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fevereiro 28, 2006

Os meninos da rádio II

A TSF iniciou, na passada segunda-feira, um programa intitulado "125 perguntas sobre Ciência" com o apoio da revista Science e da Fundação Gulbenkian. Uma pergunta e uma resposta sobre ciência por dia. Para o programa inaugural, o jornalista Rui Tukayna falou com o Professor João Caraça, director do Centro de Ciência da Fundação Gulbenkian sobre o que são 125 perguntas sobre Ciência. Podem ouvir as entrvistas online. Ou às 17.30 na rádio mesmo.

Publicado por MM às 4:19 PM | Comentários (1)

fevereiro 27, 2006

Wunderkammern XXI

CurosityCabinet.jpgWunderkammern XXI será uma nova série: textos curtos sobre detalhes da biologia celular e molecular. O nome é inspirado nos cabinets de curiosités da natureza, muito populares entre os europeus abastados e cultos nos séculos XVI e XVII, que seriam os precursores dos museus de História Natural. A imagem mostra exemplares da colecção de Albertus Seba (1665-1736), que originou um dos livros de História Natural mais admirados de sempre.
A relevância destas historietas será menos importante aqui do que o seu potencial de sedução. O que cativa em biologia, postas de lado as obsessões de cada um, não é próprio da disciplina. Trivial. O efeito surpresa, a bricolage das soluções evolutivas, as noções de proporção, harmonia e simetria e, até, a ironia que muitos destes episódios de história natural micro e submicroscópica encerram, são qualidades idênticas às que nos seduzem no contacto com a arte e no dia a dia. Comparada com a história natural clássica, que versou durante séculos sobre criaturas visíveis a olho nu (com excepções notabilíssimas), há uma perda de complexidade quando passamos para um nível de organização inferior e, de algum modo, um empobrecimento no potencial dramático dos relatos. Esta é a primeira dificuldade. Percebe-se que uma molécula prestes a entrar numa via de degradação em caso algum despertará a mesma compaixão que uma foca a morrer na boca de uma orca, ou um louva-a-Deus macho a instantes da cópula. E percebe-se também que não se humaniza uma molécula sem se cair no ridículo ou na literatura infantil. A segunda dificuldade destes exercícios é de outra natureza e resulta de uma das idiossincrasias da área. Alguém disse não há conceitos complicados em Biologia, como existem em matemática ou na fisica. Uma breve análise dos casos de migrações bem sucedidas entre áreas científicas confirma a provocação; a Biologia é uma ciência que importa muitos cientistas e exporta quase nada. Nos tempos actuais, a sua única dificuldade é a quantidade de detalhes e competências que é preciso saber e ter para se dominar uma dada área e poder dar um contributo válido. Esta característica dificulta a descrição para o leitor leigo de um universo que, mais do que terra incognita povoada de bichos errados, é inimaginável.
Como a prosa já vai longa, só me resta acrescentar que terei especial cuidado na selecção das imagens que acompanharão os textos.

Publicado por Conta Natura às 4:02 AM | Comentários (1)

fevereiro 25, 2006

Inbreeding na Academia (parte I)

3.jpgMetaforicamente falando, uma universidade com inbreeding é um sítio sem mulatas...

Deve existir uma explicação psicanalítica para a insistência no vocábulo inglês inbreeding quando se descreve o hábito de dar preferência à prata da casa na atribuição de empregos e outros tachos nas universidades, havendo pelo menos três expressões em português equivalentes. Admito, porém, que o eventual título "preocupantes níveis de consanguinidade no departamento de Zoologia da Faculdade de Ciências" fosse erroneamente interpretado como um alerta para um problema de saúde pública. E, apesar de serem as traduções mais exactas, suponho que usar neste contexto os termos "endogamia" ou "endocruzamento" poderia criar um equívoco algo despudorado, tendo em conta um outro hábito académico - a procriação entre colegas de departamento - que é matéria privada e nos interessa pouco.

Nesta discussão mistura-se sempre indignação e conformismo e nunca se chega a lado algum. Este texto não será certamente excepção, mas procurei abordar o problema evitando a fulanização excessiva e os relatos de casos da vida real. Só mesmo no fim a prosa fica um pouco mais inflamada. Não há qualquer originalidade no que escrevo sobre o tema, mas sempre foi uma oportunidade para juntar alguns textos de vários autores que andavam dispersos por aí.

alberocons.jpg1. Depressão intelectual O inbreeding é alvo de duas críticas, na verdade muito distintas. A primeira aponta uma falha de princípio, pois a única forma de uma universidade manter níveis de inbreeding elevados passa por instrumentalizar - aldrabar, se se preferir - concursos públicos que deveriam dar idênticas possibilidades aos candidatos, independentemente do seu grau de contacto prévio com a universidade. A outra crítica incide sobre os resultados deste comportamento e não é uma consequência natural da falha de princípio; há comportamentos de ética duvidosa - certos casos de nepotismo, por exemplo - mas com resultados francamente bons. Dando de barato que a falha de princípio é indefensável, saber se o inbreeding é prejudicial à qualidade da produção académica é quase - dir-se-ia - uma questão académica. Mas como sobra o argumento patusco e reaccionário de que esta é uma prática que se adequa bem ao Homem lusitano, tão habituado ao jeitinho, à cunha e ao nacional-porreirismo, talvez seja pertinente discutir os seus resultados. A levarmos até às últimas consequências a definição biológica de inbreeding - que aponta para a depressão genética - as universidades sofrem de estiolamento intelectual, mediocridade, compadrio e a total ausência de vigor híbrido. O vigor híbrido, um castiço conceito na voz do professor que o explicou recorrendo ao exemplo de incorrecção política dupla que são as mulatas do carnaval brasileiro, tem como equivalente académico a sinergia que resulta da combinação de percursos diferentes. Sambas à parte, no mundo das ideias parece ser consensual que só temos a ganhar com uma partilha de experiências e competências, com a facilidade em se estabelecer colaborações, com a possibilidade de podermos pensar livres dos constrangimentos impostos pela presença de um superior hierárquico que nos orientou, etc. Entre nós, de resto, é essa a opinão de circula por todo o lado e pela internet, em revistas obscuras (I e II), relatórios que ninguém lê (pdf), cartas sensatas enviadas para jornais e, claro, nos blogues (autocitação, aqui e, sobretudo, esta discussão informada). O excesso de opinião terá talvez soterrado e dispensado estudos sobre o tema e apenas encontrei uma análise quantitativa, que aponta para uma diminuição da produtividade com o aumento de inbreeding. Não será propriamente um major breakthrough, mas é reconfortante confirmar uma intuição.

2. Data Há dados sobre os níveis de inbreeding universitário, mas o tópico é tão interessante como melindroso, o que talvez explique algumas lacunas. Por exemplo, entre 1938 e 1960 nem mesmo nos EUA foram publicados estudos sobre o inbreeding. Se é verdade que os tempos mudaram, parece existir um país que resiste, ainda e sempre. Em Espanha, sabemos pela Nature que o nível de inbreeding se cifra nos 95%. Dependendo da metodologia e da amostra, nos EUA a percentagem é 7% ou 15%. E em Portugal? Entre nós a percentagem é "altíssima" ou então as taxas são "demasiado elevadas", segundo as fontes. Com a ressalva de uma citação de memória que aponta para os 93% de inbreeding lusitano, os únicos dados que descobri foram um ranking que faz dos departamentos de Ecologia e Zoologia portugueses os Habsburgos da ecologia Europeia (91% de inbreeding, contra 88% na Espanha e 5% no Reino Unido) e um relatório (pdf) onde se mostra que entre 1990 e 2002 a percentagem de professores auxiliares contratados pelo Instituto Superior Técnico com grau de doutor obtido na mesma instituição andou sempre acima dos 60%. São poucos elementos para uma questão tão grave e tão comentada. Parece faltar um estudo sistemático e abrangente. Alguém conhece em pormenor as percentagens de inbreeding por região, por universidade, por departamento? Alguém sabe qual é a tendência actual, tendo em conta o aumento da população de doutorados? Meus amigos, este é um trabalhinho sujo, mas para ser feito. Não se encontra por aí uma equipa de sociólogos capaz de dar conta do recado, doa a quem doer? Não é tarefa difícil de executar e nem sequer ficaria muito caro, mas desconfio que durante muitos anos teremos mais facilmente acesso ao coeficiente de consanguinidade do puro sangue lusitano (sem ofensa para os criadores de cavalos).
O exemplo espanhol é triplamente esclarecedor. A começar, porque são nuestros hermanos e a proximidade cultural tem relevância, a seguir, pela cifra de 95% de inbreeding e, finalmente, porque no já longínquo ano de 1984 - e por decreto real! - se escrevia que o mérito do candidato deve ser o principal critério de selecção. A situação, ao que parece, só piorou. Conclui-se então que não podemos contar com Dom Duarte Pio, Duque de Bragança, para desemaranhar a academia. Mas o grande ensinamento a retirar é que as palavras não chegam, mesmo quando se trata da palavra da lei. As palavras, aliás, têm contribuído mais para agravar o problema do que para a sua resolução.

(Nas próximas semanas publicarei as segunda e terceira partes)

Publicado por Conta Natura às 3:05 PM | Comentários (5)

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgA newsletter desta semana do Gripept.net dá uns conselhos práticos para que as crianças se protejam deste vírus, responsável em grande parte pelo absentismo escolar. O Gripept.net tem ido às escolas fazer campanha de educação para a saúde o que não tinha precedentes em Portugal, nesta área concreta. Visite o site Gripept.net e participe neste projecto.


A Gripe vai mesmo à Escola

Como se espalham os micróbios?

A principal maneira de disseminação de doenças como as constipações e as gripes é de pessoa para pessoa, sobretudo através das gotículas emitidas com a tosse e os espirros. Isto pode acontecer quando uma pessoa que está infectada lança um espirro ou tosse, porque os micróbios são transportados pelo ar e podem-se depositar na boca ou no nariz das pessoas que estão por perto, permitindo a entrada do vírus nos seus organismos.

Será então fácil de perceber que, nas zonas onde existe maior concentração de pessoas, mais fácil será para o vírus espalhar-se e, consequentemente, maior probabilidade existirá de se ficar contaminado.

A Gripe na Escola

As escolas são, assim, locais que reúnem excelentes condições para que as gripes e constipações se espalhem e acaba por ser inevitável que as crianças e jovens fiquem expostos aos vírus. Mas existem coisas muito simples que podem ser ensinadas aos mais novos e feitas no dia-a-dia e que os ajudarão a proteger-se, bem como proteger os outros.

a) Lavar bem as mãos - encorajar os alunos a lavar as mãos frequentemente com sabão e água quente. Segundo uma estatística americana, uma mão suja pode infectar potencialmente 180 pessoas em 24 horas! Este número inclui todo o tipo de infecções, desde constipações e gripes a diarreias, infecções da pele e outras menos comuns. Mesmo assim não deixa de nos parecer um número elevado. Segundo essa mesma estatística, os alunos que têm maior atenção à higiene das mãos têm menor necessidade de faltar à escola (como se pode ver no gráfico: "Cleaning hands keeps students in school" - figura da página http://www.cdc.gov/germstopper/home_work_school.htm).

b) Tapar a boca e o nariz ao tossir e espirrar - usar um lenço de papel para cobrir a boca e o nariz para evitar contagiar os outros.

c) Evitar tocar nos olhos, nariz e boca - os micróbios espalham-se quando a pessoa toca em algo contaminado e depois leva a mão aos olhos, nariz ou boca.

d) Evitar contactos muito próximos com quem está doente.

e) Se possível, ficar em casa quando se está doente para não contaminar os outros.

Publicado por RPA às 11:00 AM | Comentários (0)

fevereiro 24, 2006

Alguna Gracia

Notienegracia.jpg

Publicado por RPA às 3:17 PM | Comentários (0)

Montra Natura

placode.jpg

Organização dos microtúbulos, a partir dos centríolos, nas células da traqueia do embrião de Drosophila melanogaster a cerca de 8 horas após fertilização. A verde or microtúbulos, a vermelho os núcleos das células da traqueia e a azul os centríolos.
Fotografia de Véronique Brodu

Publicado por SJA às 9:50 AM | Comentários (1)

fevereiro 23, 2006

Os meninos da rádio

pod.jpgA comunicação de ciência acaba de dar mais um passo. O número de programas de rádio sobre, e à volta de, temas científicos, tem-se multiplicado imenso nos últimos tempos. Mas estes não são programas de rádio “normais”. Pertencem a uma nova geração: os podcasts.
Graças à moda iPod e à presença massiva de leitores de mp3, a internet é agora um poço de actividade numa nova área de transmissão audio, baptizada de podcast (uma palavra composta proveniente de iPod e broadcast), em 2004, por um jornalista do The Guardian. Um podcast não é mais que um programa de rádio personalizado e disponibilizado pela internet, com a conveniência de poder ser ouvido onde e quando o ouvinte quiser.
As revistas científicas, na sua luta desesperada por mais e melhores audiências, não tardaram em apanhar o comboio e os podcasts já existem, por exemplo para jornais como a Nature, Nature Medicine ou New England Journal of Medicine. Nestes pequenos podcasts (o da Nature oferece 15 minutos semanais) é apresentada uma selecção de artigos e notícias da revista em questão, com entrevistas aos seus autores e/ou outros especialistas na mesma área.
O podcast da Nature é apresentado por Chris Smith, um pioneiro dos podcasts científicos. Chris Smith faz parte da equipa Naked Scientists, um grupo de cientistas da Universidade de Cambridge responsáveis por um programa semanal para a BBC radio. O programa de rádio dos Naked Scientists está também disponível em formato podcast para quem o quiser baixar da internet.
Em Portugal, onde já existem alguns podcasts disponíveis, ainda é difícil encontrar podcasts científicos. Pode ser que um dia apareçam uns podcasts do Conta Natura (com o Vasco a cantar)!

Publicado por SJA às 9:56 AM | Comentários (5)

fevereiro 22, 2006

"There's a new blog in Town..."

Por via de um comentário, algures lá em baixo, do Ricardo Azevedo, descobrimos um blog que é tão belo Newtonsbinomium.jpg
como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso...
Trata-se do Newton's Binomium, que pode agora ser lido a partir da nossa coluna dos links. É escrito em inglês (um inglês impecável, acrescento) e fala sobretudo de temas de evolução.

Leitura obrigatória (embora não exactamente diária...) a partir de hoje!

Publicado por Santiago às 11:34 AM | Comentários (0)

fevereiro 20, 2006

Já que nos estamos a deprimir...

(com a ideia que certas pessoas tem dos cientistas):

Uma investigação feita no Reino Unido com 900 pessoas descobriu que, com cada aumento de 16 pontos no Quociente de Inteligência, decresce em 40% a probabilidade de uma mulher se casar. O homem, pelo contrário, aumenta em 35% a probabilidade de casar com cada aumento de 16 pontos
Leia a notícia aqui.

Publicado por MM às 10:37 PM | Comentários (8)

Sabedoria futebolística

mourinho.jpg
"Sometimes you see beautiful people with no brains. Sometimes you have ugly people who are intelligent, like scientists"

José Mourinho dixit
(in BBC news)

Publicado por SJA às 2:48 PM | Comentários (2)

fevereiro 19, 2006

Paralelos

polar_wideweb.jpgPresentemente, os estado-unidenses encaram a verdade como se só agora espreitassem pela porta entreaberta do armário de Imelda Marcos: quantas formas!

De um lado vêem o desolado cruzado da liberdade de imprensa falando em nome do Imperador e classificando como medieval não apenas a particular violência mas a geral indignação das comunidades muçulmanas diante das tais caricaturas de Maomé.

Por outro lado, assistem à chegada da notícia sem novidade de que o mundo está a aquecer, que os ursos são considerados, já sem relutância, como em perigo de extinção, que o Kilimanjaro ficou careca e que os furacões pioraram de humor. Pode ser que o alarmismo não passe de uma velha ficção emitida pelo "Restelo Global". Se tal for o caso, resta-nos a loucura de James Hansen, director do Instituto Goddard, associado à NASA, e iminente investigador do clima, que no mês passado acusou o Governo de impor-lhe contenção nas suas declarações públicas acerca do Efeito de Estufa. A cabeça de mais um bode rolou, neste caso a de George Deutsch, chefe das Relações Públicas da NASA e membro da equipa que (re?-)elegeu Bush em 2004. No entanto, continua ponto assente que cerca de 2 mil milhões de dólares serão "deslocados" dos projectos de investigação climática, como esparadrapo sobre as gretas de um mais "grandioso" projecto: a International Space Station.

Infelizmente ninguém senão o meu ídolo Bill Maher fez a fatal pergunta que une os dois parágrafos anteriores:

... but what could be more medieval than silencing a scientist?

Publicado por VB às 10:50 PM | Comentários (0)

fevereiro 18, 2006

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgEsta é a newsletter desta semana do Gripept.net que discute a influência da temperatura corporal no desenvolvimento da gripe. Aproveite para visitar o site e responda às perguntas que lhe são colocadas. Se acertar, poderá ganhar um computador portátil!

A gripe das aves avança

A gripe das aves foi finalmente confirmada em ¡frica, mais precisamente no norte da Nigéria. Aparentemente, foi trazida para este país por aves migratórias. Suspeita-se que assim seja porque a estirpe do vírus em causa é a mesma que foi detectada no lago Qinghai, na China. Apesar de suspeitas de infecção de duas crianças, estas não se vieram a confirmar.

Entretanto o vírus continua a espalhar-se. A presença do H5N1 foi confirmada (em aves) recentemente nos seguintes países: Iraque, Azerbaijão, Bulgária, Grécia, Itália, Eslovénia, Irão, ¡ustria e Alemanha. No caso dos países europeus, o vírus foi detectado maioritariamente em cisnes. No Iraque verificou-se mesmo um caso humano fatal, uma jovem de 15 anos, suspeitando-se agora de mais 6 casos. Na Grécia, duas pessoas chegaram a ser colocadas sob quarentena por suspeita de infecção que não se veio a confirmar. Na Croácia, uma estirpe diferente do vírus, H5N3, foi também detectada.

No sudeste asiático, o vírus continua a fazer vítimas. Na Indonésia, morreram vítimas de gripe das aves mais duas mulheres, elevando a contabilidade deste país para 26 casos, 18 dos quais fatais. Na China, a infecção de uma jovem de 20 anos eleva a contabilidade deste país para 12 casos, dos quais 8 foram fatais.


Qual a relação entre o frio e a gripe?

"Não apanhes frio, olha que te constipas!". Quase todos nós já ouvimos esta frase, repetida pelos nossos pais, quando saíamos para a escola no Inverno. Mas teriam os nossos pais razão? Haverá de facto uma relação entre o frio e as constipações e/ou a
gripe? O facto é que todos sabemos que há mais constipações e gripes no Inverno.

Até agora não há nenhuma evidência científica que confirme que o arrefecimento do corpo possa provocar uma gripe. No entanto, empiricamente, o facto é que há uma crença enraizada na população em geral de que esta relação existe. Pode acontecer que ela exista mas ainda não tenha sido possível testá-la adequadamente em laboratório. Existe de facto uma teoria que o arrefecimento da superfície do corpo induz uma constrição pronunciada dos vasos sanguíneos do nariz, aumentando a nossa susceptibilidade às infecções respiratórias. Porque quando saímos à rua, mesmo se bem agasalhados, temos o nosso nariz exposto ao frio. Se esta teoria for verdadeira, usar um cachecol, ou outra peça de roupa, à volta da cara, por forma a aquecer o
nariz, ajudaria a prevenir constipações ou gripes.

No entanto, a explicação mais aceite para o padrão sazonal da gripe não é, para surpresa de muitos, o frio. A razão seria, segundo alguns especialistas, o facto de nos agregarmos mais em espaços fechados, e mal ventilados, durante o Inverno. Nestas condições qualquer indivíduo infectado tem a oportunidade de infectar muitas mais pessoas do que no Verão, altura em que passamos mais tempo fora de casa e mesmo esta
é muito melhor arejada.

Publicado por RPA às 2:03 AM | Comentários (1)

fevereiro 17, 2006

Cientistas-jornalistas escrevem Gazeta de C&T

Caros estudantes, investigadores, divulgadores e jornalistas de ciência e tecnologia,
Após quase quatro meses de aulas diárias de jornalismo no Cenjor, em Lisboa, vimos partilhar convosco o entusiasmo da recta final deste caminho, que teve como objectivo aprendermos a comunicar ciência pela escrita. O resultado deste trajecto é a primeira Gazeta, de 2006, dedicada em exclusivo à Ciência e à Tecnologia.
Durante a produção da Gazeta, espiolhámos o mundo que nos rodeia com olhos de jornalistas e não como cientistas, que somos ou já fomos. Tivemos que trabalhar sob a pressão do imediato e da actualidade. Confrontámo-nos com a deontologia própria do jornalismo, com a lei da proximidade, com a dificuldade de lidar com as fontes e com a lentidão ou ausência (desesperante) de respostas. Experiment ámos a dificuldade de escrever claro sobre o que pode ser extremamente complexo.
Com a ajuda, a paciência e a dedicação dos formadores (António Granado - editor deste primeiro número da gazeta de C&T do Cenjor -, Ana Moutinho, Paulo Chitas e Marina Ramos) escrevemos sobre temas fascinantes que estão à espera de ser lidos neste link (download de PDF com 1,4 Mb).

Até ao próximo número da gazeta, no final de Fevereiro.

Os alunos de Jornalismo de Ciência e Tecnologia do Cenjor,

Alexandra Araújo
Alexandra Rosa
Diana Lousa
Francisco Déci o Ferreira
Miguel Humanes
Patrícia M. Pereira
Rita Caré
Sheila Vidal


Cientistas-Jornalistas-MiguelHumanesJPG.jpg

Legenda:
De trás para a frente à esquerda: Francisco Décio Ferreira, Diana Lousa, Patrícia M. Pereira e Rita Caré
De trás para a frente à direita: Sheila Vidal (que não se vê), António Granado (formador), Alexandra Araújo e Alexandra Rosa

Autor da foto: Miguel Humanes

Publicado por maradona às 11:10 AM | Comentários (5)

fevereiro 16, 2006

Influenzoscópio

Avian-flu-188.gifA última semana foi marcada pela entrada e propagação, da gripe aviária, no continente europeu. Estão confirmados novos casos de infecção por H5N1 na Grécia, Itália, Bulgária, ¡ustria e Alemanha, na costa do mar Báltico. Esta é a primeira vez que o vírus atinge o norte da Europa. Afectou sobretudo cisnes selvagens que apresentam uma especial resistência à gripe podendo por isso mesmo, difundir mais eficazmente o vírus.

A Itália, Suécia, Noruega, Alemanha, Holanda, República Checa, Eslovénia e França ordenaram já aos seus agricultores que recolham as suas produções aviárias para espaços fechados e controlados. O Reino Unido, marcando uma vez mais a sua soberania e independência, ainda não declarou as mesmas medidas presumindo que “there is a low risk of the imminent arrival of the virus in the UK,” segundo as palavras do porta-voz do Departamento para o Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais que a Newscientist reproduz.

Por cá, e em linha com o nosso tradicional aliado, o jornal Público dá-nos conta do optimismo reinante entre os nossos peritos e alguns responsáveis políticos. Alguns escrevem mesmo na Revista da Ordem dos Médicos Veterinários, como é o caso do ornitólogo Vítor Encarnação, que "a possibilidade de risco que as populações destas espécies invernantes possam representar em Portugal é ínfimo". O bastonário da mesma Ordem, José Augusto Resende, corrobora afirmando que "são pequenas as hipóteses de o vírus aparecer nas espécies que emigram para Portugal".

A Subdirectora Geral da Saúde, Graça Freitas, mantém o nível de alerta na fase 3 (numa escala com limite máximo em 6) porque esta “continua a ser uma doença de tipo animal com contágio ocasional de humanos em contacto directo com aves infectadas”.

Tenho afirmado que o dever das autoridades passa pela prevenção e que parte da prevenção é assegurar a informação. Informar é esclarecer, é serenar através do conhecimento e da razão, é evitar o alarmismo.

Também sabemos que a escolaridade média no ambiente rural português é bastante inferior à do norte da Europa e que as medidas de emergência poderão ter impacto tardio por incumprimento e falta de adesão às recomendações. Defendo por isso, e dadas as circunstâncias locais, que deveríamos ter, talvez pela primeira vez na história da nossa saúde pública, um posicionamento mais restritivo do que a tradicional e habitual flexibilidade laxista.

Em Portugal, não está publicada uma carta de risco sísmico em cidades como Lisboa (com risco muitíssimo elevado) por decisão das “autoridades”, por receio de alarme e de aproveitamento ilegítimo das companhias de seguros... Os E.U.A., tal como outros países europeus, têm ambos, sismos e companhias de seguros, mas resolveram o problema de maneira diversa.

Quando escrevemos sobre “países” há sempre alguma estranheza, quase fatalismo, por uns serem mais ricos e desenvolvidos e outros menos. Mas são as pessoas que queremos responsabilizar, aquelas que não tomam as decisões que devem e que aferem as suas bitolas pelo padrão do subdesenvolvimento e da estagnação. São aqueles dirigentes de fraca cultura que revelam uma arrogância no exercício do poder que desconsidera e subestima a inteligência e a fibra do povo que o elegeu.

Os portugueses têm dado prova, desde o 25 de Abril, de que sabem escolher e de que têm como grande património o seu génio, tal como o tem repetido amiúde, o Presidente da República. Os portugueses merecem, por isso, que esse seu património seja respeitado e considerado.

Publicado por RPA às 2:35 PM | Comentários (8)

Apontador de cientistas portugueses

ganteatr.gifOs novos portugueses no estrangeiro são indivíduos em estado de perpétuo desequilíbrio, que deixaram de ter sentimentos puros pela pátria, os seus derivados e, necessariamente, os restantes portugueses. Um bacalhau nunca é um simples bacalhau, é uma manifestação de patriotismo e um momento com o alerta para a nostalgia no vermelho. Dependendo do vinho e do estado do tempo, às vezes a coisa descamba. Encontrar um outro português provoca efeito semelhante, mas agravado. Explicar esta ambivalência a quem vive na pátria ou a emigrantes mais velhos não é tarefa fácil. Prevalece a ideia de que no estrangeiro temos saudades de todo e qualquer português, só porque falamos a mesma língua. É uma ideia errada. Não vou dizer nomes, mas sei de gente na diáspora que vê o convívio prolongado com compatriotas como uma espécie de batota, que trai - a ideia é vagamente ofensiva, preparem-se - um dos objectivos de ir para fora de Portugal: conhecer pessoas. As opiniões negativas que ouvi a propósito do novo apontador de cientistas portugueses têm origem nesta aversão ao espírito de tribo e, no fundo, encerram a ideia de que somos antes de mais cientistas. No limite, um apontador de cientistas portugueses seria tão útil como uma base de dados de cientistas com olhos azuis ou capazes de mover os pavilhões auriculares. Não é essa a minha opinião. É verdade que a ciência está além das nações e que nas ciências duras e afins as escolas de pensamento com cariz nacional estão há muito tempo condenadas. Ainda assim, com alguma modéstia percebe-se que a ferramenta é boa (ver explicações). Antecipo desde já - e sem ironia - alguma utilidade no planeamento das pernoitas quando se anda à procura de laboratório (tragam saco-cama, por favor). Numa segunda fase, dependendo da participação no preenchimento dos perfis individuais (demora 5 minutos), poderemos ficar a dispor de uma boa base de dados para estudos sobre as actividades dos cientistas portugueses. Sobre o nome do apontador ("Papa-formigas"), o melhor é pedirem explicações ao autor do projecto, o Tiago Carvalho. Eu teria chamado à nova ferramenta Big Zé, com ternura.

Publicado por Conta Natura às 12:05 AM | Comentários (6)

Market Forces

Uma proposta muito curiosa. Lembra-me aquela ideia de usar apostas para prever ataques terroristas...

Rui


Nature 439, 782 (16 February 2006)

"Peer review could be improved by market forces"

Klaus Jaffe

(Laboratorio de Comportamiento, Universidad Simˆn Bolívar, Apartado 89000, Caracas 1080, Venezuela)

Sir:
Although peer review seems the best system for quality control of scientific publications and grant proposals ("Three cheers for peers" Nature 439, 118; 2006), we might try to improve it. Market forces are known to optimize complex systems where multiple players have conflicting interests. Economic principles and internet technology could be applied to a peer-review system in the following way. First, a central digital repository receives a paper for a fee 'x'. Potential referees then bid to review the paper, and, if approved by the author, receive a fee 'y

Referees who can recommend an appropriate journal for the paper and provide the required reference are given due credit and might eventually raise their fee. Authors wanting additional improvements to their work might also pay a higher fee.

Soon, an active exchange could take off where referees quote their position in the peer-market as eagerly as authors quote their citation impact. This system could diminish the workload of referees, by reducing the need to review the same paper for different journals. Eventually this system might be run as an independent peer-review exchange for a profit.

Publicado por maradona às 12:00 AM | Comentários (0)

fevereiro 15, 2006

"Morrem cedo aqueles que os deuses amam..."

Foi com enorme tristeza que acabámos de receber a notícia do falecimento do Mário Penha-Gonçalves, irmão do Carlos de que eu bem-humoradamente falei no post anterior...

Podia dizer que ele era uma jovem estrela ou falar do seu futuro promissor. Seria verdade, claro, mas não é isso o mais importante. Para mim o mais importante é dizer que o Mário era meu amigo e tenho infinita pena de não voltar a trocar larachas com ele naqueles corredores em Mill Hill...

O Mário estava a fazer um post-doc no National Institute for Medical Research em Londres, e estudava os mecanismos de migração e adesão de precursores hematopoiéticos, durante o desenvolvimento embrionário.

Aos seus colegas, à sua mulher e ao seu filho e à restante família, apresentamos os nossos sentidos pesâmes. Para o Carlos em particular vai também um grande grande abraço nosso de amizade e de solidariedade.

Em memória do Mário deixamos estes versos de Fernando Pessoa:

Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei certa e falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro , entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.

Publicado por Santiago às 3:50 PM | Comentários (0)

fevereiro 14, 2006

Rei, Capitão, Soldado, Ladrão...

Mero Tenente.jpg Aos 26 minutos do Telejornal de 13 de Fevereiro (pode ser visto aqui) vem a notícia de 3 novos laboratórios, financiados pelo Ministério da Defesa, dedicados à investigação contra a "ameaça" bioterrorista. Diria que os 800.000 euros que, segundo a peça, foram gastos a equipá-los não chegam para fazer uma "coisa muito a sério", mas esperemos que este investimento continue e aumente significativamente. Seja como fôr, é de saudar o surgimento de novas fontes de financiamento de investigação, não dependentes do Ministério da Ciência.

O que me impressionou mais foi o elegante investigador que, como um artilheiro afinando a pontaria, faz o "loading" do seu Gel ostentando, orgulhoso, os galões de Tenente. O respeitinho é uma coisa muito bonita e tenho a certeza que não haverá molécula da ADN naquela experiência que se atreva a migrar para a posição errada, ou ausentar-se sem licença, caindo pelo fundo...

Tenente-Coronel.jpg
No Ospedale Bambino Ges˘, onde trabalha uma amiga minha, os laboratórios têm crucifixos nas paredes (diz ela que mesmo assim há experiências que são o diabo para funcionarem...). Fiquei com curiosidade de saber o que decorará as paredes (talvez devesse ter dito muralhas) destes novos laboratórios: G-3? Lança-granadas? A Torre e Espada?

É melhor fazer essa pergunta ao Director deste programa de investigação em bioterrorismo. Trata-se de um galhardo Tenente-Coronel, bem conhecido da maioria dos nossos estimados leitores (e de muitas das leitoras...). Se eu me vestisse assim, não acredito que os meus estudantes se atrevessem a discordar de mim ou a fazer-me perguntas difíceis...

Publicado por Santiago às 9:10 PM | Comentários (5)

Veia de saudade

il etait une fois la vie.jpgUm amigo relembrou-me esta série da minha infância. “Era uma vez...a vida” explicava como é que funcionava o corpo humano, as células, o DNA. Havia os homenzinhos vermelhos que transportavam as moléculas de oxigénio e que ficavam mais claros quando as libertavam, havia os polícias brancos, uns que libertavam umas criaturas voadoras (anticorpos), outros que comiam seres indesejáveis (macrófagos?), a central de produção, os operadores que enrolavam o DNA convenientemente (helicases, talvez?). Vi um episódio desta série há pouco tempo (já não via desde o liceu) e pasmei-me com quantidade e rigor da informação que ali estava. Em meia hora acho que coube metade da minha licenciatura.
Pela facilidade que há em obter os episódios na internet, acho que não sou a única a gostar de me recordar desta série. Mas resolvi mencioná-la aqui. Todos juntos agora:
“Et voici la vie”…

Publicado por MM às 1:02 PM | Comentários (14)

fevereiro 13, 2006

Ficção Natural: ad fruges.

Um jovem investigador de elevado potencial (JIEP?), produziu uma linha de moscas-da-fruta (Drosophila melanogaster) que sobrexpressavam em larvas todos os genes requeridos para a produção de canabinóides a partir de proteína de levedura, sem contudo permitir que estes atingissem níveis tóxicos para aquelas. Depois, amplificou o respectivo stock (cujos insectos também possuíam vantagens reprodutivas em relação aos do tipo selvagem) e, num belo dia de Primavera, libertou cerca 200.000.000 de indivíduos ao vento. Dez anos mais tarde o jovem, já não tão jovem, vivia de uma dieta exclusivamente baseada em bananas maduras, enquanto os traficantes de marijuana morriam de fome.

Publicado por VB às 10:41 PM | Comentários (5)

Do verbo à verdade

DMlogo.jpgJohn
8:31 Then said Jesus to those Jews which believed on him, If ye continue in my word, [then] are ye my disciples indeed;
8:32 And ye shall know the truth, and the truth shall make you free.

