« agosto 2005 | Entrada | outubro 2005 »
setembro 30, 2005
Local de Debate: Sida e comportamento sexual
Este parágrafo levanta diversas questões importantes e pode ser interpretado à esquerda e à direita de uma maneira diametralmente oposta. O problema é evidente e as suas consequências óbvias, no entanto as soluções são ainda problemáticas.
"The conclusion from this study is that 50% of teenage secondary school girls in this part of Nigeria are sexually active; 68.7% whom, have multiple sexual partners, and 86.7% of them did not use contraception at sexual debut. This unsafe sexual behaviour therefore put them at a great risk of acquiring STDs including HIV infection, and unwanted pregnancy. This study therefore recommends sex education/family life education for young people to encourage them to delay sexual activity as much as possible and practice safe sex when it eventually commences."
Sexual behaviour and contraceptive use among secondary school students in Ilesha South West Nigeria.
J Obstet Gynaecol. 2005 Apr;25(3):269-72
Orji EO, Esimai OA.
Publicado por maradona às 9:40 PM | Comentários (9)
setembro 29, 2005
Ciclope cínico
Aristóteles Filósofo grego, 384-322 A.C. 1. Teorizou sobre quase tudo, apesar de não saber fazer contas. Um terço da obra que deixou é sobre biologia. Curiosamente, cerca de um terço do seu legado é sistematicamente desprezado pelos académicos das humanidades.2. Reformulou a Scala Naturae, um esquema de classificação de animais, do mais primitivo ao mais complexo, que na verdade é uma aplicação dos princípios de lógica que ele próprio desenvolveu. Ao longo dos séculos, gerações de estudantes de taxonomia têm sem sucesso reclamado idêntico direito. 4. Ignorou o estudo das plantas e concentrou-se nos animais. O actual complexo de inferioridade dos botânicos é, de certo modo, um legado do filósofo, de longevidade superior às suas teorias sobre física. 5. O seu génio e poder de observação fizeram com que tivesse sido capaz de identificar a ovoviviparidade em espécies de tubarões. Por explicar fica a afirmação (errada) de que a temperatura do corpo é mais elevada no homem do que na mulher: consequência lógica da teoria que fazia do “calor vital” um critério de perfeição, tendo em conta o estatuto da mulher na época ou, muito pelo contrário, mais um dado empírico, tendo em conta a conhecida orientação sexual dos gregos no mesmo período?
Publicado por Conta Natura às 10:19 PM | Comentários (2)
Números à Quinta
Começo aqui uma nova coluna no Conta. Números. Pequenos e grandes e sobre muitos assuntos "biológicos".
Número de espécies de insecto identificadas = cerca de 900.000
Número total de espécies de insecto (identificados e não identificados) = 20-30 milhões
Publicado por SJA às 6:26 PM | Comentários (0)
Medalhas de honra L'Oréal
Decorreu ontem, na Academia das Ciências de Lisboa, a Cerimónia de Entrega das “Medalhas de Honra LíOréal Portugal para as Mulheres na Ciência”. Durante a cerimónia foram distinguidas quatro jovens cientistas portuguesas seleccionadas pela relevância que a sua pesquisa poderá trazer à evolução das “Ciências da Vida”. As seleccionadas foram Inês Araújo, Sónia Gonçalves, Ana Sarzedas e Sandra Sousa que recebem dez mil euros cada uma para prosseguirem a sua investigação.
O júri científico que analisou as candidaturas foi presidido por Alexandre Quintanilha.
Pela segunda vez em Portugal, este prémio é organizado pela líOréal, com o apoio da Comissão Nacional da UNESCO e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, e visa incentivar e reconhecer o trabalho de jovens cientistas portuguesas que façam a sua investigação em Portugal.
As quatro cientistas galardoadas trabalham em laboratórios portugueses e fazem investigação nas áreas da Biologia Celular e Genética, Biofísica e Imunologia.
Publicado por SJA às 10:17 AM | Comentários (5)
Ciclope cínico
Aracnofobia do Gr. aráchne, aranha + phóbos, terror, medo 1. Medo de aranhas 2. O Little dirty secret dos ambientalistas que de manhã gritam para que alguém espezinhe a aranha encontrada no chuveiro e duas horas depois estão a resgatar focas da última maré negra.
Publicado por Conta Natura às 9:08 AM | Comentários (2)
setembro 28, 2005
Imortalidade: Prólogo (parte 2)
As bactérias e os vírus demonstram uma impressionante capacidade adaptativa. Esta capacidade de rapidamente se adaptarem a modificações do meio ambiente resulta essencialmente de dois factores: 1) O elevado numero de indivíduos inicialmente presentes numa população permite uma largo espectro de variabilidade genética. 2) O ciclo de vida extraordinariamente curto permite uma amplificação rápida de uma qualquer subpopulação de indivíduos com uma mutação vantajosa. Estes organismos usam a certeza estatística para garantir a sua sobrevivência. No entanto existe uma terceira variável nesta equação, quer as bactérias, quer as leveduras tem uma longevidade relativamente reduzida. Tal permite que haja um elevado "turnover" de individuos numa determinada população. De um modo extraordinariamente grosseiro eí possível afirmar que uma bactéria ou uma levedura são "velhotes" respectivamente após 100 e 30 divisões celulares (ou seja em condições óptimas de crescimento aproximadamente 2/3 e 4 dias). Curiosamente o envelhecimento em leveduras foi correlacionado com a acumulação de stress oxidativo relacionado com a produção de radicais livres nas mitocôndrias (as fabricas energéticas das nossas células). Este fenómeno também é significativo no envelhecimento de animais mais complexos (incluindo os mamíferos). Tal sugere que a longevidade resulta (pelo menos em parte) de um balanço entre o dano causado pela “poluição” causada na produção da energia necessária ao bom funcionamento das nossas células e a capacidade dos organismos serem capazes de evitar, minimizar ou resolver os efeitos nefastos desta “poluição”.
Publicado por maradona às 11:34 PM | Comentários (12)
Ciclope cínico
Agassiz, Jean Louis Rodolphe Zoólogo e paleontólogo suiço (1807-1873) 1. Provavelmente o último representante da escola dos teólogos naturalistas, antes de o movimento se restringir a ordens religiosas e hospícios 2. Catastrofista como Cuvier, embora preferindo as glaciações ao dilúvio. Ao contrário daqueles que são incapazes de ir atrás das suas ideias, Agassiz viajou mesmo até ao Brasil à procura de vestígios de glaciares; consta que não os encontrou. 2. De entre todos os que estiveram contra Darwin, é dos poucos que merece algum respeito. 4. Os laços de parentesco com um famoso tenista da actualidade não estão provados. 5. Na vã esperança de poder influenciar algum médico em vésperas de uma reactualização do seu volumoso currículo, recomendo a leitura da seguinte nota autobiográfica de Agassiz: “I have devoted my whole life to the study of Nature, and yet a single sentence may express all that I have done. I have shown that there is a correspondence between the succession of Fishes in geological times and the different stages of their growth in the egg, - that is all. “
Publicado por Conta Natura às 4:03 PM | Comentários (0)
Ciclope cínico
Autofagia s. f.. ; do Gr. autós, próprio + phag, r. de phagein, comer 1. nutrição à custa das reservas do próprio organismo. 2. Biologia celular: digestão de organelos celulares mediada por liposomas. 3. Antropologia: quando um canibal decide cozinhar para si próprio e tem a despensa vazia.
Publicado por Conta Natura às 12:19 AM | Comentários (2)
setembro 27, 2005
Mr. T-shirt molhada

Este texto é, além do debate sobre um tema interessante, também parte da resposta prometida ao texto do Vasco sobre características sexuais secundarias. E também uma oportunidade de por uma foto de um dos meus actores preferidos. Vejam se descobrem qual é!
Um dos grandes temas de investigação da evolução ou etologia humana é quais os critérios que as mulheres usam para seleccionar os parceiros sexuais. Parece estar estabelecido que, tal como o resto da natureza, o objectivo principal é garantir a saúde e robustez dos filhos. Há teorias até segundo as quais as mulheres, tal como as fêmeas de algumas outras espécies de primatas, ocasionalmente garantem segurança e robustez para a sua descendência por duas vias diferentes: escolhendo para pai ëoficialí um macho que mostre instintos paternais e protectores fortes e para pai biológico um macho que mostre que tem genes robustos. Já explico o que isto é. É claro que para esta técnica funcionar, o pai ësocialí tem que acreditar que o filho é seu. Esta é uma das explicações utilizadas para justificar o facto do período fértil das fêmeas da espécie humana não ser abertamente perceptível ñ para o macho não saber se produziu ou não descendência ao acasalar. Embora também haja estudos que indicam que o odor das mulheres é mais atraente para os homens quando elas estão no período fértil. Isto leva-nos directamente à explicação prometida de como são seleccionados os genes para robustez e à questão das feromonas:
Parece já estar aceite que os caracteres secundários masculinos preferidos são seleccionados porque reflectem níveis mais elevados de testosterona. Testosterona elevada reflecte por sua vez uma imunocompetência maior, ou seja um sistema imune mais capaz de repelir infecções. Os genes para imunocompetência são dos mais desejáveis para a mulher para transmitir para a descendência. Aliás, neste aspecto há estudos que mostram que as mulheres são capazes de seleccionar sistemas imunes adequados a um nível ainda mais refinado: se se pede a um conjunto de homens para usar a mesma T-shirt durante dois ou três dias e dá-se só as várias T-shirts usadas para mulheres em período fértil para cheirar, cada mulher selecciona a T-shirt que pertence ao homem que possui o sistema imune ideal para ela. Aquele que combinado com o sistema imune dela nos filhos, produziria o sistema imune mais diverso e capaz de responder a mais agentes infecciosos. A hipótese é que a mulher recebe esta informação toda, fornecida pelas feromonas presentes no suor axilar dos homens, no equivalente humano do órgão vomeronasal (localizado em ambos os lados do septo nasal) e depois processa-a a nível inconsciente ou subconsciente no sistema límbico. Perdoem-me e corrijam-me os neurobiólogos se estou a dizer uma série de cacetadas. Fascinante também a teoria de que, quando o ser humano começou a a aperfeiçoar a percepção visual de cor, começou a perder a capacidade de detectar ou processar a informação fornecida por feromonas. Ou seja, começou a preferir a informação visual em detrimento da informação nasalÖ
Chamada de atenção! ⁄ltimas duas semanas para responder ao inquérito. Neste momento estão empatados em primeiro lugar o IGC em Oeiras, o Instituto de Cancro Holandês em Amesterdão e o Department of Molecular Biology em Boston.
Publicado por MM às 12:38 PM | Comentários (4)
Ciclope cínico
Antibiótico s. m.1. Substância natural ou sintética com capacidade de contrariar o crescimento de microrganismos, que pode ser usada para combater infecções bacterianas 2. Foi por acaso que Alexander Fleming descobriu o primeiro antibiótico, quando, ao voltar de férias, reparou que numas placas de cultura de bactérias esquecidas sobre a mesa havia uma contaminação de fungos rodeada por um halo transparente, hoje conhecido por halo de inibição (não confundir com hálito inibitório [vide halitose]). O halo transparente indicava que o tapete de bactérias não se desenvolvia próximo do fungo e em estudos subsequentes Fleming conseguiu isolar a substância responsável por este fenómeno, a penicilina. 3. A descoberta da penicilina tem inspirado gerações de biólogos, mas contribuiu também para desculpabilizar comportamentos displicentes no laboratório e, se a classe gozasse de protecção sindical e direitos laborais, seria provavelmente aproveitada como argumento para aumentar o período de férias. 4. Cientistas que queiram usar a acidental descoberta da penicilina para consolo do ego ou outro proveito próprio devem evitar ler a biografia de Pasteur, nomeadamente a frase: "a sorte favorece a mente bem preparada".
Publicado por Conta Natura às 10:20 AM | Comentários (0)
Ciclope cínico
Anticorpo s. m.1. Proteínas do sistema imune que atacam moléculas estranhas ao corpo, contribuindo para a defesa do organismo 2. Unidade abstracta que quantifica a sensação de repulsa induzida no indivíduo por pessoas mal intencionadas ou simplesmente aborrecidas.
Publicado por Conta Natura às 9:55 AM | Comentários (0)
setembro 26, 2005
Ciclope cínico
Analfabética adj. 1. o contrário de oralfabética 2. ordenação das entradas num dicionário escrito por dois individuos separados por 6 fusos horarios.
Publicado por Santiago às 6:00 PM | Comentários (0)
Ciclope cínico
Aborto s. m.; 1™ pess. sing. pres. ind. de abortar 1. Morte de um indivíduo em gestação no ventre de sua mãe produzida voluntaria ou involuntariamente durante qualquer momento da etapa que vai desde a fecundação até ao momento do nascimento. 2. Expulsão do feto antes do fim da gestação. 3. O que nasceu prematuramente (distinto porém do filho de uma mãe adolescente).4. Monstruosidade 5. Termo sujeito à diabolização e a eufemismos, que nos debates sobre a interrupção voluntária da gravidez é usado tanto na discussão propriamente dita como - em off ou não - para insultar o adversário (ver 4). 6. Alguns defensores da interrupção involuntária da gravidez dissociam o nascimento de um ser humano do instante da fecundação, transferindo-o para o momento em que é detectada actividade cerebral. Os críticos argumentam que a tese levanta um problema sério, pois é um convite à chacina de uma vastíssima população de adultos. Como seria de esperar, as presumíveis vítimas não têm opinião formada sobre o assunto. 7. Apoiantes incondicionais de pena de morte simpatizam com os movimentos pró-vida. Tentar perceber este paradoxo é uma tarefa condenada ao fracasso, a menos que se consiga quebrar o sigilo bancário e fazer uma auditoria às empresas produtoras de cadeiras eléctricas.
Publicado por Conta Natura às 4:56 PM | Comentários (0)
Ciclope cínico
Artigo, do lat. articulu, artigo, capitulo s.m. 1. determinante dos substantivos. Pode ser definido ou indefinido e variar em género e número 2. objecto de escritório 3. mercadoria 4. publicação cientifica (pop. papel; ing. 'paper'). Neste caso quanto maior o seu número, mais indefinido o seu género.
Publicado por Santiago às 3:57 PM | Comentários (0)
Ciclope cínico
Anomia, do Grego ánomos, sem lei s. f. 1. ausência de lei fixa 2. ilegalidade 3. perda da faculdade de contar os objectos e de reconhecer os números 4. em zoologia: Molusco bivalve, de concha irregular 5. entre cientistas, diz-se de quem já não sabe a quantas anda. Os cientistas anóminos são os que já perderam a conta ao número de vezes que os responsáveis pelos Institutos lhes mentiram, mas continuam lá alapados, como univalves.
Nota: o Santiago inicia aqui a sua colaboração na empreitada Ciclope Cínico. Somos agora dois e, dada a natureza do projecto, é impossível não pensar na parelha Bouvard et Pécuchet, de Flaubert. A 19 de Agosto de 1872, escrevia o romancista numa carta (o destacado a negrito é meu): "´ c'est l'histoire de ces deux bonshommes qui copient, une espèce d'encyclopédie critique en farce. Vous devez en avoir une idée ? Pour cela, il va me falloir étudier beaucoup de choses que j'ignore : la chimie, la médecine, l'agriculture. Je suis maintenant dans la médecine. - Mais il faut être fou et triplement frénétique pour entreprendre un pareil bouquin ! ª Numa demonstração de sanidade mental, o romance ficaria inacabado. O mesmo acontecerá com este projecto, mas aqui não devemos confundir preguiça com bom senso. Ah, o Santiago aparecerá com uma caveira em "negativo".
Publicado por Santiago às 11:31 AM | Comentários (2)
Do Outro Lado Da Tempestade
Ao falarmos de Thomas Midgley temos sempre que referir o nome daquele que para além de ser um marco na história da ciência do séc. XX foi também aquele que derrotou “O Encantador de Furacões”.
Desde já a vénia do Conta para um Geólogo, o Geólogo; refiro-me a Clair Patterson .
Este homem foi nada menos do que aquele que encontrou o número mágico de 4550 Milhões de anos (com uma margem de erro de 70 Milhões de anos) para a data de aniversário do nosso planeta! A relação destes cálculos com o assunto anterior tem como fio condutor o próprio chumbo, em que a quantificação dos isótopos deste e de urânio são o mais antigo relógio capaz de indicar com precisão a origem da Terra.
O material escolhido era a rocha ígnea, a que se forma por fusão. No entanto, a tectónica das placas explica hoje a dificuldade de as encontrar à superfície e com a idade original do planeta, sem misturas com amostras mais recentes...
A solução parecia estar fora do planeta, na recolha de material circulante no nosso sistema solar, que teria uma idade muito próxima da terra, se imaginarmos que se trata de restos e lixo da obra original. Encontrá-lo, há mais de cinquenta anos atrás, à superfície da terra não era tarefa fácil! Sejamos claros, os meteoritos não são a amostra de rocha mais abundante na Terra e as fáceis contaminações com o chumbo atmosférico após exposição ao ar introduziam dificuldades adicionais. Foi a partir do momento que obteve quantidade suficiente de meteoritos e de um laboratório com total esterilidade que as medições começaram a recuar para valores tão longínquos como o encontrado e sem paralelo com qualquer estimativa anterior. Mais de meio século depois, o valor permanece inalterado.
Com a técnica afinada, foi o mesmo Patterson que descobriu que os níveis de chumbo atmosféricos anteriores a 1923 eram quase ausentes e que daí em diante os aumentos foram constantes e com taxas de crescimento assustadoras. Os trabalhos retrospectivos foram feitos pela primeira vez nos núcleos de gelo de localidades polares que se sabia conterem por camadas a datação de cada inverno, como um calendário perpétuo. Ainda hoje os estudos de climatologia têm por base este princípio.
Ao descobrir esta catástrofe ecológica em fase embrionária converteu-se em grande lutador pela causa ambiental, contra a poluição atmosférica pelo chumbo e contras as suas consequências.
A sua perseverança e tenacidade deram frutos e os EUA introduzem o Clean Air Act em 1970 e em 1986 retiram do mercado a gasolina com chumbo. As tintas de interiores também foram interditas, apesar de 40 anos depois da Europa e apenas em 1993 a soldadura a chumbo das latas de produtos alimentares foi proibida.
Sobre a Ethyl Corporation já não produz gasolina com chumbo e parece não estar convencida das medidas tomadas de interdição de uso de chumbo, no entanto esse produto é comercializado por outras vias. Quanto aos CFCs, foram banidos nos EUA em 1974 mas continuam a ser comercializados em países do terceiro mundo, que agendaram a sua interdição para 2010. Vamos lá ver se cumprem.
Em 1995, Clair Patterson faleceu. Durante a sua cruzada, foi alvo de muitas perseguições e chantagens, mesmo a nível de meios académicos aparentemente independentes, como o MIT, para que lhe fossem negadas as honras que merecia, tendo chegado a ser excluído de um painel de peritos em matéria de segurança ambientalÖ
Talvez tenhamos que agradecer um dia os seus esforços, a título póstumo quando tomarmos consciência de que as alterações climáticas dos últimos 10 anos seriam muito piores sem o seu contributo. Ou talvez já vamos tarde, se pensarmos no valor e importância da descoberta do ano de construção da nossa “Casa”.
Publicado por RPA às 1:26 AM | Comentários (2)
setembro 25, 2005
O Encantador De Furacões

Apesar de amiúde a ciência se trajar com pureza e receber os louros das conquistas enquanto a tecnologia se converte na única responsável por todos os malefícios, valerá sempre a pena reflictir sobre este maniqueismo. Nos últimos tempos tenho procurado entusiasmar amigos e colegas para que procurem uma aplicação para a sua creatividade, para seu proveito e benefício da nossa economia. Sem prejuizo da minha posição anterior, hoje venho recomendar séria e convictamente que sempre que surja uma utilidade para uma descoberta laboratorial de bancada, sobretudo se for multiplicada em larga escala ao nível industrial, seja ponderado o impacto dessa divulgação. Observemos o exemplo que apresento.
Esta história, de um tal Sr. Eng., é o paradigma do horror que um simples ser humano pode provocar à escala planetária, em contrapeso com a humilde dimensão física de uma qualquer pessoa e, já agora, do apelo constante da natureza para que não nos esqueçamos da nossa pequenez, como tem sido evidente nestas últimas semanas na região do Golfo do México.
Apresento-vos Thomas Midgley Jr, responsável pela contaminação do mundo pelo Chumbo, por grande parte da destruição da camada de ozono e pelo sobreaquecimento terrestre pelo conhecido Efeito de Estufa!
Desde o início, o chumbo, símbolo químico Pb e octogésimo segundo elemento da tabela periódica de Mendeleyev, tem sido uma literal dor de cabeça. Apesar das suas qualidades (abundância, flexibilidade e condutibilidade) é uma substância neurotóxica quando absorvido por via digestiva, inalatória ou por via transcutânea. Para não variar, as crianças são mais susceptíveis por captarem cerca de 50% da dose ingerida enquanto os adultos se ficam pela décima parte. Do total circulante, 95% estão associados aos glóbulos vermelhos e do total captado, 80-90% acumula-se nos ossos, incorporando-se nos cristais de hidroxiapatite. A excreção é difícil, mas maioritariamente através das fezes e em menores quantidades, na urina e faneras cutâneas (cabelos e unhas). A eliminação no leite é particularmente problemática levantando graves problemas de desenvolvimento dos lactantes.
O mecanismo de acção do chumbo é semelhante ao dos verdadeiros venenos. Neste caso bloqueia as proteínas ao nível dos seus grupos sulfidril, com consequente alteração da sua estrutura terciária e função, seja estrutural ou seja catalítica.
Na clínica, o adulto tende a queixar-se mais de dor abdominal, cefaleias, insónia, fadiga e dificuldades na marcha (alterações do equilíbrio) e perda de memória. Surgem também alterações do comportamento secundárias à actividade alucinogénia e perda de visão e audição. Fora do sistema nervoso, a anemia e a insuficiência renal são as manifestações mais exuberantes.
Em pediatria, as manifestações neurológicas são mais exuberantes apresentando irritabilidade inicial, anorexia, alterações da marcha, discurso e pensamento lentificados e mais tarde, letargia, que podem agravar-se com o aparecimento das convulsões e do coma, associados ao edema cerebral. A este quadro clínico deu-se a designação de plumbismo.
Já no início do século XX o chumbo fazia parte de inúmeros produtos, desde recipientes para produtos alimentares selados com solda de chumbo, revestimentos para tanques de água, canalizações e até embalagens de pasta de dentes. O grande contributo de Midgley foi a descoberta do papel catalisador da ignição da combustão nos motores de automóveis com um derivado designado por Tetraetilo de chumbo. Daqui à sua produção em larga escala e comercialização como aditivo para combustíveis foi um pequeno paço. A General Motors, a DuPont (que curiosamente anuncia uma campanha de auxílio às vítimas do Katrina, tal como as tabaqueiras fornecem os serviços de Oncologia) e a Standard Oil foram as três grandes que constituíram a Ethyl Gasoline Corporation. Os relatos de mortes laborais em série deram origem a muitas investigações, que foram abafadas com momentos tão ridículos como as cenas, em frente aos jornalistas, do inventor a derramar sobre as mãos o composto e a inalar os seus vapores, para demonstratar a sua inocuidadeÖ
Como não estava satisfeito com as consequências dos seus actos, Midgley voltou-se para o domínio da indústria de refrigeração que apresentava à época um problema de segurança grave. Os frigoríficos de 1920 tinham gases perigosos quando sujeitos a fugas. Conta-se que apenas um destes aparelhos foi responsável pela morte de mais de cem pessoas num hospital de Cleveland. Como tal, Midgley procurava um gás estável, não inflamável e que fosse seguro após inalação, por isso inventou os clorofluorocarbonetos, genericamente identificados pela sigla- CFCs.
Não há dúvida sobre o empreendedorismo e visão estratégica deste indivíduo que rapidamente conseguiu por o mundo inteiro a produzir e a consumir os seus gases, desde frigoríficos, aparelhos climatizadores, sprays e embalagens de pronto a comer!
Como saberão os CFCs são actualmente os grandes responsáveis pela destruição da camada estratosférica de protecção contra a entrada dos raios ultra-violetas- a camada de Ozono. Este é um gás, constituído por três átomos de oxigénio (O3) e conhecido pela sua toxicidade ao nível do solo, nos ambientes urbanos, nas cidades mais poluídas, mas essencial para a filtração da luz solar, nas camadas mais altas da atmosfera. Estima-se que uns míseros 500 gr de CFCs aniquilem 32 000 Kg de Ozono atmosféricoÖ
Como se uma desgraça não fosse suficiente, os CFCs são também muito poderosos na fixação do calor e, como tal, no agravamento do efeito de estufa. Uma molécula de CFC é dez vezes mais eficaz a agravar o efeito de estufa do que uma molécula de CO2, também conhecido por nos manter os invernos recentes mais quentinhos e por fazer dos nossos verões um verdadeiro inferno estival.
Infelizmente, relativamente às consequências do efeito de estufa, as imagens de Nova Orleães falam por si. Foi infelizmente também que Thomas Midgley morreu sem saber a verdadeira catástrofe ecológica que ajudou a erguer!
Publicado por RPA às 2:32 AM | Comentários (15)
setembro 24, 2005
Ciclope cínico
Anatomia s. f.1. Ramo vasto da Biologia que estuda a estrutura dos seres vivos, mas que para o cidadão comum se esgota na disciplina que é tinha como o Rubicão dos cursos de Medicina, a anatomia humana 2. O domínio dos rudimentos de anatomia é fundamental para um cirurgião, mas um 20 à disciplina não basta para compensar a dislexia ou o delirium tremens 3. A profissão de profanador de túmulos antecede a tara da egiptologia e a partir do século XVIII a sua expansão foi proporcional ao aumento do número de estudantes de medicina. A profissão encontra-se hoje em vias de extinção, por causa da moda da cremação e do aparecimento da tomografia axial computadorizada. 4. Se reaparecesse, o grande anatomista Claudius Galenus teria ficado perplexo com a quantidade de objectos desconhecidos que descobriria dentro dos cadáveres, como as bolsas de silicone e os pacemakers, entre outros.
Publicado por Conta Natura às 3:12 PM | Comentários (0)
setembro 23, 2005
Imortalidade: Prólogo (parte 1)

Planaria
O envelhecimento e a mortalidade são regra geral encarados como inevitabilidades biológicas. No entanto tal não podia estar mais longe da realidade. A imortalidade (ou quase imortalidade) existe em biologia e sua raridade apenas traduz a necessidade da vida se adaptar tanto quanto possível a um ambiente eternamente mutável e imprevisível. Ou seja, o bom funcionamento da selecção natural exige que cada organismo tenha uma longevidade adequada, sendo tal longevidade fortemente optimizada para assegurar a propagação da informação genética que o compõe. Se esta longevidade for excessivamente curta existe um desperdício de recursos e pode não haver oportunidade para o organismo se reproduzir devidamente. Se a longevidade for excessivamente longa então podemos ter uma situação em que a capacidade de uma espécie se adaptar rapidamente ao meio ambiente pode ser significativamente afectada.
(continua)
Publicado por maradona às 7:51 PM | Comentários (1)
setembro 22, 2005
Ciclope cínico
Acasalamento s. m.1. Biologia: associação para efeitos de consumação da cópula entre elementos de sexos opostos ou hermafroditas, que pode ainda visar a protecção e o cuidado das crias. 2. Há uma vasta literatura que, com base nos princípios da selecção natural e sexual, procura explicar este tipo de contrato e todos os seus conflitos aparentes. 3.No homem: ver (1) e adicionar: para efeitos de naturalização à la minuta, financiamento da primeira habitação pelos progenitores, benefícios fiscais, concretização de um modelo de vida socialmente aceite, materialização de uma fantasia induzida pelo consumo de romances com capa de cores berrantes e comédias românticas que incluam pelo menos um dos seguintes actores: Meg Ryan, Julia Roberts, Kate Hudson, Winona Ryder, John Kuzac, Tom Hanks, Hugh Grant, Richard Gere e ainda um vastíssimo grupo, que porém exclui Louis de Funès e Charles Bronson. 4. Biologia: existem essencialmente três tipos de acasalamento: poliginia (quando várias fêmeas acasalam com um macho), poliandria (quando vários machos acasalam com uma fêmea) e monogamia (quando um único macho acasala com uma única fêmea). 5. Homem: ver (4) e incluir a seguinte ressalva: nas sociedades ocidentais tende a imperar um sistema híbrido e dinâmico que, sem perda de rigor, pode ser sumariamente designado por monogamia-seriada-com instantes-poligâmicos-ocultados.
Publicado por Conta Natura às 11:47 PM | Comentários (0)
Ciclope cínico
Amnésia s. f.1. Perda de memória, total ou parcial, temporária ou não, ligada a um trauma ou não, provocada por a uma lesão cerebral ou não, indesejada ou não. 2.Distinguem-se dois tipos principais: a a. retrógrada e a a. anterógrada. Na primeira o indivíduo perdeu a informação que armazenara antes do trauma mas consegue construir memórias de episódios subsequentes. Na segunda ocorre o inverso: a pessoa recorda a sua vida até ao momento do trauma, mas fica incapaz de memorizar novos eventos. Apesar de a a. anterógrada ter um potencial histriónico considerável que o cinema e a literatura têm explorado, por vezes só mesmo a a. retrógrada é capaz de restituir à vítima a vontade de rir. 3. Em adolescentes e na generalidade dos povos britânicos são frequentes episódios de amnésia temporária, designados por blackout alcoólico.
Publicado por Conta Natura às 8:50 PM | Comentários (2)
Ciência e Sociedade
Science in Society -An introduction to social studies of science
De Massimiano Bucchi

Apresento-vos este livro. Foi escrito por Massimiano Bucchi como uma pequena introdução à Sociologia da Ciência e parece-me essencial para qualquer cientista que queira saber um pouco mais sobre os aspectos sociais da Ciência. Como é apenas uma introdução, não se torna demasiado pesado para os não versados em sociologia.
A relação entre o Homem e a Ciência e o modo como o mundo que nos rodeia e a nossa cultura têm sido influenciados pela Ciência, são uma preocupação crescente de estudos sociológicos. Além disso, a Ciência está cada vez mais ao centro de debates públicos. Sem assumir algum conhecimento científico da parte do leitor, Bucchi descreve as maiores tendências na Sociologia de Ciência, usando exemplos muito ilustrativos. Estas tendências incluem a teoria da revoluções científicas de Kuhn, a sociologia do conhecimento científico e a construcção social da tecnologia. A segunda parte do livro trata de algumas controvérsias recentes sobre o papel da Ciência no mundo moderno tais como as guerras de Ciência e as implicações sociais do projecto do genoma humano. O livro está dividido em oito capítulos que elucidam muito claramente como a Ciência funciona, por que é que os sociologistas a acham interessante e como é gerado o conhecimento científico. Decerto, um livro necessário para todos os cientistas (naturais ou sociais).
Publicado por SJA às 2:24 PM | Comentários (0)
Ciclope cínico
Adaptação s. f.1. Fisiologia: ajustamento de um órgão sensorial (como o olho e o pénis) a alterações externas (como a luz e a presença de material pornográfico, respectivamente). 2. Evolução: uma característica geneticamente determinada que aumenta a probabilidade de sobrevivência até à idade reprodutora e/ou a reprodução do indivíduo num determinado meio. 3. Política: uma característica determinada e seleccionada por anos de militância nas Jotas dos partidos, que aumenta a probabilidade de sobrevivência política até à conquista de uma autarquia, secretaria de estado, ministério ou cargo no estrangeiro. O léxico associado reflecte a importância de um dos eixos (a nutrição) em que se alicerça o Programa Animal (termo proposto por Germano Sacarrão): "engolir sapos", "tacho", "a mama" e "não há almoços grátis". Os mais bem sucedidos reproduzem-se por cooptação e adopção de novos seleccionados.
Publicado por Conta Natura às 2:05 PM | Comentários (0)
setembro 21, 2005
O desígnio inteligente

6. Uma das estratégias dos defensores do ID consiste em retirar à teoria da evolução o estatuto de ciência. Sem entrar nos meandros do problema da indução, recordo o famoso critério da "falsificabilidade" de Karl Popper (The Logic of Scientific Discovery, 1934), útil para distinguir a ciência da crendice: as teorias científicas estão formuladas em termos precisos e encerram previsões, passíveis de serem testadas. Por outras palavras, a teoria científica pode fracassar, bastando que a previsão não se concretize. Pelo contrário, para Popper, os sistemas de crença tradicionais, a astrologia, as teses marxistas e a psicanálise são irrefutáveis e, como tal, não podem ser considerados como ciência. Popper incluiu ainda a teoria da evolução de Darwin no grupo dos projectos metafísicos. Era demasiado tentador para um adepto da ID não usar como arma de arremesso o nome do mais famoso filósofo de ciência do século XX. Porém, como veremos, a fragilidade desta posição vai muito além das limitações que caracterizam os argumentos de autoridade. (continua)
Publicado por Conta Natura às 12:51 PM | Comentários (4)
Ciclope cínico
Abiótico adj.1. Sem vida. 2.Tudo num ecossistema que não possui material genético, não é um andróide de última geração e não é vendido pela Bandai (a marca japonesa que lançou os Tamagotchi).
Publicado por Conta Natura às 4:41 AM | Comentários (0)
Ciclope cínico
Abdómen s. m.1. Nos vertebrados terrestres é a zona situada entre o tórax e a bacia. 2. Nos insectos localiza-se posteriormente à cabeça e ao tórax e é composto por um número variado de segmentos. 3. Certos grupos de vertebrados, nomeadamente os praticantes do culturismo, apresentam uma segmentação do abdómen semelhante à dos insectos, mas tal não deve ser tido como uma manifestação de atavismo, pois é consequência da hipertrofia da musculatura abdominal. Note-se que a possibilidade desta absurda prática cultural resultar de um atavismo do sistema nervoso central ainda não foi descartada (vide sistema nervoso em escada de corda).
Publicado por Conta Natura às 12:21 AM | Comentários (0)
setembro 20, 2005
” meus amigozzzzÖ
Found a young girl, who suited him nice
Went to his papa to ask his advice
His papa said son, I have to say no
That girl is your sister but your mama don't know
Wohohoho, it's real, shame and scandal in the family...
Went to his mama, and thought what he said
And told his mama, what his papa had said
His mama she laughed she says, go man go
Your daddy ain't your daddy, but your daddy don't know...
("Shame and Scandal", traditional, lead vocals - Peter Tosh, 1965 produced by - Coxone Dodd)
Não paternidade: Situação em que o alegado pai de um indivíduo não é o pai biológico.
Embora os casos de não paternidade sejam principalmente uma dor-de-cabeça para os investigadores que trabalham em genética humana, a proporção de não paternidade nas diferentes populações humanas é um assunto de debate a nível evolutivo e sociológico, tendo também implicações éticas.
Em termos de evolução, é novamente a velha questão de “nature vs. nurture”; neste caso, se a ocorrência de não paternidade é igual nas diferentes populações e portanto uma quantidade da espécie humana ou se varia conforme factores socioeconómicos e é, portanto, produto cultural. Apesar de circularem boatos que é igual nos vários países com uma taxa de 10%, meta-análises da literatura revelam que varia conforme país e etnia (este ultimo caso reflectindo diferenças culturais ou sócio-económicas entre as diferentes etnias). A taxa de não-paternidade nos diversos estudos publicados varia entre 0.3% (Suíça) e 11.8% (Nuevo Leon, México). Varia conforme factores socioeconómicos (população branca no Michigan ñ 1.4%, população negra ñ 10.1%) e culturais (população branca na Califórnia - 2.7%).
No entanto, a percepção pública das taxas de não paternidade é bastante maior, com resultados de inquéritos rondando os 13%. Isto pode em parte ser devido à percepção pública vir principalmente dos resultados de testes de paternidade em que a taxa de não paternidade ronda os 30%.
Ética e legalmente, o debate centra-se na descoberta acidental, normalmente no contexto de estudos genéticos, de casos de não paternidade. Neste momento, o consenso parece ser (embora não estabelecido por lei) por retirar discretamente a família em questão do estudo, sem revelar a descoberta. No entanto, há pessoas que defendem informar um dos membros da família da descoberta.
Sociologicamente, também se debate do valor de investigar casos de paternidade. Até que ponto beneficia a estrutura familiar saber se o pai é ou não o pai biológico?
Ver: Mark A Bellis, Karen E Hughes, Sara K Hughes, John R Ashton, "Measuring paternal discrepancy and its public health consequences", Journal of Epidemiology and Community Health, Sept. 2005; vol 59: pp 749-754.
E: http://www.childsupportanalysis.co.uk/analysis_and_opinion/choices_and_behaviours/misattributed_paternity.htm#mg1
Publicado por MM às 2:47 PM | Comentários (0)
O Conta segundo cada autor
O Bruno oferece-nos agora a possibilidade de seleccionar os posts do Conta em função do autor. Basta irem à coluna da esquerda e carregar no nome do vosso contista de eleição (por exemplo, o VB). Os posts do Vítor aparecem então todos de seguida, sem a desagradável interferência da prosa de um editor do Conta que não suportam (por exemplo, o VMB).
Publicado por Conta Natura às 1:36 PM | Comentários (0)
setembro 19, 2005
Uma Vida Mais Acrobática Com Vitamina E
Esta é a notícia veiculada pela Newscientist ao fazer referência a uma publicação num jornal com nome suspeito de Ana Novarro e Alberto Boveris e do qual apenas consegui aceder ao abstract.
Em todo o caso, os ratinhos utilizados apresentavam um acréscimo na sua vida média de 40% relativamente ao grupo controlo, que não recebeu qualquer suplemento alimentar. Por outro lado, as avaliações da performance física revelaram uma melhoria de 45% nas pontuações obtidas em comparação com indivíduos da mesma idade submetidas à dieta controlo.
Reforça-se aqui a importância já muito discutida do papel antioxidante desta vitamina, com redução substancial das lesões de stress oxidativo, mas com aumentos não menos importantes na mobilidade testados num sistema apropriado, muito semelhante a números de circo bem conhecidos. E que nos fazem recordar uns comprimidinhos azuis que já encomendaram tantos homens para a outra margem.
No entanto, há que recordar a possibilidade de efeitos tóxicos em humanos se sujeitarmos quaisquer indivíduos a tomas entre 1,2-2,2 g/ dia de Vitamina E, a dose equivalente humana à dose usada nestas experiências. De facto, em publicações anteriores de Edgar Miller do John Hopkins School of Medicine, as doses elevadas de Vitamina E estão associadas a um risco aumentado de hemorragia e acidente vascular cerebral (AVC) em indivíduos que faziam terapêutica anti-agregante, isto é, que impediam a adesão entre as plaquetas.
Tendo em conta o ilustrado na fotografia, o grupo dos ratinhos irá repetir a experiência com doses substancialmente inferiores, para reavaliar o impacto na longevidade da estirpe bem como da sua mobilidade/equilíbrio, com doses mais facilmente transferíveis para ensaios clínicos.
Em todo o caso, recomendo que aumentem todos a dose de cenouras ingeridas, pelo sim, pelo não!...
Publicado por RPA às 11:35 PM | Comentários (7)
A Caminho Da Erradicação Da Poliomielite? (2™ Parte)
Qualquer medida que melhore as condições de salubridade de uma população são bem-vindas e aplaudidas. Se as iniciativas de prevenção da doença forem concertadas à escala global são motivo de júbilo.
Por outro lado, este poder, esta autoridade que nos confere a boa vontade humana não nos pode nunca turvar a consciência da nossa pequenez perante o peso do Tempo na escala evolutiva. De facto, os vírus já habitavam o planeta muito antes da nossa chegada e estou fortemente persuadido que aqui permanecerão quando o ambiente se tornar demasiado hostil à nossa presença.
A campanha de vacinação anti-poliomielítica é um destes exemplos de transformação da ciência em tecnologia para o serviço da humanidade. No entanto, quando tal acontece, quanto maior for a dimensão da intervenção humana, maiores as surpresas da reacção da natureza.
Em 1988, a data do início da campanha de vacinação global promovida pela OMS, o panorama mundial era negro.
GLOBAL STATUS 1988

Em 2004 foram apenas seis os países classificados como hospedeiros de Poliomielite endémica: Nigéria, Níger, Afeganistão, Paquistão e índia. Seis outros foram identificados como países de importação com re-estabelecimento da infecção: Burkina Faso, Chade, Republica Centro-Africana, Sudão, Costa do Marfim e Malí.
De qualquer forma, evoluímos de 350 000 casos em 1988 para 1255 em 2004. De acordo com a informação de que dispomos, até 30 de Agosto contavam-se 1144 indivíduos infectados. Aparentemente esta inversão parece associar-se ao encontro de fieis em Meca que permitiu a disseminação por países com maioria muçulmana. Mas estas não são as únicas preocupações dos peritos coordenadores deste projecto.
O poliovírus é um vírus de RNA de pequena dimensão da família dos Picornavirus, tal como o vírus da Hepatite A e os Rhinovírus responsáveis pelas constipações. São três os serotipos até agora identificados, sendo o tipo associado à transformação virulenta da estirpe atenuada usada na campanha com recurso à OPV.
GLOBAL STATUS 2004

De facto, o retrocesso registado neste último ano, que tudo indica se confirmara em Dezembro, associado à proliferação de estirpes virulentas directamente associadas à estirpe atenuada, bem como o risco de desenvolvimento de patologia com a vacina de 1/4 milhões de doses, em vez de 0,5 a 1% no caso do serotipo selvagem, levam em conjunto a alterar o programa de vacinação, substituindo pela versão inactivada (IPV ou tipo Salk).
Como se pode identificar nas figuras relativas a 2004 e 2005, no final do mês passado são já 10 os países que se encontravam livres de Polio e se revelaram re-infectados: Somália, Indonésia, Yemen, Angola, Etiópia, Chade, Sudão, Mali, Eritreia e os Camarões.
Graças ao apoio e determinação da Gates Foundation e do Rotary International há financiamento substancial que no caso da primeira rondará os 120 milhões USD. A preocupação pela actual situação é grande mas os alertas já foram lançados, até pela própria Patty Stonesifer, presidente da Bill & Melinda Gates Foundation: "Today, as a resurgence of polio threatens to roll back the amazing progress of the past 20 years, it is more important than ever that governments and donors support the final push to eradicate polio."
Esperemos que as novas campanhas de vacinação sejam coroadas de êxito. Daqui, permaneceremos vigilantes.


Publicado por RPA às 11:18 PM | Comentários (0)
Ciclope cínico
![]()
Aardvark: s. m.nome africâner para Orycteropus afer, um mamífero africano noctívago que se alimenta de térmitas. Este animal não está em vias de extinção, para grande alívio das sociedades de protecção da natureza que assim evitam desperdiçar fundos em T-shirts com pouca saída e podem continuar a capitalizar na imagem do Panda.
Publicado por Conta Natura às 9:55 PM | Comentários (0)
Metablogue de ciência
O Bruno criou há uns dias um Metablogue de ciência que acumula em tempo quase real os posts que vão sendo publicados em diversos blogues de ciência portugueses. Creio poder dizer sem exageros que o resultado final é o blogue de ciência mais rico e activo que se publica em Portugal neste momento.
Se entretanto descobrirem outros blogues de ciência portugueses que merecem ser incluídos no metablogue, podem deixar aqui as sugestões. Desde já agradecemos a vossa ajuda. .
Publicado por Conta Natura às 5:49 PM | Comentários (0)
Thiago regressa
É com enorme prazer que anuncio o regresso do Thiago Lopes Carvalho ao Conta. O Thiago fez parte da equipa inicial mas só agora está em condições de partilhar com os leitores o seu tráfego sináptico fluido, rico e desconcertante. O moço escreverá ao Domingo (partilhando o dia com o Ricardo) uma coluna intitulada "A palavra do senhor" . Faço notar o "s" minúsculo.
O Thiago é biólogo pela universidade de São Paulo e doutorado em Imunologia pela universidade do Porto, tendo feito o trabalho de tese do Instituto Gulbenkian de Ciência. De momento conclui um pós-doutoramento em Imunologia, no Alabama (EUA). Orgulha-se de ter recebido uma carta manuscrita de John Maynard Smith, declinando um convite para um encontro sobre Evolução; é excelente a grelhar carne e possui a piada mais rápida que conheço.
Publicado por Conta Natura às 5:04 PM | Comentários (2)
setembro 17, 2005
Ciclope Cínico
A: letra 1. É menos usada por biólogos do que por matemáticos, dado que aqueles não possuem pensamento abstracto e dispensam proposições do tipo "Seja A..."2. Um precioso auxiliar na discriminação alfabética de elementos (vitaminas, famílias de proteínas, etc), não deixa porém de ser tratada com um certo desprezo por quem vê na nomenclatura uma oportunidade para exibir a sua erudição, graça ou estilo, preterindo as letras em favor de nomes inspirados num espectro que vai da mitologia grega à cultura pop, inclusive (vide Drosofilistas) 3. Geneticistas com problemas de memória mas competência pedagógica referem-se com frequência a um certo gene "A", que na verdade não existe. Insistem depois num certo gene "a", cuja presença também não é confirmada pelos projectos de sequenciação do genoma. Não existindo, A e a encontram-se apesar de tudo no mesmo local (vide locus, dominância e recessividade).
Nota: as palavras sublinhadas são entradas futuras.
Publicado por Conta Natura às 12:04 AM | Comentários (0)
setembro 16, 2005
O Macaco Anónimo
O seu nome é Lucachi, um primata arbóreo (do género Callicebus) com pelagem alaranjada que leva na ponta da cauda preênsil uma malha branca. Da família dos titís, é tímido. Tímido e monógamo, Lucachi "inclina-se" à distribuição equitativa das tarefas essenciais de carregar os filhos na fuga dos predadores e procurar alimento na ausência dos mesmos. Ao fim da tarde, "gosta" de subir aos píncaros do seu arvoredo e comer a fruta que mais exposta esteve ao dia equatorial. Fermentados que foram os seus açúcares, com ela Lucachi se embriaga, a contemplar um sol vermelho que devido à rotação do planeta, é deixado para trás, além do leito do Undumo. Numa dança incerta de palhaço-trapezista, patas e cauda operam sobre aquele "aranhiço" cambaleante o milagre antigo atribuído à mão que deus bota por baixo do borracho e do menino. Sendo bêbada a sua condição, o titi é assim salvo. De resto muitas seriam as vergonhas do Éden diante desta floresta. Baptizada há apenas alguns séculos (nada, realmente!), o Parque Nacional de Madidi reúne numa superfície equiparável à do Alentejo, só em pássaros, mais espécies do que tudo o que tem penas e vive no continente de Lucachi desde o limite sul do Texas ao Pólo da famosa estrela.
E por falar em baptismo, desde que os primatas-sem-pêlo (essa versão "hominídea" do xoloitzcuintli) vieram com a sua linguagem canora, dar nome a tudo o que viam, aquele titi cor-de-laranja chama-se Lucachi. Embora, entre os macacos, seja rara uma língua muito mais rica que o dissílabo, o instinto etimológico sugere-nos que o nome Lucachi é a onomatopeia do vocábulo com que este macaco "fala" (na verdade, um espectáculo: cada um no seu galho, e, não obstante o olhar desconfiado, muitos aplausos e gritos. Luca! Luca! Luca!).
Mas eis que do Norte chega um homem estranho, branco e com pouca vontade de se emancipar do velho latim científico. Este homem, Robert Wallace, foi o primeiro da sua raça e, portanto, da sua espécie, a ver (diz-se descobrir) o Lucachi. Era ao entardecer... homem sóbrio e macaco ébrio se olharam. Estranhamente, de cima para baixo vê o peludo o pelado. O mundo biológico nem sempre fala em metáforas. Também lá estava outro humano (e, presume-se, outros Lucachis), mas é transparente, não por chamar-se Humberto Gómez (Who cares?), mas por ser do sul.
Nasce pois em Wallace a urgência de nomear esta "nova" espécie. (Callicebus lucachis não vale? Porque não viajou Lineu ao "outro" hemisfério?) O primatólogo britânico é todavia um sapiens atípico: nele tanto a vaidade como a ambição económica são escassas. Portanto, recusa que o seu nome faça parte de mais uma maquiavélica construção, do tipo Inia geoffrensis, Equus zebra hartmannae ou Okapia johnstoni. Parece que Wallace experimenta por Madidi um grande afecto e que, para juntar ao útil o urgente, volta ao Norte e, com as "armas" de lá (de preferência sem exagerar na transformação daquele lugar em instância turística), tenta obter dinheiro para manter e proteger a dita floresta. Em poucas palavras: o direito de baptizar Lucachi foi a leilão. Madidi é do tempo em que uma floresta nascia onde antes reinava um deserto de gelo que a uma frondosa velha selva sucedera, conforme a mudança de pólos, de temperaturas do miolo planetário e demais caprichos do acaso natural. No presente os caprichos são outros, ou melhor, adicionais. Moda daqui, Ellen DeGeneres dali, roupa interior de supermodelos vendida pela boa causa, um semi-planeta ocidental de publicidade mobilizada, campanhas, mundos e fundos. Tanto para tão poucos fundos. Nem chegou ao orçamento para um ano de manutenção do Parque. Quem poderá convencer o Poder a proteger a vida selvagem, mesmo com uma promessa de lucro?
Entretanto, o vencedor do leilão e do consequente direito a dar nome ao bicho foi um casino internético. Como se chama? (Quem, o casino ou o macaco?) O casino tem por nome Internet Golden Palace embora dele Lucachi trepe distante. Fruta verde de dia e madura à noite. Pouco sabe de nichos e habitats. O seu nome é agora Callicebus aureipalatii.

Publicado por VB às 12:49 AM | Comentários (4)
setembro 15, 2005
Montra Natura

Série de imagens de um embrião de Drosophila melanogaster a 4 horas após a fertilização. A vermelho as células germinais e a azul todas as células do embrião.
Fotografia (artística) de Oliver Grimm.
Publicado por SJA às 4:32 PM | Comentários (0)
O ciclope cínico
Os ciclopes são gigantes da mitologia grega, cuja principal característica física é a presença de um único olho no meio da testa. Segundo Hesíodo, são casmurros e desprovidos de emoção. Este perfil físico e psicológico é irresistível. Acabei por ceder à tentação de vestir a pele de um ciclope, como forma de ficar legitimado pela estupidez aparente e casmurrice para destruir a Biologia e -sejamos ambiciosos- a Ciência em geral. O ciclope cínico será uma série de entradas satíricas, escritas como se estivesse a elaborar um dicionário.
A inspiração é óbvia: o The Devil's Dictionary, de Ambose Bierce, que começou a aparecer na imprensa em 1881. Seria possível extrair um dicionário só para a biologia (e a medicina) a partir da obra de Bierce? Sem dúvida. O homem escreveu sobre tudo. Logo na segunda página podemos ler: abdomen: m. a shrine enclosing the object of man¥s sincerest devotion; e um pouco mais adiante: edible: adj. Good to eat, and wholesome to digest, as a worm to a toad, a toad to a snake, a snake to a pig, a pig to a man, and a man to a worm. Mas a biologia não era o interesse primordial de Bierce e o século seguinte produziu um léxico novo, uma nova linguagem e uma outra cultura. Faz sentido tentar um exercício parecido agora e a blogosfera é o lugar ideal. De resto, no Casmurro temos já um work in progress semelhante, o magnífico Dicionário de Soundbytes, de Osvaldo M. Silvestre. Tentarei aplicar o mesmo formato mas sem sair da ciência.
O nome "ciclope cínico" encerra uma piscadela de olho para Bierce, que no prefácio ao Devil¥s Dicitionary de 1911, referindo-se a um nome prévio dado por outros ao seu trabalho, relembrou: " This more reverent title [The Cynic¥s Word Book] had previously been forced upon him [Ambrose Bierce] by the religious scruples of the last newspaper in which part of the work had appeared, with the natural consequence that when it came out in covers the country already had been flooded by its imitators with a score of "cynic" books - The Cynic¥s This, The Cynic¥s other and The Cynic¥s t¥Other. Most of these books were merely stupid, though some of them added the distinction of silliness. Among them, they brought the word "cynic" into disfavour so deep that any book bearing it was discredited in advance of publication". Para disclaimer não poderia encontrar melhor prosa. Ao trabalho.
Publicado por Conta Natura às 1:09 PM | Comentários (0)
O meu T1 por alguns números
Se após ler os jornais decido mergulhar na "sociedade civil", a conclusão é imediata: não estamos preparados para a histeria meritocrática que tomou conta dos colunistas e das elites da pátria. Aqui também enfiamos a carapuça: no Conta somos ligeiramente obcecados com a estatística e as avaliações. Quantos papers publicou Fulano? Quantas vezes foi citado Sicrano? Este estado de espírito reflecte termos começado a fazer ciência há relativamente poucos anos. Para que não haja equívocos: a meritocracia sempre marcou presença entre os cientistas e o reconhecimento do nosso trabalho pelos colegas é e provavelmente sempre foi uma enorme e saudável fonte de satisfação. Sucede que a actual obsessão pela avaliação gerou graves problemas. Por exemplo, quando o currículo começa a subjugar a carreira, isto é, quando o cientista faz as suas escolhas não de acordo com as suas preferências ou com aquilo que ele pensa que de facto vale a pena ser estudado, mas sim tentando maximizar a probablidade de publicar um artigo depressa e numa boa revista, há algo que está errado. Digo eu. Menos controversa é a crítica às avaliações de fachada, cujo objectivo é simular uma prática de meritocracia, mas que muitas vezes são feitas sem isenção ou produzem relatórios inconsequentes. Refiro-me a certas avaliações a institutos e universidades, que fizeram cair a palavra "excelente" em descrédito. Penso também na instituição nacional que é o concurso público à imagem do candidato preferido. Sobre esta última prática, de resto, convinha que alguém um dia se desse ao ingrato trabalho de bufo, identificando as irregularidades a posteriori e até - aqui deliro - colocando a devida pressão para que as tramóias não se concretizem. Seria um verdadeiro serviço público e, como bónus, ajudar-nos-ia a navegar pelas histórias que por aí circulam, distinguindo o factual das realidades paralelas para consolo do ego (mas este é um tema que merecerá tratamento adequado a devido tempo). Em resumo, o que temos hoje é um discurso eticamente irrepreensível (embora a pedir algumas afinações de ordem técnica) e uma prática que em larga medida ainda reflecte hábitos velhos.
De momento o que me consome é esta ideia de que as médias finais dos cursos universitários têm vindo a subir discretamente nos últimos anos. Seria mais um efeito pernicioso da tal histeria meritocrática e gostaria de ver se assim é. Infelizmente não encontrei os números online, mas alguém os deve ter...
Nota: um estimável dicionário online de português não reconhece a palavra "meritocracia". Com a ressalva de isto poder ser apenas ignorância minha e haver uma palavra portuguesa mais adequada do que um abastardado neologismo, este dado parece-me sintomático.
Publicado por Conta Natura às 9:44 AM | Comentários (2)
setembro 14, 2005
Publicado por PP às 2:30 PM | Comentários (4)
O paper português com mais citações
Publicado por PP às 10:35 AM | Comentários (8)
setembro 13, 2005
Blogociência Portuguesa

