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias) e por um elemento a designar pela Oficina do Livro.
8 ñ O júri do Prémio Literário Fernando Catarino procederá à classificação de qualidade dos contos seleccionados numa escala de 0 a 5, resultando desta votação a escolha dos 10 (dez) contos que integrarão definitivamente a Antologia.
9 ñ O júri do prémio será constituído pelos seguintes elementos:
Mia Couto ñ presidente
Luísa Costa Gomes
Tereza Coelho
Clara Pinto Correia
Um elemento a designar pela Oficina do Livro
10 ñ A Antologia não será publicada se o júri deliberar que não foi possível reunir 10 (dez) contos com suficiente qualidade para a integrarem.
11 ñ ¿ data da 1™ edição, cada um dos vencedores receberá 10 (dez) exemplares da Antologia como prémio.
12 ñ A abertura do concurso será publicitada por conferência de imprensa a realizar na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, bem como por anúncios na Comunicação Social.
13 ñ O anúncio dos vencedores terá lugar em Junho de 2006, através de conferência de imprensa a efectuar na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e por carta dirigida pela Oficina do Livro a cada um dos premiados.
14 ñ A Oficina do Livro assegura todos os custos de produção e distribuição do livro.
A iniciativa parece-me excelente e a escolha do Professor Catarino é mais do que merecida. O génio do Professor Catarino fazia com que tivesse o anfiteatro da Rua da Escola Politécnica sempre apinhado, mesmo dando aulas às oito da manhã. Não há aluno de biologia que não recorde a sua energia no campo e a forma torrencial como partilhava os seus conhecimentos (para grande desespero da malta com jeito para a estenografia, que não conseguia tirar apontamentos de jeito nas aulas). Enfim, se é certo que a biologia (não necessariamente os biólogos) se orgulha de ter enterrado o vitalismo, a verdade é que o Professor Catarino seria mais facilmente explicável recorrendo a uma qualquer força vital, pois sendo ele feito das mesmas fibras que nós, tem um vigor que as leis da física e da química não abrangem.
Só estou em desacordo é com o regulamento. Interditar a participação a quem não cursou biologia não faz sentido. Então e um bioquímico, não pode concorrer? E um matemático que gosta de fósseis? E um engenheiro electrotécnico que trabalha em inteligência artificial? E um estivador que gosta de gaivotas? Se querem limitar o concurso a biólogos estão a dar-lhe uma dimensão de prémio de bairro. O corporativismo não serve para isto. Se a ideia é procurar novos talentos, abra-se o concurso a quem não tem obra publicada (o que na prática está já assegurado, visto que o prémio é pouco estimulante para escritores conhecidos). Talvez a Clara Pinto Correia queira responder a esta crítica e ainda à seguinte: não faria mais sentido submeter os manuscritos sob pseudónimo? Em todo o caso, fica feita a divulgação.
PS. Não percebi se é possível concorrer com mais de um exemplar.
Publicado por Conta Natura às 2:34 PM | Comentários (13)
agosto 2, 2005
Confesso que agora até

Confesso que agora até estou com um bocado de medo de escrever algo aqui. O que eu pensava ser uma simples informação gerou um debate político à verdadeira maneira Portuguesa, e desconfio que alguma mudança em algumas relações pessoais também! Só tenho pena de eu não ter tido nenhum comentário tão polémico que tivesse que ser apagadoÖ
Hà pouco tempo li um artigo sobre o último encontro TED. Este encontro anual pretende juntar cientistas, inventores e pensadores em geral para tentar resolver os problemas do mundo e debater grandes questões. Um pouco grandiloquente, mas a leitura do site e as questoes que eles debatem são realmente fascinantes: