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janeiro 31, 2006

Jared Diamond: Um biogeógrafo fala sobre as sociedades

jared-diamond.gif Assisti em Londres à palestra de apresentação do novo livro de Jared Diamond. Começo por notar que tal como as empresas acenam com portáteis ou GTIs aos seus empregados para os manterem, o Imperial College (e suponho todas as outras grandes universidades) acena com palestras às quais dificilmente se poderia assistir noutro lado. Só nestes últimos meses, já tivemos o Tim Smit (o criador do Eden Project na Cornualha - imperdível) e o Richard Dawkins.

Jared Diamond é professor de Geografia e Fisiologia na UCLA e já ganhou um prémio Pulitzer. É também um evolucionista, arqueólogo, ambientalista, biólogo molecular e mais uma série de coisas.

Para este livro, ele estudou várias civilizações ou sociedades que desapareceram, desde os Maias até os Nórdicos na Gronelândia. Achou depois que tinha que, num exemplo elementar de boa ciência, comparar as civilizações que tinham falhado com as que tinham sobrevivido face às mesmas ameaças, como o Japão ou a Nova Guiné. Collapse_book.jpg E, como diz o título, tentar ver porquê.
Obviamente que, na hora que durou a palestra, não deu para aprofundar a questão. Deu antes para ter vontade de ler o livro. Portanto, vou apenas falar de alguns pontos de interesse:

- É assustador como algumas sociedades gastaram os recursos até à última. Uma pergunta interessante foi o que teria dito o habitante da ilha da Páscoa que derrubou a última árvore existente na ilha. Tal como neste caso, pensa-se que a deflorestação terá sido a causa do colapso de muitas outras sociedades. Neste momento continua-se, claro, a usar os recursos até à última com a diferença de que, com a globalização, os recursos (e o eventual colapso) são os do planeta inteiro e não só de uma ilha.

- Outro ponto interessante gerado por uma pergunta da audiência foi que a democracia parecia não fazer diferença na taxa de sobrevivência de uma sociedade. Jared Diamond não viu diferença nesta taxa comparando democracias com ditaduras, por exemplo.

- e a pergunta que eu não consegui fazer: Jared Diamond contrastou o exemplo dos diques na Holanda com os diques em Nova Orleães. A razão da má manutenção dos diques em Nova Orleães e o consequente número abismal de mortos foi, segundo Jared, devido ao facto dos ricos viverem a altitudes mais elevadas (e consequentemente não fazerem pressão para manter os diques). Na Holanda, não há esta diferença tão marcada. A minha pergunta seria se a diferença tem a ver com a fossa entre ricos e pobres ser maior nos EUA, ou se a Holanda teria impedido as pessoas mais ricas a morarem só nos sítios mais elevados. Se algum leitor quiser tentar responder...

Publicado por MM às 4:26 PM | Comentários (6)

janeiro 30, 2006

There is grandeur in this view of life.

Darwin_notebook.jpgLanço daqui um repto: que alguém faça o necessário para levar a Portugal a exposição sobre Darwin que o Museu de História Natural de Nova Iorque actualmente exibe. Estive lá ontem e emocionei-me como nem diante de um Vermeer. É verdade que sou suspeito, mas não há melhor forma de apreender o essencial sobre Darwin do que percorrer aqueles corredores. A atmosfera é sóbria, ajudada por paredes e painéis escuros e por todo o lado impera o bom gosto - na escolha cuidada das citações de Darwin e dos objectos (cartas, cadernos de apontamentos, fósseis, espécimes catalogados), bem como nos vídeos escolhidos e nos comentários dos cientistas contemporâneos. Contar a teoria da evolução daquela forma, quase peripatética, faz-nos penetrar naquele mundo, no Beagle, nas Galápagos e, sobretudo, na cabeça de Darwin. É esse o grande trunfo da exposição, porque a génese da teoria da evolução é uma história quase tão bela como a ideia propriamente dita.
Tinha um receio, antes de entrar: que o anacrónico debate com criacionistas dominasse a exposição. Felizmente, não é o caso. É dada uma resposta, como se exige, mas apenas na última das salas, e com estudada tolerância e paciência. A única crítica que tenho a fazer prende-se com a deficiente exposição dos mecanismos que geram a variação. Como se sabe, o próprio Darwin não respondeu de um modo capaz a esta questão e é normal que uma exposição sobre ele incida sobretudo no mecanismo de selecção natural, de resto explicado de forma muito feliz. Ainda assim, teria sido importante ligar as ideias do inglês ao que sabemos hoje sobre genética e sobre o aparecimento de mutações. Esta lacuna, quanto a mim, é reveladora do acantonamento de Niels Eldredge, o curador da exposição. Nos últimos anos, Eldredge embarcou numa discreta cruzada contra a hegemonia do gene e da biologia molecular (ele é paleontólogo) na academia e nos media. Terá alguns motivos válidos para o fazer, mas há limites. Enfim, trata-se de um pecado menor, que neste pequeno texto acabou por ter um destaque desproporcionado. Termino como comecei: vale a pena levar esta exposição a Portugal.

A imagem mostra um cladograma desenhado por Darwin num dos seus cadernos de apontamentos, encabeçado pela expressão "I think". Trata-se, salvo erro, da primeira descrição gráfica da idea de que as espécies têm "antepassados comuns".

Publicado por Conta Natura às 3:18 PM | Comentários (2)

janeiro 29, 2006

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgA newsletter desta semana do Gripept.net aborda os riscos de fuga, de materiais infectantes e potencialmente patogénicos, dos laboratórios para as comunidades. Eu recordo, a título de exemplo, que persistem os receios relativamente às amostras de vírus da varíola que se encontravam guardadas em laboratórios soviéticos e que poderão ter sido vendidas a organizações terroristas durante o período de transição democrática. Os cuidados de segurança devem ser redobrados quando a virulência de um agente microbiano é elevada porque existe o risco de uso ilícito desses produtos.

Os laboratórios que manipulam agentes patogénicos estão ainda longe de assimilar a necessidade de reverem as suas práticas relativamente às medidas de prevenção e segurança.
.

Face à história do vírus da gripe durante o século XX, alguns erros recentes levam a importantes considerações para o século XXI.

Equívoco fatal?

Em Outubro de 2004, o Colégio Americano de Patologistas remeteu amostras de uma colecção de micróbios desconhecidos para mais de 4000 laboratórios em 18 países do mundo. O objectivo desta remessa era que os micróbios fossem identificados pelos laboratórios. Esta identificação faz parte do processo de certificação dos laboratórios, funcionando como uma espécie de controle de qualidade. No entanto, em Março de 2005 um laboratório do Canadá identificou um dos micróbios desconhecidos com sendo o vírus da gripe do subtipo H2N2, a estirpe que em 1957 causou a Gripe Asiática, matando entre 1 e 4 milhões de pessoas em todo mundo. O H2N2 estava fora de circulação desde 1968, o que significa que pessoas nascidas após 1968 não tinham imunidade contra este vírus. Por sorte, nenhum vírus escapou dos laboratórios que tinham recebido amostras, mas isto só ficou claro várias semanas após a extraordinária descoberta no Canadá. Durante este tempo, cientistas de todo mundo questionavam-se, "O que aconteceria se o vírus escapasse do laboratório e viesse a infectar as pessoas?". E mais, "O que devemos fazer com este vírus que causou tantas mortes no passado, um vírus ao qual milhares de pessoas, nascidas após 1968, não têm imunidade?".

Repercussões e mais perguntas...

O que teria acontecido se o vírus H2N2 tivesse escapado e infectado pessoas, ninguém sabe. As consequências poderiam ter sido devastadoras, porém muitos especialistas concordam que o risco de uma pandemia como a de 1957 era bastante pequeno, tanto pelos métodos de contenção modernos existentes hoje nos laboratórios como pelo facto de que pessoas nascidas antes de 1968 ainda teriam alguma protecção contra o vírus H2N2.