No seguimento de um artigo que escrevi para o Ciência Hoje sobre blogues portugueses de Ciência, foi criado o Blogues de Ciência em Portugal. Uma boa lista de referência e que se espera venha a crescer.
Publicado por SJA às 5:28 PM | Comentários (5)
O DEVER CíVICO
Resolvi colocar novamente o inquérito no post de hoje, já que agora todos os leitores (e editores) devem ter voltado de férias. Que era, tenho a certeza, a única razão pela qual a maioria ainda não tinha respondidoÖ
Modo de resposta: um identificador pessoal (pode ser o nome, um nom-de-guerre, ou outro conjunto de caracteres que outras pessoas não utilizem); o instituto de investigação e a letra da pergunta, seguida do número da resposta.
Exemplo: Nome: Pocahontas
Instituto de investigação: Instituto de Biologia Molecular, Universidade de Madrid
Cidade: Madrid País: Espanha
A. 1
B. 3
C. 2
etcÖ
Mandem as respostas para maya.mendiratta@gmail.com
Quanto ao instituto de investigação, devem estar lá há pelo menos um ano, e pode ser Português ou de outro país qualquer, ligado a uma universidade (neste caso ponham a faculdade ou centro) ou independente.
INQUÉRITO AOS CIENTISTAS PORTUGUESES SOBRE A QUALIDADE DE INSTITUTOS DE INVESTIGAC√O
Nome:
Instituto de Investigação:
Cidade:
País:
Tuga à vista!
A: Quantidade de portugueses nas redondezas:
1 ñ zero
2 ñ um ou dois
3 ñ paletes
A cesta do lanche
B: Facilidade em arranjar bacalhau, chouriço, nestum com figos, etcÖ
1- os meus papás causam dores de cabeça aos serviços alfandegários
2- se estiver disposto a atravessar a cidade toda lá se arranja
3- há uma mercearia portuguesa na esquina
O líquido vital
C: Facilidade de encontrar uma bica decente:
1 ñ livrei-me do vício
2 ñ ao fim-de-semana tenho tempo de ir tomar um café de jeito
3 ñ o empregado do café mais próximo é português
O sexo fraco
Por favor respondam só a D1 ou D2 e não a ambos. (Respostas duplas serão desqualificadas)
D1: Qualidade do sexo feminino
1 ñ é o deserto
2 ñ de vez em quando lá aparece uma na cantina
3 ñ nem sei para onde me virar
D2: Qualidade do sexo masculino
1 ñ é o deserto
2 ñ de vez em quando lá aparece um na cantina
3 ñ nem sei para onde me virar
Os colegas de laboratório
E: Interacção com os colegas do lab:
1 ñ Enfio-me num canto e espero que ninguém me veja
2 ñ São simpáticos mas cada um tem a sua vida
3 ñ Saio com eles pelo menos uma vez por semana
The boss
F: Relação com o orientador, chefe, PI:
1 ñ Muito a custo la me encontro com ele uma vez por ano
2 ñ Cordial mas distante
3 ñ Critico a roupa dele/discuto a ultima telenovela com ela/discuto os resultados do futebol com ele
A administração
G: Facilidade em tratar/obter papeladas, burocracias, documentos, a secretariaÖ
1 ñ ëO processoí de Kafka
2 ñ A custo, lá se vai conseguindo as coisas
3 ñ Eficientes e simpáticos
Em vista de acontecimentos recentesÖ
H: Nível e qualidade do material e apoio informático
1 ñ Tenho que partilhar o meu computador velhinho com várias pessoas
2 ñ Tenho um computador meu mas volta e meia há problemas sérios
3 ñ State-of-the-art
A Ciência pura e dura
I: O ëbuzzí científico no instituto:
1 ñ Nos corredores só se fala de futebol e televisão
2 ñ De vez em quando há um seminário interessante
3 ñ Há uma sensação de massa crítica intelectual
O tó (por sugestão)
J: A qualidade dos transportes para o insituto
1 ñ Só de carro ou a pé
2 - Há, mas são lentos ou caros
3 ñ Bons e baratos
A minha bancada é maior que a tua
L: A qualidade do laboratório
1 ñ Uma cave escura e fedorenta
2 ñ Apertados mas lá se aguenta
3 ñ Laboratório novinho em folha com tudo o que é preciso
Três anos à espera do anticorpo
M: Facilidade em obter o material de laboratório necessário
1- Tem que se contar os tostões e esperar séculos
2- Vou arranjando quase tudo o que preciso
3- Tudo o que eu peço chega no dia seguinte
O papel
N: Nível do salário/bolsa
1- Vivo de massa e durmo num beliche
2- Dá à rasquinha
3- Dá para tudo
A palavra final
Defina numa frase o que representa para ti o teu instituto:
Ocorreu-me agora que com disposição alegre dos portugueses, vocês poderiam não ser muito honestosÖ Portanto, sejam sinceros e se houver algo de positivo a dizer sobre o vosso instituto digam!
Publicado por MM às 9:55 AM | Comentários (0)
setembro 12, 2005
Divulguem e, já agora, saquem o prémio
"Os responsáveis europeus dos organismos financiadores de ciência - European Heads of Research Councils (EUROHORCS), desejando contribuir para a construção da European Research Area, decidiram, em conjunto com a European Science Foundation, criar o European Young Investigator Award (EURYI). Este prémio, cuja primeira edição data de 2003, destina-se a encorajar jovens investigadores de todo o mundo a dedicar o seu esforço e capacidade a projectos de investigação obrigatoriamente desenvolvidos na Europa. O objectivo é estimular a criação de equipas capazes de, a longo prazo, vir a liderar a investigação na sua área de intervenção a nível mundial, aumentando, assim, a competitividade do continente europeu.
Apesar de ser um prémio de criação recente, o seu prestígio é já muito reconhecido, não só pelo grau de exigência que rodeou a escolha dos laureados como pelos níveis elevados de financiamento envolvidos, que nesta terceira edição do prémio podem variar entre 750 kÄ e 1250 kÄ por ano, durante cinco anos. A ideia por detrás deste financiamento é assegurar a independência do investigador relativamente a outras entidades financiadoras, de modo a que possa levar a cabo a totalidade do seu projecto.
Aos candidatos é solicitada demonstração de que no passado já desenvolveram trabalho de elevada qualidade, devendo ainda ser reconhecida capacidade de liderança na sua área de investigação.
Os critérios para atribuição do EURYI dependem de:
- qualidade do projecto e capacidade do proponente,
- originalidade e exequibilidade da proposta, bem como o seu carácter inovador,
- potencialidade da proposta para promover a investigação na Europa no panorama internacional.
Os candidatos devem ter obtido o doutoramento há mais de dois e menos de oito anos à data do encerramento do concurso.
O convite para apresentação de propostas foi lançado no passado dia 1 de Setembro, mantendo-se aberto até dia 30 de Novembro do corrente ano. As condições podem ser consultadas no site da ESF no endereço www.esf.org e no endereço da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), www.fct.mctes.pt/pt/emprego/Euryi/
Considerando o prestígio da sua organização no panorama nacional da investigação científica, a FCT agradece desde já toda a contribuição que puder ser prestada para a divulgação do EURYI junto dos potenciais candidatos. Recorda-se que estes podem ser portugueses ou estrangeiros que queiram desenvolver o seu trabalho em Portugal. O país já teve uma laureada na primeira edição do EURYI. No entanto, a nossa responsabilidade na apresentação de excelentes candidaturas não diminuiu. Muito prestigiada ficará a investigação científica em Portugal se nos for possível assegurar candidaturas de elevada qualidade. Os imperativos da participação nacional assim nos obrigam, atendendo ao prestígio que este prémio encerra e ao investimento que envolve.
Com os melhores cumprimentos.
O Presidente,
Fernando Ramôa Ribeiro"
Publicado por Conta Natura às 3:50 PM | Comentários (0)
setembro 10, 2005
A Caminho Da Erradicação Da Poliomielite?
Em 1979 a Organização Mundial de Saúde (OMS- WHO) declarou a erradicação universal de uma doença infecciosa, a varíola (Smallpox). Esta é, para mim, a maior vitória das ciências da vida em toda a sua história. Não só se eliminou a doença como o agente, mas acima de tudo, toda humanidade beneficiou! Hoje, apenas dois centros (assim esperamos) são depositários de amostras do vírus.
O feito foi alcançado através de uma terapêutica preventiva eficaz que baseada no desenvolvimento de uma resposta imune a um vírus (neste caso é “vivo”) que não sendo o agente patogénico original, não provoca varíola. A vacina, que se encontra de novo em produção após as ameaças de terrorismo biológico com o carbúnculo, tem por base um vírus da mesma família chamado vaccínia, outro membro da família dos Poxviridae, como a cowpox, camelpox, a monkeypox, entre outros.
Mas uma outra vitória se previa anunciar brevemente, a erradicação da Poliomielite. Trata-se de uma patologia infecciosa altamente contagiosa causada por um vírus com neurotropismo e que por isso poderá provocar uma paralisia total numa questão de horas. Todos os humanos são potenciais alvos, sendo a faixa etária das crianças abaixo dos 3 anos, mais susceptível (50%). Na realidade apenas 1/ 200 infectados desenvolve sintomatologia e pode apresentar paralisia. Um destes desafortunados foi Presidente dos E.U.A. São poucos os registos fotográficos onde se torna perceptível a cadeira de rodas de Franklin D. Roosevelt, mas a doença do Presidente conferiu especial vigor à busca de uma vacina. Em 1953 Jonas Salk anuncia a primeira vacina para a Polio inactivada (IPV) e em 1961 Albert Sabin anuncia um nova alternativa, baseada na inoculação de uma forma atenuada do vírus da Polio, que se administrava pela mesma “porta de entrada” do agente da doença- a boca- identificando-se com a sigla OPV ( oral polio vaccine).
O Poliovirus infecta, seguindo a mesma via do vírus da Hepatite A ou E (fecal-oral), amplifica-se no epitélio intestinal e entra na circulação, alcançando depois o sistema nervoso central onde infecta os neurónios motores produzindo paralisia flácida que ao afectar os músculos do tronco pode condicionar a mecânica ventilatória.
A OPV, por conjugar o vírus vivo com a mesma via de administração permite imunizar por “via passiva” a população que nunca teve contacto directo com a vacina, mas que contactou com as partículas virais eliminadas pelos indivíduos vacinados, nas fezes maioritariamente. Por outras palavras, as crianças imunizadas funcionam como verdadeiros reservatórios para expansão e amplificação viral e são, no fundo, uma verdadeira fábrica de novas vacinas! Para além disso, a dose inoculada é barata ($0,08/ dose) e pode ser administrada por pessoal não especializado.
Esta abordagem é um dos motivos de sucesso desta campanha vacinal. Desde 1955 que se combate activamente a epidemia, que começou com a administração da IPV, logo seguida pelas campanhas com recurso à vacinação oral e que fizeram de Cuba um exemplo a não esquecer por ter praticamente erradicado a Polio em uma década. Em 1988 a WHO oficializa a determinação para erradicar a Poliomielite do planeta e inicia uma companha mundial de vacinação. Nesse mesmo ano, em Portugal, é reportado o último caso.
(CONTINUA)
Publicado por RPA às 10:00 AM | Comentários (7)
Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação
O Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação (CSCTI) foi criado pelo DL n.∞ 150/2003, de 11 de Julho, com o objectivo de trazer de volta à vida o então moribundo Conselho Superior de Ciência e Tecnologia dotando-o simultâneamente de acrescidas competências no domínio da inovação.
É composto por várias personalidades de grande relevo nas áreas em que é chamado a intervir. Está neste Conselho representada toda a dita "Sociedade Civil" (passe o lugar-comum) e, de acordo com o Decreto-Lei que o criou, é o orgão de consulta e aconselhamento do Ministro da Ciência e do Ensino Superior no domínio da política científica e tecnológica e na promoção da inovação.
Trata-se portanto de um instrumento fundamental para o sistema científico nacional. O seu Presidente, João Lobo Antunes da FML-UNL, dispensa grandes apresentações e é, juntamente com os restantes membros (ver a lista completa aqui), uma garantia de qualidade nas actividades do Conselho.
O CSCTI publica um relatório anual de actividades. Infelizmente nenhuma da chamada imprensa que, alegadamente, se interessa pelas coisas da Ciência Portuguesa achou útil publicitar o relatório de 2004. Infelizmente também, o Conselho não criou ainda um Web site que facilite aos interessados a consulta dos documentos aprovados e a habitual "indefinição" associada à mudança dos responsáveis políticos pela C & T & I torna duvidoso que tal venha a acontecer no futuro próximo. Agradeço aqui publicamente à Directora do Serviço de Informação e Documentação da FCT, que é por inerência Secretária do CSCTI, Gabriela Lopes da Silva, a amabilidade de me enviar uma cópia.
Assim, prestando um serviço público como por cá sempre nos orgulhámos de fazer, oferecemos aos nossos leitores a leitura deste relatório. É um documento a todos os títulos notável, um contributo importantíssimo para a Ciência em Portugal que merece a mais ampla divulgação possível e tem por isso honras de Hemeroteca. Recomendo a todos, vivamente, que o leiam, e mais do que isso, que o estudem.
Esperemos que não se deixe o CSCTI cair na mesma catatonia em que vegetou o extinto CSCT. Aqui no Conta Natura continuaremos a seguir com atenção as actividades do Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Publicado por Santiago às 9:33 AM | Comentários (3)
setembro 9, 2005
Livro da vida
Imaginem um livro de António Lobo Antunes, não, imaginem uma novela de John Le Carre. Agora retirem os espaços entre as letras, boa parte da pontuação e separem os capítulos de uma maneira aparentemente ilógica. Imaginem agora um texto em letra miudinha, sem maiúsculas. Reintroduzam agora excertos apagados das primeiras versões da novela, verdadeiros fragmentos de arqueologia literária de um livro. Imaginem agora uma novela em que a qualidade do papel onde foi impresso e a sua textura eí importante para o texto fazer sentido. Imaginem igualmente que cada página tem de ser dobrada de uma maneira particular. Falar no genoma de um organismo como o “livro da vida” apesar de útil eí no entanto profundamente enganador. A informação contida numa molécula de ADN não se assemelha a uma biblioteca onde todos os dados são cuidadosamente arquivados e catalogados, assemelha-se antes a uma secretária coberta por um mar de papel onde o seu dono, e apenas o seu dono, eí capaz de encontrar quase que milagrosamente o tal documento de que tanto necessita.
Publicado por maradona às 5:25 PM | Comentários (0)
Recrutamento
A equipa do Conta foi formada a partir de relações pessoais. Uma das limitações deste método é o estreitamento do espectro de competências. Quando não escrevemos sobre bioética, evolução ou política e comunicação de ciência, só tocamos na biologia celular e molecular (excluindo ainda a heróica mas pouco constante contribuição do médico de serviço, o Ricardo). Ora, é sabido que a biologia não nasceu em meados do século passado e que abrange níveis de organização acima do celular (os órgãos, os sistemas, os organismos, as populações, os ecossistemas, o planeta). Era importante, por exemplo, que a ecologia marcasse presença no Conta.
Outra das nossas limitações é gostarmos de escrever sobre as áreas mais sedutoras ou polémicas sem termos formação adequada (excluindo a Sofia, que é uma "especialista" em comunicação de ciência). Nenhum de nós é evolucionista. Ninguém estudou bioética a sério. A nossa experiência em política de ciência é do tipo passivo.
Por fim, o Conta é uma página escrita para portugueses (e alguns outros lusófonos, espero), que é feita essencialmente por emigrantes. Os membros mais activos do Conta (o Vítor, eu, o Rui, a Sofia, a Maya e o Santiago) vivem no estrangeiro. O Paulo e o Ricardo estão em Portugal, mas escrevem pouco. O Bruno também está em Portugal (provavelmente em trânsito), mas tem preferido assegurar um importante trabalho de bastidores. Era importante termos mais um colaborador a fazer ciência em Portugal, por razões óbvias.
Seria também interessante diversificarmos a nossa cobertura planetária. 3 dos elementos do Conta mais activos vivem em Nova Iorque e parece-me óbvio que não estamos a aproveitar a enorme rede de cientistas portugueses espalhados pelo mundo.
Em resumo, andamos à procura de colaboradores, com preferência para quem trabalha em biologia supra-celular, em bioética, em evolução, em inteligência artificial, em política de ciência ou noutras áreas sedutoras (mas um taxinomista cativante também seria bem recebido). A formação de base não é importante. Podem ser físicos, químicos ou gestores de empresas; o importante é que saibam escrever sobre biologia. Viver em Portugal ou noutro local do planeta que não tenha já um elemento do Conta - do Alabama (Thiago, deixaste saudades...) a Tóquio, sem esquecer o Brasil e a ¡frica - não é condição essencial, mas seria um bónus.
Apenas exigimos que os novos colaboradores sejam capazes de contribuir com uma entrada por semana. Esta exigência é importante por dois motivos: o blogue tem um número limitado de editores (é uma imposição do webmaster) e blogue que não se actualiza é blogue morto. Sem querer complicar muito o processo, proponho que os eventuais interessados nos enviem para o endereço de email do Conta um texto como se fosse uma entrada para publicar. Se gostarmos - e em função das outras características do candidato -, a integração na equipa do Conta será imediata.
Este anúncio é válido até novo aviso.
NOTA: este texto não foi ainda discutido com os restantes elementos da equipa e pode vir a sofrer alterações, em função da discussão que eventualmente ocorrerá na caixa de comentários.
Publicado por Conta Natura às 2:07 PM | Comentários (0)
setembro 8, 2005
Comunicar Ciência 2005

