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outubro 31, 2005

Poesia Científica

Poema para Galileo
de Rómulo de Carvalho/António Gedeão
romulo.jpg
(...)Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa
ou que um seixo na praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
(...)Por isso estoicamente, mansamente,
resistente a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

Esta é apenas parte do poema, para a versão completa clique aqui.

Publicado por SJA às 6:19 PM | Comentários (0)

Quiz IVG, a partir de um texto de Graça Franco (hoje, no Público)

"Sócrates mostrou saber que a maioria parlamentar de que dispõe não lhe foi concedida a qualquer preço. A sua constituição só foi possível porque em campanha soube conquistar o voto centrista para o qual a questão do aborto é uma questão sensível. Esse eleitorado moderado, essencial à sua chegada ao poder, esquecerá a fraude dos impostos mas jamais lhe perdoaria esta traição." VERDADEIRO

"Essas alminhas [a ala mais à esquerda do PS] ainda não perceberam que esta [a despenalização da IVG até às 10 semanas] não é sequer uma questão religiosa" FALSO (É uma questão que mobiliza as "forças de bloqueio" católicas como nenhuma outra em Portugal; nessa medida, é uma questão religiosa.)

"Não precisa evocar razões dramáticas de violação ou de saúde física ou psíquica própria ou do feto, nem sequer razões de ordem económica. E não precisa porque todas essas razões já hoje estão contempladas na lei para prazos bem mais generosos!" FALSO

"A grande inovação da nova lei é assim a de tornar legal, legítima, e paga com o dinheiro dos contribuintes, a prática de abortos que podem ter por base o mais fútil dos motivos (em teoria, e passe a demagogia, pode alguém querer abortar apenas porque tem marcadas para dali a dois meses as férias de esqui que é um desporto incómodo para grávidas)." FALSO (Essas pessoas vão a Espanha comprar material de esqui e aproveitam para abortar, dois meses antes das férias na Serra Nevada).

"...ou bem que o povo não é tonto e numa questão urgente, e básica de direitos humanos, jamais a confundirá com essas coisas menores de votos de protesto e, nessa linha, quanto mais esclarecido estiver melhor vota (e agora não faltará tempo para o esclarecer!), ou bem que o voto do povo só se consegue à pressa e enquanto este não se der bem conta do que efectivamente é posto à votação?" FALSO (Na questão do aborto não há votos flutuantes. Todos têm já uma opinião cimentada.)

"Apresentar a necessidade de liberalizar o "aborto a pedido" como a grande prioridade nacional, no estado em que se encontra o país é, no mínimo, um insulto." FALSO (É o típico argumento reaccionário. A prioridade justifica-se por três motivos: 1) o anterior referendo teve um resultado não vinculativo; 2) a polémica sobre a IVG é a "questão fracturante" que se discute há mais anos em Portugal; 3) não se pode perder tempo a elogiar Sócrates por ter honrado uma promessa eleitoral [como faz Graça Franco] e dizer a seguir que a questão não é prioritária. Tendo em conta que Sócrates ignorou já uma série de outras promessas eleitorais, elogiá-lo pelo que fez agora é reconhecer implicitamente que a questão é importante, ou seja, prioritária).

Publicado por Conta Natura às 11:57 AM | Comentários (8)

Liv Tyler, Steve Tyler e a herança dos caracteres adquiridos

brasil.jpgConfesso: o texto do Vasco sobre a retrospectiva 2005 me encorajou ao diletantismo. Até semana passada eu tinha um plano complexo para o próximo texto do Cruzeiro do Sul, que esperava as horas livres do fim de semana para vir ao mundo. Mas a complexidade foi por água abaixo: acabei de assistir ao "Jersey Girl", filme de 2004 do Kevin Smith, e aparição da Liv Tyler no meu monitor foi muito forte para mim, não estou conseguindo me concentrar mais... Eu devia estar muito próximo do micro, sei lá.750.jpg

    Procurei mais informações sobre ela, e inevitavelmente esbarrei em seu pai, roqueiraço das antigas, Steve Tyler. Meu deus, como pode? Ok, ok, variabilidade existe, eu sei. Mas o cara não é só feio, é esquisito. A Liv é linda e perfeita. E pela benção da mãe natureza, não vai ficar igual a ele.
    O Kevin Smith é um diretor de cinema interessante: ele tem uma filmografia marcada por temas recorrentes, como sua cidade natal Nova Jersey, ícones culturais da geração que passou a infância nos anos 70, muito cinema, é claro, heróis de quadrinhos e bandas de rock. Uma espécie de 'núcleo duro' de atores (Ben Affleck, Matt Damon e o Jason Lee) sempre aparece em suas películas, o que dá aos filmes uma atmosfera familiar. Em "Jay and Silent Bob Strike Back", besteirol de 2001, ele desencava Mark Hamill e Carrie Fischer (mais conhecidos como respectivamente Luke Skywalker e Leia Skywalker)  para fazer paródias de humor negro com 'Guerra nas Estrelas'. Em "Mallrats", Kevin lança mão de nada menos que Stan Lee (o mítico criador do Homem-Aranha, em carne, osso e cabelos brancos) interpretando a si próprio. Como diz o nome, o filme fala de dois adolescentes que passam seu tempo livre (que é o tempo todo) em um shopping center. Os dois são obcecados por quadrinhos, e ao fim da história têm a chance de conversar com Stan Lee, que lhes dá valiosos conselhos 'de um homem adulto'. Em "Chasing Amy", os mesmos Ben Affleck e Jason Lee são autores de histórias em quadrinhos, e confrontam seus preconceitos infantis quando um deles (Ben) se apaixona e inicia um romance com uma lésbica. Nesse filme, até Lando Carlissian é citado!
    O que o Kevin faz é retratar a atualidade pop americana com um cinema fortemente autoral, onde, os personagens principais consomem cultura de massa. E com riqueza de detalhes. A pergunta que me vem é: porque o Kevin e seu cinema não se tornaram mainstream? Porque não são um novo Friends? Afinal, é engraçado e fala de gente comum consumindo cultura que todos conhecem. O Ben Affleck filma uma bomba como "A Soma de Todos os Medos" e é cinema-pipoca, circuito mundial. Filma com o Kevin Smith, interpretando um gerente de lojas de shopping (em Mallrats) e é cinema cult? Séries de tv, com o sucesso de "Mad About you", onde Helen Hunt e Paul Reiser desfilam as filigranas de sua vida diária (ok, ok, tem a Helen Hunt...), e Seinfeld, sobre um grupo de amigos atrapalhados, mostram o quanto a vida diária interessa ao grande público. Porque Hollywood insiste em criar o número googol de filmes metafísicos sobre o fim do mundo?

    Aqui o Cruzeiro do Sul começa a fazer algum sentido ao leitor habitual do Conta. A pergunta do parágrafo acima pode ser refeita assim: o que qualquer obra tem que ter para virar mainstream? O que falta à ciência (que é o nosso assunto) para virar assunto de mesa de bar? Como pode ser, que sejamos nós tão entusiasmados com ela, e o resto do público não dê a mínima?

O Richard Dawkins tem um livro de divulgação científica chamado "Unweaving the Rainbow", de 1998, onde ele tenta refutar a idéia, defendida por alguns, que a ciência, ao explicar a natureza, lhe retira o encanto. Em um trecho introdutório, ele diz:

"I recently attended a briefing session where scientists were urged to put on events in shopping malls designed to lure people in the joys of science. The speaker advised us to do nothing that might conceivably be seen as a turn-off. Always make your science 'relevant'  to ordinary people's lives, to what goes on in their own kitchen or bathroom. Where possible, choose experimental materials that your audience can eat at the end. At the last event organized by the speaker himself, the scientific phenomenon that really grabbed attention was the urinal that automatically flushed as you stepped away.  The very word science is best avoided, we were told, because 'ordinary people' see it as threatening."
(...)
"when I protest that whats being marketed here is not real science, I am rebuked for my 'elitism', and told that luring people in, by any means, is a necessary first step..."

    (O que me chama a atenção nesse relato é a idéia que a divulgação científica possa estar criando um espaço a meio caminho entre o cientista e o pú blico, e de onde o cientista esteja sendo, por estes motivos, desestimulado de participar. Isso é grave, embora o exemplo acima me pareça extremo. Mas o conflito existe.)

    Para efeito da nossa pergunta, a experiência do Dawkins ilustra o quanto é difícil falar de uma coisa como a ciência para o grande público. Lembre se que o leitor médio da ScientificAmerican ou, sei lá, da New Scientist, pelo menos teve a iniciativa de ir comprar a revista. É um interessado. O público que passa pela alameda de um shopping sabe ou se interessa por ciência muitíssimo menos.
    O problema pode estar ligado às diferenças entre o que é cultura 'erudita' ou 'popular'. Uma definição simples diria que erudito é algo que necessita de informação prévia para ser entendido, enquanto o popular oferece todos os elementos necessários em si mesmo.
    Aqui no Brasil a massa consumidora de música, por exemplo, compra música de péssimo gosto. Música clássica é uma minoria. E ninguém questiona a idéia de que música clássica é encantadora. Dois anos atrás, uma série de concertos de música clássica gratuita - organizados pela prefeitura, em palcos armados nas praias do Rio teve seus dias lotados, todos,independente da programação. E o público era de gente do povo. Os críticos de jornais se puseram a afirmar que a música clássica vende bem. Dias depois, donos de gravadoras continuavam empurrando lixo goela abaixo da pobre gente. E lixo vende sempre muito bem. A música clássica não vende tanto, mas será que deveríamos esperar isso dela?

    Me parece que, para o bem ou para o mal, ciência faz parte do que é entendido como 'cultura fina', ou 'coisa para poucos'. O seu aspecto 'erudito' é evidente, na demanda por uma boa educação, que forneça a informaç ão prévia necessária ao entendimento. Não só em relação à ciência essa polaridade 'cultura fina' ou 'cultura do povo' existe. Na literatura também, na poesia e na música, como dito.
    E se o público não assiste o Kevin porque é engraçado e familiar, pelo menos podia assistir pelo sorriso da Liv Tyler.

Até a próxima!

PS - eu o adverti do diletantismo na primeira linha.

Bruno Buys

Publicado por Conta Natura às 4:04 AM | Comentários (4)

outubro 30, 2005

Brain drain, revisited...

Interrompo este coma em que ando apenas para chamar a vossa atenção para a única reflexão inteligente que li por aí, acerca do problema da fuga de cérebros. É escrita por Suzana Toscano, no Quarta Républica.

Vou destacar uma ou outra frase desse post, mas espero que isso não vos iniba de ir lá ler, e sobretudo estudar, o texto completo. Acho que as frases ilustram bem o que aconteceu nesta história do artigo do Massada. Quando o trabalho é medíocre, há gente a dizer "muito bem, bom esforço, estás a ir pelo bom caminho"; se o trabalho fosse bom, ninguém diria nada.

Um dos nossos problemas culturais crónicos é este hábito de (...) desculpar os que não chegam a lado nenhum

Somos condescendentes onde devíamos ser exigentes

Dessa forma não alteramos a quietude, só nos esforçamos "porque acreditamos" ou porque "nos apetece", raramente porque temos essa obrigação e é suposto darmos o nosso melhor em cada momento

Somos muito avarentos nos elogios e muito cruéis na apreciação do trabalho bem feito

Apenas acrescento que o pior é depois amuar com a crítica e, por birra, não fazer nenhum esforço para melhorar...

Publicado por Santiago às 9:47 AM | Comentários (18)

outubro 29, 2005

Primatas presidenciáveis*

3.jpgAS ELEI«’ES presidenciais de 2006 não são decisivas. Serão seguramente mais decisivas do que as de 2001, e que as de 1980 e 1991, mas apenas porque não reconduzirão no cargo o presidente cujo mandato termina.

O que as eleições de 2006 têm de particular é o brutal aumento na idade média dos candidatos. Convido o leitor a recordar comigo os dois candidatos que tiveram mais votos por eleição presidencial desde 1976.

O padrão é claro.

Até 1980 a média de idades não ultrapassou os 50 anos. Eanes e Otelo em 1976 tinham 41 e 39 anos, respectivamente. Em 1980, Eanes tinha 45 anos e Soares Carneiro tinha 52.

Entre 1986 e 2001, a média de idades flutuou na casa dos cinquenta anos: Soares (62 anos) e Freitas (45) em 1986, Soares (67) e Basílio Horta (50) em 1991, Sampaio (56) e Cavaco (56) em 1995, Sampaio (61) e Ferreira do Amaral (56) em 2001. A regra dos cinquenta anos também se aplica aos presidentes dos Estados Unidos da América, onde a idade média para a conquista da presidência são os 54 anos.

EM 2006, há um candidato dado como vencedor à partida - Cavaco Silva (49% de acordo com a última sondagem) -, dois adversários - Manuel Alegre (14%) e Mário Soares (10%)- e gente sem qualquer hipótese de ganhar, que aqui ignorarei.

A média de idades dos três candidatos actuais dispara para os 73 anos e o mais novo tem 67 anos. É certo que com a mesma idade Soares foi reeleito em 1986 para um segundo mandato, mas em 2006 teremos pela primeira vez um presidente estreante acima da idade da reforma para a vasta maioria das profissões.

Ora, tendo em conta a proverbial reeleição do presidente, é previsível que Cavaco Silva - a ser eleito em 2006 - deixe Belém com 77 ou 78 anos.

O ENVELHECIMENTO dos candidatos à presidência é inquestionável. Quando se escreve: "não é a idade, é a política", há uma crítica implícita à chamada "ditadura da juventude" que dizem ser a vigente, mas tanto zelo seria dispensável e aqui soa deslocado.

Porque os números são claros.

E o "é a idade" pede quatro comentários.

Primeiro, por muito que custe recordá-lo, a morte e a senescência fazem parte da nossa trajectória. Fomos desenhados essencialmente para a reprodução. Esta inevitabilidade deve ser combatida pelo indivíduo - mesmo que tal implique esquecê-la - mas não pode ser ignorada pela sociedade. O problema é que a noção de envelhecimento choca de frente com a ideia do político providencial, de contornos messiânicos, praticamente imortal.

Repare-se: aos 70 anos Soares era o avô da República; aos 80 chega a super-herói sem kriptonite.

Segundo, se há uma idade mínima para se concorrer à Presidência da República, é caso para perguntar se não deverá haver uma idade-limite. Um piloto da aviação civil não pode transportar passageiros aos 70 anos de idade. Se Soares experimentasse uma epifania, se se convertesse, fosse ordenado padre e feito cardeal a la minuta, não poderia ser eleito Papa, por ter mais de 80 anos. O único argumento para a inexistência de um limite superior de idade é a valorização do voto popular, mas o mesmo argumento poderia ser usado para baixar a fasquia da idade mínima.

Terceiro, a situação presente é um sinal revelador da incapacidade que o país teve de gerar políticos fortes nas duas últimas décadas. Cavaco anda há 11 anos gerir a sua imagem, Soares teve já dois mandatos como presidente e diz-se que Alegre acabou em 1976.

Por fim, é caso para perguntar se estamos preparados para uma gerontocracia.

A SITUA«√O não é alarmante, é apenas caricata e provavelmente pontual. Não nos arriscamos a ter de gerir um aumento súbito e permanente da probabilidade do presidente vir a ter problemas de saúde e a pedir, por isso, uma emenda constitucional que crie a figura do vice-presidente para fins de estabilidade política. É também verdade que os cabelos brancos compõem a imagem da figura cimeira do Estado.

De resto, a gerontocracia é o mais velho dos sistemas de organização política. Corta o tempo, o espaço e as espécies transversalmente, do Senado da Roma Imperial ao Senado dos EUA, dos conselhos tribais aos conclaves do Vaticano, dos presidenciáveis lusitanos de 2006 às colónias de chimpanzés.

"Os indivíduos mais influentes eram o macho e a fêmea mais velhos, já sem o vigor físico de outros tempos mas altamente influentes mestres no jogo de bastidores e na manipulação. Os indivíduos dominantes emergentes eram muito menos influentes e dependiam de coligações e alianças". Estas palavras são as de um primatologista, mas um politólogo não mudaria sequer uma vírgula.

O mais velho oferece algumas garantias: aprendeu, tem experiência e deu mostras de saber gerir o seu poder. No tear das influências teceu o cachecol mais comprido, onde até os mais novos sabem que se devem agasalhar enquanto esperam pela sua hora.

E com o aumento da esperança de vida, é natural que a gerontocracia continue a florescer, ou então que sejamos obrigados a redefinir as fronteiras da velhice.

Mas este é um esquema que promove alguma inércia.

E um esquema incompatível com o discurso renovador, sobre os novos desafios, a mudança, enfim, a retórica do costume, sobretudo quando o país que temos foi parcialmente feito por Soares e Cavaco.

Por todas estas razões: "é a política e é a idade".

Uma última palavra para Soares.

Não se compreende que não lhe se aponte frontalmente a idade como uma limitação - de resto, uma evidência crescente.

Mas também não faz sentido a crítica de que Soares está a hipotecar a sua imagem.

O seu gesto é revelador de uma coragem e energia raras, independentemente daquilo que verdadeiramente o move.

Quem teme - mas não é temor, é desejo malicioso - pela imagem de Soares agora faz-me lembrar os críticos da Amália Rodrigues dos últimos anos, que teimava em continuar a cantar.

Entretanto os críticos foram esquecidos. Mas imagem de Amália não ficou minimamente ensombrada.

Porque não se tratou de uma imposição. Podíamos ouvir os discos mais antigos.

E Amália pôde viver da única forma que para ela fazia sentido.

Com Soares sucede o mesmo.

Porque também não se trata de uma imposição. Podemos não votar nele.

Nem nos outros, de resto.

*A série Política ao Natural procura reproduzir o estilo e a lógica (mas não forçosamente as ideias) de José António Saraiva, filho de um ilustre, arquitecto, visionário, futurologista, romancista, eminência parda auto-intitulada, director do Expresso e autor da coluna "Política à Portuguesa".

Publicado por Conta Natura às 10:00 AM | Comentários (18)

Gripe Das Aves

GripeAves1.jpeg

Publicado por RPA às 12:48 AM | Comentários (2)

outubro 28, 2005

Ciclope cínico

ciclopeneg.jpgAmargo adj.; do lat. hisp. amarÏcu: Amargo 1. Adstringente, acre 2. Biologia Trata-se do impulso nervoso emitido por um dos quatro tipos de papilas gustativas. Tendo em conta outras formas de estimulação disponíveis, esta definição, e o impulso que descreve, são igualmente desinteressantes 3. Figurado Pessoa azeda, sem sentido de humor, sem sal, pouco ácida, nada doce. Embora se especule sobre o que canibais, piranhas e tubarões pensam do assunto parece que preferem outros sabores, infelizmente 4. Psicologia Sentimento que, quando não se aprende na casa dos Pais, se adquire mais tarde, na dos 40 5. Literatura Usava-se para descrever o grande Ambrose Bierce. Hoje em dia, embora por razões distintas, descreve o estado de espírito de muitos escritores conhecidos, todas as vezes que a Academia Sueca emite um comunicado 6. Política Caracteriza os cortes orçamentais, qualquer que seja o Governo, no dizer de quem quer que seja oposição.

Publicado por Conta Natura às 9:30 PM | Comentários (0)

Curtas sobre o ano que passou: temas

Banner.jpgO Conta é escrito por um núcleo de doutorados, um que começa o doutoramento, outro que o termina e um rapaz que nunca precisou do título para se tornar um nome respeitado na área em que publica. Somos todos especialistas em alguma coisa. Sucede que, ao fim de mais de 460 entradas, contam-se pelos dedos de uma mão os textos que versam sobre as nossas áreas de especialização. Eu, por exemplo, escrevi sobre o criacionismo, a evolução, o aborto, fogos, "ciência, a "tecnologia e criatividade", a excelência, a depressão, Jay Gould, a orientação sexual, a "fuga de cérebros" e sobre mamas, temas que -infeliz ou felizmente - domino mal. Se fizermos o mesmo exercício para os outros colaboradores do Conta, conseguiríamos identificar tendências, obsessões, estilos, mas também uma fuga - porventura inconsciente - aos temas que nos consumiram durante o doutoramento ou em que agora trabalhamos. A lição que retiraríamos é que aqui somos todos uns diletantes. Escrevemos sempre na qualidade de curiosos ou - quando a coisa sai bem - como amadores esclarecidos.

Publicado por Conta Natura às 12:48 AM | Comentários (5)

outubro 27, 2005

Influenzoscópio

Avian-flu-188.gifEm terras lusas foram divulgados os resultados das análises de despistagem da gripe aviariaÖ Foram negativos, o que significa que as galinhas de Santa Maria da Feira terão morrido de outra causa. As suspeitas apresentadas pelo Laboratório Nacional de Investigação Veterinária (LNIV) apontam para a presença do vírus de Newcastle. A infecção por este agente apresenta um quadro clínico semelhante ao da gripe das aves mas não representa qualquer risco, presente ou futuro, para o Homem.

Segundo os dados disponíveis, o LNIV já processou cerca de 650 amostras para estudo virológico (fezes e órgãos) e cerca de 3000 soros, para exames serológicos, tendo realizado um total de 3600 análises.

Sobre o surto de H5N1 no Reino Unido que vitimou um papagaio do Suriname, os dados disponíveis indicam que, com elevada probabilidade esta infecção terá tido origem num lote de aves provenientes de Taiwan.

Da Croácia chega a confirmação da chegada do H5N1. Os resultados provêm do laboratório de Weybridge, no Reino Unido.

Da China vem o anúncio de um foco de gripe das aves, localizado no centro do país em Hunan, o que corresponde ao terceiro foco no espaço de uma semana. No entanto, a suspeita de infecção por H5N1, de uma jovem que faleceu com um quadro respiratório infeccioso, não foi confirmada.

De volta à Europa, Roma acolheu hoje mais uma reunião da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), aí sediada. O resultado foi um comunicado arrepiante que manifesta “preocupação pela proibição generalizada e de carácter preventivo da importação de aves como resposta à gripe aviaria”. No mesmo documento esta entidade supostamente preocupada e responsável pela actividade económica alimentar apelou para que a dita “proibição” seja regulamentada, uma vez que poderia produzir atropelos às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), da OMS e da própria FAO!

A páginas tantas e com despudor, o comunicado afirma que as proibições arbitrárias impostas pelos governos, incluindo países “livres de doença”, promove “a vulnerabilidade dos mercados mundiais perante o risco de queda dos preços”.

Para concluir as recomendações, a FAO recordou aos consumidores que a gripe aviaria não é uma doença de origem alimentar e que o vírus morre ao ser submetido a temperaturas altas durante o processo da cozedura, o que é verdade, o enquadramento é que não é pacificadorÖ Isto é a Humanidade em Acção, que tem sempre preocupações que a razão do comum mortal, tem dificuldade em alcançarÖ

Por qualquer motivo me faz recordar alguns retratos do comportamento humano a bordo de um célebre navio inafundável, no justo momento em que afogava o seu adjectivo!

Não quero terminar deixando os nossos leitores com o sabor amargo do descrédito de uma instituição internacional. A revista Nature de hoje cita as preocupações do Veterinário Chefe da mesma FAO expressas no dia 19 do corrente. Joseph Domenech, chamou à atenção para a evolução da gripe aviaria no continente africano, apelando para a ajuda internacional na vigilância e controlo dos surtos esperados. Segundo estimativas anunciadas na altura, as regiões do Médio Oriente e da Costa Leste Africana serão afectadas nas próximas semanas, com especial preocupação para a região dos lagos.

Se não houver qualquer intervenção persistirá a ameaça de que a infecção se torne endémica no território, facilitando a recombinação viral e, por consequência, aumentando a probabilidade de transmissão ao Homem e subsequente pandemia.

A questão humana local é também salientada. As aves domésticas têm uma importância substantiva na alimentação africana, onde as mulheres assumem maiores responsabilidades nestes territórios. As consequências em termos dos riscos para a população feminina são grandes (muito maiores do que os registados na ¡sia), tal como o impacto nas frágeis economias africanas.

O futuro dependerá muito da eficácia dos apoios reunidos para ajudar directamente estes países. O Quénia, o Sudão e a Tanzânia já tomaram medidas restritivas sobre as importações de aves. Esperemos que a FAO não recomende o seu levantamento!

Publicado por RPA às 11:47 PM | Comentários (0)

Ciclope cínico

ciclope.jpgAtavism.jpgAtavismo s. m.; do Latim atavus, antepassado : atta, pai + avus, avô. 1. Reaparecimento no indivíduo de características físicas, ou outras, evidentes nos seus antepassados 2. Evolução: os antepassados em regra não têm laços de parentesco próximos mas filogenéticos. Por exemplo, a cauda de uma sereia é um atavismo, mas não a parte de cima de um centauro no que respeita à sua parte de baixo; nem - adiante-se - a parte de baixo quanto à parte de cima, pese embora a profusão de rostos de equídeo na população humana. O atavismo seria facilmente entendido como um lapso haeckeliano se Freud e o seu séquito não tivessem já patenteado a expressão (ver Recapitulação, Haeckel e Von Baer) 3. Genética e linguagem popular: uma característica que salta gerações, como as que um filho partilha com o avô, mas não com os pais (se o avô é o pai do vizinho do andar de cima, ver também paternidade, teste de). 4. Racismo e criminologia: a noção foi instrumentalizada por racistas e até por criminologistas, como Cesare Lombroso. Isso seria hoje revoltante, nomeadamente para as pessoas que conseguem mover os pavilhões auriculares. 5. Mundo Intelectual: quando substituímos "características físicas" por "comportamentos", abre-se todo um universo para a análise, o insulto, e ambos em simultâneo. As claques desportivas, por exemplo, mais não serão do que manifestações atávicas de ancestrais comportamentos tribais. Segundo certas escolas de psicologia, todos os comportamentos colectivos são manifestações atávicas, o que - não havendo opção de escolha - faz do eremita descalço, barbudo, desgrenhado e fedorento, o verdadeiro homem do futuro. 6: Paleontologia animada e Egiptologia: já houve quem tivesse tentado fixar características atávicas por cruzamento e retro-cruzamento, numa tentativa infrutífera de recriar espécies entretanto desaparecidas. É pouco provável que tal estratégia aplicada ao homem nos permitisse recuperar o nariz de Cleópatra.

Nota: nos próximos tempos publicarei as minhas ciclópicas e as do Santiago. A autoria das entradas continuará a ser indicada pelo tipo de caveira: os meus textos aparecem com a caveira em positivo e os do Santiago com a caveira em negativo.

Publicado por Conta Natura às 9:09 PM | Comentários (0)

A Ciência Portuguesa

image001.gifUm projecto para a divulgação da ciência portuguesa está a ser desenvolvido em Oxford pela Catarina Amorim. O objectivo principal é dar a conhecer a ciência feita por portugueses e, ao mesmo tempo, alertar o público português para a Ciência e o seu desenvolvimento em Portugal. “Porque muito de importante e interessante é produzido na ciência portuguesa e como tal, é essencial a sua divulgação e destaque, junto da comunidade nacional e internacional” disse Catarina Amorim. Este projecto conta com o apoio do Observatório da Ciência e do Ensino Superior e é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.
Esta divulgação da ciência feita por portugueses na área das ciências da vida será levada a cabo produzindo comunicados de imprensa e artigos de divulgação científica para a imprensa nacional e internacional sobre artigos já aceites em revistas científicas, mas ainda não publicados. Estes comunicados de imprensa serão enviados para jornais portugueses e publicados online em: Alpha Galileo (consultada por jornalistas de todo o mundo), secção de notícias do OCES e Ciência Hoje. Para manter-se a par das publicações, aquando da sua aceitação nos respectivos jornais científicos, a Catarina pede a colaboração de todos os cientistas portugueses.

Publicado por SJA às 2:47 PM | Comentários (10)

Poesia Científica

Por sugestão de um dos nossos comentadores mais activos, começa hoje uma nova categoria no Conta. A poesia científica. O soneto de hoje foi escolhido e enviado por MRS, o dito (ou dita) comentador(a).

Sonnet to Science
EAP.jpeg
Science! true daughter of Old Time thou art!
Who alterest all things with thy peering eyes.
Why preyest thou thus upon the poet's heart,
Vulture, whose wings are dull realities?
How should he love thee? or how deem thee wise,
Who wouldst not leave him in his wandering
To seek for treasure in the jewelled skies,
Albeit he soared with an undaunted wing?
Hast thou not dragged Diana from her car?
And driven the Hamadryad from the wood
To seek a shelter in some happier star?
Hast thou not torn the Naiad from her flood,
The Elfin from the green grass, and from me
The summer dream beneath the tamarind tree?

Edgar Allan Poe (1829), ed. The Science Fiction of Edgar Allan Poe, Penguin Classics, 1976

Publicado por SJA às 1:00 AM | Comentários (2)

outubro 26, 2005

Ciclope cínico

ciclopeneg.jpgAdventício (do lat. adventicÏu, que vem de fora) 1. adj. Acessório. Diz-se da camada exterior da parede das artérias. Só após a sua ruptura (ver Aneurisma) se torna claro que este adjectivo devia ter outro significado 2. s.m. Estrangeiro. Albert Camus confessou em carta a sua mãe que só não deu este título ao famoso livro em que fala dela, por ter medo que o Editor pensasse que se tratava de um conto de Natal.

Publicado por Conta Natura às 10:21 PM | Comentários (3)

Post triplamente hermético

bowl.jpg
Aviso à navegação:

Loiças quebradas entornam caldos...

Publicado por Santiago às 9:30 PM | Comentários (3)

O INI/AMIGO P⁄BLICO

we are scientists.jpg Inspirada pela notícia de um novo álbum deste grupo musical, do qual eu nunca tinha ouvido falar, achei que era uma boa altura para debater a imagem pública dos cientistas nos dias que correm.

O grupo declara que o nome apareceu após alguém, numa festa, perguntar aos três membros do grupo se eles eram cientistas, dado o facto (supõem eles) de serem pálidos, magros e com uma determinada maneira de vestir.
Não consegui encontrar uma pergunta nesse sentido, mas acho que os gatos na capa podem referir-se ao Dr. Colin Blakemore. Este neurocientista inglês, director do Medical Research Council, é um dos principais alvos dos defensores extremistas dos direitos dos animais, devido às suas experiências com gatos (em que cosia os olhos de gatos bebés para estudar o desenvolvimento da visão). Que levaram à melhoria da vista de muitos seres humanos.
Se quiserem um exemplo de vida real da série “Sim, Senhor Ministro”, basta ler a transcrição da sessão do parlamento sobre a decisão de não atribuir o grau de ësirí a Colin Blakemore:
http://www.publications.parliament.uk/pa/cm200304/cmselect/cmpubadm/212/4020502.htm .

Entretanto correm muitos boatos aqui em Inglaterra sobre o próximo ëreality-showí - sobre cientistas.

As filmagens já decorreram e creio que será mostrado na televisão em breve. O concurso foi nos moldes do ëpop-idolí e o que se mediu foi a capacidade de comunicar conceitos científicos, com os espectadores e júri a eliminar sucessivamente os candidatos. Aqui vai a notícia sobre o vencedor:


FameLab 2005 Winner
Dr Mark Lewney, a physicist from Cardiff has won FameLab ñ the science worldís equivalent of Pop Idol and the brainchild of the Cheltenham Science Festival in partnership with NESTA (The National Endowment for Science, Technology and the Arts).
Markís “electrifying” performance on the physics of music, complete with electric guitar riffs, had the audience and judges at the Cheltenham Science Festival enthralled. After the audienceís rapturous applause Simon Singh, broadcaster and NESTA Fellow, and one of the FameLab judges quipped “it was alright” but swiftly went on to concede that Markís performance was “gob-smackingly amazing”.
Mark was presented with a cheque for £2,000 and will now enter discussions with Channel 4 on his potential career as a television science presenter. Mark will also perform at a series of live science events including the Cheltenham Science Festival 2006.
Hamish Mykura, Head of History, Science and Religion at Channel 4, and also on the judging panel said, “FameLab has proven a fantastic way of road-testing talent. The reaction of the audience in the final spoke volumes and they loved Mark. He left the opposition behind. It is exactly this kind of talent that works on TV.”


Pois é, meus caros, acho que somos os novos ërock-starsí.
Gostaria de saber, imigrante que sou, o que é que acham que é a imagem pública dos cientistas em Portugal.

Publicado por MM às 1:31 PM | Comentários (2)

outubro 25, 2005

A galinha da vizinha é sempre mais gorda que a minha...

Em referência a este post do Rui, é importante que não se pense que só em Portugal há Laboratórios que usam "...tal desespero de características terceiro-mundistas para assegurar o seu bom funcionamento". Em complemento de alguns comentários que o post provocou, transcrevo a seguir uma noticia do Jornal LE FIGARO étudiant que, em Janeiro de 2004, deu voz a Nicolas Legrand, ex-Presidente da Confederação Francesa de Jovens Investigadores.

(vai no francês original)

POINT DE VUE - Nicolas Legrand

´Du désarroi des post-docs ª
...................................................
Anne Jouan, 22 janvier 2004
...................................................

Nicolas Legrand, 28 ans, ancien président de la Confédération des jeunes chercheurs

Qui a dit que la recherche n'était pas une vocation ?
Nicolas a suivi un parcours universitaire en biochimie et biologie moléculaire à Paris VI, avant de faire un DEA puis une thèse d'immunologie à l'Institut Pasteur. ´ La première année, je n'ai pas eu d'allocation de recherche, j'ai donc vécu chez mes parents ª.
Les trois années suivantes seront, en partie, financées par l'Arc et Nicolas obtiendra son diplôme de docteur en 2002. Puis, pendant six mois, il bénéficie d'une bourse de soudure pour faire la jonction entre la fin de la thèse et le début du post-doc.
Il hésite alors entre la Hollande, la Suisse, l'Allemagne et l'Angleterre avant d'opter pour Amsterdam et son Centre académique médical relié à l'université.
´ La Hollande est un pays doté d'un système de recherche efficace, les labos sont connus et dynamiques ª. Initialement, son contrat devait se terminer en juin prochain mais il vient d'être rallongé pour une durée de trois ans et demi.
Nicolas perçoit un salaire de 2 200 Ä net mensuel, le rêve pour un post-doc en France ! Sans compter qu'il cotise pour le chômage et la retraite. ´ Je n'ai pas cherché de travail en France. Je suis resté en contact avec mon labo de Pasteur, je sais qu'ils ont toujours des problèmes pour boucler les fins de mois car les crédits privés baissent, les gens font moins de dons ª. De quoi s'interroger sur les financements privés que souhaite développer le ministère : en période de vaches maigres, quand le co˚t de la vie augmente, la main au portefeuille est moins leste... ´ Certes, ils me soutenaient à Pasteur si je voulais me présenter au CNRS ou à l'Inserm, mais préparer un dossier, se battre avec 50 ou 100 personnes pour obtenir un poste... ª.
Depuis la Hollande, l'ancien président (octobre 2001 à octobre 2002) de la CJC (Confédération des jeunes chercheurs) observe la situation en France. Il a notamment signé la pétition du collectif ´ Sauvons la recherche ª : ´ Il faut qu'il y ait une prise de conscience collective, un électrochoc. Pas seulement un bandage sur une jambe de bois ª.
Des assises pour la recherche comme le réclame le collectif ? ´ Je ne sais pas si cela débouchera sur quelque chose. Depuis l'étranger, les post-doc ne sont pas optimistes. Sans compter que la presse étrangère se fait régulièrement l'écho de la situation française (édition européenne du Time du 11 janvier dernier, NDLR). Il n'y a pas de diffusion suffisante de la culture scientifique auprès du grand public et des entreprises ª. Il faudrait refondre la façon dont fonctionne les formations doctorales. ´ En France, un thèsard est considéré comme un étudiant attardé alors qu'ailleurs c'est un professionnel de la recherche ª.

Nem todos os começos são auspiciosos, é bem verdade.

O meu amigo Nicolas começou a sua carreira científica a trabalhar à borla no Instituto Pasteur de Paris (a propos: hoje em dia isso seria impossível). Deu-se ao luxo, recentemente, de recusar uma bem remunerada posição de Investigador na Genentech...

Publicado por Santiago às 9:30 PM | Comentários (4)

Ciclope cínico

ciclope.jpgTemg7.jpgApoptose s. m.; do Gr. apo + ptosis, acto de cair 1. Um dos tipos de morte celular programada, descrito - repare-se no precioso pleonasmo- como um "suicídio deliberado". 2. Distingue-se da necrose pois não está associada a lesões dos tecidos, sendo antes parte integrante do processo de desenvolvimento (vide também homeostasia) . Viver, apesar da visão popular, não é o contrário de estar morto. Viver é apenas saber morrer nos sítios certos e com timing. A apoptose é pois essencial para moldar o organismo e o conservar. 3. Trata-se de um acto altruísta e programado (isto é, reflectido), quase nobelizável, feito pela célula para o bem da comunidade de células (o indivíduo multicelular), distinto por isso do suicídio, que é um gesto devastadoramente egoísta e anti-social, excepto em situações limite ou quando o suicida é muito aborrecido. 4. Auto-ajuda: o melhor remédio contra o suicídio não é ler Camus, mas sim ter umas noções elementares de biologia celular. Aliás, a apoptose deveria começar a ser ensinada nas escolas, antecipando o desabrochar da adolescência. E urge ministrar um módulo sobre o tópico aos técnicos da Linha Vida, que atendem chamadas de gente desesperada. Num ano, um indivíduo perde por apoptose uma massa de células correspondente ao seu peso. Por outras palavras, suicidamo-nos todos os anos, o que faz do suicídio sensu stricto um acto supérfluo e bem pouco original. Como se não bastasse, saber que as nossas células se suicidam é perceber que tal acto dispensa a existência de uma consciência. Que encontremos então algum conforto na ideia de que é impossível superar a célula nesse seu gesto supra-niilista, no seu desprendimento pela melhor das vidas, a que está estruturalmente a salvo dos remorsos e do sentimento de culpa. Perante isto, tudo é pequeno. E o único caminho é continuar a viver, mesmo que seja por exclusão de partes.

Foto de Bjˆrn Afzelius, mostrando uma célula em flagrante suicídio.

Publicado por Conta Natura às 9:00 PM | Comentários (4)

Laboratório de Imagens: A Ciência pela Fotografia

Hoje apresento-vos uma nova colaboradora do Conta. Nascida em Lisboa, no dia de Portugal e de Camões, a Rita Caré (29 anos!!!) é Bióloga e durante a licenciatura, segundo as suas próprias palavras, caiu na Comunicação de Ciência um bocado de páraquedas. Especializou-se depois em Comunicação e Educação em Ciência. Gosta de conversar e escrever sobre temas científicos e, desde que se lembra, tem tido uma fascinação por livros e programas sobre Ciência e Ambiente. Em Julho de 2005 a Rita fundou o Caminhos do Conhecimento, o que a torna também numa competidora do Conta! Acabadinha de sair do excelente Workshop Comunicar Ciência 2005, a Rita inicia hoje a sua, espera-se, longa colaboração connosco.
A Rita colaborará com o Conta na área da Ecologia e Ambiente, mas hoje escreve-nos um anúncio sobre a próxima actividade organizada pela Associação Viver a Ciência
.

LabImagens1.jpg

Laboratório de Imagens é um concurso. Das partículas mais minúsculas, estudadas pela Física, passando pelos seres vivos mais pequenos, trazidos à luz pela Biologia, até aos fenómenos distantes, investigados pela Astronomia, a Associação Viver a Ciência parte através deste concurso em busca de fotografias que respondam a perguntas colocadas por cientistas, no decorrer das suas investigações.
Não se pense que podem ser quaisquer imagens científicas, que comprovam uma teoria ou a descoberta de factos até aí desconhecidos. Para além destes requisitos, terão de retratar o belo, as (as)simetrias da natureza, o esplendor do mundo científico. Maravilhar o observador é uma prioridade a cumprir.
A Ciência pela fotografia terá que ser retratada com qualidade artística suficiente, para depois ser exposta no Centro Cultural de Belém (CCB) a partir de Fevereiro de 2006.
Conceituados fotógrafos, artistas e cientistas irão avaliar as obras, não só pelo seu valor artístico como também pelo seu valor científico. Nesta apreciação, o público não ficará de fora.
Logo-LabImag2.jpg
Os prémios valem a pena!
1º Prémio - 3000Ä | 2º Prémio ñ 1500Ä | 3º Prémio - 1000Ä
Votação do público ñ 1000Ä.

Os interessados - cidadãos residentes em Portugal e portugueses residentes no estrangeiro - podem concorrer com o máximo de quatro fotografias, até 25 de Novembro de 2005. Todas as informações podem ser consultadas em: www.laboratoriodeimagens.com.

Texto de Rita Caré

Publicado por SJA às 1:24 PM | Comentários (1)

Influenzoscópio

Avian-flu-188.gifUm leitor perguntou ao Conta o que teria de fazer se o acaso determinasse um encontro com um cadáver de uma ave. O Conta saiu à rua e foi saber o que deve ser feito.

Duas entidades estão a vigiar de muito perto este problema: a Direcção Geral de Veterinária (DGV) e a Direcção Geral de Saúde (DGS).

Eu recordo mais uma vez, que o problema neste momento é acima de tudo um problema sanitário e como tal tem a intervenção especial da DGV. Em concordância, a minha primeira iniciativa seria contactar a DGV, o que fiz imediatamente durante esta tarde ( + 351 21 323 96 96). Após duas tentativas falhadas, (a linha estava ocupada), liguei para o número verde da Linha de Saúde Pública (808 211 311). Atendeu uma Sra Enfermeira muito solícita que confirmou a minha suspeita:

Portugueses, se por acaso encontrarem uma ave morta “suspeita” (que não seja um pombo atropelado, que eu já vi uns quantos por aqui na minha zona, mas tinham a marca do rodado), por favor, contactem a DGV para o número 21 323 96 96 e não se esqueça que quem paga a chamada é você! A DGV compromete-se a contactar o Veterinário Inspector da câmara local para recolher o material.

Já agora e para desanuviar, uma pérola da nossa TV (lamento não ter cópia para vos revelar, mas parece uma cena que dará trabalho fácil aos Gatos Fedorentos)! Imaginem um senhor daqueles bem nutridos, com o inseparável bigode luso a representar a Federação Portuguesa de Columbofilia. Quando interpelado pela jornalista, na RTPN, sobre os riscos de disseminação do vírus através das iniciativas da associação (largadas de pombos, concursos de velocidade, etc), o distinto representante responde convicto que “isso não irá ocorrer porque os pombos estão bem tratados e anilhados”Ö

Eu não quero ser desmancha-prazeres, mas a reunião do Conselho de Ministros da Agricultura da UE já começou a discutir as indemnizações para os produtores de carne das Aves; a carne de Pombo não será contemplada! Guardem os vossos exemplares bem guardados, por pessoal treinado e consciente do problema, e não os deixem sair à rua!

Na verdade, o Pombo parece não ser sensível ao vírus da Gripe Aviaria, de acordo com relatório veterinário da própria federação e que pode ser consultado no mesmo site.

Por último, ainda não noticiei o episódio do pato sueco encontrado morto e que se diz ter morrido com gripe pelo vírus do Subtipo H5 (falta confirmar a Neuraminidase, isto é, saber qual é o “N”), e depois falamos. O papagaio do Suriname em quarentena nas instalações sanitárias de uma fronteira do Reino Unido, apresentava, esse sim, uma infecção por H5N1, contraída aparentemente no local. Esperemos que seja apenas um surto na quarentena que é um espaço isolado e controlado.

Se surgirem mais questões ou dúvidas que possamos esclarecer, contacte a nossa secção Influenzoscópio, aqui e sempre no Conta Natura!

Publicado por RPA às 1:44 AM | Comentários (1)

outubro 24, 2005

Contagem crescente

Server.gifEm Dezembro de 2004 fiz duas comunicações em Portugal e, en passant, aproveitei para divulgar o Conta, que nascera como projecto colectivo cerca de dois meses antes (a 5 de Outubro de 2004). No meio do entusiasmo, confessei o meu "sonho": ver o Conta como um embrião para uma boa revista online de biologia, escrita em português.
Em Maio deste ano o Conta estava moribundo. Passado o frenesim que os brinquedos novos sempre despertam, os editores haviam deixado de escrever, e blogue não conseguira fidelizar leitores que não fossem nossos conhecidos ou familiares (próximos). Nessa altura pensei em desistir, mas convenceram-me a ficar. Redefinimos então a nossa estratégia. Em vez do laissez-faire, cada editor passou a ser responsável por assegurar prosa fresca a um dia fixo da semana. Este esquema algo rígido vai contra a lógica descontraída da blogosfera, mas salvou o projecto. Começámos a escrever de forma regular, o número de visitas aumentou e Outubro de 2005 é já o mês mais visitado de sempre (mesmo antes de ter terminado). É possível que o número de pessoas que visitam blogues tenha aumentado nos últimos meses e que o Conta apenas traduza essa tendência global, mas duvido que seja essa a explicação, visto que a recuperação do blogue coincidiu com o momento em que nos reorganizámos.
Considerando o número de visitas e a blogosfera portuguesa, o Conta é um blogue apenas do meio da tabela, mas tem finalmente momentum. Pela primeira vez, as palavras que proferi em Dezembro, que eram as de um demente, são agora as de um megalómano, o que é um progresso considerável. Antes de passar em revista este primeiro ano de actividade, a ocasião é propícia para fazer dois agradecimentos públicos: a quem nos visita mas também - e sobretudo, se me permitem - aos meus colegas, que aceitaram começar esta brincadeira e têm feito o necessário para que continuemos a brincar.

Publicado por Conta Natura às 5:52 PM | Comentários (11)

A coluna do Senhor: Polio.

stamp-ctc-polio-vaccine.jpgNum 16:46 And Moses said unto Aaron, Take a censer, and put fire therein from off the altar, and put on incense, and go quickly unto the congregation, and make an atonement for them: for there is wrath gone out from the LORD; the plague is begun.
Num 16:47 And Aaron took as Moses commanded, and ran into the midst of the congregation; and, behold, the plague was begun among the people: and he put on incense, and made an atonement for the people.
Num 16:48 And he stood between the dead and the living; and the plague was stayed.


Este mês nos EUA se deu um fato epidemiológico preocupante: um surto de Polio no Minnesota. As quatro criancas representam os primeiros casos de infecção pelo vírus da polio no lar dos livres e bravos nos últimos 26 anos. O caso tem diversas particularidades, sendo a mais proeminente a fé Amish dos infectados (o último surto, em 1979, também se deu nas comunidades Amish)(1). Os Amish são uma seita protestante de origem principalmente holandesa e alemã, que os leitores da minha geração provavelmente vieram a ouvir falar no mesmo contexto que eu, no filme “A Testemunha”, com Harrison Ford a se esconder numa de suas comunidades. Os Amish rejeitam a maior parte dos avanços tecnológicos, com o núcleo duro, os chamados Old Order Amish, vivendo sem electricidade, telefone e outros recursos que muitos de nós consideramos essenciais (eu, para a irritação permanente de amigos e familiares, junto-me a eles na aversão ao telefone). Infelizmente incluem também nesta lista as vacinações e a maior parte das intervenções da medicina moderna. Talvez um bom tema para debate no nosso espaco seria a responsabilidade do estado e das autoridades de saúde pública frente aos pais que põem a vida das criancas em perigo por convicções religiosas- os casos limites são as testemunhas de Jeová e outros grupos que recusam simples transfusões sanguíneas aos seus filhos. Como este não é o tema que quero tratar aqui hoje, espreitarei o problema por outro ângulo: a dificuldade de erradicar doenças infecciosas.

(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)

Em Abril deste ano celebraramos os 50 anos da primeira vacina eficaz e segura contra a Polio, fruto do esforço de Jonas Salk e sua equipa. É difícil hoje imaginar o medo que a polio causava, infectando principalmente crianças com menos de três anos, paralisando algumas por toda a vida e matando outras por paralisia da musculatura respiratória. Durante as epidemias recorrentes muitas comunidades pequenas chegaram a interditar a entrada nas suas cidades às famílias com crianças pequenas. Assim, a doenca se manifesta regularmente, em geral em zonas do terceiro mundo (como cidadão do terceiro mundo, dispenso eufemismos do estilo “nações em curso de desenvolvimento” pela mesma razão que não quero ser tratado por “folicularmente desafiado” (2)). Até à detecção dos casos deste mês, os Centers for Disease Control (CDC) dos EUA afirmavam na sua webpage que “Ö polio was eliminated from the Americas in 1994”, mas a Polio tem razões particulares para ser de difícil erradicação.
A vacina desenvolvida por Salk consiste num preparado do vírus morto via tratamento com formaldeído e era originalmente injectada em 4 doses consecutivas (hoje em dia creio que são duas doses intramusculares). Apesar de proteger eficazmente o vacinado dos sintomas da doenca, a vacina Salk não bloqueia completamente a transmissão viral. Isto porque a imunidade sistémica que ela induz evita a infecção do sistema nervoso pelo vírus, mas não a replicação viral no trato digestivo. No início dos anos 60, o Dr. Albert Sabin introduziu sua vacina oral (esta é em geral a via natural de infecção pelo tipo selvagem do vírus polio) utilizando uma cepa viral viável mas atenuada por passagens múltiplas em culturas celulares, incapaz de produzir a doença. Ao contrário da vacina Salk, a vacina Sabin nao só evita a doença no vacinado, mas efetivamente bloqueia a transmissão do vírus ao induzir imunidade na mucosa. Como o indivíduo vacinado excreta o virus atenuado, a vacina Sabin tem ainda um efeito protector comunitário, pois pode infectar outros hospedeiros. Por isso a vacina Sabin oral rapidamente dominou (3) as campanhas globais de eliminação do polio (e também porque não exige pessoal qualificado para sua adminstração). Mas o uso da vacina oral tem seu próprio risco: o vírus atenuado reverte para a forma virulenta numa frequência de 1 em cada 13 milhões de doses administradas (ou, segundo outra fonte, 4 por milhão). A reversão da cepa atenuada do vírus foi a origem dos últimos casos de infecção no Minnesota. Como o bebé não foi vacinado, adquiriu o vírus por transmissão a partir de outra pessoa. Isto se confirmou na análise genética das mutações, investigadores do CDC determinaram que o vírus divergiu da cepa Sabin há mais ou menos dois anos, ou seja, mais do dobro da idade do pequeno paciente. O mais estranho e preocupante é que a vacina oral com esta cepa nao é usada nos EUA desde 2000- a vacina injectada voltou a ser o padrão nos países desenvolvidos. Este é o yin-yang da vacinação do Polio: uma forma da vacina protege o indivíduo mas não a comunidade (Salk) e a outra protege a comunidade (Sabin) mas nao permite a erradicação porque é, ela própria, um reservatório do vírus. Adicione a isto a prevalência de infecções silenciosas sobre os casos sintomáticos (no caso da varíola era facil monitorar as infecções) e vemos porque tem sido tão difícil exterminar esta chaga.
Alguns dos outros fatores que dificultam a erradicação total de doenças por vacinação incluem os casos onde há um reservatório natural, isto é, um hospedeiro animal como, por exemplo, na doenca de Lyme. Nestas doencas (que não são infrequentes) a vacinação da população humana pode prevenir novos casos, mas se for interrompida a doenca pode re-emergir em gerações subsequentes. Uma variação sobre este tema é a mutacao de patogenos animais em formas infecciosas para humanos- vários resultados apontam para uma família viral em símios que poderá vir a dar à luz uma nova espécie viral de varíola. Finalmente, o bebé imuno-deficiente aponta para outro factor complicante: o alto número de indivíduos com imunidade comprometida, que representam potenciais “incubadoras” de novas cepas de patogenos e reservatórios a longo prazo das formas mais tradicionais de agentes virulentos. Fora as razões científicas, as campanhas de vacinação encontram diversas dificuldades de ordem prática. Nos países onde a infra-estrutura é precária, o problema básico é como chegar a todas as comunidades- um colega uma vez descreveu-me uma solucao interessante: pediram ajuda à Coca Cola, pois a Coca Cola conseguia distribuir seu produto nos cantos mais remotos do planeta... O acesso é particularmente difícil em zonas de conflito, e é frequentemente nestas áreas onde os surtos ocorrem. Mas, como vimos, a juntar aos problemas científicos, médicos e práticos, há ainda a dimensão cultural e religiosa. Muitos focos de doenças infecciosas correspondem a comunidades com crenças que excluem a intervenção da medicina moderna, como os Amish, ou em grupos étnicos que acreditam que as campanhas de imunização sao parte de um plano para erradicar não a doença e sim a eles. Parece ficção, mas nao é; diversas populações muçulmanas na ¡frica foram vitimadas pelo mito de que as vacinas eram na verdade uma estratégia de esterilização, como no caso do ultimo grande foco de polio na Nigéria (4).
Enfim, como ja foi discutido no Conta, as vacinas representam um dos grandes, talvez o maior, sucesso da medicina. Mas os obstáculos para o êxito da vacinação são enormes, e boa parte deles não dependem da ciência e sim da educação e vontade política. A gota díágua nos dias de hoje é a possibilidade de vencermos todos estes obstáculos e nos vermos face a outro problema, como o que se discute hoje para a variola: a possibilidade de algum cretino dispersar um destes agentes intencionalmente, mas neste assunto não vou entrar.

Uma boa semana de trabalho aos meus dois ou três leitores (mãe?).

1.Uma das criancas infectadas, o primeiro caso detectado, é um bebé de 7 meses que sofre de uma imuno-deficiência congénita severa. Felizmente nenhuma das criancas desenvolveu ainda sintomas da doenca.

2. Nota do editor: o Thiago tem uma calvície incipiente.

3. Após superar alguns obstáculos políticos, pois não foi desenvolvida na América e muitos dos seus primeiros testes em larga escala foram na falecida USSR- a história da vacinação contra a polio é fascinante, mas não temos cá espaco para abordá-la em detalhes. Recomendo
“A Brief History of Polio Vaccines” Stuart Blume and Ingrid Geesink, Science, Vol 288, Issue 5471, 1593-1594, 2 June 2000.

4. Recentemente foi desprovada uma outra teoria, a de que os primeiros hospedeiros humanos teriam contraído o HIV a partir de preparados da vacina de polio em culturas de células de chimpanzé (Nature 410, 1035-1036 (26 Apr 2001)). Para ler um bom texto sobre o surto africano: Science, Vol 305, Issue 5680, 24-25 , 2 July 2004.

(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)

Publicado por Conta Natura às 5:10 PM | Comentários (17)

Ciclope cínico

ciclopeneg.jpgAdventício (do lat. adventicÏu, que vem de fora) 1. adj. Acessório. Diz-se da camada exterior da parede das artérias. Só após a sua ruptura (ver Aneurisma) se torna claro que este adjectivo devia ter outro significado 2. s.m. Estrangeiro. Albert Camus confessou em carta a sua mãe que só não deu este título ao famoso livro em que fala dela, por ter medo que o Editor pensasse que se tratava de um conto de Natal

Publicado por Conta Natura às 2:25 AM | Comentários (0)

outubro 23, 2005

Os velhos dos Marretas

marretas.jpegDa pena de Jorge Massada saiu no Expresso deste Sábado um pequeno artigo sobre blogues de Ciência em Portugal. Divulgação importante e que se impõe, numa altura em que os blogues já são uma nova forma de informação e discussão. Como sempre, as vozes de alguns, a que não posso chamar senão de “velhos dos Marretas”, não hesitaram em trazer o seu negativismo a essa mesma divulgação. De entre as queixas ouvidas e lidas devo chamar a atenção ao facto de que não foi divulgado nesse mesmo artigo que o “Santiago” vive e trabalha em França e tem mais de trinta anos. Também não foi mencionado que o Thiago, apesar de trabalhar nos EUA, é natural do Brasil. Importante? Eu diria irrelevante. Fica aqui a errata ao dito artigo e um “mea culpa” por este lapso.
O importante nestas ocasiões seria, não deixando de lado o nosso sentido crítico, olhar o lado positivo de termos sido mencionados num jornal de tiragem nacional, independentemente do facto de gostarmos ou não desse mesmo jornal e do dito artigo. Olhemos o lado positivo de ter um jornal como o Expresso a dar espaço a este tipo de divulgação (e não ao só ao futebol e aos sacos azuis e às politiquices nacionais). Afinal, não é à divulgação que nos dedicamos aqui?
Este ambiente queixoso e queixinhas nada consegue senão aumentar o fosso entre jornalistas e cientistas. Se em vez de estreitarmos relações com a imprensa, e ajudarmos o serviço que também a nós é prestado, nos dedicamos à crítica mesquinha e destrutiva, não me parece que estejamos em posição de criticar quem quer que seja. As críticas devem ser construtivas e feitas quando o assunto é relevante e o merece. Afinal, não é esta atitude de sentar-se atrás e queixar-se casmurramente o que tantas vezes criticamos neste mesmo blogue?Ö

Publicado por SJA às 9:33 PM | Comentários (43)

Ninguém hoje é indiferente ao Expresso e ao que lá se passa...

Na edição do passado sábado o semanário EXPRESSO fez uma amável referência ao Conta Natura, num artigo [link só acessível a assinantes] de Jorge Massada, coordenador do Ciência Hoje, sobre blogues de Ciência.
Como sou o único colaborador deste blogue que conhece por dentro, e por fora, a "casa dos 30 anos", entendi que era apropriado ser eu a registar a gentileza.
Para fazer o link, eu e o VMB decidimos dedicar o seguinte texto de Biologia a todos os jornalistas que trabalham nesse Grande Couraçado da Imprensa Lusa.

mucca-1.jpg

A vaca é quase o melhor amigo do Homem. Se os cães fossem todos Dobbermans e Pitbulls era mesmo o melhor. Com a carne da vaca fazemos os bifes e os MacDonalds, com a pele os casacos e os sapatos, com o leite a manteiga e os iogurtes e com o estômago a minha avó faz uma comida que é uma porcaria.
Quando eu era pequenino (6 anos) julgava que as vacas eram malhadas e os bois castanhos. Mas agora (9 anos) já sei outras diferenças. Eu gosto muito da vaca. Mas o meu irmão (15 anos) gosta mais da filha (17 anos) dos vizinhos do quinto esquerdo. Ele diz que um dia eu também vou gostar mais das vizinhas que das vacas. Mas eu cá não sei. Se até a televisão diz que não há amor como o primeiro, para quê mudar?
A vaca é mulher do boi, mas gosta mesmo é do touro. Se calhar é por isso que a minha mãe (44 anos) chama assim à prima Micas (37 anos), que é muito amiga dum estivador (24 anos).

Publicado por Santiago às 9:00 PM | Comentários (1)

MALA DE CART√O

Confesso que fiquei um pouco surpreendida com os resultados do inquérito, visto que nem conhecia dois dos institutos que ficaram em primeiro lugar. Prova que quantidade (de vezes que aparecem mencionados nos meios de comunicação) não é sinónimo de qualidade.

Começo pela selecção das minhas frases preferidas:

1 - “comida: já há mais que sanduíches para almoçar; cozinheiro experimentalista importado do Zimbabuéí.” Referente ao Gurdon Institute, em Cambridge.

2 - “Não há grandes queixas da instituição. Nas palavras do boss, é o departamento mais rico per capita do mundo. O pessoal é porreiro, e há sempre cerveja no frigorífico. Só escusava de fazer tanto frio no Inverno.” Referente ao Massachusetts General Hospital, em Boston.

3 ñ “O instituto: é muito bom, mas o IGC (Oeiras) é muito melhor... mas não contes a ninguém.” Referente ao IMM, em Lisboa

Cambridge, Londres e os EUA estão idênticos. Já em relação à comida, só restam Londres e Boston nas cidades estrangeiras, decerto devido às comunidades emigrantes. Café de jeito só com muita sorte se encontra fora de Portugal.
A qualidade do sexo feminino é, pelos vistos, elevada em Amesterdão e Cambridge. O sexo masculino, pelo contrário, fica-se pelo mediano em quase todos os institutos que responderam, sendo nos restantes mesmo medíocre (ou talvez ausente?). Convém lembrar aqui que esta pergunta foi sugestão dos leitores.
A relação com os colegas de laboratório varia entre a socialização completa e a cordial mas distante sem padrão discernível, exceptuando a frieza dos ingleses em Liverpool. Igualmente sem padrão a relação com os orientadores, o que prova que neste aspecto só mesmo visitando os laboratórios.
Já a administração mostra ser mais maleável em Cambridge, nos EUA, em Aberdeen e no IGC, enquanto os transportes são médios ou bons para todos os institutos. O salário (ou bolsa na maioria dos casos) é bom nos EUA, na Escócia, em Espanha e no IGC.
Em termos de suporte informático, espaço de bancada e facilidade em arranjar material dois (Seattle e Boston) dos três laboratórios nos EUA obtiveram pontuação máxima, como seria de esperar. Fora dos EUA, só o Gurdon em Cambridge teve também o máximo nestas três categorias.
E finalmente, o mais importante, na minha opinião: o ëbuzzí científico: todos os labs nos EUA, o Gurdon em Cambridge, o Instituto de Cancro Holandês e o IGC tiveram todos três (a pontuação máxima). E só os labs em Espanha tiveram pontuação mínima, ou seja nos corredores dos ënuestros hermanosí só se fala de futebol e telenovelas.

Este inquérito serviu mais como estudo-piloto, já que só responderam 20 cientistas portugueses, espalhados por 15 institutos. Ficou a ideia de desenvolver e fazer uma coisa mais a sério. E também para dar uma hipótese aquelas pessoas que quiseram responder ao inquérito, mas já depois de ele ter fechado!

Publicado por MM às 3:43 PM | Comentários (2)

outubro 22, 2005

Montra Natura

pole.jpg
A imagem mostra a parte posterior de um embrião de Drosophila melanogaster 3 horas após fertilização. A vermelho as células que, futuramente e após migrarem até às gónadas, formarão as células germinais. A azul um marcador das membranas das células. E a verde uma proteína nuclear com níveis mais baixos perto das células marcadas a vermelho e mais altos à medida que se afasta deste polo do embrião.
Fotografia de Oliver Grimm.

Publicado por SJA às 9:57 PM | Comentários (4)

Política ao Natural

3.jpg

"Introduzir a Biologia na análise política não implica legitimar ou condenar actos e medidas pelo simples facto de, respectivamente, se encontrar ou não um paralelo no mundo animal."

INICIO aos Sábados uma nova série: Política ao Natural. A inspiração para o nome, forma e estilo adoptados será óbvia.

Mas mais do que tentar um pastiche, creio que há lugar para a biologia na análise da actualidade política nacional.

Por um lado, o filão histriónico é inesgotável. Até que ponto é útil conhecer os trabalhos de E.O. Wilson sobre adaptações das espécies insulares quando tentamos perceber o fenómeno Alberto João Jardim? É o que veremos.

Num registo mais sério, tenho constatado que os fazedores de opinião da pátria tanto abusam do mundo natural como o desprezam. Por exemplo, para Miguel Sousa Tavares a adopção de crianças por casais homossexuais não deve ser autorizada, pois na natureza não vemos "elefantes gays ou focas lésbicas a criarem filhos em comum". O argumento é arrepiante.

A fazer lei da natureza, quantos cenários de terror podemos imaginar para a nossa espécie?

H¡ DEPOIS o outro lado.

O desprezo com que se trata a natureza.

A arrogância de quem se recusa a ver o homem como o primata inteligente que é.

E o medo que o reducionismo biológico faça tremer sedutoras e complexas construções teóricas.

Numa discussão sobre a homossexualidade entre António Guerreiro e João Pereira Coutinho, um vê a orientação sexual como um fenómeno natural e o outro, pelo contrário, como uma construção social. Mas nenhum deles se deu ao trabalho de alicerçar a sua posição, preferindo apenas esgrimir o contencioso no plano das consequências.

Para não sair da mesma causa fracturante, quando inocentemente perguntaram ao Prof. Amaral Dias se o "gene da homossexualidade" existe, a resposta foi intempestiva, como se alguém lhe estivesse a armadilhar a cátedra com explosivos plásticos.

Há nestas posições muito a corrigir.

UM EFEITO pernicioso da hegemonia das Humanidades, das Ciências Sociais e Humanas, da Economia e do Direito.

Introduzir a Biologia na análise política não implica legitimar ou condenar actos e medidas pelo simples facto de, respectivamente, se encontrar ou não um paralelo no mundo animal.

Esta é uma análise que deve ser feita sem complexos, mas com cautela.

O intercâmbio entre a Biologia e a Política não tem produzido coisas bonitas.

Do eugenismo ao capitalismo selvagem, parece ser sempre possível pedir contas à família Darwin.

A ingerência da política na Biologia pariu Lisenkos.

E o politicamente correcto branqueia as diferenças, ignorando a grande lição da Biologia: o valor diversidade.

Não são motivos para recuarmos.

AQUI ABORDAREI a actualidade política nacional (a internacional também, faltando assunto) segundo o ângulo da biologia.

O LEITOR poderá contar com uma análise coerente e serena, mas em que procurarei fazer rupturas nos momentos certos.

É importante saber fazer rupturas, não perder a juventude, arriscar quando é preciso.

Marcamos já encontro para o próximo Sábado.

O primeiro dos Sábados que nos restam.

Publicado por Conta Natura às 12:00 AM | Comentários (4)

outubro 21, 2005

BBC news: Gripe das Aves

As pessoas interessadas em recolher mais informação acerca da gripe das aves vão provavelmente achar este link da BBC bastante útil.

Publicado por maradona às 11:20 PM | Comentários (1)

Ciclope Cínico

ciclopeneg.jpgAneurisma s.m.; do Gr. aneúrysma: Dilatação 1. Dilatação localizada de uma artéria. ¿ semelhança das notas de banco, e dos amigos, há os verdadeiros e os falsos. Os verdadeiros envolvem as três camadas da parede arterial (íntíma, muscular e adventícia), enquanto que os falsos se ficam pela intíma 2. O maior problema é que a ruptura duma parede arterial costuma ter consequências catastróficas e é por isso uma grande seca sofrer um Aneurisma Dissecante da Aorta, chamado em inglês: R.I.P.. Os ~ são frequentemente congénitos e só diagnosticados na autópsia, (infelizmente), mas são também raros (felizmente). 3. Rudolfo Bettencourt, autor do tratado Canalizatorum est Gaudium Magnum, revelou grande ousadia poética ao descrever assim o episódio que lhe despertou o gosto pela profissão:

D. Brites Vasconcêlos,
Imp'ratriz da Ilha d'Isma,
dissecou um aneurisma
a lanchar com os Metellos.

Constatando o grande cisma
que ocorrera em sua artéria
chamaram Dona Valéria
(não tinha grande carisma

já que era ortopedista...)
para ser patologista,
mas soltou grande impropério!

..................................................

Assim D. Brites se finou!
O pobre do filho 'inda reinou,
mas depois... acabou-se o Império.

in Mesentéricas e outras dissecções (Edição do Autor)

Publicado por Santiago às 5:33 PM | Comentários (0)

Cheap Labor...

art164a.jpgSempre que comento com alguém o meu regresso iminente a Portugal a resposta e' inevitavelmente a mesma - "prepara-te!". Existem referências a realidades menos claras, perigos escondidos de um pais profundamente burocrático onde a cultura do "jeitinho" e da "cunha" abunda. Obviamente aqueles que hoje criticam, amanhã tem poucas intenções de não usufruir de tais idiossincrasias. Mas hoje não quero falar da natureza humana, queria apenas partilhar convosco a minha enorme surpresa com o elevado número de candidatos a uma posição de estagiário que abri em Setembro. Tendo em conta que tal posição esta' longe de ser extraordinária, apenas posso atribuir tal número ao prestígio do Instituto Gulbenkian de Ciência e à existência de um número horrivelmente elevado de pessoas com vontade fazer ciência mas que são incapazes de encontrar emprego. Este desequilíbrio evidente entre a capacidade do ensino superior criar estudantes licenciados de qualidade e a capacidade do mercado de trabalho os absorver leva a uma necessidade premente de redimensionamento do ensino superior. Eu compreendo que uma taxa razoável de desemprego seja inevitável e que nem todos os alunos de um curso tenham o entusiasmo e a qualidade necessária para seguirem uma carreira científica. Mas aquilo que não se compreende é a situação actual do mercado de trabalho em ciência, a qual leva a que alguns estudantes licenciados estejam dispostos a trabalhar de "borla" durante alguns anos para poderem maximizar a suas hipóteses futuras de fazer um doutoramento. Num "país europeu, moderno e de olhos postos no futuro", não se compreende que alguns laboratórios em Portugal necessitem de usar tal desespero de características terceiro-mundistas para assegurar o seu bom funcionamento.

Publicado por maradona às 3:55 AM | Comentários (18)

Formação e Educação em Bioética (25 e 26 de Novembro, Lisboa)

bravenewworldcover1.jpgO Conta não é um portal de ciência e, numa lógica umbiguista, em regra só anunciamos cursos e eventos que contam com a participação directa de pelo menos um membro da nossa equipa. Abro aqui uma excepção para anunciar um Seminário do CNECV, a ter lugar a 25 e 26 de Novembro, na Fundação Calouste Gulbenkian. Como sabem, o CNECV é uma das nossas obsessões e ficaria mal não retribuir a atenção com que alguns dos seus membros seguem as nossas discusões. Eis o que acontecerá:

Reflectir sobre a importância do ensino da Bioética em geral e especificamente a nível do ensino secundário, do ensino universitário e a nível específico das comissões de ética para a saúde é um exercício que é preciso e possível de implementar no nosso país.
Vamos, por isso ouvir quem tem experiência (a Laura Bishop do Kennedy Institute of Ethics da Georgetown University e o Jakob Elster do Nordic Committee on Bioethics e alguns dos portugueses com experiência no ensino em geral e na formação em bioética em particular ).
Cremos também saber o que tem sido feito e o que é preciso fazer a nível de formação dos membros das comissões de ética e claro que será muito interessante ouvir José Pacheco Pereira [JPP] sobre o papel do CNECV na sociedade portuguesa.
E claro, faremos o possível para incentivar o diálogo entre todos os intervenientes.

Paula Martinho da Silva

Para alguns, a escolha do conhecido fazedor de opinião multimédia e pai bastardo da blogosfera política lusitana poderá parecer algo peregrina. É verdade que as questões da bioética não costumam marcar presença nas crónicas de JPP. Relembro contudo que JPP gosta de reflectir sobre os novos desafios que a tecnologia coloca, tem pormenores de retórica reveladores - como paráfrases ao Huxley ("sejam bem-vindos ao admirável mundo novo") - e, se não estou em erro, assinou nos anos oitenta um prefácio de uma edição do 1984, do Orwell, um livro sobre uma sociedade totalitarista e apenas remotamente ligado aos perigos da biotecnologia, mas que é - juntamente com o Brave New World - o ponto de partida para uma discussão de bioética da autoria do homem que vai a todas, o Francis Fukuyama (o livro chama-se Our posthuman future e julgo estar traduzido em Portugal).

Publicado por Conta Natura às 3:00 AM | Comentários (4)

Influenzoscópio

Avian-flu-188.gifDepois da Turquia, Roménia e Rússia terem confirmado os seus surtos de gripe aviaria, ontem o ministro da agricultura da Grécia admitiu publicamente que esta segunda-feira (dia 17 de Outubro) tinha sido detectado um peru grego com a mesma gripe, na ilha de Chios no mar Egeu. Este resultado positivo detectou a presença de anticorpos contra o vírus, recorrendo a um teste semelhante ao teste ELISA para o HIV. A confirmação virá mais tarde, com outros testes, mas a probabilidade de já ter ocorrido uma primeira infecção aviaria, dentro das fronteiras da UE, é muito elevada.

No dia 18, o Ministro da Saúde da Indonésia veio confirmar mais um caso de infecção humana por gripe das aves, elevando para 5, o número de detecções laboratoriais, 3 das quais fatais. Quase todos os casos foram registados em pessoal da indústria das carnes de aves.

Ontem mesmo, o governo tailandês confirmou o seu 13∞ caso fatal de transmissão humana da Gripe aviaria, o que esteve a ser debatido ao longo do dia na reunião do Conselho de Ministros da Saúde da UE, em Londres. Os planos de contingência foram debatidos e os mecanismos de vigilância reforçados.

Recordo mais uma vez que de todos os casos registados até agora, o único caso (suspeito, não confirmado) de transmissão da infecção Homem-a-Homem ocorreu entre uma criança doente e a sua mãe, na Tailândia, em Setembro de 2004.

O envolvimento deste e de outros países asiáticos neste drama sanitário e económico, levou o CDC (Centers for Disease Control) a recomendar destinos turísticos alternativos, bastante distantes desta região do globo.

Nós por cá, do outro lado do mundo, recebemos mais um anúncio apaziguador do Ministro da Agricultura negando qualquer resultado positivo em mais de 3000 amostras colhidas em locais de risco e o Secretário de Estado da Saúde confirmou a contratação para aquisição de 2,5 milhões de doses de tratamento- Oseltamivir (TamifluÆ). Os laboratórios Roche registarão este ano, estou convencido, os maiores lucros de toda a sua história, mas já deram o bom exemplo, extensível a outras discussões igualmente preocupantes, e negociaram o licenciamento de outros laboratórios para a produção deste fármaco. O tempo dirá se estas quantidades astronómicas vão ser suficientes para as necessidades ou se ficarão serenamente nas prateleiras à espera da data limite de validade.

Outro aspecto importante a recordar aqui no Conta é o sentido do alastramento das epidemias de Influenza tipo A entre espécies diferentes. Até 1998, apenas o subtipo H1N1 (o mesmo da gripe espanhola de 1918-1919) circulava entre porcos. Nesse mesmo ano, foram isolados vírus H3N2 humanos em porcos, o que provocou uma grande epidemia nesta espécie. Mais recentemente, o H3N8 encontrado habitualmente em cavalos, passou a barreira da espécie para passar a infectar também os cães.

No Homem, os subtipos responsáveis por grandes epidemias são o H3N2, H2N2, H1N1 e o H1N2.

Todos os animais são susceptíveis apenas a alguns subtipos virais. A excepção vai para as aves que são hospedeiros potenciais de TODOS os Subtipos de Influenza tipo A. Ainda bem que, à semelhança dos dentes, as galinhas e os perus quase perderam as asas e deixaram de voar!

Publicado por RPA às 12:28 AM | Comentários (0)

Ciclope Cínico

ciclopeneg.jpgApófise s.f.; do Gr. apóphysis: Excrescência 1.Anatomia: Saliência dos ossos ou peças cartilagíneas.Ao contrário do que inúmeras gerações de estudantes de medicina têem aprendido, as ~s Geni do osso Maxilar Inferior não derivam o seu nome do da esposa de quem as descreveu pela primeira vez, mas sim da palavra grega para queixo. ~ mastoideia: O mastoideu que até o Vasco Santana sabia o que era 2. Geologia: Prolongamento da massa eruptiva que penetra na rocha encaixante. Esta definição, tirada da Infopédia.pt Æ, só na aparência desmente a lentidão geológica do processo.

Publicado por Santiago às 12:15 AM | Comentários (0)

outubro 20, 2005

Ciclope cínico

ciclope.jpgcorazon06.jpgAmor do Lat. amore, s. m. 1. Força motriz que nos atrai para o objecto do nosso desejo . 2. Ciência (para ler com a integral da lírica camoniana por perto): é facilitado pelas feromonas, a oxitocina e o orgasmo, por esta ordem; é depois destruído pelos mesmos elementos, sem grau de importância ou ordem de actuação definidos. Referências à ciência marcam presença no léxico amoroso, em particular a enigmática expressão "existir química", que mais não é do que um livre-trânsito para actos inconsequentes de justificação impossível de verbalizar. De acordo com a máxima de Lavoisier, o objecto do desejo transforma-se com frequência e os eventuais ganhos e perdas são apenas aparentes ou, num contexto mais alargado, simples transferências de soma nula. Outra expressão curiosa é o "amor à primeira vista", onde se atribui à luz uma propriedade mística que a dualidade onda-corpúsculo não contempla. 3. Probabilidades e estatística: os americanos usam frequentemente o termo "significant other", revelador de um domínio intuitivo do teste estatístico. Diz-se que uma diferença é significativa quando, ao rejeitarmos a hipótese nula (na situação presente: "estou apaixonado por mais alguém/por outra pessoa"), em menos de 5% dos casos cometemos um erro. Por outras palavras, numa festa que reúna cem pessoas do sexo que apreciamos, haverá um máximo estatístico de 4 pessoas que nessa noite nos levariam a trair o nosso parceiro. Um outro termo - o "highly significant other" - não entrou ainda na cultura popular mas é só uma questão de tempo, visto que tem um erro de tipo I de apenas 1%, mais apropriado às festas de grande dimensão e de popularidade crescente, como as raves e os festivais de Verão. 4. A. Platónico: aquele que exclui os sentimentos e as práticas carnais. Secretamente recomendado por epidemiologistas, é o amor mais sublime ou então o mais sublimado, sobretudo quando não se pode concretizar o desejo carnal, seja por desfasamento temporal ou geográfico, ou por impedimento psíquico, alergológico, hidráulico-ergonómico ou logístico. 5. A. Cibernaútico: baseia-se na noção também intuitiva de que encontrar o amor da nossa vida é essencialmente um problema de amostragem, esquecendo-se que tal esquema leva inevitavelmente a um investimento de tipo r (vide Lokta e Volterra), quando é sabido que são as estratégias de tipo k que têm real probabilidade de sucesso, bem como as únicas capazes de produzir poesia original e, por vezes, até de qualidade.

Publicado por Conta Natura às 6:00 PM | Comentários (0)

Conta Natura e o capitalismo...

Blogshares (press release)

"Conta Natura was the subject of much speculation when analysts at several firms were heard to be very positive about it's recent performance. It's share price rose from B$371.37 to B$594.19."

