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dezembro 30, 2005

Influenzoscópio

Avian-flu-188.gifO ano aproxima-se do fim e é altura de fazermos o balanço sobre a Gripe das Aves. Antes de mais é bom recordar que a evolução da epizootia não tem sido muito preocupante, antes pelo contrário. No entanto também é ainda cedo para cantarmos vitórias.

O número de novos casos de Gripe das Aves em humanos foi de 93, mais 102% do que no ano passado, embora o número de fatalidades tenha sofrido apenas um agravamento de 22%.

O Cambodja, a Indonésia e a China são os três novos que se juntam à Tailândia e ao Vietname na lista de países com mortes diagnosticadas com gripe aviária.

Ainda hoje, o Ministro da Saúde Chinês confirmou mais uma morte provocada pelo H5N1 numa mulher internada dia 8 de Dezembro com um quadro clínico de pneumonia. A China conta já com 7 casos e 3 mortos, apenas durante este ano.

A Europa também contactou em 2005 com o H5N1 que entrou na Roménia no início de Outubro logo seguida da Turquia. No final do mês a Grécia juntou-se ao grupo dos suspeitos e, pela primeira vez, receou-se a entrada da epizootia na União Europeia. No dia 19 do mesmo mês foi a vez da Rússia informar a Comissão Europeia sobre um surto de H5N1 a 200Km a sul de Moscovo, em Tula.

Dois dias depois foi a vez do Reino Unido com o episódio, algo rocambolesco, do papagaio do Suriname que teria morrido após contacto com aves em quarentena, oriundas de Taiwan. Ao mesmo tempo, as autoridades Croatas anunciavam o episódio do cisne infectado que se confirmou tratar-se do subtipo mais temido. Numa semana negra, as boas notícias chegaram da Suécia quando as suspeitas de infecção por H5N1 de patos de Eskilstuna, não se confirmaram. Tratou-se de uma infecção por H5N3.

O problema Russo permanece e agrava-se com a detecção de outro foco em Tambov a 400Km a sudeste de Moscovo.

O final de Outubro foi mais favorável com algumas boas notícias sobre os resultados de amostras colhidas na Grécia e de outras colhidas na Ex-República Jugoslava da Macedónia.

Na primeira metade de Novembro foi a vez da Itália entrar na lista dos infectados com a confirmação de H5N1 num pato infectado no norte do pais. Cerca de um mês mais tarde foi a vez da Ucrânia identificar um surto com impacto significativo o que levou a algumas substituições na coordenação da vigilância sanitária daquele pais.

Felizmente, o ano acaba sem sobressaltos e com a esperança que 2006 nos traga algum alívio para estas preocupações.

Publicado por RPA às 4:14 PM | Comentários (4)

dezembro 29, 2005

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpg O GripePT.net convidou o promotor da iniciativa na Holanda para vir a Portugal falar da experiência naquele país e divulgar e promover este trabalho junto do público em geral, mas também das autoridades de saúde. Fique pois atento ao calendário entre os dias 7-9 de Janeiro porque a conferência terá lugar no Grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em horário a anunciar.

Esta semana a newsletter versa sobre os antivirais, os medicamentos que eliminam os vírus e que, tal como os anti-bacterianos (vulgus antibióticos), também são alvos de resistências.

Estirpes resistentes ao Tamiflu

Dois pacientes vietnamitas faleceram vítimas de uma estirpe de H5N1 resistente ao Tamiflu, o medicamento que muitos países no mundo estão a acumular para fazer face a uma pandemia.

A reacção da Roche, a empresa farmacêutica que fabrica o Tamiflu, não se fez esperar. A empresa admitiu a possibilidade de ser necessário aumentar a dose recomendada de Tamiflu a administrar a cada paciente, bem como de usar o Tamiflu em conjunção com outras terapias.

Se a dose de Tamiflu necessária para combater a doença for maior do que previamente esperado, isso significa uma redução considerável no número de pessoas que as reservas de Tamiflu podem cobrir. No caso de uma pandemia, será crucial determinar a dose e duração do tratamento ideais para combater a doença.

Os Inibidores da Neuraminidase

A nossa principal linha de acção contra um novo vírus da gripe é constituída pelos medicamentos conhecidos como inibidores da neuraminidase. Entre estes incluem-se o Tamiflu e o Relenza.

O vírus influenza A, como todos os vírus, tira partido das células do organismo infectado para se multiplicar. Para este efeito o vírus entra na célula afectada e multiplica-se dentro desta. As novas partículas virais formadas têm por sua vez de sair da célula onde foram geradas para infectar outras. A neuraminidase actua neste passo, garantindo a libertação adequada do vírus, que de outro modo continuaria a aderir à superfície da célula, não se libertando.

Os inibidores de neuraminidase, como o nome indica, impedem que a neuraminidase cumpra a sua função, impedindo que as novas partículas virais se libertem depois de produzidas. Se o vírus não se liberta não é capaz de infectar novas células, travando a progressão da infecção.

O Tamiflu √© administrado em comprimidos por via oral, o Relenza, por sua vez, é administrado por inalação. O primeiro é preferido por ser mais fácil de administrar e por o segundo poder causar um ataque de asma. Ambos devem ser administradas nas primeiras 48 horas, de preferência 36, após a infecção. Estes medicamentos não destroem o vírus mas apenas atrasam a infecção durante tempo suficiente para que o sistema imune a possa combater com maior eficácia.

A eficácia destes medicamentos contra o vírus H5N1 é ainda debatida. A maior parte dos casos que ocorreram no Vietname foram tratados com Tamiflu, mas quase todos mais de 48 horas após a infecção. Num caso particular, dois irmãos foram tratados com Tamiflu, um antes das 48 horas limite, e outro depois: o primeiro sobreviveu e o segundo não.


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Devido a dificuldades imprevistas vimo-nos na necessidade de adiar a publicação no Público da newsletter de Janeiro para o segundo Domingo, 8 de Janeiro.

O criador deste projecto na Holanda, Carl Koppeschaar, estará em Portugal nos dias 7-9 de Janeiro, para partilhar connosco a sua vasta experiência em aproximar a ciência da sociedade. Mais informação em http://www.gripept.net/?q=event

Publicado por RPA às 5:32 PM | Comentários (1)

dezembro 27, 2005

Encontro do Alumínio

Tinha já um post planeado e escrito em rascunho para hoje, mas dado que surgiu a oportunidade, resolvi dar antes um relato resumido, quase em tempo real, da primeira parte do "Gulbenkian Alumni Meeting". Este encontro já foi mencionado pela SJA e estou certa que ela ou o RPA farão uma descrição mais promenorizada da segunda parte.

Passemos então às notícias e assuntos de interesse geral na introdução de António Coutinho:

- A apifarma está a fornecer um subsídio de instalação para grupos que saiem do IGC para novos institutos. Tem também apoios financeiros para esforços de "networking" científico.

- Está a colocar-se a ideia de um encontro mais alargado dos estudantes de doutoramento portugueses, estilo FEBS, que serviria também como plataforma de emprego.

- A exibição sobre Einstein na Gulbenkian está a bater o recorde de visitantes a esta Fundação. Prova que a divulgação científica está a avançar de vento em popa.

- o IGC está a pensar criar um programa de pós-doutoramento.

Publicado por MM às 1:31 PM | Comentários (3)

dezembro 25, 2005

Blogómica - Um novo blog no mapa

Foi com surpresa que descobrimos recentemente o Blogómica, que se define como "Blogue de biologia molecular e celular para os alunos e todos os outros curiosos".

A nossa surpresa prende-se por um lado pela novidade de nascer mais um blog mas por outro lado - e este é o mais importante - pela agradável leitura que proporciona a profissionais da área bem como a leigos. É com prazer que vemos Rui Oliveira - autor do blog - versar sobre novidades na berra - como Synthetic Biology e sites como o openwetware - mas ao mesmo tempo explicar numa linguagem muito acessível aspectos importantes sobre recentes trabalhos feitos em virus e em protein folding, entre outros.

Desejamos a maior sorte do mundo ao Blogómica não deixando esperar um pouco mais de vontade para nos brindar com mais posts interessantes. :) Ah, Rui, nem tudo o que sai na Science é verdade... mas sobre isto, falar-se-á em breve.

Bruno Afonso

Publicado por Conta Natura às 11:30 PM | Comentários (0)

dezembro 22, 2005

Cientistas portugueses: o regresso com sucesso?

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No próximo dia 27 de Dezembro, às 16:30, vai realizar-se no Instituto Gulbenkian de Ciencia (IGC) um debate subordinado ao tema “Cientistas portugueses: o regresso com sucesso?”. Este debate público, que terá lugar no auditório Ionians do IGC, será moderado pela Mónica Bettencourt Dias (U. Cambridge, Reino Unido) e tem como objectivos:

- Discutir as condições que Portugal oferece para acolher jovens cientistas e contrariar a chamada “fuga de cérebros”.