Por outro lado, o que fazer com as estirpes de H2N2 distribuídas pelo Colégio Americano de Patologistas em Outubro de 2004 aos laboratórios em todo o mundo? A maioria das amostras foram remetidas a laboratórios americanos, mas mais de 60 laboratórios em todo mundo, incluindo Canadá, México, Brasil, Chile, Itália, França, Alemanha, Arábia Saudita, Israel, Hong Kong, Líbano, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan, também receberam amostras. A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu a todos os laboratórios que receberam amostras nesta remessa, que as destruíssem imediatamente. Todos os laboratórios responderam a este pedido dentro de poucos dias. No entanto, muitos ainda armazenam o vírus H2N2 usando-o para investigação sob nível 2 de biosegurança (BSL 2). A OMS redigiu então um documento propondo regulações de biosegurança mais rígidas, documento este que está em estudo e avaliação por especialistas mundiais.

Entretanto permanece a questão, "O que fazer com o vírus dentro de 100 ou 200 anos?". Quando a varíola foi erradicada do mundo, as amostras do vírus que a causa foram completamente destruídas nos anos 80 em todos os laboratórios do mundo, excepto 2: um na Rússia e outro nos EUA. Uma campanha semelhante esta a ser iniciada para o vírus da poliomielite, o segundo vírus em vias de erradicação.

E para terminar, uma palavra de conforto. A OMS considera que o vírus da gripe H2N2 não justifica uma operação de tão grande porte. A história do século XX regista um episódio semelhante quando, em 1977, o vírus H1N1 (que ainda hoje circula) escapou
de um laboratório 20 anos após ter desaparecido. Este vírus re-emergente já tinha passado por um período de adaptação a humanos e não tinha a letalidade da estirpe original que causou a catastrófica pandemia de 1918.

Publicado por RPA às 12:53 PM | Comentários (0)

janeiro 26, 2006

Montra Natura

taenidia.jpg

Fotografia (da minha autoria), de microscopia electrónica de transmissão, que mostra o detalhe do interior de um tubo do sistema respiratório embrionário da mosca da fruta, Drosophila melanogaster. A linha branca do lado direito, é a escala da fotografia e corresponde a 200 nm (0,0002 mm).

Publicado por SJA às 6:44 PM | Comentários (5)

janeiro 25, 2006

Influenzoscópio

Avian-flu-188.gifO Ministério da Saúde Indonésio já confirmou mais dois casos de infecção humana por vírus da gripe aviaria com subtipo H5N1. Ambos os casos foram fatais.

O primeiro caso tratou-se de uma menina com 13 anos que iniciou o quadro clínico no dia 6, tendo sido internada no dia 12 e falecido a 14. O segundo, foi o seu irmão com 4 anos que apresenta sintomatologia a 8, foi internado a 14 e faleceu no dia 17 do corrente.

Dois outros membros da família, uma irmã com 14 anos e o pai, com 43 anos permanecem hospitalizados com queixas respiratórias. As amostras colhidas destes dois doentes continuam a ser analisadas e aguardamos os resultados.

As investigações conduzidas pelo mesmo ministério e pela OMS encontraram evidências de foco infeccioso nas aves domesticas da vizinhança desta família. Todos os membros tiveram contacto próximo com as aves doentes e prestaram assistência na remoção dos cadáveres.

Até agora, há 19 casos registados na Indonésia, 14 dos quais foram fatais.

Na China, são 9 os casos contabilizados, com 6 mortos registados. No mesmo dia, na Turquia ultrapassavam-se as duas dezenas (são hoje, 21), com apenas 4 mortos.

Ao analisarmos grosseiramente os registos destas taxas de mortalidade, para a mesma doença em países diferentes, verificamos diferenças muito significativas: 73% na Indonésia, 63% na China e apenas 19% na Turquia.

Serão estes dados o reflexo de diferentes cuidados de saúde e diferentes competências sanitárias das autoridades locais? Ou estaremos na presença de estirpes virais com capacidades patogénicas muito diferentes?

Publicado por RPA às 12:30 AM | Comentários (3)

janeiro 24, 2006

Cavaco

Cavaco_atrepar_o_coqueiro.jpgO Conta não é propriamente um blogue de temas pedidos, mas um dos nossos leitores espantou-se por não ter encontrado aqui uma referência à eleição de Cavaco Silva. Na certeza de que o Ricardo e/ou o Santiago (ou até o desaparecido Rui Gonçalo Martinho) farão a seguir um panegírico à altura, sinto-me à vontade para expor o meu método de abordagem de temas que domino mal: "a googlização". Como falar sobre Cavaco Silva num blogue de Ciência? Pensei que usar "Cavaco" E ("Ciência" OU "biologia" OU "genética" OU "Natureza") nos fornecesse algumas ideias do Professor sobre estas áreas. Lamentavelmente, fiquei apenas a saber que a sua candidatura teve uma natureza ´suprapartidáriaª, que um certo ##### Cavaco se licenciou em Biologia Marinha e Pescas pela Faculdade de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, em 1992, e que Cavaco Silva esteve de algum modo ligado a uma pós-graduação em Gestão, Direito da Comunicação e Ciência Política. Deve ser uma falha do Google. Em todo o caso, para quê ter opiniões? A imagem que vos mostro faz parte do imaginário colectivo e é prova suficiente de que as ciências biológicas, com particular ênfase para a botânica e os projectos desenvolvidos no Instituto de Medicina Tropical, são áreas prioritárias na agenda do futuro mais alto magistrado da nação. ¿s vezes uma imagem vale por mil palavras, outras vezes por todo um programa. É o caso.

Publicado por Conta Natura às 8:33 PM | Comentários (19)

Arte Molecular

Por Nuno Micaelo
12/01 a 12/03 no espaço Garfos e Letras, Rua Cândido dos Reis, 18, Porto
17/2 a 18/3 na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa
lat_esq_A_molecular.jpg
Vale a pena ver esta exposição. Para um cientista habituado a ver imagens gráficas de moléculas rotineiramente, parece ao princípio uma coisa banal, um“ovo de Colombo”. Passado um bocado, passa a ser “pop-art”, só que com moléculas em vez de latas de sopa de tomate Campbell.

Para quem não conseguir ir ver, podem ver online a galeria de Nuno Micaelo.

Publicado por MM às 1:37 PM | Comentários (0)

janeiro 23, 2006

Todos a descobrir a Ciência no ITQB

LogoDiaAberto06.gifNo próximo sábado, dia 28 de Janeiro, o Instituto de Tecnologia Química e Biológica volta a abrir as suas portas ao público. O Dia Aberto ITQB 2006 pretende dar continuidade ao sucesso do dia aberto do ano passado, quando mais de novecentas pessoas visitaram, em Oeiras, este instituto de investigação.
Este sábado, o ITQB desafia mais uma vez o público a vir explorar a Ciência com os seus investigadores e descobrir como esta pode ser surpreendente, inspiradora e divertida. Durante todo o dia haverá lugar para exposições sobre a investigação aí feita, conversas sobre a ciência do dia-a-dia, visitas aos laboratórios, ciência às escuras e experiências de verdade para os mais novos.

Os dias abertos são actividades de extrema importância na aproximação dos cidadãos à Ciência. Dão oportunidade a miúdos e graúdos de verem os espaços físicos onde se desenvolve a actividade científica e, quando são bem organizados como têm sido os do ITQB, até mesmo de fazerem algumas experiências. Esperemos que este dia aberto seja um sucesso!

Aqueles que forem ao ITQB para o dia aberto, poderão ter a sorte de serem "guiados" pelo Cláudio Gomes na volta aos laboratórios!

Publicado por SJA às 9:34 AM | Comentários (3)

janeiro 20, 2006

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpg Ainda sobre a conferência do Carl Koppeschaar, convém reforçar o impacto que esta nova abordagem tecnológica da epidemiologia poderá ter no acompanhamento de uma epidemia infecciosa, tal como foi revelado ter, no acompanhamento de outras epidemias, não infecciosas, como a obesidade mórbida, os acidentes de viação, os acidentes domésticos, etc. De uma forma mais fácil e rápida do que a tradicional, poderemos avaliar múltiplos parâmetros, por termos uma base de dados que representa 0,1% da população de um país. Poucos, são os estudos epidemiológicos na história que poderão reclamar uma amostra, com estas dimensões.

¿ medida que se somam, na Turquia, os casos de gripe aviária em crianças, convém lembrar que numa situação de verdadeira pandemia, nenhum sistema de saúde poderá dar cobertura às necessidades da sua população e que as novas tecnologias poderão servir de meio de informação e de monitorização, com redução do risco de contágio. Como é bem sabido, as unidades de saúde são fonte importante de contágio nestas alturas.

Segue-se a newsletter desta semana do Gripept.net.

Gripe - A doença humana

Aquilo a que normalmente chamamos "gripe" é na verdade um conjunto de doenças do tracto respiratório superior. Muitas vezes julgamos ter gripe quando na realidade temos um "síndroma gripal", uma doença com sintomas semelhantes à gripe mas possivelmente provocada por um outro vírus (vírus sincicial respiratório ou adenovirus, por exemplo). O que distingue a gripe das outras doenças é a súbita subida de febre que atinge valores elevados, dores no corpo, e a severidade dos
sintomas em geral, que obrigam normalmente a "ficar de cama". Os vírus influenza existem em três tipos: A, B e C. Destes três apenas os dois primeiros costumam provocar sintomas significativos. Os vírus influenza C provocam infecções respiratórias ligeiras.

A gripe, sendo uma doença do tracto respiratório superior, afecta o nariz, garganta, laringe e parte da traqueia. A maior parte das pessoas infectadas como o vírus influenza - A, B ou C - recupera espontaneamente da infecção, ou seja, sem tratamento específico. No entanto, numa pequena proporção dos casos a doença pode ter complicações adicionais e pode mesmo levar a morte. O vírus influenza A é responsável por 250 a 500 mil mortes por ano a nível mundial.

Julga-se que dois factores principais contribuem para as complicações adicionais da gripe. O primeiro é a possibilidade da infecção conduzir a uma pneumonia. Uma pneumonia é uma inflamação do tecido pulmonar que induz a acumulação de fluído e detritos celulares nos pulmões. Estes últimos podem, em quantidade suficiente, obstruir as vias respiratórias.

Todos os anos, cerca de 2% das pneumonias provocadas pela gripe são graves, subindo este número para 20% no caso de uma pandemia. Outra razão, ainda mal compreendida, pode prender-se com a possibilidade de uma reacção anormalmente elevada do sistema imunológico à presença do vírus no organismo, acabando esta reacção por nos lesar mais do que o próprio vírus.

No caso de uma pandemia, e infelizmente, não só o número de pessoas infectadas é muito mais elevado, como a percentagem destas que desenvolve sintomas graves é consideravelmente maior.

Gripe - A doença nas aves

A gripe das aves é provocada por vírus do tipo influenza A. Ao contrário do que se passa com os humanos, nas aves a gripe não é uma infecção respiratória mas sim intestinal. Pensa-se que todas as aves serão susceptíveis à infecção com a gripe das aves, embora algumas espécies sejam mais susceptíveis que outras. Conhecem-se 16 subtipos de influenza A capazes de infectar as aves, fazendo com que estes animais sirvam de reservatório de vírus influenza A na natureza.

As aves portadoras desta grande variedade de vírus são sobretudo aves aquáticas migratórias. As aves domésticas, por seu lado, são particularmente susceptíveis de sofrer surtos epidémicos com elevada mortalidade. Investigações recentes demonstraram que vírus com patogenicidade reduzida, quando passam de aves selvagens aquáticas para aves domésticas, têm tendência a sofrer mutações que as transformam em estirpes altamente patogénicas. Estas estirpes são responsáveis pela mortalidade elevada associada aos surtos de gripe em aves domésticas, bem como pelo reduzido número de casos humanos que resultam do contacto com estas aves.

Estratégias de quarentena em todas as quintas afectadas por esta doença, e o extermínio de todas as aves expostas, permanece como a principal linha de defesa contra esta doença. As estirpes altamente patogénicas são também mais resistentes, sobrevivendo períodos mais longos no meio ambiente, podendo transmitir-se através de contacto com qualquer superfície contaminada, como sejam: equipamento, veículos, alimentos, jaulas ou vestuário.

Publicado por RPA às 11:37 AM | Comentários (4)

janeiro 19, 2006

Os dez livros que abalaram o mundo

Theorigin.jpgEstá a decorrer, até ao dia 15 de Fevereiro, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, uma exposição bibliográfica sobre os dez livros que mais abalaram o mundo. Este “super top ten” bibliográfico traz-nos, do livre arbítrio de vários docentes da Universidade de Coimbra, os dez livros que mais influência tiveram sobre a história do mundo.
Os dez livros escolhidos foram, por ordem decrescente do número de votos:
1) A origem das espécies (Charles Darwin)
2) A Bíblia (vários autores)
3) A interpretação dos sonhos (Sigmund Freud)
4) O capital (Karl Marx)TOS.jpg
5) D. Quixote (Miguel de Cervantes)
6) Princípios matemáticos de filosofia natural (Isaac Newton)
7) Odisseia (Homero)
8) A riqueza das nações (Adam Smith)
9) Diálogo sobre os dois maiores sistemas do mundo (Galileu Galilei)
10) Teoria da relatividade (Albert Einstein)

A eleição e a exposição foram organizadas por Carlos Fiolhais e João Gouveia Monteiro. Na sala de São Pedro da Biblioteca Geral podemos ver esta bela exposição que tem como base os dez livros mais votados e mostra edições antigas (entre elas uma Bíblia latina medieval do Séc. XIII), traduções em português e obras sobre a recepção destes livros em Portugal.

O resultado, apesar de porvir de um universo bastante pequeno, é muito interessante, mas também discutível. Seria interessante saber que livro ganharia se a votação tivesse sido aberta além das portas da Universidade de Coimbra. Teríamos então a Bíblia em primeiro lugar? Ou o Código Da Vinci?
De qualquer maneira, o facto que ganhou um livro da área da Biologia, já é motivo de celebração, especialmente num ano em que muito se tem falado de “inteligent design” e que também foi o ano internacional da Física. No entanto, nas palavras do Físico Carlos Fiolhais: “Acho muito boa escolha! Redime-nos até de algum atraso com que Portugal e, em particular, Coimbra recebeu as ideias de Darwin (esse atraso seguia o lema: "se o homem descende do macaco é melhor que não se saiba"). Acho até uma escolha muito actual numa altura em que a "Science" anuncia como evento científicico do ano os novos avanços na teoria da evolução fornecidos pela genética e o "Nouvel Observateur" publica um dossier sobre a recusa da teoria da evolução nalguns estados dos Estados Unidos com um macaco vestido à americana na capa. Coimbra não é Kansas City!
Quanto à Física ela não tem o primeiro lugar no "top ten" mas inclui três obras na lista e isto apesar de nenhum físico ter votado: os "Diálogos" de Galileu, os "Principia" de Newton e a "Teoria da Relatividade" de Einstein. É obra! Tal só mostra que as pessoas cultas têm enorme respeito pela contribuição que a Física tem dado à compreensão do mundo...”

Publicado por SJA às 10:02 AM | Comentários (2)

janeiro 18, 2006

Mais uma invenção...

03679505_cov200h.gifO hospital norueguês Radium de Oslo, começou esta semana a averiguar a investigação conduzida por John Sudbo, um dos seus cientistas. Ao que parece, ele inventou completamente os resultados de um estudo epidemiológico publicado no The Lancet em Outubro passado. Este artigo, associa uma baixa incidência de cancro oral com o uso prolongado de drogas anti-inflamatórias não esteróides.
E olhem que quando digo "inventou completamente" quero mesmo dizer completamente. Parece que os 900 pacientes que tomaram parte neste estudo eram completamente fictícios. O Dr. Sudbo inventou nomes, sexo, idade, peso, diagnóstico e, por vezes, mesmo a morte destes "pacientes imaginários". Resta saber como é que ele conseguiu convencer os 13 co-autores deste artigo, incluindo os três que - junto com ele - contribuíram igualmente para o trabalho, já para não falar dos editores do Lancet.

Publicado por SJA às 9:36 AM | Comentários (11)

janeiro 17, 2006

Os homens dos medicamentos

Em Março realizar-se-á em Curitiba (Brasil) um encontro destinado a debater a propriedade intelectual dos medicamentos tradicionais dos índios. Este acontecimento lembrou-me, primeiro que tudo, o filme "The Medicine Man", que eu gostei principalmente pelo herói da história ser bioquímico, e representado pelo Sean Connery.
Neste filme, Sean Connery representa a dicotomia dos males e benefícios da ciência. O mal porque na sua ânsia de investigar trouxe o sarampo para uma tribo índia (inverosímil, é certo, mas isto é um filme americano), e porque se encontra a investigar só porque é pago por uma companhia farmacêutica. O bom, porque acaba por dedicar a sua vida a tentar salvar outra tribo, e a diversidade das espécies e um medicamento tradicional que pode curar o cancro, dos efeitos da deflorestação. A maneira como ele descobre qual é a substância que compõe o medicamento é em si uma historiazita interessante de investigação científica.
Este encontro em Curitiba pega onde o filme deixou. Uma vez descoberto o medicamento, de quem são os direitos da patente - para quem vão os lucros da comercialização? Até agora tem sido todos para as farmacêuticas que patrocinam a comprovação científica dos efeitos terapêuticos. Os índios querem agora uma parte dos benefícios para manter a sua cultura. O que faz sentido, pois só mantendo esta cultura se preserva o conhecimento empírico sobre outros possíveis medicamentos. Aqueles, talvez, que os cientistas nunca conseguirão descobrir.

Publicado por MM às 2:03 PM | Comentários (0)

Afinal quem é que fez o trabalho?

fraud162.jpgComo consequência do recente escândalo Sul Coreano das células estaminais (a que decerto voltaremos aqui no Conta), a revista Science está a considerar novos requerimentos por parte dos autores de artigos científicos. Eventualmente, irão pedir a cada autor que assine uma declaração em como concorda com todos os resultados publicados, assim como detalhes de qual a sua contribuição para o artigo em questão.
Obviamente, estas regras gerarão muita discussão e algumas mudanças no modo como se publica Ciência. Numa paródia a esta questão, o New York Times de hoje publica uma destas declarações para um hipotético artigo publicado no Journal of imaginary Genomics.
Assustador como a mesma declaração se poderia adaptar a muitos artigos que eu conheço!

Publicado por SJA às 11:30 AM | Comentários (3)

janeiro 15, 2006

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpg Começo por recordar a conferência do Carl Koppeschaar no dia 9 de Janeiro, a convite do GripePT.net.

O Conta esteve presente e testemunhou a resistência, de alguns colegas que trabalham na área da epidemiologia, para as novas tecnologias. De facto, há quem receie que esta iniciativa possa diminuir a importância e o impacto da vigilância coordenada pelo INSARJ. Mantenhamos a serenidade, porque estamos em Portugal e a proveitemos a oportunidade como momento de humor. A jornalista Ana Sousa Dias esteve lá e, com a naturalidade e inteligência que lhe reconheço relembrou a importância dos consensos nestas, como noutras, alturas.

Parece-me oportuno, e voltarei ao tema, que começemos já a identificar quais as pessoas que, a nível nacional e a nível hospitalar, vão coordenar as equipas de gripe. Quem são aqueles que terão de programar e tomar medidas de combate à disseminação da infecção, com especial atenção para os hospitais e centros de saúde? Lamento não conseguir compreender o alcance de não estarem ainda desenhados todos os planos de emergência hospitalar. Apenas o Hospital de São João tem o seu plano completo. Estaremos à espera da chegada dos primeiros casos a Portugal para assistirmos a declarações infelizes de alguns responsáveis hospitalares sobre as suas condições de trabalho? Por favor, sejamos responsáveis!

Eu recordo que o vírus ainda é agente infectante maioritário (não exclusivo) de aves. No entanto, todo os cuidados devem ser tomados na prevenção de contágios. Quanto menor o número de entradas no corpo humano, menores as possibilidades de adaptação do vírus à nossa espécie.

Apresentamos agora a newsletter desta semana do Gripept.net.


Dois tipos de pandemia

As diferenças entre a pandemia de 1918 e as duas pandemias de 1957 e 1968 não se ficam pelo facto de a primeira ter provocado um número de mortes muitíssimo mais elevado que as duas últimas. Uma pandemia, na sua essência, após o surgimento do vírus, √© sempre o mesmo tipo de evento, mas na origem do vírus que a pode provocar estão na realidade dois mecanismos distintos.

Nas pandemias de 57 e 68, os respectivos vírus H2N2 e H3N2 (ver newsletter nº2) tiveram origem num evento de recombinação entre o vírus humano em circulação anteriormente, H1N1 e H2N2 respectivamente, e um vírus das aves. Se os dois vírus, humano e das aves, infectarem ao mesmo tempo uma pessoa, ou possivelmente um porco, pode acontecer que estes troquem os seus segmentos de RNA e gerem um novo vírus.

Na pandemia de 1957 o novo vírus H2N2, que sucedeu ao H1N1, continha 5 segmentos do H1N1 e três segmentos de um vírus das aves, num total de 8 que o vírus influenza A possui. Os segmentos substituídos incluíam aqueles que são usados na produção das moléculas de hemaglutinina e neuraminidase (H e N), fazendo com que o novo vírus mudasse para H2N2 (hemaglutinina tipo 2 e neuraminidase tipo 2). Na pandemia de 1968 o vírus adquiriu dois novos segmentos de um vírus das aves, que substituíram dois dos três adquiridos em 1957, fazendo com que o novo vírus H3N2, em circulação ainda hoje, possua 5 segmentos de RNA do vírus de 1918, um adquirido em 1957, e dois adquiridos em 1968, um deles codificando para um novo tipo de hemaglutinina, e daíñ a mudança para H3N2.

Já em 1918 o que se passou foi diferente. O vírus que provocou a mortífera gripe espanhola não resultou de uma recombinação do vírus anterior, mas evoluiu gradualmente a partir de um vírus das aves, sendo todos os seus segmentos novos. O que aconteceu, e se teme que possa vir a acontecer com o vírus H5N1, foi uma adaptação ao ser humano através de mutações pontuais no genoma de um novo vírus, que ganhou eventualmente a capacidade de se transmitir entre humanos e assim provocar a referida pandemia de 1918. O esforço actual de contenção da propagação da gripe das aves prende-se com o medo de que a mesma situação se repita com o vírus H5N1. Quanto mais pessoas infectadas com o vírus maior a probabilidade de este se adaptar aos seres humanos e provocar uma pandemia.

Gripe das aves na Turquia

A gripe das aves provocou a semana passada as suas primeiras vítimas na Turquia. Três jovens irmãos, de 15, 14 e 11 anos, residentes em Dogubaiazit, província de Van, leste da Turquia, faleceram vítimas de infecção com H5N1, após estarem em contacto com aves infectadas. Estes casos fatais foram apenas 3 de um total de 15 verificados naquele país até agora, que são os primeiros casos de gripe das aves em humanos fora do sudeste asiático e China, e ocorrem preocupantemente próximo da Europa, embora ainda não haja sinais de transmissão pessoa-a-pessoa.

Nas aves, a doença começa a espalhar-se pela Turquia, aparentemente progredindo para o ocidente, passando pela capital, Ancara, e chegando mesmo a Istambul, do lado europeu da Turquia. O aumento súbito do número de surtos em aves, bem como os casos em humanos, preocupa as autoridades dos países limítrofes, que impuseram restrições à circulação de pessoas nas suas fronteiras com a Turquia. O governo russo foi mesmo mais longe, recomendando aos seus cidadãos que não viajassem para a Turquia, destino preferido de férias de muitos Russos.

As autoridades turcas estão a desenvolver uma campanha de informação da população de forma a que esta evite o contacto com as aves e relate quaisquer sintomas suspeitos sem demora. Entretanto, o extermínio em massa de aves domésticas está a ser dificultado pelo rigoroso Inverno do leste da Turquia. Por fim, 100.000 novas doses de Tamiflu chegaram à Turquia para reforçar a capacidade de reposta deste país a uma eventual pandemia.

Publicado por RPA às 11:07 AM | Comentários (5)

janeiro 12, 2006

Cientistas portugueses: o regresso com sucesso?

debateRTP1.jpgSeguindo o exemplo da RTP1 e com um atraso ainda maior, deixo-vos aqui o meu relato e as minhas impressões sobre o debate Cientistas Portugueses: o regresso com sucesso?, que teve lugar no IGC no passado dia 27 de Dezembro de 2005.
Juntámo-nos para discutir o regresso dos cientistas portugueses a Portugal e para debater o futuro e as possibilidades da Ciência portuguesa. O painel era formado por ex-alunos do Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina, alguns “regressados”, outros não. Na audiência estavam muitos ex-alunos dos Programas Gulbenkian de Doutoramento, cientistas portugueses e estrangeiros, jornalistas e políticos. Uma mistura explosiva. Um grupo de pessoas com capacidade para discutir o futuro da Ciência e o que há a fazer por ele.

O tempo era escasso. Depois de uma breve introdução de António Jacinto, os (muitos) membros do painel começaram por expor as suas ideias sobre o regresso com ou sem sucesso, moderados pelo microfone e o estridente timer da Mónica Bettencourt-Dias. A Isabel Palmeirim abriu a discussão falando da importância da dedicação à investigação a 100%, dos problemas das Universidades portuguesas e da falta de carreiras de investigação. Seguiu-se-lhe o Miguel Martins que explicou porque ainda não voltou a Portugal, falou na falta de contractos de investigação e a grande lacuna que é não haver um esquema de “career development awards” em Portugal. Tal como o Miguel, tanto o Henrique Teotónio como eu, em diferentes momentos do debate, discutimos estas ideias e focámos os mesmos aspectos negativos do fazer ciência em Portugal. O pós-doc chefe, a falta de carreiras de investigação em Portugal, a falta de pessoal técnico. Eu falei no exemplo espanhol que, apesar de não ser perfeito, poderia ser um exemplo a seguir em Portugal. O Rui Costa discutiu o problema (importante) das irregularidades de financiamento científico e da falta de perspectiva de continuidade na atribuição de bolsas. O Miguel Castelo-Branco falou sobre a carreira de investigação nas Universidades, o problema do “inbreeding” e como podemos combatê-lo. Ouvimos também as opiniões de Ana Coutinho e Nuno Arantes e Oliveira, ambos com carreiras alternativas em Ciência. A Ana falou da importância da carreira de comunicador de ciência e o Nuno discutiu a importância do investimento estrangeiro no financiamento de pequenas e médias empresas em Portugal.

poli.jpgDepois destas apresentações, a discussão foi aberta à audiência. Muitos foram os que mencionaram os buracos no financiamento, a falta de carreiras científicas e “career development awards” (o que se passa com as bolsas Damião de Góis, por exemplo?). Mas nem tudo foram queixas e negativismo. Comentou-se o bom que é fazer Ciência em alguns institutos em Portugal, como por exemplo o IGC, o IBMC e o ITQB. Discutiu-se que o importante é fazer com que Portugal seja atractivo não só para os portugueses regressarem, mas essencialmente para que se torne um destino de trabalho para cientistas de qualidade, portugueses ou não.

No final a palavra foi dada a quem de poder. Infelizmente, pareceu-me que a interpretação que transpareceu do debate foi algo errónea e as que as nossas palavras foram tomadas como um conjunto de queixas sem sentido. No entanto pergunto-me: “não é natural que falemos do que está mal, quando estamos perante as pessoas que o podem mudar?” Felizmente, o discurso do Sr. Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, sobre os esforços a fazer para regularizar o financiamento científico foi bastante positivo e dentro do âmbito do que se tinha feito ouvir dos cientistas durante o debate. O mesmo já não se pode dizer do (longo) discurso do Sr. Ministro da Saúde, Correia de Campos. Começando por dizer que em Portugal não são necessárias (e possivelmente não existirão) iniciativas do tipo Ramón y Cajal (do exemplo espanhol) para o desenvolvimento das carreiras científicas, continuou com o já (muito ouvido) discurso de que num mundo global como o de hoje, não é necessário que os cientistas portugueses voltem a Portugal. Lembro-me de quando ouvi exactamente as mesmas ideias proferidas pelo então Secretário de Estado da Educação Pedro Lynce, num encontro da Curia de já há alguns anos (caso para dizer que o governo de então era outro, mas o discurso mantém-se assustadoramente o mesmo). É pena que assim seja. Boa ciência é sempre boa ciência (e tem mesmo que ser internacional e globalizante), mas se não a levarmos activamente até Portugal, vamos ter que acarretar com as consequências da falta de conhecimento que continuará a exisitir no nosso país. E sem querer cair em frases feitas, sem conhecimento não há progresso. Ainda estamos a tempo de mudar algumas das coisas que estão mal. Como disse o Prof. António Coutinho, no único que achei aproveitável do seu (emocional) discurso que finalizou o debate, temos que ser nós (os jovens cientistas portugueses) a fazer tudo para mudar o que está mal. No entanto, contraponho, não o podemos fazer sem um certo número de infra-estruturas necessárias e muito menos sem o apoio do poder português. Para pôr bem o que mal está temos que poder falar sobre os problemas existentes e propor alternativas viáveis sem que nos apelidem de queixinhas.

Publicado por SJA às 12:11 PM | Comentários (25)

janeiro 11, 2006

Parabéns Dr. Hoffman!

hoffman-albert-95-young.jpg

Albert Hoffman, o descobridor do LSD (dietilamida do ácido lisérgico), faz hoje 100 anos. Nascido em Baden, na Suiça, há um século, Hoffman começou o seu trabalho de investigação na farmacêutica Sandoz em 1929. Em 1938, no decurso das suas investigações sobre estimulantes circulatórios, sintetizou o LSD. Na altura, os laboratórios não encontraram utilidade prática para este composto, que foi posto de lado até que um dia, em 1943, Hoffman o tomou por engano. O resto é história.
Quatro vezes bisavô, Hoffman é definido no seu país como "um dos poucos suíços que lograram mudar o mundo"! Durante esta semana, cientistas de todo o mundo estarão reunidos em Basileia num congresso onde tentarão obter a legalização do LSD para investigação e usos terapêuticos. Este é um desejo partilhado pelo Dr. Hoffman.

Publicado por SJA às 6:42 PM | Comentários (18)

A Investigação Científica em primeira página

O conselho da Fundação Sommer-Champalimaud reúne-se hoje para decidir se criará um centro de investigação próprio ou se se limitará ao financiamento de projectos de investigação. Uma decisão que poderá ter um peso histórico na Ciência em Portugal.

Apareceu ontem no telejornal da RTP1, em horário nobre, uma breve reportagem sobre o debate realizado no IGC sobre o retorno dos cientistas portugueses, já mencionado no Conta. Não deu bem para perceber porque é que só puseram a notícia ontem; de qualquer modo ainda deu para ver excertos das entrevistas realizadas a Miguel Castelo Branco, Nuno Arantes e Oliveira e a nossa SJA.

Refiro também a menção que apareceu no programa "O Cofre" à investigação científica: havia um participante que era investigador científico e uma bioquímica. Curiosamente, o investigador científico estava a fazer um doutoramento em letras sobre linguagem, e a bioquímica estava a fazer investigação científica em terapia génica do cancro. Isto lembra-me o problema de que nome dar à nossa profissão: se ainda estamos a fazer doutoramento, somos estudantes ou investigadores? A partir de que altura passamos a ser cientistas? E nesta época da interdisciplinaridade, devemos auto-intitular-nos segundo o nome da nossa licenciatura?