Terminou no passado domingo o Comunicar Ciência 2005, um workshop destinado a melhorar a comunicação entre os investigadores científicos portugueses, os meios de comunicação e o público. Os 17 participantes (ver foto em que aparecem juntamente com alguns dos formadores) passaram três dias e meio muito intensos, entre a imprensa, a televisão e o público.
Os formadores convidados incluíram a Elisabete Caramelo, o António Granado e a Ana Moutinho que trouxeram os jornais até ao workshop e desvendaram aos participantes os segredos por detrás de uma conferência e um comunicado de imprensa. No segundo dia, contámos com a fortíssima presença do Frank Burnet, da Ana Noronha e da Ana Coutinho, que nos falaram de várias actividades de comunicação de Ciência para o público. Eu e o Bruno Afonso demos umas dicas sobre escrever Ciência para a internet. No sábado, contámos com a experiência televisiva e a simpatia contagiante de Malcolm Love e Suely Costa e a sabedoria do Steve Miller que nos falou da comunicação de risco. No final do workshop, os participantes tiveram a sua oportunidade de brilhar com os projectos de uma actividade de comunicação para o público. Agora estamos cansados, mas para o ano há mais!
Publicado por SJA às 10:13 AM | Comentários (4)
setembro 7, 2005
O desígnio inteligente (continuação)
5.Os criacionistas e os adeptos da ID ficam muito menos perturbados com o avanço da física, da astronomia e da cosmologia do que com a teoria da evolução das espécies, o que tem gerado algumas anedotas entre biólogos e físicos e foi inclusive aproveitado pelos profissionais do humor. Ora, os dados de qualquer destas disciplinas negam as Escrituras, o que nos força a tentar perceber a obsessão exclusiva com a teoria da evolução das espécies. Creio que há pelo menos duas explicações. A primeira é do foro psicanalítico:a teoria da evolução de Darwin é um rombo grande na visão antropocêntrica do universo. Na sua expressão incorrecta e boçal, “descender do macaco” pode parecer ofensivo para algumas criaturas, incluindo talvez o próprio macaco. A segunda razão é mais subtil e pitoresca. Apesar de as órbitas elípticas de kepler não seguirem as directivas da Harmonia das Esferas (que as supõe circulares), a verdade é que a física, com as suas leis e constantes, aproxima-se mais do tal plano divino. E a linguagem que pratica ñ a matemática- com a sua perfeição formal, pode ser equiparada a um código dos deuses. A teoria da evolução está aparentemente nos antípodas desta perfeição formal. Os criacionistas atacam a ideia de acaso e variação. Não são também capazes de ver as "imperfeições" dos sistemas vivos como sinais da ausência de um plano divino. Não é de espantar que tivessem sido precisamente as "imperfeições" (juntamente com as semelhanças entre as espécies, as variações geográficas que espécies e populações apresentam, etc) a fornecer a Darwin pistas para a sua teoria; desde então as "imperfeições" têm sido um dos argumentos preferidos de todos os grandes divulgadores da teoria da evolução, de François Jacob ( com o seu conceito de "bricolage evolutiva"), a Gould (o seu famoso ensaio sobre o "polegar" do Panda), sem esquecermos o nosso Rui Martinho, autor da formulação mais inspirada que conheço, ainda que exclusivamente para consumo nacional: "se o criacionismo estivesse correcto, Deus teria necessariamente de ser português".
(CONTINUA Peço-vos desculpa por este texto ir crescendo tão lentamente, mas não tenho tido vagar para mais. Cenas dos próximos capítulos: Popper, complexidade irredutível e teoria das probabilidades).
Publicado por Conta Natura às 12:46 AM | Comentários (2)
setembro 6, 2005
Divagações quânticas