Recentemente vieram à tona algumas fraudes científicas espectaculares. A mais conhecida, amplamente noticiada, foi o caso do Dr Hwang e suas mágicas células estaminais. No espaço de alguns meses, o cientista Koreano navegou os arquétipos da sabedoria asiática de um extremo ao outro. Começou Senhor Myagi e terminou Fu Manchu. Foi uma queda vertiginosa, de 11 linhas de células estaminais humanas obtidas a partir de adultos, a 2 linhas humanas, até finalmente parar em um (01) cão clonado.
Pouco tempo depois, um grupo Norueguês foi acusado de ter inventado um importante estudo de cancro oral, publicado na revista Lancet, que habita, em conjunto com o New England Journal of Medicine, o Olympo das revistas de investigação clínica. Este caso também tem traços de telenovela mexicana (nunca passaria pelo controle de qualidade da Rede Globo): os co-autores do acusado incluem sua mulher e seu irmão gêmeo. O autor sênior, um certo Jon Sudbo, caiu na desgraça científica, mas ascendeu ao panteão dos autores épicos em vista da acusação de fabricar nomes, dados clínicos e diversos outros parâmetros de 908 pacientes. Aos seus pés estão Tolstoy e Dickens e os ridiculamente pobres elencos de clássicos como Guerra e Paz ou A Tale of Two Cities. [nota do editor: Balzac?]

A fraude canónica, o ne plus ultra da sacanagem em Biologia, certamente foi o Homem de Piltdown. Eoanthropus dawsoni era supostamente um hominídeo fóssil datando do Pleistoceno. O nome vulgar seguiu a regra comum em espécimes de hominídeos, sendo derivado do local de descoberta (Homem de Peking, o Homem de Java, etc), Piltdown em Sussex, na Inglaterra. O cavalheiro teve seu debut social ao ser apresentado em reunião da Royal Society em Londres, em dezembro de 1912. Imediatamente se tornou uma sensação, não só na comunidade científica, como também da mídia da época. O Homem de Piltdown seria o famigerado Elo perdido, um título itinerante em biologia humana, que hoje em dia se encontra em posse, diriam alguns, do Presidente Bush, diriam outros, do grande Steven Seagal.
A fraude durou quase meio século, até 1953. A bem da verdade, Eoanthropus não se enquadrava na sequência de hominideos predominante, e mesmo muitos dos antropólogos que não suspeitavam da sua autenticidade acreditavam que ele representava uma linhagem menor, um cul-de-sac da evolução humana.
Se me permitem um momento Martha Stewart [especialista em etiqueta e talentos domésticos, também ex-presidiária] , aqui vai a receita do Homem de Piltdown, segundo uma equipa de investigadores do British Museum:

1 crânio humano medieval
1 mandíbula de orangotango de Sarawak
Dentes fossilizados de chimpanzé a gosto
Temperar com solução férrica e ácido crómico

A historia do Homem de Piltdown tem um elenco enorme de suspeitos; o acusado mais frequente é o próprio descobridor, Charles Dawson. Mas os participantes das escavações em Sussex e da análise de Eoanthropus incluíram figuras como Sir Arthur Woodward, curador de história natural no British Museum, Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) e Pierre Teilhard de Chardin*, vários dos quais foram apontados como sendo o culpado. Como a moda de Jack o Estripador, a fraude de Piltdown originou muitas teorias, algumas banais, outras enxergando vastas conspirações.doghwang.jpg
Em comun com a fraude de Hwang, o caso de Piltdown foi obviamente premeditado e laboriosamente executado. Ambos os casos também escolheram temas de ressonância junto ao grande público. Deste modo, os autores transcendem o dano à comunidade científica em geral, e em particular aos desgraçados que têm como ponto de partida para seus próprios experimentos relatos espúrios. Mas o mais grave é trazerem para um debate público onde a ética já se debatia legitimamente, como no caso das células embrionárias, o estigma da desonestidade.

Para o Dr Hwang, ao lago com botas de cimento.

Legenda das figuras: Dick Vigarista e Muttley, em 1969 (cartoon), e Dick Vigarista e Muttley, em 2005 (fotografia).

Thiago Lopes-Carvalho

[nota final: a coluna do Senhor não foi publicada ontem por falha minha; o Senhor Thiago foi de irrepreensível pontualidade.]

* Pierre Teilhard de Chardin foi um padre Jesuíta que se dedicou a biologia, tentando adaptá-la aos desígneos Divinos. Em termos objetivos, está para a Biologia séria, com B maiúsculo, como Britney Spears está para a mecânica quântica. Sua obra The Phenomenon of Man foi objecto de uma devastadora crítica do nobelista brasileiro Peter Medawar, disponível online http://www.cscs.umich.edu/~crshalizi/Medawar/phenomenon-of-man.html
e de onde tiro esta pérola: “It would have been a great disappointment to me if Vibration did not did not somewhere make itself felt, for all scientistic mystics either vibrate in person or find themselves resonant with cosmic vibrations; but I am happy to say that on page 266 Teilhard will be found to do so.”

Publicado por Conta Natura às 5:12 PM | Comentários (3)

fevereiro 10, 2006

Gripe a voar

051014AvianFlu.jpg

Publicado por SJA às 3:05 PM | Comentários (0)

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgEsta foi mais uma semana com grandes desenvolvimentos no domínio da Gripe Aviária. A OMS anunciou a presença da gripe das aves na Nigéria e declarou que "esta é a primeira vez que uma estirpe altamente patogénica da gripe aviária é detectada em ¡frica".

Leia agora a newsletter desta semana do Gripept.net que aborda o interessante tema da influência da saúde psíquica no desenvolvimento de infecções. E não se esqueça, visite o site e participe neste projecto. Portugal é o terceiro país no mundo a acolher esta inciativa.

A influência do stress na gripe

Quando damos de caras com um rinoceronte selvagem, torna-se bastante premente pensar muito rapidamente numa forma de fugir dali para fora o mais rápido possível. O corpo reage a esta situação de perigo, ou situação de stress, produzindo hormonas do stress como a adrenalina e o cortisol. Estas hormonas induzem a dilatação dos vasos sanguíneos dos nossos músculos, aumentam o nosso ritmo cardíaco e pressão arterial, e a dor é temporariamente suprimida. Este processo prepara o seu corpo para poder escapar à situação de perigo o mais rapidamente possível. Hoje em dia, as probabilidades de encontrar um rinoceronte selvagem ao virar da esquina são muito baixas, mas muitas outras situações podem ser indutoras de stress: um patrão que nos incita constantemente a desempenhar as nossas tarefas mais rápido; um exame difícil no dia seguinte; bem como a educação dos nossos filhos, são situações que podem aumentar os nossos níveis de stress.

Um dos efeitos secundários da adrenalina e do cortisol é que o sistema imune é temporariamente suprimido. Quando uma situação de perigo está presente apenas por um curto espaço de tempo, isto é bastante útil: toda a nossa energia deve ser usada para escapar à situação de perigo iminente. No entanto, pessoas constantemente expostas a situações menos intensas de stress mantêm a longo prazo níveis elevados destas hormonas. Estas pessoas, cronicamente sob stress, são desta forma mais vulneráveis à infecção por bactérias e vírus como o vírus da gripe. É também sabido que o stress pode temporariamente piorar os sintomas de doenças auto-imunes como a Esclerose Múltipla e o reumático.


Estudo sobre o stress no projecto Holandês


Durante o projecto de monitorização da gripe na Holanda em 2004-2005, um questionário extra por mês foi apresentado aos participantes para analisar a relação entre o stress e o risco de contrair gripe. Entre outras perguntas, os participantes eram convidados a responder sobre quão relaxados se encontravam naquele momento, se as coisas lhes corriam como planeado e se eventos de irritação afectavam as suas actividades.


Os resultados mostraram, como esperado, que as pessoas sob maiores doses de stress sofrem de facto mais síndromas gripais (1,27 vezes mais que a média). Surpreendentemente, o grupo que apresentava mais vezes a doença foi o dos homens extrovertidos (1,39 vezes mais que a média). Para ser infectado com o vírus da gripe, é necessário entrar em contacto com o próprio vírus. Os homens extrovertidos serão possivelmente mais activos socialmente, e consequentemente estão em maior risco de entrar em contacto com uma pessoa infectada. Os dados do projecto apontam para uma maior influência do stress nos homens do que nas mulheres, mas as razões para isto não são claras.