Posted: 23:31 04 Oct 2005

Publicado por maradona às 5:37 PM | Comentários (0)

Curiosidade Apaixonada

KCURIOAPAIX.jpgde Carlos Fiolhais
Ciência Aberta - Gradiva

“Muito curiosíssimo e muito curiosíssimo!”, gritou a Alice depois de comer o bolo, e momentos antes de começar a crescer desmesuradamente, no início das suas aventuras no País das Maravilhas. Mas a curiosidade e as coisas curiosas nem sempre são malévolas, nem eventualmente castigadas.
O novo livro de Carlos Fiolhais deve o seu título “Curiosidade Apaixonada” a uma célebre frase de Albert Einstein. Como explica o autor no prefácio “a maneira que temos para chegar à Ciência, (Ö) nas palavras de Einstein, é o que ele chamou curiosidade apaixonada”. Este livro, que foi lançado pela Gradiva no passado dia 29 de Setembro, oferece-nos de novo a prosa ritmada e de fácil leitura de Carlos Fiolhais. Oferece também uma capa “curiosa”: Albert Einstein e Marylin Monroe em duas peças de puzzle que se complementam.
Fiolhais compilou neste livro, como antes o fez em “A coisa mais preciosa que temos”, textos que foi publicando nas páginas díO Primeiro de Janeiro. Os elos de ligação entre estas crónicas são mesmo a curiosidade e a Ciência. Na primeira parte temos a Ciência propriamente dita, e o exercício da curiosidade. Daí passamos às Histórias, onde o autor nos conta várias estórias da História da Ciência ou nas suas palavras “a curiosidade em acção”. A terceira parte lida com as Escolas e a educação científica e, em seguida, o resto do livro conta-nos como há muitos mais recursos disponíveis para aguçar a curiosidade. Os capítulos Livros, Filmes, Teatros e Viagens, apresentam-nos o interesse e as opiniões de Carlos Fiolhais desde os livros que leu às viagens por ele feitas a vários sítios da Europa.
Na minha posição de leitora deste livro, gostaria de chamar a atenção ao capítulo de Histórias que retrata alguns episódios da História da Ciência revelando pormenores sobre alguns portugueses implicados que são, praticamente, desconhecidos. E um outro, o dos Teatros que me surpreendeu por dar-me a conhecer a qualidade do que se tem feito no Teatro da Trindade em matéria de comunicação de Ciência através da arte teatral (sim, que isto de ser emigrante tem alguns contras). E claro, não posso deixar de mencionar o ensaio “Por que não ganhamos na educação?”, uma crítica inteligente e satírica, à educação em Portugal. Aqui, Fiolhais compara as vitórias futebolísticas portuguesas ao falhanços da educação e em dada altura escreve “Os nossos ministros da Educação, não têm sido nenhuns Josés MourinhosÖ”
Um livro feito de retalhos e detalhes. Uma agradável leitura à que se adiciona a comunicação de Ciência feita ao estilo muito próprio de Carlos Fiolhais. Os meus parabéns tanto ao Carlos como à Gradiva por estes bons momentos de leitura.

Entrevista com Carlos Fiolhais sobre este livro em Os Caminhos do Conhecimento

Publicado por SJA às 9:35 AM | Comentários (0)

outubro 19, 2005

Da colónia de Arnhem ao Palácio de Belém

arnhemChimps_20050503s.jpg

Hidden beneath the power of struggle and its resultant hierarchy was a network of positions of influence. Thus the most influential troop members at Arnhem were the oldest male and the oldest female, no longer dominant in the obvious sense, but highly influential and able to pull strings behind the scenes. Newly dominant individuals were usually much less influential and dependent on coalition and alliance" (Humankind Emerging, p 162).
Campbell e Loy, referindo-se aos chimpanzés de Arnhem (Holanda).

Publicado por Conta Natura às 5:31 PM | Comentários (2)

Outro momento de poesia,

dedicado a todos cientistas. Nem os mais empedernidos ateus deixarão de reconhecer neste belo soneto o processo de descoberta científica...

Shadows.jpg

Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar escuridade,
Ser uma queda nova cada invento:

É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.

O que há-de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida:
Se procura, só acha... o desatino!

Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degredo, o Céu destino.


Antero de Quental

Publicado por Santiago às 4:50 PM | Comentários (8)

Ciclope cínico

ciclope.jpg200px-Domenico-Fetti_Archimedes_1620-1.jpgArquimedes Matemático, físico, astrónomo, inventor, exibicionista inimputável e engenheiro grego, 287 a.C. - 212 a.C. 1. Foi o maior matemático da antiguidade. Só viria a ser ultrapassado por Newton, e a coisa pede photofinish. Nasceu em Siracusa (uma cidade-estado grega, na Sicília) e por lá viveu a maior parte da vida, apesar de uma estadia no Egipto, que possivelmente incluiu o package Pirâmides de Gizé e cruzeiro no Nilo. . 2. Arquimedes deixou uma vasta obra, mas o incêndio na biblioteca de Alexandria destruiu parte do seu legado e os estudantes de cálculo ainda hoje têm pesadelos quando pensam no que seria a matemática se os escritos completos de Arquimedes tivessem chegado ao século XVI. Ainda assim, Arquimedes influenciou o ressurgimento da matemática mais de mil anos após ter dito "não toques nos meus círculos" ao soldado romano que o importunou - e acabaria por matá-lo - quando brincava nas areias de Siracusa. Esta é apenas uma das muitas expressões de Arquimedes que penetraram na cultura popular e que o matemático nunca terá dito. Como, de resto, o famoso "eureka!" ("descobri!"). Não há hoje cientista que não sonhe com o momento em que fará soltar os botões da bata de uma assentada, se livrará depois de toda a roupa e, pelado como veio ao mundo, desate a correr pelo instituto, soltando sonoros eurekas. É contudo extremamente improvável que Arquimedes tivesse descoberto o princípio homónimo enquanto se banhava; a acreditar no relato de Plutarco, o matemático era pouco amigo do sabonete (aceite-se o anacronismo) e quando o lavavam à força ele ficava absorto a desenhar bonequinhos geométricos no óleo que lhe passavam pelo corpo, o que não deixa ninguém em condições de se aperceber de transbordos de água, e muito menos de alterações subtis no nível da água da banheira. 3.Princípio de Arquimedes: todo o corpo imerso, total ou parcialmente, num fluido em equilíbrio, dentro de um campo gravitacional, fica sob a acção de uma força vertical, com sentido ascendente, aplicada pelo fluido; a intensidade desta força é igual à do peso do fluido deslocado pelo corpo. Esta lei fundamental da hidrostática surge no seu Tratado dos Corpos Flutuantes, obra que em tempos mais recentes gozou de imensa popularidade entre as famílias mafiosas, pelo menos enquanto durou o hábito de despachar gente incómoda em docas mal afamadas. A história de que Arquimedes teria aplicado este princípio para testar se a coroa do rei Herão era de ouro puro ou feita de uma liga metálica (que teria uma densidade diferente da do ouro puro e, consequentemente, um volume diferente para o mesmo peso) é provavelmente verdadeira. 3.Valor de pi: Arquimedes foi o primeiro a apresentar um cálculo formal e bastante aproximado do valor de pi. 3.1418, o valor por ele calculado, é curiosamente o valor que pessoas minimamente informadas retêm na cabeça, mas há hoje quem se orgulhe de conhecer o valor de pi até à centésima casa decimal. 4. Invenções: Arquimedes foi o Leonardo da Vinci do seu tempo. EstaClaw_animation.gif formulação é algo estranha, mas a verdade é que as parecenças entre os dois são inegáveis, sobretudo quando pensamos na maquinaria de guerra. Há uma explicação psicanalítica para a atracção por este tipo de inventos: todo o grande criador preserva a curiosidade das crianças, essas adoráveis criaturas que metralham perdigotos, simulam explosões, declaram unilateralmente a morte dos amiguinhos e obrigam os pais a gastar fortunas em arsenais de plástico. No caso de Arquimedes, há outra explicação: os Romanos à porta de casa. As catapultas e a diabólica garra de Arquimedes (ver animação) terão atrasado a capitulação de Siracusa. A história de que Arquimedes teria incendiado navios a milhas de distância com espelhos côncavos e lentes que concentravam a luz do sol num raio é provavelmente ficção, mas ficção plausível, sobretudo no pino do Verão siciliano.

(entrada incompleta; work in progress)

Publicado por Conta Natura às 10:49 AM | Comentários (4)

Pragas

Thíearths face is but thy Table; there are set
Plants, cattell, men, dishes for Death to eate.
In a rude hunger now hee millions drawes
Into his blooody, or plaguy, or stervíd jawes.

- JOHN DONNE, “Elegie on M Boulstred”

Publicado por PP às 10:32 AM | Comentários (0)

O País, Os Media E A Gripe das Aves

joe-microphone.jpgTalvez este não seja o espaço indicado para estar a debater este assunto concreto, mas confesso que tenho de fazê-lo para alívio de alguma sensação de urgência, um pouco como aquela que sentem os homens de certa idade, com a próstata hipertrofiada! O “aperto” final foi impulsionado pelas declarações de Dias da Cunha na sequência do anúncio da demissão do treinador do SCP, (desde já afirmo que a minha relação com o futebol é apenas aquecida por alguns derbies e pelas vitórias da Selecção), ao imputar aos media a responsabilidade pelo ocorrido hoje, contra a sua própria vontade: a dita demissão de Peseiro!
(Apresento a minhas desculpas sinceras aos leitores que se chocam com esta referência futebolística neste oráculo das ciências da vida)

Ainda outro exemplo, hoje mesmo, o Primeiro Ministro também se queixou, na inauguração do novo terminal de passageiros do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, que os políticos tinham que resumir a complexidade da realidade a frases simples, transmissíveis nos telejornais, sic., identificando claras pressões para que o façam desse modoÖ

É a isto que chegamos. Nós não vivemos em Democracia, nós vivemos sob o poder não eleito, ditador, de alguns meios de comunicação social. Os que se vergam a estes interesses saem vencedores. É claro que nunca saberemos quantas decisões foram tomadas por causa deles, com prejuízo dos interesses de Portugal e dos portugueses, mas vemos todos os dias a preciosa ajuda que dão para o desenvolvimento do paísÖ Parece que brevemente a influência virá de Espanha, ao entrar no capital da Media Capital!

Já não se fala verdade porque a verdade não tem aquele aspecto picante, curioso, rebuscado e colorido dos factos dissimulados, inventados ou mesmo da pura mentira.

A inversão ou correcção desta situação não sei se passará pela AACS, estou persuadido que não, ao tomar nota da facilidade com que o ministro da pasta lhes prepara a agenda, apesar da total autonomia da AACS! Mas tem que passar por alguma instituição. Não é possível continuar esta impunidade na comunicação social portuguesa, que não tem paralelo com nenhum outro país europeu. Basta a comparação com os nossos vizinhos espanhóis que vêm, a cada momento, vigiadas as suas notícias, de forma até excessiva e despudorada no que toca à influência governativa (cada vez que o gobierno cambia, cambiam também os pivots da TVE)Ö

Não é possível aceitar, como afirma o Prof. Cavaco Silva sobre o seu período governativo nas memórias publicadas, que os ministros desse tempo viviam apavorados à quinta-feira com a expectativa do que sairia num jornal no dia seguinte! Isto não é sério! Isto não é “serviço público”! E no entanto, de acordo com afirmações de um ex-Director da RTP, Mário Soares foi quem mais “governamentalizou” a TV do estadoÖCurioso, não? Um amado e o outro, bem menos...

Este poder é um poder desnivelado, com pouca cultura e muito pouco conhecimento técnico, cívico e até patriótico. É um poder inimigo do Estado de Direito: recordam-se do “arrastão” e das suas imagens a correrem na BBC, Euronews, TVE, TF1? Recordam-se do impacto, e das consequências?

A desgraça vende em Portugal e dá de comer a muita gente! Agora, não subestimemos nunca as medidas preventivas tomadas como as relativas à gripe aviaria. Concordo que a repetição das mensagens e o “tom” não é o melhor, mas se fosse o correcto, seria de espantar, e tudo aquilo que tinha escrito até aqui não teria qualquer sentidoÖ

Publicado por RPA às 1:50 AM | Comentários (20)

outubro 18