- Comparar experiências e opiniões entre os membros do painel e do público.

- Especular sobre o que poderá ser feito para melhorar Portugal no que diz respeito às condições oferecidas a quem faz ciência.

Os membros que formarão o painel são:
Ana Paula Coutinho (ISCR - Edimburgo, Reino Unido)
Henrique Teotónio (IGC - Oeiras, Portugal)
Isabel Palmeirim (ICVS, U. Minho - Braga, Portugal)
Lia Campos (Sanger Institute - Cambridge, Reino Unido)
Luís Martins (MRC - Leicester, Reino Unido)
Miguel Castelo-Branco (IBILI, Fac. Medicina -Coimbra, Portugal)
Nuno Arantes Oliveira (Alfama, Inc. - Oeiras, Portugal)
Rui Costa (Duke U. - Durham, EUA)
Sofia Araújo (IBMB-CSIC - Barcelona, Espanha)

Esperamos que o debate seja bastante interactivo e, para tal, contamos com a presença todos os interessados.

Publicado por SJA às 6:21 PM | Comentários (5)

ICN fez 30 anos: há razões para festejar?

Parte II
AreasProtegidas-ICN.jpg

Este novo post da Rita Caré é a continuação da parte I sobre o 30º aniversário do Instituto de Conservação da Natureza (ICN).

ICN.jpg
O ICN tutela as seguintes áreas protegidas: um parque nacional, 12 parques naturais, nove reservas, sete áreas de paisagem protegida e cinco monumentos naturais. Problemas não faltam na gestão destas áreas: a constante falta de recursos financeiros, (que serve sempre de desculpa para todos os problemas); a possível incompetência na gestão desse dinheiro; a fraca capacidade de coordenação e organização (estamos sempre a ser apontados pelas comissões avaliadoras da UE nesta questão); a falta de formação dos quadros; a falta de interesse generalizada de muitos funcionários públicos - os do ICN não serão excepção - que não têm muita vontade de trabalhar e vivem sob o lema “não faz, nem deixa fazer”.
Os parques naturais deveriam ter mais autonomia administrativa e financeira para desenvolverem as suas actividades, com a possibilidade de realizarem receitas com o turismo e a venda de produtos. O problema é que, tal como acontece noutras instituições (por exemplo, em museus sob tutela dos Ministérios da Cultura e da Educação), o dinheiro gerado vai para a administração central. Assim, os possíveis auto-financiamentos esfumam-se sem deixar rasto. Todos estes problemas implicam a grave falta de cuidados essenciais - por exemplo, a limpeza e a vigilância - para a protecção de áreas que se deveriam querer, cada vez mais, protegidas.
"As populações vêem o ICN como uma entidade que apenas proíbe", disse ao Público.PT Eugénio Sequeira, presidente da Liga para a Protecção da Natureza . O desenvolvimento sustentável é por isso considerado, pelas populações locais, como o pior inimigo das áreas (des)protegidas. Isto não deveria acontecer, pois é suposto a sustentabilidade trazer consigo uma qualidade de vida melhor. "Um parque digno desse nome", disse ainda Eugénio Sequeira, seria um incentivo ao turismo e traria vantagens económicas e sociais às comunidades locais.

A sensibilização das pessoas para a protecção do património natural e cultural das suas regiões - esses são os seus melhores tesouros ñ tem de ser a maior de todas as prioridades. Mas não há técnicos em quantidade e com qualidade suficiente para o fazer com eficácia a curto-médio prazo. Sem a colaboração e responsabilização dos cidadãos nunca se conseguirá fazer Conservação da Natureza a sério. Todos nós somos também responsáveis.

O Secretário de Estado do Ambiente anunciou que, em 2006, o ICN irá sofrer uma reestruturação que pretende melhorar os seus serviços e a gestão do território. Humberto Rosa defende que há necessidade de uma nova lei-quadro para o sector, “que nos diga o que é e quem faz a conservação da natureza”. Estas foram as suas palavras à Agência Lusa no dia 16 de Novembro de 2005. O Secretário de Estado do Ambiente disse também àquela agência noticiosa que “Certas vertentes beneficiam com mais parcerias entre o ICN, áreas protegidas e outros parceiros [autarquias, associações de produtores agrícolas, florestais e de defesa do ambiente] que queiram e possam ter um papel activo na gestão do território.” O próprio Ministro do Ambiente, Francisco Nunes Correia, disse à Agência Lusa, no dia 23 de Novembro, que existe necessidade de compatibilizar a conservação da natureza com os aspectos sociais e as actividades económicas e que Portugal precisa de um “ICN renovado e dotado de mais operacionalidade”.

Estas poderiam ser boas notícias e bons motivos para celebrar o 30º ano de vida do ICN, se os portugueses acreditassem nelas, mas quando se sabe que o orçamento de estado para o ICN programado para 2006, em vez de aumentar como seria tão necessário, desceu 5,9%, e que já sucessivos governos prometeram recompor este estado de coisas, não parece que nos apeteça fazer grandes festejosÖ

Texto de Rita Caré e imagem do ICN

Publicado por SJA às 10:08 AM | Comentários (1)

dezembro 21, 2005

Golfinhos 2

A Sónia Mendes está a fazer um doutoramento em Biologia Marinha na Universidade de Aberdeen, na Escócia. O seu projecto debruça-se sobre a ecologia alimentar e distribuição de cachalotes no Atlântico Norte. Estuda cetáceos desde 1997. Pedi-lhe para comentar o processo contra Portugal por parte da Comissão Europeia, já noticiado por RPA ontem.

A Comissão dá início a procedimentos contra oito Estados-Membros, com base na insuficiente protecção das baleias, golfinhos e botos (20 Dez 2005)

A Comissão Europeia deu início a processos por infracção contra oito Estados-membros, incluindo Portugal, pelo facto de não procederem a um acompanhamento adequado da forma como as respectivas populações de cetáceos ñ baleias, golfinhos e botos ñ estão a ser protegidas.

http://europa.eu.int/rapid/pressReleasesAction.do?reference=IP/05/1641&format=HTML&aged=0&language=PT&guiLanguage=en~

Mesmo sem estudos de grande escala realizados na costa portuguesa é óbvia a degradação de habitats marinhos e o declínio das populações de botos e roazes que costumavam frequentar com assiduidade os estuários do Douro, do Minho, do Tejo, e que ainda vão permanecendo no Sado, apesar das dificuldades nesta zona em implementar medidas de conservação, em particular a “Directiva Habitats”.

(ver: http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=2119)

Evidente também é a problemática das redes de emalhar que provoca a morte a dezenas de golfinhos-comuns (e outras espécies) por ano e que causa transtorno aos pescadores. No entanto, a extensão do problema e o seu impacto nas populações de pequenos cetáceos não foi ainda devidamente avaliada devido à falta de recursos.

Existem lacunas no conhecimento de cetáceos em Portugal e das ameaças que estes e os seus habitats encontram. Este facto deve-se à inerente dificuldade em estudar estes animais, mas também à falta de recursos financeiros e humanos que caracteriza a política de ambiente do nosso país, e talvez também à falta de uma consciência colectiva de apreciação do património natural. A maioria dos portugueses não faz ideia de que há golfinhos a pouca distância das nossas praias, ou não foi sensibilizado para a observação do que é natural e belo, simples e grátis! Mais uma ironia de um país que nasceu voltado para o mar e que tão pouco olha para ele.

Publicado por MM às 2:54 PM | Comentários (6)

dezembro 20, 2005

Boas Festas

(Imagem tirada daqui, um site que é o paraíso de qualquer jogador de Scrabble)

Santa_zly.jpg
Feliz Natal para todos. Este ano ofereço um artigo, publicado em 1966, da autoria de Delphine Parrott, Maria de Sousa e June East em The Journal of Experimental Medicine (o artigo está agora disponível, em 4 partes, na nossa Hemeroteca). No próximo dia 1 de Janeiro completam-se 40 anos (!) sobre a sua publicação.

Na minha opinião este é um dos trabalhos mais importantes de toda a história da Imunologia já que foi este artigo que demonstrou, pela primeira vez, existirem 2 compartimentos nos orgãos linfóides secundários (baço e gânglios linfáticos). Há regiões (chamadas "Timo-dependentes" no artigo) para onde migram linfócitos provenientes do Timo, e outras regiões (que são portanto "Timo-independentes") onde se encontram outros linfócitos, de origem não tímica.
Este estudo esteve na base da descoberta, crucial para a nossa compreensão do Sistema Imunitário, de dois tipos de linfócitos, chamados "T" e "B". O artigo de Parrott et al também contribuiu, na sequência de trabalhos de Jim Gowans, para o estudo da recirculação linfocitária.
Hoje em dia estuda-se pouco a História da Imunologia e ignora-se muitas vezes quem a fez, bem como a importância das suas contribuições. Neste 40∞ aniversário parece-me justo não deixar esquecer um artigo que é sem dúvida um dos fundadores da Imunologia moderna.