Publicado por RPA às 12:17 PM | Comentários (2)

fevereiro 9, 2006

Ciclope cínico

DUPLO.jpg Autoclave_small.jpgAutoclave (s.f.do Gr. autós, próprio + Lat. clave, chave) máquina usada para cocções sem evaporação. 1. Culinária: é popular nos Pubs Ingleses, mais a julgar pela consistência dos vegetais do que pelo seu asseio, ou o dos seus clientes. 2. Catch 121: há apenas um organismo capaz de resistir às altas temperaturas da autoclave (121 C), a "estirpe 121" (arqueobactéria). Alguns alentejanos de Beja contestaram este dado e um terá dito: "nem nesse panelão eu dispo a minha samarra, compádri". 3. Uso desaconselhado e luta sindical: a esterilização é total; curiosamente, no caso do doutorando remediado que se lembrou de reciclar preservativos usando a ~ , o efeito foi o oposto. As associações estudantis hesitaram em fazer deste episódio bandeira na luta para a obtenção de regalias sociais. A criança nasceu bem. 4. Pasteurização radical e prevenção do pecado: é muito útil para esterilizar objectos e soluções que resistam a altas temperaturas, mas o seu uso para fins didácticos, como modelo portátil do Inferno, tem encontrado resistência nos corredores do Vaticano. Aqui prefere-se o Conclave, com propósitos ligeiramente diferentes, apesar do fumo que também se solta.
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Publicado por Conta Natura às 10:31 PM | Comentários (0)

Um mundo perdido

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Assim à laia de "Skull Island", uma equipa científica internacional descobriu um mundo perdido nas florestas da Papua-Nova Guiné. Esta parte da selva indonésia é habitat de dezenas de novas espécies de animais e plantas. Não trouxeram um King Kong de volta à civilização, mas identificaram novas borboletas e plantas numa zona em que se pensa que o Homem nunca chegou.

Publicado por SJA às 6:07 PM | Comentários (3)

Cíclope Cínico

PV.jpgSwiss A K.jpgAlosteria (s. f.; do gr. állos, outro, + stereós, sólido) Mudança de conformação e/ou actividade por interacção sobre um sítio que não o sítio activo. 1. Onomástica Esta forma de regulação da actividade enzimática foi originalmente descoberta por um senhor premonitoriamente crismado Changeux 2. "Canivete suiço conceptual" Quando não se tem a menor ideia sobre o fenómeno que estudamos, a alosteria é uma explicação que a todos conforma...hum, conforta 3. Derrapagem multicultural Histeria dirigida contra civilizações alheias, desculpabilizando sempre a própria (do gr. allos, outro + hyster, útero)

Publicado por Santiago às 4:38 PM | Comentários (0)

Gânglios Linfáticos: Os primeiros 40 anos

Anúncio.jpg

Publicado por Santiago às 11:50 AM | Comentários (0)

fevereiro 8, 2006

A troca

Imaginem um grupo de indivíduos que têm tudo para ser felizes e viver bem. Trabalham, tem casa e o suficiente para comer, têm diversas actividades sociais e estão bem inseridos no seu grupo. No entanto, estes indivíduos passam grande parte do seu tempo livre e gastam uma quantidade incrível de recursos com o único objectivo de trocar certos objectos com outros indivíduos. Todos os indivíduos já possuem estes objectos, simplesmente cada indivíduo tem um objecto ligeiramente diferente. Não são de modo nenhum necessários à sobrevivência ou ao conforto. (Não, isto não é uma campanha contra o vício de coleccionar cromos).
O acto de efectuar a troca gasta imensos recursos energéticos, deixando os indivíduos exaustos e/ou a precisar de um bom pequeno-almoço. Talvez por causa disto, pelo menos metade dos indivíduos preferem efectuar a troca no Sábado à tarde. (Se houver alguém que, até este ponto, ainda não tenha percebido qual é a troca, por favor deixem uma nota nos comentários que é para eu ver quantos românticos iludidos ainda há neste mundo).
Depois, há o incrível gasto de recursos para convencer o indivíduo com quem queremos efectuar a troca a aceitar. Pode ser preciso pagar-lhe o jantar, ou então passar várias horas em frente ao espelho a enfeitar-se para tentar tornar a proposta mais atraente. Alguns indivíduos, para não estarem sempre a gastar estes recursos, chegam a estabelecer um contrato vitalício para fazer a troca sempre com o mesmo indívduo.
O mais triste é que isto não é uma opção que um grupo de indivíduos tome conscientemente, mas sim um impulso biológico praticamente incontrolável, muitas vezes mais forte que o próprio instinto de sobrevivência. Que chatice.

Porquê? Porque é que há necessidade de trocar genes entre indivíduos para passar à descendência uma mistura de genes de mais que um progenitor? Enfim, porquê o sexo?
"A rainha de copas" de Matt Ridley, editada em portugês em 2004 pela Gradiva, tenta responder a esta questão e a outras associadas (por exemplo, porque é que alguns mamíferos têm dois sexos enquanto outras espécies tem vários).
O livro é de leitura um pouco difícil. Em parte devido à tradução (o tom jocoso e jogos de palavras de Matt Ridley devem ficar muito mais agradáveis no original), em parte devido à falta de esquemas e imagens e em parte devido à própria complexidade do tema - as teorias de evolução são complexas e muitas vezes contra-intuitivas. Chamo a atenção também para o facto deste livro ter sido publicado no original em 1993, pelo que algumas das teorias podem já ter sido provadas ou desprovadas, e já deve haver novas ideias sobre o problema. Por exemplo, Matt Ridley ainda fala no livro de 70000 genes no genoma humano, quando se sabe agora que existem menos de 35000.
Mas o assunto é fascinante e intrigante o suficiente para merecer um pouco de esforço. Feliz leitura. E já agora, desejo para a semana um feliz dia de S. Valentim.

Publicado por MM às 2:35 PM | Comentários (0)

fevereiro 7, 2006

Não é fraude, mas é crime também...

Rakesh.jpgSuponhamos que o amável leitor se interessa por citoquinas e respectivas vias de transmissão de sinal. Caso se encontrasse a escrever um artigo científico sobre esse tema podia bem acontecer que, numa qualquer search pelo PubMed, viesse a encontrar o Review representado na imagem, publicado em Setembro de 2005 no Biochemical Pharmacology por Rakesh & Agrawal.

1.jpg
Como nestas coisas é da mais elementar cortesia não se esquecer de citar todos os grupos com trabalho publicado nesta área, o amável leitor não iria esquecer, certamente, um Review anterior, publicado por Wormald & Hilton em Janeiro de 2004, no famosíssimo Journal of Biological Chemistry.
Ora, a outra regra não escrita desta profissão (embora, infelizmente, seja tantas vezes desrespeitada) manda ler na totalidade os artigos citados. O sumário (à direita) do artigo do J Biol Chem cria uma inescapável sensação de dejá vu...

Os artigos são diferentes (embora tratem do mesmo assunto) por isso essa sensação fica confinada à parte "menor" do artigo que é o abstract. Não é difícil imaginar o que se terá passado, mas é difícil não ficar surpreendido com a estupidez revelada pelo jovem cientista que fez esta coisa estapafúrdia: Plágios tão descarados, mais a mais de um artigo numa revista tão lida como o JBC, nunca ficam muito tempo sem ser descobertos... (já agora refira-e por curiosidade que, sem surpresa, o artigo de Wormald não foi citado por Rakesh)

A terminar registemos que naquele caso de plágio ocorrido recentemente em Portugal houve ao menos o esforço de tradução de um texto para português. Neste caso nem isso...

Publicado por Santiago às 12:15 PM | Comentários (12)

fevereiro 6, 2006

Ciclope Cínico

PV.jpgTorero1.jpgAlgia ((s.f.; do gr. álgos, dor) Dor localizada sem lesão ou traumatismo fisico 1. Quadros clínicos: é frequente a cornalgia (que os francófilos preferem designar por chifralgia) e a cotovelalgia. 2. Transmutação poética: técnica de difícil apuramento, para praticar com mestre, que entre os mais melancólicos é o oposto da somatização de sintomas, tendo sido descrita por Fernando Pessoa nos famosos versos: O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente 3. Calão mal-sucedido: às vezes dói tanto elogiar alguém que quase se deveria falar em "algiar", um novo tipo de engraxanço, motivado pela compaixão.

Pintura de Pablo Picasso, mostrando uma cornada capaz de provocar um traumatismo real, distinguindo-se assim da cornalgia.

Publicado por Conta Natura às 9:03 PM | Comentários (1)

Ciclope Cínico

DUPLO.jpgsteroid_Muscles.jpgAnabolizante: (adj. ) o que promove o crescimento de tecido muscular.1. Desporto: o palmarés olímpico combinado de Weissmuller, Zatopek, Spitz e Lewis ainda fica aquém do destas hormonas, embora se diga que algumas medalhas sejam até partilhadas. 2. Transsexualismo: são usados para transformar graciosas chinesas em entroncados e varonis nadadores. 3. Efeitos secundários: acne, disfunção sexual, alopecia prematura (pleonasmo), humilhação pública (a devolução de medalhas) e/ou privada (a atrofia testicular). 4. Teatro: é também o nome de uma má técnica de representacão desenvolvida pela actriz portuguesa Ana Bola.