Publicado por MM às 12:36 PM | Comentários (4)

janeiro 10, 2006

Recomeçam as ciclópicas

PV.jpgspiderfull.jpgAracnóide (do gr. arakhnoeidés. semelhante a uma teia de aranha , adj , s.f.) 1. Zoologia: animal pertencente à classe dos aracnídeos. A ideia de que é insecto qualquer bicho rastejante passível de eliminação pelo ralo da banheira reitera uma gafe taxonómica e faz com que, entre as gentes letradas, as aranhas estejam para a classe Insecta como, entre os estrangeiros iletrados, os portugueses para os espanhóis. Os aracnídeos são animais com 8 patas que tecem teias com as quais capturam presas inocentes. Entre os exemplos mais conhecidos contam-se a tarântula, Marcelo Rebelo de Sousa, o malogrado François Mitterrand, a viúva negra (sem relação de parentesco com François) e Peter Parker 2. Anatomia: uma das 3 meninges que revestem o Sistema Nervoso Central, mesmo nas pessoas que o têm mas não o usam 3. Higiene doméstica: só quem nunca limpou teias-de-aranha na casa de banho se espantará por a ~ estar localizada entre a Dura e a Pia 4. Medicina: a origem etimológica descreve o único conteúdo do crânio de grande parte dos Professores de Medicina. Aos seus alunos aplicar-se-ia a palavra aboboróide (ver Cucurbitácea), se existisse.

Publicado por Conta Natura às 11:41 PM | Comentários (0)

Procriação Na Assembleia Da República

lisboa_assembleia_da_republica01_590.jpgA Assembleia da República irá debater, entre hoje e amanhã, as questões técnicas, sociais, legais e éticas associadas à reprodução medicamente assistida. Estes são os primeiros passos para a grande discussão nacional sobre o tema e que conduzirá finalmente à aprovação de um pacote legislativo relativo à manipulação de células estaminais para investigação científica e tecnológica.

A conferência inaugural tem lugar na presença do Presidente da Assembleia da República, do Ministro da Saúde e da Presidente da Comissão de Saúde, a Dr.™ Maria de Belém Roseira e será proferida pela Prof. Leonor Parreira, professora catedrática de Histologia da Faculdade de Medicina de Lisboa. A Prof. Leonor Parreira é médica, hematologista e investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência e do Instituto de Medicina Molecular.

Todos os grupos parlamentares poderão contactar com um grupo de cientistas portugueses, de acordo com o programa.

Um dos temas debatidos abordará, sem dúvida, o problema dos embriões excedentários que nós, por Conta, já afloramos. O que fazer com centenas de embriões congelados? Poderão ser usados para investigação ou deverão ser destruídos? Ou conservados?

Deixo o leitor a reflectir sobre estas questões. Voltaremos ao tema mais adiante.

Publicado por RPA às 3:02 PM | Comentários (7)

O Conta de vento em popa

28_4.jpg
O último número da Gazeta da Física refere o Conta Natura como "um blogue de discussão de uma variedade de temas relacionados com as Ciências da Vida". A referência encontra-se na secção de Livros e Multimédia, onde também aparecem outros blogues de ciência em Portugal.

E já agora aproveito esta oportunidade para anunciar que o Conta vai também ser apresentado numa reportagem sobre blogues de ciência feita pelos jornalistas do programa 2010, este domingo às 14h na RTP2.

Publicado por SJA às 11:14 AM | Comentários (0)

janeiro 9, 2006

Tudo isto existe ... tudo isto é fado

malhoa_fado1.jpgResumo (em português)

A preservação e o estudo da herança cultural portuguesa tem sido contemplada pela política cultural nacional nos últimos 30 anos. No entanto, o património musical português, em especial o transmitido oralmente, tem sido profundamente negligenciado. As fontes primárias encontram-se dispersas em colecções portuguesas e estrangeiros, públicas ou privadas, sendo a investigação realizada ainda residual.
Este projecto visa contribuir para o estudo sistemático e para a preservação do património musical português utilizando os mais modernos suportes disponíveis. O objecto principal é o fado, género musical urbano originário de Lisboa durante o primeiro quartel do séc. XIX, que posteriormente se disseminou por todo o país e estrangeiro, nas comunidades emigrantes ou nas apresentações públicas de artistas em prestigiadas salas internacionais. A centralidade do fado como referente para o património cultural está patente no interesse da Câmara Municipal de Lisboa em propo-lo para proclamação, pela UNESCO, no âmbito do programa "Masterpieces of the Oral and Intangible Heritage of Humanity".
Propomo-nos realizar uma investigação multidisciplinar em torno do fado focando o seu desenvolvimento ao longo do séc. XX, conjugando perspectivas teóricas e metodológicas da etnomusicologia, musicologia histórica, antropologia, história e estudos culturais. Tendo presente o contexto politico e social, analizar-se-à o fado na sua articulação com o teatro de revista, indústria fonográfica, radio, cinema, televisão, bem como as estratégias (artísticas e comerciais) desenvolvidas que determinaram o perfil de artistas, repertórios e estilos musicais, poéticos e interpretativos, assim como o estatuto do fado e seus praticantes.
Gravações, periódicos, filmes, peças, partituras, e intervenientes vivos cujas memórias pretenderemos fixar, constiruirão as fontes primárias para este estudo. Uma base de dados será a ferramenta de pesquisa e repositório da informação recolhida independentemente das suas características físicas (desde fotografias a som e imagem em movimento, mas também repertório - melodias, textos, peças, e.o. -, compositores, cantores, autores de letras, editoras, discografia, filmografia, iconografia, etc.). Todos os dados introduzidos serão co-relacionados a multiplos níveis procurando assim tecer uma densa rede de cruzamento de informações.
Procura-se assim contribuir para um novo conhecimento sobre o património cultural português e a acção das indústrias da cultura, conhecimento relevante para investigadores nacionais e estrangeiros (junto dos quais existe um interesse cada vez maior por informação relativa ao fado), bem como para empresas, administradores e programadores culturais, e público em geral. Contemplamos também a realização de conferências internacionais onde os resultados serão discutidos e divulgados, procurando estimular subsequentes projectos de investigação de académicos portugueses e estrangeiros.

O projecto cujo resumo se pode ler acima foi aprovado no Concurso para Projectos de I&D em todos os Domínios Científicos - 2004. A FCT (que se devia chamar FCTFEMTOQVAR - Fundação para a Ciência, Tecnologia, Fado e mais tudo o que vier à rede) atribuiu-lhe 60.780 (por extenso: Sessenta mil, setecentos e oitenta) Euros de financiamento.

É com grande alívio que leio no fim que os investigadores responsáveis "contemplam" ... a realização de conferências internacionais onde os resultados serão discutidos e divulgados.
Só por causa dessa "contemplação" dedico-lhes este fado que eu escutei muitas vezes na Casa do Ribatejo, em estupendas interpretações da Esmeralda Amoedo. A música é do Frederico Valério e a letra do Silva Tavares,:

Se a minha alma fechada
Se pudesse mostrar,
E o que eu sofro calada
Se pudesse contar,
Toda a gente veria
Quanto sou desgraçada
Quanto finjo alegria
Quanto choro a cantar...

Que Deus me perdoe
Se é crime ou pecado
Mas eu sou assim
E fugindo ao fado,
Fugia de mim.
Cantando dou brado
E nada me dói
Se é pois um pecado
Ter amor ao fado
Que Deus me perdoe.

Quanto canto não penso
No que a vida é de má,
Nem sequer me pertenço,
Nem o mal se me dá.
Chego a querer a verdade
E a sonhar - sonho imenso -
Que tudo é felicidade
E tristeza não há.

Publicado por Santiago às 9:14 PM | Comentários (4)

Mais Ciência No DN

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Hoje, o DN saiu para as bancas com um novo formato. Este é mais um esforço da imprensa escrita para recuperar parte das vendas que tem perdido com o crescimento da internet, à semelhança do que se tem passado no mundo inteiro.

O destaque do Conta vai para a ausência de um caderno de ciência diário, apesar de António José Teixeira ter afirmado à TSF que o novo formato apostava em mais ciência. Mas hoje, mais ciência significou, nenhuma ciência.

Ao observar esta re forma recordo-me de tantas outras em Portugal que se ficaram pela nova forma e pelo velho conteúdo.

Por outro lado, a crítica ganha um peso especial se recordarmos aqui a atenção que o Público dá à ciência desde 1997, com a abertura de um espaço com publicação regular e com jornalistas preparados para a ciência e a tecnologia.

O DN ainda vai a tempo. Esperemos por amanhã.

Publicado por RPA às 1:45 PM | Comentários (4)

janeiro 7, 2006

Escrito na face

(Esta é a primeira contribuição da "Zazie", um texto para imprimir e ler com atenção, como se não fosse um post.)