Nota Final:
É talvez desnecessária esta chamada de atenção, mas registe-se que nos anos 60 do Séc. XX era tradição ser o Principal Investigator a assinar os artigos em 1∞ lugar. Este trabalho era por isso identificável, ao tempo, como vindo do "Grupo da Delphine Parrott". Se as regras fossem as habituais hoje em dia a ordem de autores teria sido de Sousa, East and Parrott

Comentário:
É sempre interessante reler estes artigos passados muitos anos, porque frequentemente encontramos hoje resposta para as questões que ficaram por responder na altura:
A razão para a "wasting disease" que se observa nalguns animais timectomizados à nascença, é a redução no número de "linfócitos T-reguladores". Como estas células são produzidas no Timo, a timectomia neonatal reduz severamente o número destas células, que são as que evitam o desenvolvimento da síndrome. O baço contém linfócitos T-reguladores e por isso a transferência de células de baço para animais timectomizados à nascença previne a doença.
As autoras quiseram perceber porque é que a prevenção é mais eficaz após transferência de células de baço do que após transferência de timócitos, e testaram a hipótese de esses dois tipos de células migrarem diferentemente nos ratinhos timectomizados. Não é o caso, mas de caminho fizeram a importante observação que descrevem.
Mais tarde veio a saber-se que entre todas as células do Timo não há mais do que 0.2-0.5 % de linfócitos T-reguladores, enquanto que o baço tem cerca de 10 vezes mais. A resposta à pergunta original é esta, mas só a soubemos passados 30 anos.

Desabafo:
O papel do Timo na produção de linfócitos e na resposta imunitária era já conhecido em 1966 devido aos trabalhos de Bob Good e de Jacques Miller. Este último acaba de publicar na Nature Immunology um "Essay" (está também na nossa Hemeroteca), demasiado "self-serving" a meu ver, em que recorda a sua contribuição para esse estudo e reivindica a descoberta, no ratinho, de linfócitos T e B no ano de 1967.
Não vou disputar essa reivindicação, mas lamento que ele se tenha esquecido de referir o artigo de Parrott et al. É também lamentável que se tenha esquecido de Max Cooper, que descobriu o papel da "Bursa de Fabricius" da galinha na produção dos Linfócitos B, e de Bob Good, que foi quem descobriu a importância do Timo na resposta imunitária.

Há coisas que a passagem dos anos faz esquecer, mas há outras que, obviamente, não...

Publicado por Santiago às 5:30 PM | Comentários (3)

Obrigado, Dr. Golfinho!

5 dolphins.jpg

Segundo o Público “a Comissão Europeia deu início a um processo de infracção contra oito Estados membros, entre os quais Portugal, por falta de protecção e vigilância dos cetáceos, como os golfinhos e as baleias, nas suas águas territoriais”. Bruxelas acusa Portugal de não fazer uma vigilância completa a todas as espécies de cetáceos. O Conta Natura associa-se a esta iniciativa recordando esta peculiar família de mamíferos.

Para além da complexidade das relações no grupo e da, não menos simples, linguagem dos golfinhos, a sua capacidade terapêutica sobre humanos não deixa ninguém indiferente. Um dos maiores delfinários do mundo fica em Israel: os Golfinhos de Eilat. Aqui, para além de todas as actividades recreativas de mergulho e contacto directo com os golfinhos, existe um centro técnico especial para deficientes mentais e físicos.

Os resultados são surpreendentes com melhorias progressivas e consistentes do quadro clínico de diversas patologias. As doenças neurológicas, psico-motoras e as psiquiátricas, como as depressões, são exemplos de sucesso terapêutico que deverão deixar muitos, incrédulos e outros, sem palavras.

Publicado por RPA às 3:33 PM | Comentários (0)

dezembro 19, 2005

Os Sinais Do Tempo

Cover Time 2005.jpgDesta vez, não podia deixar passar esta oportunidade para falar do mundo esquecido- o Terceiro. A capa da revista TIME acaba de eleger as personalidades do ano: o casal mais rico do mundo, Melinda e Bill, e Bono, o grande vocalista dos U2.

Juntos, na mesma fotografia, estes são os três maiores beneméritos da década, pelo volume de verbas movimentadas e pelas influências que granjearam junto de políticos e decisores mundiais. Foram eles que tornaram possível o perdão de uma parte muito significativa da dívida dos países mais pobres e a salvação de muitas centenas de milhar de almas, por esse mundo fora, através do combate à fome e à doença.

A Fundação Bill e Melinda Gates tem um património dois mil milhões de dólares superior ao orçamento que a UE atribuiu ao nosso país, como derradeira ajuda ao nosso desenvolvimento de 2007-2013- USD29 mil milhões. O impacto destas ajudas é impressionante, quando analisamos a escala de pobreza que mede o esquecimento e a injustiça nestes territórios. As áreas de influência têm-se concentrado no auxílio à saúde pública mundial, educação e bibliotecas.

Bono e Bob Geldof organizaram o Live 8 este ano e conseguiram agitar a cabeça de quase metade da população do planeta. A capacidade de mobilização de jovens e menos jovens, de anónimos e de altos dignitários serve-nos de exemplo e de estímulo ao nosso esforço diário, onde quer que estejamos.

Como tem sido noticiado, um dos grandes esforços financeiros tem-se concentrado no apoio à investigação em Malária, Sida e Tuberculose, nas doenças da pobreza. Estes dramas sociais e de saúde pública já não envolvem apenas os países directamente afectados, mas ameaçam também a integridade dos países mais ricos. Aliás, Portugal, pela sua posição geográfica e tradição histórica, está particularmente susceptível.

Bill, Bono Melinda.jpgA globalização é uma fatalidade. Fomos nós, portugueses, que a inventámos, há quase seis séculos. Hoje, não podemos esquecer as nossas responsabilidades e devemos partilhar tarefas na resolução empenhada destes problemas. Amanhã, poderemos ser nós, os afectados pela doença e pela miséria. As nossas fronteiras já não são barreira para estes males.

A solidariedade é a solução e a Investigação científica, uma parte da estratégia. A prevenção primária continuará a ser o instrumento de saúde mais forte, mas se tivéssemos vacinas para estas três patologias estaríamos mais serenos neste momento.

Estes são os exemplos que saudamos e são também os sinais de que alguns, pelo menos, estão conscientes que o caminho se faz por aqui. Sigamos então em frente.

Publicado por RPA às 11:32 AM | Comentários (1)

dezembro 17, 2005

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpg A caminho do final do mês de Dezembro e não há relatórios anormais para a época, quer a nível do número de casos de gripe, quer da sua gravidade clínica.

O último programa "60 Minutes" da CBS fez referência aos "buracos" na teia de vigilância, urdida pela OMS. No caso de um agravamento da situação e de uma subida no nível de risco pandémico, aumentarão, naturalmente, as falhas nos procedimentos desenhados e acordados. Um dos locais mais preocupantes e mais susceptíveis é o Camboja onde o número nacional de alerta da Gripe das Aves é o número de um único telefone móvel pertencente ao director do centro de vigilância. Num país com uma cobertura de rede circunscrita ao centro urbano, a difusão da informação no seio das populações rurais é escassa e a capacidade de coordenação das autoridades diminuta.

Esta semana, a newsletter do GripePT faz referência à organização da vigilância e regista a ameaça africana.


A vigilância da Gripe no mundo

Em 1952, a Organização Mundial de Saúde (OMS) constituiu uma Rede Global de Vigilância da Gripe composta por 4 centros colaboradores (CCs) e 112 instituições espalhadas por 83 países que são reconhecidas pela OMS como Centros Nacionais da Gripe. Esta estrutura é indispensável para assegurar a recolha eficaz de informação e de amostras para o isolamento dos vírus, bem como para a sua caracterização preliminar. Os produtos recolhidos são endereçados aos 4 CCs para posterior análise molecular mais detalhada, quer a nível da genética do vírus, quer das proteínas que o compõem. Estes são os dados que fundamentam a decisão sobre as recomendações anuais da OMS à indústria farmacêutica para a composição da vacina da gripe, tanto para o hemisfério norte como para o hemisfério sul.