Publicado por Conta Natura às 9:00 PM | Comentários (0)

Exodus

burning_Bush.jpg7 And the LORD said, I have surely seen the affliction of my people which are in Egypt, and have heard their cry by reason of their taskmasters; for I know their sorrows;
8 And I am come down to deliver them out of the hand of the Egyptians, and to bring them up out of that land unto a good land and a large, unto a land flowing with milk and honey; unto the place of the Canaanites, and the Hittites, and the Amorites, and the Perizzites, and the Hivites, and the Jebusites.
9 Now therefore, behold, the cry of the children of Israel is come unto me: and I have also seen the oppression wherewith the Egyptians oppress them.
10 Come now therefore, and I will send thee unto Pharaoh, that thou mayest bring forth my people the children of Israel out of Egypt.


Ao contrário das células tronco embrionárias pluripotentes, o actual Santo Graal da medicina, as células estaminais (ou tronco) do sistema hematopoiético (HSC)- que têm a capacidade de gerar todas as outras células do sangue- fazem parte da realidade clínica. As HSCs normalmente se encontram na medula óssea, muito próximas da superfície do osso, numa zona acessível apenas pela via dolorosa da biopsia. A citoquina* G-CSF (granulocyte-colony stimulating factor) é desde longa data usada como factor de mobilização das HSCs. A mobilização se refere à migração de grandes números destas células para a corrente sanguínea. O G-CSF pode não ser um sinal tão dramático quanto o arbusto em chamas a falar com Moisés, mas essencialmente os dois estão a dizer a mesma coisa: “hit the road, Jack”.

Entretanto, o mecanismo desta mobilização das HSCs pelo G-CSF não é conhecido em detalhe. Recentemente na revista Cell Yoshio Katayama** e colaboradores propõem uma nova interacção durante o processo de mobilização, através da acção do sistema nervoso. Antes que alguém se ponha a fazer ioga ou meditação transcendental para por as células tronco a correr, cabe a ressalva que o trabalho se refere ao sistema nervoso autónomo, no seu ramo mais casmurro, paradoxalmente conhecido como o simpático. Como meus dois leitores devem se recordar da fisiologia do secundário, o sistema nervoso pode ser dividido em somático e autonómico. O sistema nervoso somático (SNS) recebe sinais dos orgãos sensoriais (os olhos, ouvidos, etc), e através dele efectuamos respostas usando os músculos esqueletais. Por exemplo, é através do SNS que a sensação de desconforto nos testículos da origem ao tradicional gesto da mais fina elegância masculina que na minha terra se chama “coçar o saco”. Em geral isto tudo se processa no córtex cerebral de modo consciente. Já o sistema nervoso autónomo (SNA) trata principalmente dos estímulos dos órgãos internos, regulando por exemplo o batimento cardíaco e o movimento do diafragma- embora o SNA também responda a estímulos externos, como mudanças de temperatura. Em geral estes sinais se processam em regiões que na minha época se diriam mais primitivas do cérebro, como a medula e o hipotálamo. Finalmente, o SNA se divide em parassimpático e simpático. Alguns componentes do sistema parassimpático estão sob o controle pelo menos parcialmente consciente- felizmente ainda temos direito a alguma opinião sobre o abrir e fechar de certos esfíncters. O SNA simpático entretanto, com perdão da indelicadeza, está a se cagar para o que queremos ou deixamos de querer. E aqui retomamos nosso filme, o G-CSF, as HSCs e o SNA simpático- A Vingança dos Acrónimos.stem-cell.jpg


Katayama et al demonstram mais uma vez o quanto Pasteur estava certo quando disse que “o acaso favorece o jogador com quatro ases”. O grupo estudava outro mecanismo de regulação da mobilização das HSCs, através da síntese de uma moécula chamada sulfatide. Usando murganhos geneticamente modificados para não produzirem uma enzima (Cgt) necessária à síntese de sulfatide, revelaram uma deficiência na mobilização de HSCs em reposta a G-CSF. Até aí, tudo ia conforme o esperado. Mas testes subsequentes demonstraram que a mobilização deficiente era independente da síntese ou não de sulfatide. Uma das consequências da deficiência de Cgt é uma produção precária da bainha de mielina, uma proteína que reveste as fibras nervosas, agindo como isolamento elétrico e garantindo a integridade da transmissão dos sinais nervosos (a progressiva desmielinização dos nervos em humanos tem uma consequencia trágica, a esclerose múltipla). Partindo desta observação os autores examinaram diversos modelos genéticos e farmacológicos onde a sinalização do sistema nervoso se encontrava alterada e concluíram que a produção de noradrenalina pelo SNA simpático é em grande parte responsável pelos efeitos mobilizadores do G-CSF.

O artigo inaugura uma linha de investigação promissora não só pelas possibilidades terapêuticas e farmacológicas, mas também do ponto de vista da ciência básica. Qual será a importância do sistema nervoso na fisiologia da hematopoiese? Alguns editores desta página se têm dedicado ao estudo das diferentes fases da produção das células sanguíneas, que tem uma aspecto cigano, começando em primordios embrionários com nomes giros como esplancnopleura paraortica (gesundheit!), passando pelo fígado fetal e o baço do recém nascido, até se instalar definitivamente na medula óssea. Estará este êxodo ligado ao desenvolvimento dos nervos periféricos? Ou então à produção de noradrenalina? Conseguirão nossos heróis escapar da diabólica armadilha do Coringa?
Join us next week...

Até lá, Bom Domingo. And by the way, if you are reading this, Happy Birthday, Laura Linney. Call me.

Thiago Lopes-Carvalho

laura68.jpg
* Citoquinas são moléculas usadas para comunicação entre células- quando por exemplo um linfócito produz a citoquina interferão-gama está frequentemente avisando outras células que foi detectada uma infecção viral. O nome, como no caso do G-CSF, em geral denota a primeira observação empírica do efeito da molécula- mesmo que com a passagem do tempo este não se tenha revelado o mais importante.

** “Signals from the Sympathetic Nervous System Regulate Hematopoietic Stem Cell Egress from Bone Marrow.” Yoshio Katayama, Michela Battista, Wei-Ming Kao, Andrés Hidalgo, Anna J. Peired, Steven A. Thomas, and Paul S. Frenette. Cell, Vol 124, 407-421, 27 January 2006.

*** Nota do editor (VMB): a citação original, que o Thiago parafraseia à la Monte-Carlo, pervertendo-a(!) é: "Dans les champs de líobservation, le hazard ne favorise que les esprits préparés".

Publicado por Conta Natura às 12:21 AM | Comentários (0)

fevereiro 5, 2006

Ciclope cínico

DUPLO.jpg marte.jpgAlopecia (s.f. do Lat. alopecia < Gr. alopekía de alópex, raposa) Perda de cabelos por doença ou fardo genético 1.Wishful Thinking: todo o careca jura que a quantidade de cabelo é inversamente proporcional à virilidade. A sabedoria popular confirma esta tese e, por isso, o microimplante capilar e o recrutamento a pente de cabelo das têmporas para o couro descabeludo, técnicas populares entre alguns calvos, não revelam vaidade, mas sim modéstia. 2. Etimologia: a origem da palavra alude a um animal que larga muito pêlo. Se os gregos chegaram a tal conclusão silogisticamente ou após uma urgência intestinal rematada de improviso, é mistério que permanece insondável. Em todo o caso, o perpétuo entupimento de muitos ralos de banheira leva-nos a pensar que não havia necessidade de ir buscar um exemplo tão rebuscado 3. Gender studies: a ~ é geralmente masculina (androgénica). Diferenças nos níveis dos enzimas que metabolizam a testosterona e no número de receptores androgénicos explicam que o sexo feminino em regra não sofra deste problema, inclusive as mulheres que não aloiram o buço.

Para não ferir egos susceptíveis, optou-se por ilustrar a entrada com uma imagem do planeta Marte.

Publicado por Conta Natura às 7:12 PM | Comentários (1)

fevereiro 4, 2006

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgO "Correio da Manhã" de hoje relata o desnorte em que se encontram algumas instituições de saúde em face da ameaça da versão humana da gripe aviária. Desconheço se é verdade ou não a totalidade do relato, mas garanto a veracidade em pelo menos um grande hospital de Lisboa. Não vou recordar os comentários anteriores em que sublinhei a necessidade do planeamento atempado e exaustivo dos procedimentos de combate à pandemia.