Razão deve ter tido Momus que de todos os deuses troçava e não perdoou a Hefaísto não ter colocado uma janela no peito dos humanos de modo a desvendar-se-lhes os segredos. E não faltou ao longo dos tempos quem procurasse por outras vias essas manifestações mais escondidas da alma. O corpo, principalmente a face, há-de mostrar essas marcas da personalidade e do carácter humano- a máscara sempre foi a persona, coube aos fisionomistas a tarefa mágica ou científica da decifração dessas marcas impossíveis de esconder.

A prática já era conhecida na Suméria e antigo Egipto. Na antiga Roma tornou-se comum entre os grandes senhores possuírem um metoposcopi com dons para ler nas rugas da face o carácter dos que os rodeavam, numa antecipação da psicologia política que mais tarde também será receita recomendada por um Castiglione ou Maquiavel.

O percurso da magia para a ciência vai ter muitos elos e entrosamentos. Da busca esotérica dos sintomas da alma cósmica aos estudos da psicologia moderna, muitos entrosamentos houve pelo caminho e à fisionomia tanto se dedicaram médicos como filósofos, magos e artistas. A adivinhação da alma e as bizarrias zoomórifcas da animalidade escondida por baixo da pele necessitarão tanto do mistério como da arte da revelação.

Em pleno século XVII ainda Lavater questionava a importância das manifestações físicas do psiquismo humano, interrogando-se sobre a sua natureza: “o que é a natureza universal senão fisionomia. Não se reduz tudo a superfície e conteúdos? Corpo e alma? Efeito externo e faculdade interna? Princípio invisível e fim visível?"

Como pesquisas associadas à medicina as fisionomias têm em Hipócrates o iniciador, usando pela primeira vez o termo no tratado acerca das epidemias, no sentido do julgamento de alguém pela aparência física.

O desenvolvimento desta arte divinatória entre as formas animais e as fisionomias humanas chega à Idade Média através de outros tratados em que o carácter hermético predomina. Tal é o caso dos estudos do Pseudo Aristóteles, Adamantios, Polemon e o pseudo Apuleius que transitam do mundo clássico por via de traduções e tratados árabes do género, como o manual de medicina de Kitab al-Mansuri fi al-tibb (The Book of Medicine para Mansur), de Rhazes ou o de Kitâb al Firâsa de Al-Râzi (1209)

Por influência do neoplatonismo e recrudescimento do fundo de tradição mágica, estas artes ganham novo fôlego a partir do renascimento.
Giambatista della Porta (1541- 1615), personagem de gostos excêntricos e dotado de conhecimento enciclopédico que abarcava criptografia, horticultura, estudos de óptica, astrologia, matemática e fortificações, retoma e colige estes estudos no tratado De Humana Physiognomia, publicado em Nápoles no ano de 1586.

O corpo humano é visto como um livro, passível de ser lido por quem possua a arte dos oráculos. O intuito da obra explica-se silogisticamente.
1- cada espécie animal tem a sua forma correspondente às suas propriedades e às suas paixões; 2- os elementos dessas figuras encontram-se no homem; 3- o homem possui esses mesmos traços tem, por consequência, um carácter análogo.

O homem-leão- poderoso e generoso, possui peito largo, espáduas amplas e mãos e pés longos.
Neste exercício todos os detalhes são analisados minuciosamente do nariz, à forma das sobrancelhas, tipologia da boca, etc., nada fica de fora. O exercício é magnificamente ilustrado em gravuras, procurando imagens históricas de personagens notáveis
E assim aparece o Platão-cão; o Sócrates-veado; O Sérgius Galba- águia e muito outros. Curiosa é a explicação das características de Sócrates- o nariz achatado nítido revelador da luxúria... mas a mais exótica é esta novidade do famoso rinoceronte de Durer justaposto à efígie do grande poeta Policiano

Alguns exemplos parecem recolhidos do senso comum. O Pseudo Aristóteles, por exemplo, dizia que os cabelos finos, o corpo flácido, os molares achatados, face pálida e olhos fracos e pestanejantes são características de pessoas tímidas. Mas outras características provêm da tradição astrológica baseada na crença da ligação do macrocosmos ao microcosmos e na velha teoria dos humores. Em cada indivíduos seria possível detectar as marcas desse todo operante, pois o ser humano não possuía uma natureza particular em relação aos outros seres vivos.
Nesta base serão vão estabelecidas as características psicológicas comuns ao próprio temperamento dos animais “patronos” do seu nascimento. Acrescente-se o contributo da Metoposcopia, ciência inventada pelo notável matemático e físico Gerolamo Cardano (1501-1576) que traçava paralelos entre as rugas da testa e o efeito dos planetas sob cuja égide o indivíduo nasceu.
Cardano, cuja vida trágica atesta também o carácter aventureiro destes primórdios místicos dos estudos científicos, chegou a sistematizar 800 tipologias capazes de identificarem idênticas variantes de carácter e outros efeitos acessórios como a detecção de uma mulher adúltera por esta forma.

Della Porta não se limita a compilar a tradição do passado. As suas tipologias faciais e psíquicas vão mais longe que a moralização em torno da bestialização do homem, como acontecia nos tratados medievais. Basta recordar que o fabulário no género como é o caso do Roman de Fauvel que fazia parte de uma recolha em que incluía também o velho Segredo dos Segredos de tradição aristotélica.

Publicado por Conta Natura às 3:37 PM | Comentários (2)

janeiro 6, 2006

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpg Recordo que o GripePT.net convidou Carl Koppeschaar para uma conferência que terá lugar no dia 9 de Janeiro às 18 horas, no Grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian.

Entretanto a situação na Turquia agravou-se e já provocou duas vítimas mortais, de um total de 11 doentes infectadas pelo H5N1. Ficamos a aguardar mais informação.


Pandemia versus epidemia: perfis epidemiológicos da gripe

Nos últimos meses de 2005 o termo “pandemia de gripe” entrou no nosso vocabulário corrente. Temos convivido com a noção de que podemos estar na iminência de uma pandemia à qual associamos, primeiro que tudo, duas características:

- Elevada taxa de infecção ñ afecta mais pessoas que uma vulgar epidemia de gripe;
- Elevada letalidade ñ as infecções são mais graves e a taxa de mortalidade é maior.

Mas uma análise cuidadosa dos perfis epidemiológicos revela diferenças mais subtis entre uma pandemia e uma epidemia de gripe:

- Enquanto que a epidemia afecta sobretudo crianças e idosos (distribuição etária em forma de U) as pandemias atingem mais os jovens adultos dos 20 aos 40 anos (distribuição etária em forma de W). Este contraste está ilustrado na figura.
- Uma pandemia de gripe vai deixando sinais de alerta antes de surgir na sua força máxima. Mas que sinais são esses? Uma análise recente da pandemia de 1918 revela os aspectos singulares da epidemia do ano anterior. A epidemia de 1917-18 teve duas fases distintas: a primeira em Janeiro-Fevereiro (com a distribuição etária U); e a segunda em Março-Abril (revelando já uma tendência para a distribuição etária W). Este fenómeno de Março-Abril de 1918 foi como que uma pequena onda precursora da pandemia que veio a atingir proporções catastróficas no Outono de 1918.

Os sistemas de vigilância epidemiológica da gripe permitem-nos, de forma mais ou menos eficaz, monitorizar estes comportamentos e detectar precocemente qualquer anomalia. Detecção precoce que, por sua vez, é o primeiro passo para uma intervenção atempada e eficaz.


Gripe 1.jpg

Holanda 127 - Portugal 26: visita aos bastidores

A internet instalou-se na nossa sociedade acelerando drasticamente a forma como vivemos, trabalhamos e comunicamos. Com este aumento de rapidez, aumenta o nosso conforto e eficiência... mas também a exigência. Nos meios da saúde pública, por exemplo, verifica-se que o uso da internet vem evoluindo no sentido de se tornar uma importante ferramenta de comunicação entre os profissionais da saúde e a população. Actualmente, num período de alarme dada a iminência de uma pandemia da gripe, a importância deste tema é ainda maior.