A título de curiosidade, para este Inverno (2005-2006) a OMS recomendou que os lotes de vacinas que estão a ser administrados este Outono, no nosso hemisfério, deverão ter na sua composição, os seguintes elementos: A/New Caledonia/20/99 (H1N1); A/California/7/2004 (H3N2); B/Shangai/361/2002. São dois vírus da Gripe do Tipo A e um do Tipo B.

Este Outono, tal como em qualquer outro ano, a vacina da gripe deverá ser administrada apenas às populações de risco.


Gripe das Aves em ¡frica


Todas as criações de avestruzes no Zimbabué foram postas sob quarentena após a detecção de uma estirpe de gripe das aves nestes animais. A estirpe em causa, H5N2, não é perigosa para os humanos, mas pode ser letal para as aves.

Em 2004 houve um surto de gripe das aves de avestruzes, provocado pela mesma estirpe do vírus na ¡frica do Sul. Na altura, isto conduziu ao extermínio de 26000 avestruzes. Só em Novembro deste ano é que a União Europeia levantou o embargo à carne de avestruz proveniente de ¡frica do Sul.

A infame estirpe H5N1 ainda não foi detectada em ¡frica. Os especialistas acreditam que a fraca vigilância existente, a par com os já elevados níveis de mortalidade, nesta região, em aves domesticas, poderão dificultar a tarefa de detectção do vírus H5N1 quando ele aparecer.


Há ainda fortes suspeitas, apesar de negadas pelo governo, da presença de gripe das aves na Líbia. Jornalistas líbios encontram-se na posse de documentos que provam que a doença está presente na zona oriental do país, e que uma série de amostras enviadas para o Reino Unido para serem analisadas resultaram todas positivas.

Publicado por RPA às 5:02 PM | Comentários (2)

dezembro 16, 2005

O ICN fez 30 anos: há razões para festejar?

Parte I
ICN30anos.jpg
ICN.jpgNeste primeiro post sobre Ambiente, pensei em escrever sobre Portugal e as alterações climáticas, mas já se publicou muito sobre estes assuntos por aí. Numa outra altura em que os ânimos estejam menos exaltados, tentarei dar o meu contributo para este tema.
Vou dedicar-me ao Instituto de Conservação da Natureza (ICN), instituição que devia zelar pelos interesses da Natureza em Portugal, divulgá-la com responsabilidade e tomar medidas sérias para a preservar.
No final do mês de Outubro, descobri que o ICN estava a promover um ciclo de conferências. Achei estranho. Desde que iniciei a minha licenciatura em Biologia, e mesmo depois de a ter terminado, não me lembro de alguma vez ter tido conhecimento de semelhante acontecimento ñ talvez tenha andado distraída com os compromissos académicos e profissionais...
Decidi, então, saber do que tratavam as tais conferências e fiquei surpreendida com a dimensão nacional da coisa, principalmente o último evento que se realizou no Centro Cultural de Belém - consulte este link para descobrir o que por lá se passou.
Os motivos de tanta pompa e circunstância tiveram como motivo o 30º aniversário do ICN. O Instituto de Conservação da Natureza teve origem no Ministério do Equipamento Social e do Ambiente, que criou em finais de 1975 o Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico (SNPRPP). Em 1983, esta instituição mudou de nome e passou a Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza.
A rede nacional de áreas protegidas aumentou muito desde 1975, em grande parte devido à adesão de Portugal a várias Convenções (por exemplo, a Convenção de Berna - Convenção sobre a Vida Selvagem e os Habitats Naturais na Europa e a Convenção de Bona sobre Conservação de Espécies Migradoras da Fauna Selvagem, entre outras) e à adesão actual União Europeia, o que originou laços com outros países para a preservação do património natural. Inicialmente, eram 30 funcionários, actualmente são cerca de mil. Mas será que há muitas razões para festejar os seus 30 anos de vida?

Num aniversário devemos festejar, mas neste caso, talvez devêssemos escolher fazer luto pelas dezenas de áreas que ficaram cada vez mais desprotegidas, ao longo das últimas três décadas. Claramente, a responsabilidade não é apenas do ICN. Todos estamos sensibilizados para o caos que se vive na justiça portuguesa e noutras áreas. O Ministério do Ambiente, os seus ministros e os governos que temos tido levaram à inoperância desta instituição. O ICN deveria ter muito mais poder do que tem nas “áreas protegidas” e na sua gestão. Mas não. A burocracia que inunda os corredores das suas estruturas é como um enorme derrame de petróleo que ninguém consegue parar, que conspurca e mina o seu funcionamento e o exercício das funções dos que lá trabalham. Alguns dos funcionários do ICN, apesar do seu interesse e até “amor à camisola” afundam-se lentamente no “crude” das toneladas de papéis e burocracias sem sentido.
A consequência, deste estado das coisas, tem sido a destruição da paisagem e a morte de um número incontável de seres vivos, desde que Portugal acordou para o desenvolvimento muito pouco sustentável e para o que chamam de estado democrático.
Se o governo levasse a sério a importância de conservar a natureza e a promoção de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável no nosso país, o ICN poderia ter um papel fundamental neste campo, se funcionasse em condições, e certamente a sociedade passaria a dar credibilidade e a devida importância a estes assuntos.
Possíveis soluções, opiniões do Ministério do Ambiente, a responsabilidade dos cidadãos e outros assuntos surgirão num próximo post.

Rita Caré, 15 de Dezembro de 2005

Publicado por SJA às 10:39 AM | Comentários (2)

dezembro 15, 2005

Enciclopédias

wiki.jpgA Wikipedia (que já foi discutida antes aqui) é uma enciclopédia grátis, que qualquer pessoa pode editar. Alguns casos recentes trouxeram para primeiro plano erros graves em artigos desta enciclopédia. Dadas as características da Wikipedia, a grande dúvida é mesmo qual a confiança que se deverá depositar numa enciclopédia deste género.
Por iniciativa da Nature, a Wikipedia foi sujeita a "peer reviewing". A Nature comparou as entradas científicas na Wikipedia com as da Enciclopédia Britânica e revelou que, não só existem bastantes erros em ambas as enciclopédias, mas também que, em média, o número de erros por artigo na Wikipedia é quatro, enquanto na Enciclopédia Britânica é três (uma tabela dos resultados pode ser vista aqui). Dada a natureza da Wikipedia, este resultado poderá parecer surpreendente, mas vem decerto aumentar a confiança dos usuários da internet na informação da Wikipedia (e diminuir a confiança dos leitores da Enciclopédia Britânica). Pelo menos em Ciência!

Publicado por SJA às 8:31 AM | Comentários (3)

dezembro 13, 2005

Prática clínica e investigação biomédica

Artigo de Opinião
João Eurico Cabral da Fonseca
Responsável pela Unidade de Artrite Reumatóide do Instituto de Medicina Molecular; Professor Auxiliar de Reumatologia da Faculdade de Medicina de Lisboa; Assistente Hospitalar de Reumatologia do Hospital de Santa Maria

A integração entre a prática clínica e a investigação biomédica é um tema referido com frequência, embora seja claramente um conceito abstracto para a maioria das pessoas, incluindo os próprios médicos e os investigadores que realizam trabalho laboratorial na área biomédica. Há várias justificações para esta falta de compreensão do problema. A primeira questão fundamental é que, de facto, a actividade clínica e a actividade de investigação laboratorial são realidades diárias muito diferentes. Sem qualquer juízo de valor subjacente é evidente que o tipo de solicitações, pressões, factores de stress, horários, remunerações e responsabilidades são diferentes nestas duas actividades. Por outro lado, o tipo de raciocínio face a um problema é também diferente. O pragmatismo da actividade clínica diária premeia uma atitude perante novos conceitos ou novas hipóteses do género: “E depois?”; “Qual a aplicação prática?”. Por oposição, o investigador laboratorial centra as sua questões em: “Porquê?”; “Qual o mecanismo explicativo?”. Esta realidade, aparentemente dicotómica, é muito evidente quando um clínico faz uma apresentação a um grupo de investigadores biomédicos ou vice-versa. Na verdade, ambas as atitudes são relevantes para o desenvolvimento do conhecimento médico, mas na prática são frequentemente antagónicas e fonte de desconforto na relação entre os dois grupos. A tentativa de ligar estes dois mundos é frequentemente acompanhada por uma sensação de entrada num limbo, numa terra de ninguém e deserta.