Ainda há um mês atrás a SIC Notícias apresentava um documentário onde se observavam reuniões do gabinete britânico de crise para a Gripe Aviária. Pudemos ver quem são e o que pensam. Conhecemos que bom ou mau senso poderão ter ao propor um encerramento de escolas ou aeroportos. Acima de tudo, sabemos quem são, o que fizeram e o que pensam porque o discutiram perante as câmaras. Por exemplo, a Dr.™ Angela McLean é umas das conselheiras do gabinete que eu, por um acaso, tive o prazer de conhecer no Pasteur, quando se encontrava em Paris a fazer um pós-doutoramento no laboratório, curiosamente, de um português, do Prof. António Freitas.

Deu-me satisfação ver como uma equipa multidisciplinar trabalha tão bem, juntando clínicos, matemáticos, imunologistas, microbiologistas e médicos de saúde pública com formação epidemiológica. No Reino Unido existe um gabinete de "sábios" longe das instituições públicas e políticas que reflectem e aconselham e que, para sua sorte, já têm desde Setembro um plano completo de intervenção.

O que fará a DGS se milhares de doentes correrem para os hospitais em busca de um tratamento para a Gripe das Aves, como já fazem em relação a uma constipação?

Já vai sendo tempo de se respeitar o direito à informação dos cidadãos portugueses, especialmente em matérias em que a inacção da tutela poderá representar a doença e talvez a morte de muitos. O Conta permanecerá atento e vigilante.

Leia agora a newsletter desta semana do Gripept.net

Mercado de acções para previsão da gripe

Extrapolando o velho provérbio "duas cabeças pensam melhor do que uma", um grupo de economistas da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, vem desenvolvendo sistemas que tornam instintos de indivíduos em previsões do futuro. Após testar o método em previsões do resultado das eleições presidenciais e no número de vendas de exemplares de um novo volume Harry Potter no dia do seu lançamento, o grupo dedicou-se à previsão de epidemias de gripe. Este curioso sistema funciona com base
em apostas.

Os sistemas de vigilância da gripe monitorizam a ocorrência de casos de gripe e publicam os resultados semanalmente. Essa informação pode ser representada por um mapa dividido em regiões, sendo que cada região é colorida de modo a reflectir o
nível de actividade gripal. O mapa ao lado ilustra essa representação com os dados para Portugal continental recolhidos pelo projecto Gripept.net na semana 19-25 de Janeiro deste ano.

Os economistas contactaram 60 médicos residentes em Iowa e deram a cada um 100 "dolars gripais". Os médicos usaram esses dolars para comprar e vender acções para uma determinada semana no futuro. As acções tinham uma cor de acordo com a codificação usada na vigilância da gripe. Assim, e de acordo com o esquema ao lado, comprar uma acção vermelha para o Algarve na semana 9-15 de Março representaria uma aposta de que o Algarve vai ter uma incidência entre 20-40 por 10.000 habitantes nessa semana.

Nos Estados Unidos, a época gripal de 2004/05 contou com 52 médicos que aderiram a este sistema de transacção de acções. No final da experiência, cada dolar gripal foi convertido num verdadeiro dolar americano e oferecido aos participantes sob a forma de uma bolsa de estudo.

O sistema funcionou extremamente bem. Este original mercado de acções foi capaz de prever as cores, com uma exactidão de 80%, a três semanas de distância. Os resultados foram melhores que os métodos tradicionais e, este ano de 2005/06, o sistema está a decorrer em todos os estados dos EUA.

Concursos Gripept.net

O Gripept.net acaba de lançar uma nova competição para a previsão da epidemia da gripe nesta época de 2005/06. No site do projecto pode agora aceder a uma página onde pode submeter a sua previsão da epidemia da gripe ? www.gripept.net/?q=game_guess_curve. Os pontos verdes representam as semanas já passadas e serão fixos. Para as semanas futuras encontrará pontos vermelhos que deverá deslocar construindo assim a sua previsão. Submeta a sua previsão e candidate-se a um computador portátil.

Outro lançamento recente do Gripept.net é o concurso "A gripe Vai à Escola", que assume três modalidades: "Galeria de Arte", destinada ao Ensino Pré-Escolar e Ensino Básico; "¡rea de Projecto", destinada ao Ensino Básico; "Jornalismo Científico", destinada ao Ensino Secundário. O concurso desenrola-se no âmbito escolar e o processo de candidatura deverá ser coordenado por um professor. Serão atribuídos prémios aos melhores trabalhos a concurso, e a avaliação será de acordo com o nível de escolaridade dos concorrentes. Os prémios, que serão anunciados em breve, deverão conjugar três vertentes: diversão, didáctica e reconhecimento público.

A entrega de prémios será efectuada em sessão especial no Instituto Gulbenkian de Ciência no dia 29 de Abril de 2006.

Publicado por RPA às 5:45 PM | Comentários (9)

fevereiro 2, 2006

Cíclope Cínico

PV.jpgAnastomose (s. m; do gr. anastómosis, embocadura) 1. Comunicação entre órgãos ocos da mesma natureza 2. Política ~ natural Um político ser eleito Presidente da República; ~ traumática Um Presidente da República terminar o mandato; ~ cirúrgica Um maoísta chegar a Presidente da Comissão Europeia 3. Romantismo, sexo e escatologia ~ romântica Um beijo a sério na boca; ~ sexual Duas vaginas roçagando em intimidades sáficas; ~ escatológica Um peido a passar pelo esfíncter anal em sentido oposto ao que é costume.

Publicado por Santiago às 11:07 PM | Comentários (2)

Cíclope Cínico

PV.jpgAfrodisíaco (adj. e s. m.; do Gr. aphrodisiakós, aquilo que estimula o desejo carnal, ou pelo menos restaura as forças) 1. Etnologia capilar Penteado exótico usado em ¡frica, também conhecido como Pau-de-Cabinda 2. Etimologia A palavra deriva de Afrodite, deusa grega do amor. A princípio tentou-se usar a versão romana, mas a NASA tem o copyright de todas as variações desse nome 3. Conservação da natureza e Lesbianismo Há um vasto leque de afrodisíacos, sobretudo resultantes da maceração de apêndices animais indiciadores de virilidade, quando não o próprio membro viril. Os exemplos mais conhecidos são o corno de rinoceronte, a haste de veado e o pénis de tigre. Esta prática suscitou protestos do World Wildlife Fund e também de várias associações lésbicas. As pretensões dos primeiros não impediram a extinção de algumas espécies raras, mas as segundas parece terem tido maior sucesso. De outra forma, nunca uma empresa holandesa se teria lembrado de promover um afrodisíaco feito à base de pó de dildo. A empresa, obviamente, faliu.

Publicado por Santiago às 9:51 PM | Comentários (4)

fevereiro 1, 2006

Instantâneos da ciência

LabImagens1.jpg
A exposição Laboratório de Imagens, uma iniciativa da Associação Viver a Ciência, em colaboração com a Pfizer, vai estar patente ao público, no Centro Cultural de Belém (Sala Laman), de 4 a 28 de Fevereiro (entrada livre).

Será inaugurada amanhã, dia 3 de Fevereiro, às 18h30 numa cerimónia que conta com a presença do Presidente do Centro Cultural de Belém, António Mega Ferreira e da Presidente da Associação Viver a Ciência, Maria Manuel Mota.

Laboratório de Imagens visa explorar o valor artístico gerado durante o processo de investigação científica, proporcionando ao público uma perspectiva original do modo como se faz ciência. Os trabalhos expostos foram seleccionados entre cerca de 700 candidaturas,do país e do estrangeiro, à primeira edição do concurso de fotografia científica que antecedeu a exposição.

O júri de “Laboratório de Imagens” foi composto por profissionais de diferentes áreas. António Cidadão, Leonor Pareira e Helder Maiato são cientistas, com competências nas áreas da astronomia, histologia, biologia e genética molecular. Marta Menezes, Inês Moreira e Luisa Ferreira representam a perspectiva artística, oriunda da bioarte, arte experimental e fotojornalismo, respectivamente. A Viver a Ciência contou ainda com a experiência de Sandra Lousada, fotógrafa independente e júri do “Visions of Science Award”, do Reino Unido.

No final da exposição serão atribuídos 4 prémios, três dos quais seleccionados pelo júri e um, no valor de Ä1000, seleccionado pelos visitantes da exposição ñ Prémio Votação do Público.

Para quem desejar adquirir uma ou mais fotografias expostas, a Associação Viver a Ciência organiza um leilão silencioso que decorrerá durante o período da exposição, com o objectivo de angariar fundos para a associação.

Texto adaptado do comunicado de imprensa

Publicado por SJA às 6:24 PM | Comentários (0)