Antes do assunto de hoje, queria lembrar aos leitores o inquérito de dia 30 de Agosto. Houve aproximadamente 180 visitas nesse dia e só oito pessoas responderam até agora! E já que houve dúvidas nesse aspecto, queria deixar claro que cientistas que estejam a fazer investigação em Portugal podem e devem responder também.
O que se segue não é um texto num dos sentidos do termo ñ não tem uma sequência lógica ou principio, meio e fim. É mais um aglomerado de ideias, estilo ëstream of consciousnessí. Este estilo é, no entanto, inteiramente apropriado ao assunto em questão e por isso contínuo. Deixando a ressalva adicional que não sou neurobióloga nem física e que portanto estas ideias são muito vagas.
Um amigo meu tem-se debruçado sobre a questão da possibilidade do cérebro humano funcionar com computação quântica. Há também umas ligações com o António Damásio. A seguir vem uma linha de ideias:
- A ideia da computação quântica no cérebro já existe há algum tempo e tem a ver, (muito) basicamente, com a hipótese de a comunicação entre neurónios funcionar, pelo menos em parte, de acordo com leis da física quântica. Isto permitiria explicar a rapidez com que o cérebro realiza algumas tarefas, e talvez o fenómeno da consciência. E ainda relacionado de algum modo com o acto de tomar decisões. Adiante:
- O modo estranho em que a física funciona ao nível quântico permite realizar alguns tipos de tarefas computacionais muito mais rapidamente. Algumas pessoas acham que o tipo de aceleração fornecido por um sistema computacional funcionar segundo leis quânticas é essencial para poder explicar como é que o cérebro humano funciona.
- A mente humana, pelo menos ao nível consciente, não é muito eficiente a operações do tipo de pesquisar listas extensas de dados (e talvez de elaborar listas extensas dos possíveis resultados de uma determinada situação?). No entanto, é possível que ao nível do subconsciente, o cérebro humano faça operações deste tipo com uma super-eficiência quântica.
- Einstein dizia: “Deus não joga aos dados”. Mas ao nível quântico, o universo joga mesmo aos dados ñ não é determinado. As decisões no mundo quântico não são baseadas numa sequência lógica.
- Isto faz sem dúvida lembrar O erro de Descartes. É possível que o processo de tomar decisões, que Damásio defende que não advém de um raciocínio lógico e consciente, nasça de processos de computação quântica no subconsciente.
No entanto:
Muitas das ligações entre a computação quântica e a mente humana são, para já, apenas semelhanças conceptuais. Apesar dos físicos japoneses Jibu e Yasue, no seu livro Quantum Theory of Consciouness, apresentarem uma hipótese de efeitos quânticos nas moléculas de água que flutuam entre os neurónios, não há ainda uma ligação entre a biologia e a psicologia da consciência
Publicado por MM às 6:57 PM | Comentários (1)
setembro 5, 2005
Ensaio

Publicado por VB às 3:55 PM | Comentários (0)
setembro 4, 2005
A Terceira Espécie
Aos olhos da Biologia, as crianças não são "os putos", "o melhor do mundo", a inspiração de poetas, a ternurazinha dos pais dedicados e o estorvo (ou até medo) dos mais desnaturados. Sentimentos à parte, as crianças são a pool genética, o melhor que uma geração em idade reprodutiva "conseguiu", no seu "esforço" para perpetuar a espécie. Ver assim as crianças é levantar uma série de questões que não são exclusivas de espaços dedicados à crítica ontológica das comunidades humanas.
Algures entre a evolução e a filosofia reside a base bioquímica da infância. Os cálculos de "escala biológica" que permitem, por exemplo, a adaptação da dose de um medicamento a um indivíduo tendo em conta os seus parâmetros físicos (como a massa e o volume), não são facilmente extrapoláveis para crianças. Com um processo de assimilação mais veloz e órgãos responsáveis pela degradação e eliminação de químicos (fígado e rins) ainda imaturos, uma criança de hoje, ainda que com o mesmo peso de um adulto de outrora (que as há e, infelizmente, cada vez em maior número) metabolizará mais rapidamente a mesma dose de droga. Como o fluxo sanguíneo para a pele e pulmões também é superior nas crianças, mesmo medicamentos de aplicação tópica podem ser mais rapidamente absorvidos.
Classificável talvez como "o Paulo Coelho da divulgação médica", Jerome Groopman enumera (num artigo publicado em Janeiro deste ano no The New Yorker) ocorrências que ilustram como é essencial o teste clínico (em crianças) de drogas contra doenças que tanto afligem adultos como infantes. A urgência é ainda maior ao descortinarmos que cerca de três quartos das drogas aprovadas para uso nos Estados Unidos nunca foram objecto de estudos pediátricos. Entregues a si mesmos no apuro da emergência, e sem uma base de dados oficial de referência quanto à calibração de doses para crianças, os médicos não raramente desembocam na encruzilhada fundamental entre o jogar pelo seguro (ou declarando a própria ignorância e observar as costas dos pais dos pacientes em movimento de fuga, ou optando por medicamentos "antigos", melhor conhecidos mas de eficácia relativa) e o risco de uma droga "moderna" que funciona bem em adultos. Segundo Groopman, este é o "pão-nosso de cada dia" no caso, por exemplo, da asma e de algumas infecções bacterianas.
Se "pequenos acidentes" (vómitos, diarreias, inapetências ou até, quiçá, síndromes de intolerância a antibióticos como o do bebé cinzento) podem passar "despercebidos", serão as grandes catástrofes menos dóceis de varrer para debaixo do tapete? Conta-se do propofol, um sedativo por via intravenosa usado em unidades de cuidados intensivos desde o início da década de 90, que foi um grande sucesso... em adultos. No Reino Unido, o primeiro país a declarar publicamente a morte de várias crianças após administração do fármaco, a recomendação contra o seu uso pediátrico vem desde 1992. Não obstante provas químicas da diminuição do pH (aumento do carácter ácido) sanguíneo em crianças tratadas com propofol, tal recomendação não se estendeu aos EUA, onde até 2001 a droga continuou a ser administrada a (e até indicada para) miúdos. Nesse ano, finalmente, a AstraZeneca Pharmaceuticals enviou uma carta aos médicos estado-unidenses com dados de um teste pediátrico sobre a sua droga: 9.5% (N=222) das crianças tratadas com propofol (doses de 1 e 2%) morreram, em contraste com os 3.8% (N=105) entre crianças tratadas com sedativos padrão. Apesar de tal disparidade na taxa de mortalidade infantil, a aplicação de propofol não foi PROIBIDA nos cuidados intensivos de pediatria (pelo menos até à obtenção de uma posologia inócua), apenas desaconselhada ...since the safety of this regimen has not been established. Ainda hoje as indicações para "pequenas intervenções" continuam, no opúsculo, a suster o contrário.
Desconheço a legislação portuguesa em vigor quanto à obrigatoriedade de testes clínicos em crianças. Talvez também actue em Portugal esse "poder desconhecido" que misteriosamente joga sempre a favor das astrazenecas do planeta, capaz de proibir a proibição do uso de uma droga (eficaz em adultos mas mortal) em crianças, sem contudo afectar "positivamente" outros processos (como o da descriminalização da interrupção voluntária da gravidez). Oxalá a pílula do "plano B" venha a ser um dia propriedade de algum protegido desse poder aqui nos EUA. Desse modo, se ela não chegar às mulheres pela moral, chegará ao menos pela vontade do lucro. De resto, melhor será não tocarmos hoje na religião. O versículo de Lc (18,16) teria na boca das farmacêuticas um som ainda mais lúgubre.
Publicado por VB às 11:17 PM | Comentários (8)
setembro 2, 2005
Sondagem: Análise preliminar dos resultados

Apesar do número de votantes não ser especialmente elevado a sondagem mostra algumas tendências que me parecem evidentes no que se refere ao tipo de pessoas que visita regularmente o Conta Natura. Enquanto algumas destas tendências eram relativamente óbvias, tal como o forte predomínio da biologia ou biotecnologia, outras são talvez mais surpreendentes.
O reduzido número de profissionais de saúde ou de outras áreas científicas não relacionadas com a biologia, contrapõe-se ao elevado número de pessoas que visitam o Conta Natura por simples curiosidade. Ora tal, confesso, dá-me um certo gozo porque reafirma a necessidade de escrever posts de divulgação orientados para pessoas sem formação científica mas interessadas em biologia.
Para votar na sondagem pelo que por favor carregue aqui. Muito obrigado, Rui
Publicado por maradona às 4:09 PM | Comentários (2)