Os clínicos classificam estes colegas como investigadores de ciência básica e os “investigadores profissionais de laboratório” aplicam-lhes o rótulo de clínicos. De forma compreensível a transmissão de conceitos, por parte dos médicos que procuram fazer esta translação, é difícil e sempre incompleta para ambos os grupos: uns sentem que houve “demasiadas moléculas e doentes a menos” e os outros sentem que houve “demasiadas doenças e modelos experimentais a menos”. Estas realidades algo frustrantes, aliadas às forças centrífugas bidireccionais exercidas pelos dois grupos, às pressões do dia a dia, ao sub-financiamento sistemático da investigação e à tentação do “Realpolitik” explicam o porquê deste grupo de médicos estar cronicamente em vias de extinção.
Face ao exposto podemos colocar várias hipóteses para resolver o problema. A mais simples será concluir que estes universos são divergentes, imiscíveis e o melhor é cada um tratar daquilo que é suposto fazer. No entanto, a história do desenvolvimento da medicina não sugere isso e são de facto muitas as evidências a favor de manter o contacto entre estas duas realidades. Por isso, vale a pena analisar outras ideias mais conciliadoras e complementares umas das outras. A primeira, é promover a manutenção do contacto com grupos clínicos dos licenciados em medicina que optaram por uma carreira de investigação laboratorial, abandonando a prática clínica, através do estímulo a uma diferenciação cientifica numa especialidade médica, levando-os a participar na actividade cientifica regular dessa especialidade (congressos nacionais e internacionais, publicações da especialidade nacionais e internacionais). Este processo pode ser reforçado pela participação de outros colegas de laboratório, com formação não médica, que inevitavelmente, pelo facto de participarem nos mesmos projectos, acabarão por ser integrados de forma natural na comunidade médica. Mais complicado é fazer o caminho oposto, ou seja, trazer os clínicos para uma ambiente laboratorial. Isso depende, na minha opinião, de uma política de fundo integrada da Saúde, Investigação e Ensino em Portugal. Esta alteração estrutural passa por abrir um conjunto de vagas hospitalares, exclusivamente em Hospitais Universitários, para “médicos investigadores”, em que, através de um concurso público, com regras bem definidas, especialistas de várias áreas médicas poderiam candidatar-se, sendo seleccionados pelo seu curriculum vitae médico e científico e pelo projecto que pretendiam desenvolver. A actividade clínica destes médicos ficaria concentrada na área médica correspondente ao trabalho de investigação, ficando incumbidos de desenvolver um centro de referência internacional. A actividade de investigação decorreria em paralelo, centrada no mesmo tema, permitindo inequívocos sinergismos e possibilitando um avanço gigantesco na forma como olhamos para este problema na actualidade. Esta nova “carreira médico - cientifica” teria que ser, naturalmente, avaliada continuamente, sendo exigida uma alta performance do ponto de vista clínico e científico. Os resultados deste conceito poderiam ser potenciados pela abertura de vagas de formação “médico ñ científica” (“internos do internato complementar”), permitindo a jovens médicos realizar o internato complementar de uma qualquer especialidade médica, num período mais longo do que o habitual (talvez 8 anos), orientados por alguém que, não só lhes proporciona formação na especialidade médica, mas também lhes oferece orientação científica que lhes permita, no final deste período de tempo, obter uma especialização médica e um doutoramento. Estariam assim criadas as sementes para que a integração da investigação biomédica e a prática médica ocorressem de facto.

Publicado por MM às 8:30 AM | Comentários (3)

dezembro 11, 2005

A Verdadeira Essência do Amor

drugs.jpgNão sei se poderá ajudá-lo, mas interesse, certamente terá. Aceite o convite e navegue por aqui e tome conhecimento de uma nova forma de informar e apelar ao tratamento nos países mais favorecidos, como o nosso.

No mundo ocidental há patologias com grande prevalência mas, por um motivo ou por outro, os Ministérios da Saúde (no caso português delega no INFARMED) não as consideram suficientemente graves, ou causadoras de morbilidade que justifique a entrega da tão ambicionada comparticipação.

Como poderá facilmente perceber, até porque diariamente poderá viver experiências semelhantes ou paralelas, há sofrimentos que as instituições de saúde não valorizam e como tal, não atribuem cabimento orçamental. Infelizmente, os orçamentos já estão excessivamente sobrecarregados, em quase todas as economias, e não podemos esquecer a importância das medidas de contenção da despesa. No entanto, não deixamos de constatar uma realidade que surge logo após cada medida mais restritiva e que tornam o sofrimento e a doença um pouco mais dolorosos. Algumas poderão envolver patologias para as quais já existem alguns tratamentos com magros benefícios e pesados efeitos adversos, mas que são incomparavelmente mais baratos, porque mais antigos. Na sua grande maioria, as decisões fármaco-económicas envolvem novos medicamentos, inovações terapêuticas que custam muitos milhões de dólares à industria farmacêutica e que não têm o proporcional retorno. São passos mais ou menos significativos, quer no aumento da eficácia, quer no aumento da segurança ou de ambos, mas que, por terem alternativa mais antiga e mais barata, não são comparticipados.

Nos estados sociais, como a maioria dos modelos de saúde europeus, a comparticipação dos medicamentos é o verdadeiro promotor das suas vendas. Quando assim não é, quando o estado não cobre a totalidade ou a parte do custo do medicamento, a indústria farmacêutica adopta inovadoras estratégias de sedução do doente, através de campanhas de esclarecimento que se apresentam de múltiplas formas.

Nada disto é novo, e o modelo tem sido aplicado, sublinhe-se, com grande sucesso, a muitos outros produtos, dentro e fora do domínio da saúde. Então, o que traz de novo esta iniciativa do Amor Vital que se junta a outras como o Vive Bem ou a mais discreta proprietária do comprimido azul? A novidade é a participação de um rosto conhecido do grande público - Nicolau Breyner- que veio defender a imagem do produto, como se de uma marca de bebidas ou de vestuário desportivo, se tratasse.

Posso explicar-lhes que com outros produtos farmacêuticos o procedimento standard é o de colaborar estreitamente com um ou mais líderes de opinião da área técnica ou científica e colar a imagem do produto, e do laboratório já agora, à imagem isenta do consultor. O efeito tem sempre impacto nos colegas, tanto na área médica, como em qualquer outra actividade profissional (vide debate público sobre o novo aeroporto de Lisboa...). Com este novo marketing pretende-se que seja o doente o alvo directo da campanha e é nessa altura que se abandona o tecnicismo, a objectividade e o rigor (quando presente) e se apela aos afectos e às emoções, a um mundo de comunicação que um poeta descreveria aqui com maior propriedade que eu.

Poderão pensar alguns que se abandona a ciência para dar voz ao teatro, à imagem e ao jogo das palavras, mas a estratégia não é descabida, muito pelo contrário. Vale sempre a pena não subestimar quem tem provas dadas de eficácia e vejamos porquê.

O produto é caro, mesmo contabilizando as forças ocultas que o seu nome comercial deixa revelar- Levitra. No caso vertente, uma embalagem, com quatro comprimidinhos apenas, custa Ä46,3, pagos integralmente pelo utente e só dá para quatro momentos de paixão... Aqui, ninguém pode acusar o estado de se intromoter na vida privada dos portugueses

O mais importante nesta matéria é, em primeiro lugar, convencer o indivíduo a tomar consciência de que tem um problema, que não está sozinho (o que torna particularmente interessante o profissionalismo do actor, quando deseja que o alvo se identifique com ele) e que existe uma solução à vista, mas que ela só aparecerá se o doente for ao médico! Aqui está, a arte de tornar banal e mesmo público, um verdadeiro tabu e de ajudar a resolvê-lo, quase levando a pessoa pela mão até ao consultórioÖ

Isto é arte, não é ciência. Nada melhor do que um artista para esta tarefa!

PS- Mais adiante falaremos de disfunção eréctil, com um pouco mais de Ciência do que de Arte, espero bem.

Publicado por RPA às 6:10 PM | Comentários (9)

dezembro 10, 2005

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgApesar da marcha lenta, continua a crescer o número de novos assinantes do GripePT.net e esperemos que com algumas novas iniciativas de divulgação televisiva, consigamos ultrapassar os níveis de participação do estudo que está a decorrer na Holanda e na Bélgica - 32 mil! Julgo que não é pedir muito. Recordo que os portugueses já deram provas, noutros tempos é certo, de que eram capazes de "entupir" os aparelhos de Fax das Nações Unidas... Agora, o Conta Natura pede-lhe que, a bem da Ciência, nos entupa o GripePT com as suas visitas!

Esta semana a Newsletter aborda a problemática das vacinas e faz a actualização da gripe das aves.

Esclarecimentos sobre vacinas

Uma das questões mais pertinentes que convêm esclarecer hoje é a questão das vacinas contra os vários tipos de gripe. Existem? Não existem? São eficazes contra que tipos de gripe?