Em 2003/04 os Holandeses lançaram a Grande Vigilância da Gripe (GVG) com base na internet. A iniciativa partiu de Carl Koppeschaar, editor-chefe de um organismo do governo (Portal do Conhecimento Holandês). O objectivo do portal é aproximar a informação científica da sociedade e estimular o entusiasmo dos jovens pela ciência. Sendo um tema particularmente apelativo, o GVG foi escolhido como veículo para promover uma participação interactiva na qual os participantes actuam como verdadeiros cientistas.

O sucesso dos GVG ultrapassou todas as expectativas ñ como meio de comunicação de ciência e como sistema de vigilância epidemiológica . O projecto voltou a decorrer em 2004/05 e está de novo em curso nesta época de 2005/06. A sua inclusão no sistema de vigilância oficial da gripe está a ser avaliada na Holanda.

O projecto foi adaptado a Portugal onde está a decorrer este ano sob a sigla Gripept.net. A taxa de participação Portuguesa ainda não atingiu os valores Holandeses: 127/100,000 habitantes na Holanda; contra 26/100,000 habitantes em Portugal. As figuras representam a distribuição dos participantes por idades ñ a adesão Portuguesa incide numa faixa etária mais estreita: 12-60 anos na Holanda; contra 20-40 anos em Portugal. Vamos lá Portugal!


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Publicado por RPA às 1:02 PM | Comentários (0)

janeiro 3, 2006

Ano Novo, Vida Nova!

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Publicado por RPA às 8:16 PM | Comentários (1)

Ano Novo, FCT Nova

getimage.jpeg2_JoaoSentieiro.JPGJoão Sentieiro tomou. hoje. oficialmente posse como Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

É professor catedrático do Instituto Superior Técnico onde se licenciou, em 1969, em Engenharia Electrotécnica e onde foi director do Instituto de Sistemas de Robótica.

Foi secretário do Conselho dos Laboratórios Associados desde a sua criação até Dezembro e delegado nacional no Comité do Programa Aurora da Agência Espacial Europeia, bem como membro do Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Conselho Económico e Social.

¿ medida que Portugal vai tendo mais doutorados, mais investigadores, mais (como alguns gostam de dizer) massa crítica, vão também aumentando as necessidades e os problemas assumem uma outra dimensão.

No seu discurso refere três necessidades: 1-diálogo com a comunidade científica; 2-regularidade dos concursos e 3-introdução de melhorias nos sistemas de avaliação das unidades de I&D.

Em nome do Conta, desejo ao Prof. Sentieiro os maiores sucessos na condução de uma instituição que tão grande impacto tem na Ciência feita por portugueses, dentro e fora das nossas fronteiras.

Publicado por RPA às 7:54 PM | Comentários (27)

janeiro 2, 2006

Notas soltas para um Novo Ano

- Ambiente vs. ambiente ñ normalmente a construção de barragens opõe interesses económicos à protecção do ambiente. No caso da barragem sobre o rio Sabor, o governo lembrou-se de usar a arma ambiental: contra o estudo que mostrava um impacto negativo na fauna e flora da região e que levou a um congelamento dos fundos da Comunidade Europeia, o governo contrapôs que a dita barragem levaria a uma redução de emissões poluentes. Claro que só se lembraram disto agora porque a dita redução levaria também a uma redução à multa aplicada a Portugal por não cumprir o protocolo de Quioto.

- Estudos provaram o efeito “beer-goggles”, ou seja, que a atractividade das mulheres aumenta conforme o grau de alcoolemia do homem. Há inclusive uma equação que calcula o aumento do poder de atracção. Em contrapartida, outro estudo mostra que as mulheres se sentem mais atraídas por homens que são bons dançarinos. Portanto o meu conselho aos leitores masculinos do Conta: este ano bebam e dancem muito ñ só não se esqueçam de nestas ocasiões, deixar as chaves do carro em casa.

- Morgan Spurlock, o autor do documentário “Super-size me” sobre fast-food, está a preparar um novo documentário sobre a política científica dos Estados Unidos e a sua gestão pela administração Bush. Revelações chocantes aguardam-se com expectativa.

Publicado por MM às 9:18 PM | Comentários (2)

Biogaffe

Onde se prova que é possível escrever sobre biologia, mesmo quando se começa com Saramago e se remata com Alfred Nobel.

lineu.jpg
Na página 78 do último romance de Saramago, As Intermitências da Morte (Caminho, 1a edição), o género do nome científico da sequóia gigante (Sequoiadendron giganteum) não tem inicial maiúscula e o nome não surge grafado em itálico, o que é uma violação dupla das regras de nomenclatura. Trata-se de um erro perdoável, embora multiplicado por 100 000, que deverá ser corrigido em edições futuras.

O nome científico de cada espécie, escrito em latim, é uma criação de Carl von Lineu (1707-1778) e compõe-se do nome do género e do epíteto específico, que - sem surpresa - designa a espécie. Este binómio é ainda seguido do nome do autor que classificou a espécie e da data da publicação do trabalho onde a espécie vem descrita, embora em muitas publicações - sobretudo fora do âmbito da taxonomia - esta informação seja omitida. As regras de nomenclatura e latinização dos nomes são relativamente complexas mas uma síntese aceitável pode ser encontrada aqui (copiei-a também, com pequenas alterações, para a entrada estendida).

A figura mostra Carl von Lineu, provavelmente o sueco mais famoso do mundo, ex-equo com Olof Palme, e logo a seguir aos ABBA, a Greta Garbo, a Igmar Bergman, ao saudoso Bjˆrn Borg e a Alfred Nobel.

Bom ano a todos.

Nota: estarei activo no Conta apenas ao Sábado e Domingo.

Regras:

1 ñ O nome dos animais devem ser escritos em latim.
2 ñ Todo animal tem obrigatoriamente dois nomes no mínimo. O primeiro é o do género e o segundo o da espécie (Sistema binominal criado por Lineu).

Ex: Homo sapiens

3 ñ O nome do género deve ser sempre escrito com inicial maiúscula, e o da espécie com inicial minúscula.

Ex: Trypanosoma cruzi

Quando se dá o nome especifico em homenagem a uma pessoa, como no exemplo acima, acrescentamos a letra i no sobrenome do homenageado se for do sexo masculino.

Ex: Carlos Bates = batesi.

Quando o Homenageado for feminino, acrescentamos ae no sobrenome.

Ex: Sónia Costa = costae

4 ñ Quando existe subespécie, o seu nome deve ser escrito depois do da espécie e sempre com inicial minúscula.

Ex: Rhea americana darwing ou Apis mellifera adansoni

5 ñ Quando existe subgénero o seu nome deve ser escrito depois do nome do género, entre parêntesis, e sempre com inicial maiúscula.

Ex: Anofheles (nissurrhynchus) darlingi

6 ñ O nome dos animais devem ser grafados ou deve se usar um tipo de letra diferente do texto, em geral usa o negrito ou caracteres itálicos .

7 ñ Se um género ou espécie foi descrito mais de uma vez, deve-se sempre usar o primeiro nome que o animal foi descrito, mesmo que seja errado. É a lei da prioridade. Expl. Trichuris trichiura é conhecido também como tricocéfalo, em vista de ser usado durante muito tempo o nome Tricocephalus trichiuris. O nome mais antigo Trichuris - (thirix = cabelo; aura = cauda) significa cauda capilar . Quando se descobriu que a parte filiforme do verme correspondia à extremidade cefálica e não caudal, procurou-se mudar o nome para Trichocephalus, o que não é permitido pela regra da prioridade.

8 ñ Nos trabalhos científicos, depois do nome da espécie colocasse o nome do autor (o naturalista que a descreveu) e o ano da publicação do trabalho onde foi descrito. Expl. Triatoma infestans - Klug, 1834.

Obs. O nome do autor e data, citados entre parêntesis, indicam que a espécie em questão foi descrita originalmente em género diverso do que aparece citado. Expl. Trypanosoma cruzi (Chagas, 1909). Originalmente foi descrito como Schizotrypanum cruzi. Dias, em 1939 foi quem rivalidou.

9 ñ Têm terminações padronizadas as seguintes categorias : superfamilia (oidea), família (idae), subfamilia (inae) e tribo (ini).

Publicado por Conta Natura às 7:28 PM | Comentários (9)