A vacina mais comum, aquela que todos os anos é produzida e comercializada, é eficaz apenas contra a gripe sazonal, aquela que todos os anos provoca uma epidemia no Inverno. Esta vacina não é eficaz contra a gripe das aves nem contra uma eventual gripe pandémica. Para a gripe das aves importa considerar dois tipos de vacinas: para as aves e para os humanos. Para as aves existem já vacinas, nomeadamente na China, onde o governo planeia vacinar em massa todas as espécies de aves domésticas do país. Para os humanos há algumas vacinas em fase de teste, e a sua produção é possível. No entanto, este seria provavelmente um esforço inútil. Não só o número de vítimas mortais da gripe das aves é diminuto à escala mundial, como a vacinação contra a gripe das aves não confere protecção contra a gripe que causar a temida pandemia.

Contra a gripe que provocará eventualmente uma pandemia não há, nem pode haver, uma vacina, até que se dê a emergência do vírus pandémico e se identifiquem as suas características. A partir do momento em que se isolar o vírus pode finalmente produzir-se a vacina. Esta demora no entanto alguns meses a ser produzida em quantidades suficientes. O maior problema que se põe quando se fala de uma pandemia de gripe é de facto este. Quando finalmente tivermos a vacina disponível já o pior passou. Esforços estão no entanto a ser envidados pela OMS e a comunidade internacional no sentido de reduzir ao máximo o tempo de produção da vacina, aumentando a capacidade de produção, por um lado, e acelerando o processo burocrático de libertação no mercado de um medicamento, por outro.

Actualização da situação da gripe das aves

O veterinário chefe da Ucrânia, Petro Verbytsky, foi esta semana convidado a demitir-se pelo presidente, Viktor Yushchenko. Alegadamente, Verbytsky foi incapaz de dar resposta adequada à detecção em Setembro da presença de uma estirpe H5 em aves daquele país. Yushchenko visitou a península da Crimeia, a zona mais afectada, onde os locais relataram que a morte das aves começou em Setembro de 2005

Na China foi confirmado o quarto caso de gripe das aves, uma menina de 10 anos que se encontra em observação no Hospital. A china é o país mais recentemente afectado por casos humanos de gripe das aves. Na lista de países mais afectados encontramos à cabeça o Vietname, com mais de metade dos casos e mortes provocados pela doença. Os outros países afectados são a Tailândia, a Indonésia e o Cambodja.

A lista de países pode ser acedida no site do projecto nesta página:
http://www.gripept.net/?q=newsletter_5

Publicado por RPA às 3:36 PM | Comentários (13)

dezembro 8, 2005

In Memoriam: Dr Senén Vilaró Coma

Dr Senén Vilaró Coma

Departament de Biologia Cel∑lular
Facultat de Biologia, Universitat de Barcelona

senen.jpg

Num país onde regra geral os estudantes de licenciatura fazem o seu curso perto de casa dos seus pais, o programa Erasmus geralmente funciona como a primeira oportunidade de explorar novos territórios geográficos, culturais e ocasionalmente científicos. Em 1994 fui fazer um Erasmus a Barcelona e não fui excepção. A excepção resultou da generosidade pessoal e cientifica do meu supervisor Senén Vilaró. A minha ida Barcelona resultou de um sucessão de pequenos incidentes, o sitio para onde originalmente queria ir acabou por cancelar o meu estágio poucas semanas antes da minha partida, pelo que a professora responsável pelo programa Erasmus disponibilizou-se a ajudar-me a encontrar uma boa solução. Durante a nossa conversa lembrou-se de que conhecia alguém em Barcelona, um telefonema e meia dúzia de emails selaram meu destino. A sorte ajudou-me e acabei não só por ir parar a um laboratório dinâmico, mas acima de tudo acabei por ter uma pessoa excepcional como supervisor de estágio. Uma pessoa que sempre se recusou a olhar para mim como aquele “técnico” capaz de sequenciar manualmente 30Kb de DNA. Desde que cheguei o seu laboratório fui tratado como mais um estudante graduado, deram-me um bom projecto e fui orientado devidamente quer em termos técnicos, quer em termos científicos. Os primeiros meses no laboratório são críticos para qualquer estudante e com frequência fazem a diferença entre seguir uma carreira científica ou não. Senén Vilaró deve servir de exemplo a todos, uma pessoa que se recusou a considerar um estudante não-graduado como mais um escravo capaz de fazer aquele trabalho que mais ninguém quer fazer.

Publicado por maradona às 6:44 PM | Comentários (0)

It's a Dog World...

Boxer 1.jpgO Diário Digital tem um texto (que creio ser originalmente da Lusa) em que se fala de um artigo publicado hoje na Nature, com a sequência completa do genoma do melhor amigo do Homem.

O texto da Lusa/Diário Digital consegue ser a coisa mais desinteressante e mal escrita que eu me recordo de ter lido os últimos meses. A começar pelo título "Descodificado genoma do cão, continuando pelo primeiro parágrafo Uma equipa de investigadores decifrou o código genético dos cães, comparou-o com o dos humanos e concluiu que as pessoas poderão ter menos genes do que se pensava, e acabando numa enigmática citação do Autor Principal do artigo ...Lander afirmou que o estudo dos cães "está a conduzir os investigadores à dúvida sobre se serão de facto genes humanos reais", tudo ali é tristemente paradigmático do nível a que o nosso (pseudo-) jornalismo científico chegou. Para recordar velhas guerras muito nossas, o último parágrafo está ao nível da Redacção da Vaca: "Até ao momento, os cientistas já decifraram o ADN de ratos, chimpanzés, galinhas e humanos, bem como de muitos outros organismos.

Não é suposto os jornalistas saberem o que é um "código", antes de falarem em "descodificação"? Ou até uma "cifra", já que usam o verbo "decifrar"? Que jornalista é que traduz o que quer que seja que Eric Lander tenha dito duma maneira que insinua que afinal os genes humanos não são reais?

Seria preciso só um pouco mais de rigor jornalístico para se ter escrito "sequenciação do genoma". Já para explicar que alguns dos supostos 30.000 "genes" identificados no genoma humano são provavelmente resultado de erros do "software" e não correspondem na realidade a verdadeiros "genes" (que codifiquem uma proteina ou sirvam para controlar a sua expressão), era preciso algo mais: Era preciso ter interesse pela matéria sobre a qual se escreve e algum gosto por aprofundar conhecimentos...

Leiam a peça no Diário Digital. Esta peça consegue ignorar tudo o que é importante no estudo que descreve e tem a única virtude de criar nos leitores uma grande vontade de ir ao New York Times perceber o que é que na realidade aconteceu (e percebe-se, apesar de também estes falarem em "descodificação"). A razão que leva a Nature a distribuir antecipadamente os "press releases" é para os jornalistas terem tempo para escrever artigos como no NYT, e não tontices como no Diário Digital/ Lusa...

Os mais interessados podem também ler o News & Views que acompanha o artigo (que depositei, ilegalmente acho eu, na nossa Hemeroteca). Não se exige, obviamente, a um profissional do jornalismo tanto rigor científico como Hans Ellegren revela, mas se os gajos da Lusa começassem a ler (e a estudar...) o "front-end material" das Revistas Cientificas, o jornalismo em Portugal seria bem melhor.

Publicado por Santiago às 4:05 PM | Comentários (2)

O novo Mocho

mocho2.gif
O portal de ensino das ciências e cultura científica Mocho foi objecto de uma profunda remodelação e apresenta um novo rosto e novas funcionalidades. Projecto com características únicas e de interesse indiscutível, o portal Mocho oferece desde há muito um leque diversificado de informação sobre ciência, de utilidade não apenas para alunos e professores, mas também para o público em geral, no endereço www.mocho.pt.
Entre as novas potencialidades do portal está a área Mocho@Banda.Larga. Criada com o apoio do POSI (Programa Operacional Sociedade da Informação), transforma o Mocho no sítio ideal para encontrar conteúdos de banda larga em língua portuguesa para aprender ciências. Ver vídeos ou conferências, inclusive em tempo real, e ouvir ficheiros áudio são apenas algumas das possibilidades que são oferecidas aos utilizadores.

Fazendo uso da experiência de mais de 15 anos do Centro de Física Computacional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra no desenvolvimento de materiais digitais para o ensino das ciências, principalmente da Física, Química e Matemática, o portal contempla milhares de ligações previamente comentadas por professores, principalmente nas áreas da Física, Química e Matemática, as disciplinas básicas que em Portugal revelam maiores carências.
Trata-se de um formato dinâmico, que beneficia de um motor de procura que agora foi também aperfeiçoado. Há ainda novas rubricas como o Caça Notícias, o Sótão e O Mocho Responde, lado a lado com alguns dos melhores materiais de apoio ao ensino e aprendizagem das ciências produzidos em Portugal nos últimos anos: Tabela Periódica, Molecularium, Astrosoft e Magia dos Números são apenas algumas dessas secções. O Mocho vai ter ainda um boletim electrónico: O Pio do Mocho, a distribuir a quem se inscrever.
Da responsabilidade de Carlos Fiolhais, João Paiva e Jaime Silva, o Mocho é uma iniciativa do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra e conta com o apoio não só do POSI como do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (programa “Ciência Viva”) e do Ministério da Educação. Tem ainda parcerias com a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, o Exploratório Infante D. Henrique (Centro Ciência Viva de Coimbra) e a empresa Cnotinfor.

texto adaptado do comunicado de imprensa

Publicado por SJA às 9:13 AM | Comentários (0)

dezembro 7, 2005

Entrevista com António Coutinho

No Domingo passou na RTP2 uma entrevista com o Dr. António Coutinho sobre a Ciência em Portugal. Apesar de essa entrevista ter sido também apresentada no jornal "Público" no dia seguinte, resolvi dar o meu apanhado pessoal da entrevista, porque tem nuances diferentes e é mais resumido que a transcrição do Público e porque creio que muitos leitores do Conta não tem acesso à RTP2 e/ou ao Público.

O Dr. António Coutinho formou-se em Medicina, fez carreira em investigação em Imunologia e é agora director do Instituto Gulbenkian de Ciência, entre outras coisas. Isto é o currículo oficial. Na prática, creio que é uma das pessoas que conseguiu melhor entender quando e onde manobrar a "alavanca", no sentido da frase "Dêem-me uma alavanca e eu consigo levantar o mundo". António Coutinho, aplicando ideias e pressões nos sítios e alturas certas, é um dos poucos portugueses que conseguiu individualmente levantar grande parte da Ciência feita em Portugal ou por Portugueses.
Dada a dificuldade da tarefa, queria, em primeiro lugar, elogiar os entrevistadores Ana Machado e José Pedro Frazão que colocaram perguntas inteligentes e pertinentes, deixando espaço a António Coutinho para falar. Mostraram também um trabalho de preparação cuidado e extenso.

Das opiniões de António Coutinho discutidas, destaco as que me pareceram mais importantes:

1 - O principal entrave à investigação científica em Portugal é

a irregularidade na atribuição de verbas. Os concursos deveriam ter a mesma data todos os anos, e uma vez um investigador sabendo que tem financiamento, não devia haver incertezas sobre quando o vai receber.

2 - " Há provas claras que a Ciência se vende bem".
O Dr. António Coutinho acha que a comunicação da Ciência, além de uma obrigação social por parte dos cientistas, é também absolutamente necessária à sobrevivência da investigação científica. Neste campo, ele acha também que Portugal tem progredido imenso nos últimos anos.

3 - " A medicina está a evoluir de uma tecnologia de base empírica para uma tecnologia de base científica" e
" From the bedside to the bench", sobre a importância da investigação clínica. Neste aspecto, António Coutinho destacou a importância de, no futuro próximo, os médicos já não terem que interromper o internato para fazer um doutoramento em Portugal.

4 - " É impossível desenvolver vacinas convencionais contra infecções crónicas como a malária ou a sida"
No entanto, dado que estas doenças afectam de forma grave principalmente países de terceiro mundo, é compreensível que as indústrias farmacêuticas não queiram investir dinheiro em investigação nestas áreas, já que são empresas com fins lucrativos. Por causa disso, dinheiros públicos ou de fundações sem fins lucrativos destinados a investigação deveriam ser concentrados nestas doenças.

Publicado por MM às 12:38 PM | Comentários (8)

dezembro 6, 2005

A qualidade paga-se...

fish.jpgJohn Seigenthaler Sr. trabalhou no gabinete de Robert Kennedy quando este era Attorney General dos EUA. Foi grande a sua surpresa quando, ao ler a Wikipedia, encontrou o seguinte parágrafo (entretanto removido) na entrada que falava de si:

"John Seigenthaler Sr. was the assistant to Attorney General Robert Kennedy in the early 1960's. For a brief time, he was thought to have been directly involved in the Kennedy assassinations of both John, and his brother, Bobby. Nothing was ever proven."

A história desta calúnia, e do que foi feito para minimizar os danos causados, pode ser lida no artigo que Seigenthaler escreveu no USA Today. A Wired cita Jimmy Wales, fundador da Wikipedia, acerca dos passos que foram tomados para tentar impedir que situações destas se repitam.

Acho que é importante conhecer esta história e reflectir sobre os cuidados a ter neste mundo em que a publicação livre de informação está ao alcance de todos. Muitos cientistas criticam o sistema editorial de peer-review e sugerem que a World-wide Web seja usada, sem restrições, para divulgar toda a informação científica disponível. O exemplo de Seigenthaler recorda-nos o perigo que correríamos se dispensássemos os Editores e tomássemos como fiável tudo o que aparece publicado sem qualquer tratamento editorial.

A EnciclopÊdia Britannica inspira mais confiança que a Wikipedia. Essa confiança custa dinheiro...

Publicado por Santiago às 11:56 AM | Comentários (6)

dezembro 4, 2005

The Silence Of The Sheep

Sá Carneiro.jpgVinte e cinco anos depois, recordamos hoje os trágicos acontecimentos que vitimaram Francisco Sá Carneiro, Snu Abecassis, Adelino e Maria Manuel Amaro da Costa, António Patrício Gouveia, Jorge Albuquerque e Alfredo de Sousa.

Já muito se disse e, não menos, escreveu sobre o tema, na defesa das teses de atentado e/ou de acidente, com maior ou menor coerência. Parece que ainda não foi suficiente para tornar a escolha clara e definitiva. A título pessoal, relembro aqui um debate promovido pelo Artur Albarran há mais de dez anos, onde foram reveladas as radiografias dos pés de um dos pilotos.

As imagens mostravam múltiplos fragmentos rádio-opacos (metálicos?) distribuídos na zona do calcâneo (calcanhar) de um dos pés, de um dos pilotos com um padrão muito sugestivo de explosão. Segundo a mesma fonte, a análise química forense das amostras colhidas referia a presença de vestígios de material explosivo...

Um outro relatório citado referia a ausência de fracturas nos cadáveres o que, segundo a ciência forense, é altamente sugestivo de uma ausência de consciência antes da queda do aparelho, por síncope ou por morte...

Na altura, não existiam ainda os recursos técnicos de hoje, mas os dois elementos probatórios anteriores já eram sólidos para a época.

Como cidadão português sinto-me desrespeitado e ofendido ao notar que a República não se dá ao respeito, quando assiste impassível ao anúncio do encerramento de um processo tão duvidoso. Até que seja discutido na barra do tribunal, a manta da vergonha cobrirá para sempre este regime e esta democracia. Aguardemos com atenção a resposta ao recurso apresentado no Supremo Tribunal de Justiça pelo advogado da família das vítimas. E já agora, um pouco de esperança no futuro!

Publicado por RPA às 8:08 PM | Comentários (1)

dezembro 3, 2005

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpg Esta semana a newsletter da GripePT.net aborda o plano mundial de resposta à epidemia de gripe e reveal uma das suas iniciativas

Plano de Contigência da OMS

A Organização Mundial de Saúde publicou este ano um plano de contingência
actualizado para fazer face a uma eventual pandemia. Este plano encontra-se dividido
em seis fases de alerta:

Período interpandémico

Fase 1 - Não foram detectados novos subtipos do vírus influenza A em humanos.

Fase 2 - Não foram detectados novos subtipos em humanos mas, em animais, podem
encontrar-se subtipos que acarretam um risco significativo de doença em
humanos.

Período de alerta pandémico

Fase 3 - Verificam-se infecções em humanos com um novo subtipo mas não há
evidências de trasmissão pessoa-a-pessoa.

Fase 4 - Pequenas bolsas, muito localizadas geograficamente, de transmissão limitada
pessoa-a-pessoa, sugerindo que o vírus ainda não está bem adaptado aos
humanos.

Fase 5 - Bolsas de maior dimensão, embora ainda muito localizadas, sugerindo que o
vírus se está a adaptar aos humanos (elevado risco de pandemia).

Período pandémico

Fase 6 - Pandemia instalada: transmissão eficiente e sustentada do vírus na
população
humana.

Neste momento, e de acordo com este plano, encontramo-nos na Fase 3. Verificam-se
já infecções por um novo subtipo (H5N1) no sudeste asiático, mas ainda não foi
confirmada a transmissão pessoa-a-pessoa. Durante as várias fases do plano de
contingência, a OMS estabelece uma série de acções a ser implementadas pela
própria OMS, bem como pelos vários governos nacionais. Na fase em que nos
encontramos a prioridade é assegurar a caraterização rápida do novo subtipo que
servirá de base a novas vacinas, neste caso o H5N1, bem como a detecção precoce e
resposta pronta a casos de infecção em humanos. Para mais informação
aconselhamos uma pesquisa no site da OMS - www.who.int.

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O gripept.net no Pavilhão do Conhecimento

A equipa do gripept.net esteve no Domingo passado (dia 27 de Novembro) no Pavilhão
do Conhecimento - Ciência Viva. Além dos jogos e brincadeiras para crianças, que
foram um grande sucesso junto dos mais pequenos, realizou-se um debate sobre a
gripe, em que se esclareceram dúvidas pertinentes sobre a ameaça da gripe das aves
e a sua relação com uma eventual pandemia. As fotografias estão disponíveis no
seguinte link: http://www.gripept.net/?q=evento_pics

Os mais pequenos regalaram-se com a presença dos vírus influenza 'em pessoa', e,
correndo atrás deles com 'anticorpos', conseguiram finalmente derrotá-los. Na
verdade, os vírus nunca tiveram hipóteses perante tão novos e motivados
combatentes, como ilustra a imagem do nosso pobre infuenza coberto de anticorpos e
caído por terra.

Os adultos puderam esclarecer as suas dúvidas sobre a gripe perante um ilustre e
acolhedor painel composto por cientistas, e médicos de saúde pública e clínicos.
Para finalizar, foi apresentado o projecto gripept.net, e a sua inserção nos
contextos da vigilância da gripe e da informação e mobilização da população
para que Portugal dê a melhor resposta aos desafios da gripe.

Publicado por RPA às 5:59 PM | Comentários (0)

dezembro 2, 2005

O Jogo da Vida

best2.jpgA cirrose hepática é ainda, a mais importante causa de mortalidade pelo álcool, depois dos acidentes de viação. A única solução terapêutica é o transplante hepático que em Portugal se realiza em três centros (Hospital de Santo António, Hospitais da Universidade de Coimbra e Hospital Curry Cabral). Após o transplante é necessário que o doente inicie medicação - os imunossupressores- que irá diminuir significativamente a actividade do sistema imunitário, limitando a resposta de rejeição e aumentando a sobrevida do enxerto. Esta inibição é por vezes a tal ponto, que se perde a função elementar de protecção contra os microorganismos invasores e surgem infecções graves que poderão ser letais.

Aqui, recordo o exemplo do grande jogador do Machester United, George Best, também conhecido como o “5º Beatle” e que marcou a história do futebol para sempre. Faleceu no dia 25 de Novembro, vítima de uma infecção pulmonar, secundária à imunossupressão associada ao seu transplante hepático. Este, veio substituir o fígado lesado pela acção tóxica do etanol.

Já esta semana, como aliás já foi noticiado aqui no Conta, a equipa do Prof. Dubernard em Amiens, a mesma que em 1998 realizou o primeiro transplante de mão, realizou agora o primeiro transplante axial da face. Trata-se de um transplante parcial da face, envolvendo as estruturas medianas: mento, lábios e pirâmide nasal.

É fundamental não esquecer que quando transplantamos um órgão não vital, como a mão ou um segmento da face, estamos a obrigar uma pessoa que não sofreria de grande patologia, para além do sofrimento psicológico, a tomar para o resto da vida medicação que apresenta algum risco para a sua saúda, podendo mesmo abreviar a sua vida. Estas decisões merecem sempre especial reflexão, uma vez que colocam em causa o princípio hipocrático do Primum non nocere, a que todos os médicos estão obrigados.

Publicado por RPA às 2:41 PM | Comentários (6)

George Best

BESTJUMP.jpg

Ps. Prefiro esta foto...

Publicado por maradona às 1:19 PM | Comentários (1)

Ciclope cínico

DUPLO.jpgAzoospermia adj., s. f.; do Gr. a + zôon, animal + spérma, esperma 1. Ausência de espermatozóides no sémen. 2. Tipos: pode ser induzida (para os menos impressionáveis, ver vasectomia) ou ter causas naturais, de tipo obstructivo ou não obstructivo. Na primeira, os espermatozóides estão nos testículos mas não chegam a misturar-se com o líquido seminal. Na segunda, os espermatozóides não se formam de todo (ver espermatogénese). 3. Esterilidade masculina: A ~ está entre as principais causas de esterilidade masculina e todos homens que dela sofrem são estéreis, com a notável excepção dos monarcas e da nobreza miúda de outros tempos; segundo rezam as crónicas oficiais, estas criaturas eram férteis mas tinham o infortúnio de casar sistematicamente com mulheres estéreis. Tal interpretação vai contra a opinião corrente, mas é aqui reiterada pelos autores do Ciclope Cínico, o Barão Santiago (título comprado) e este escriba, VMB, Visconde da Marateca. 4. Agenda de trabalhos para o próximo Concílio: entre os azoospérmicos católicos a interdição do sexo a outros fins que não os reprodutores tem efeitos contraproducentes: proibidos de ceder uma amostra de sémen para um espermatograma, sem o saber repetem o pecado ad eaternum, eternidade esta que nos dias de hoje deixou de ser hipérbole (ver óxido nítrico).

Publicado por Conta Natura às 9:37 AM | Comentários (1)

dezembro 1, 2005

Compreender Ciência

dontKnowWhat150.jpgPara se compreender a Ciência não é apenas necessário perceber o método científico, saber formular hipóteses e fazer experiências. Não é apenas necessário saber factos científicos, mas compreender como se faz Ciência e como esta é também uma actividade humana, com as suas regras e devida integração na sociedade. ”bvio para nós cientistas, mas uma incógnita para os restantes mortais, é o processo de aceitação de artigos nas publicações científicas, o “peer-reviewing” (revisão por pares).
Este processo é bastante discutido entre cientistas (e temos bons exemplos aqui no Conta) e sempre tentamos arranjar maneira de argumentar sobre o que tem de bom e o que tem de mau. Apesar disso, poucos discutem o principio básico do peer-reviewing que é a revisão do trabalho de um grupo de cientistas por outro grupo de cientistas da mesma área de especialidade.
Este mesmo “peer-reviewing” é agora também anunciado como o processo que permite ao público discernir entre “boa” e “má” Ciência. A única maneira de diferenciar a má informação, ou boato, da que é fidedigna. Com estes factos em vista, a organização britânica Sense about Science lançou um folheto intitulado “I donít know what to believeÖ”, uma explicação em oito páginas sobre como os cientistas publicam o seu trabalho e por que é que o processo é tão importante. Os objectivos deste guia que está disponível em www.sense aboutscience.org são popularizar o rigor e controlo de qualidade a que estão sujeitos os trabalhos científicos que são publicados. Sugere, por exemplo, que a primeira pergunta a fazer quando se ouve ou lê um determinado facto científico é “Está publicado?” (pergunta muitas vezes feita por cientistas). O guia tenta cobrir aquilo que se passa durante a revisão de artigos e também explica como procurar as fontes e as revistas onde são publicados os artigos. Popularizar o processo de peer-reviewing fará com que o público se encontre em posição de poder olhar a Ciência com olhos mais críticos e dar mais um passo na compreensão de todos os factores que fazem a Ciência.

Publicado por SJA às 3:20 PM | Comentários (4)

Transplante de cara

Cirurgiões em França realizaram pela primeira vez um transplante de cara. O transplante, do triângulo entre a boca e o nariz, foi efectuado numa mulher de 38 anos desfigurada após um acidente grave quando foi atacada por cães. Segundo o diário Le Monde, aparte dos riscos de rejeição a curto e longo prazo, a paciente deverá aprender a aceitar a sua nova imagem. Apesar de este não ser muito mais que um transplante de pele, esperam-se já os comentários e consequentes discussões éticas.

Publicado por SJA às 12:48 PM | Comentários (3)

Ciclope Cínico

ciclopeneg.jpgAnamnese (do gr. anámnesis; recordação) 1. Linguistica imaginária É o oposto de amnésia, que por sua vez é o oposto de Mnésia, palavra grega que significa memória e remete para Mnemosyne, a tão esquecida deusa grega da dita 2. Medicina Diz-se da história clínica que todos os médicos se fazem pagar para escrever. O médico pergunta primeiro ao doente do que é que ele se queixa e o doente geralmente responde: Ah, Snr Dr., quando eu tinha 6 anos deu-me uma dor deste lado e desde então nunca mais tive saúde. Qualquer médico com alguma experiência ignora as respostas e copia a história clínica do doente anterior. Depois de fazer isto 100 vezes toma o título de médico especialista, mas se tiver imaginação para 3 histórias clinicas diferentes anseia por ser conhecido como Professor. 3. Passatempos Esta palavra não tem pontuação elevada no Scrabble, mas é garantia de vitória no jogo das letras quando os adversários são leigos.

Publicado por Santiago às 9:00 AM | Comentários (0)