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março 31, 2006

“Tout ce qui existe dans líunivers est le fruit du hasard et de la nécessité”

Monod's Lab.jpg


O Instituto Pasteur de Paris organiza uma Conferência em homenagem a Jacques Monod no próximo dia 31 de Maio, 30∞ aniversário da sua morte.

A sessão terá lugar no Grand Amphithéâtre Duclaux do Institut Pasteur de Paris (28, Rue du Docteur Roux, 75015 Paris) às 15 horas e tem entrada livre. Serão oradores Sydney Brenner e François Gros. Os amáveis leitores que pretendam conhecer tão distintos personagens são remetidos para os links acima.

Em jeito de homenagem ofereço este trocadilho fácil: Assisitir a esta Conferência é por acaso, uma necessidade...

Publicado por Santiago às 4:44 PM | Comentários (1)

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgA newsletter desta semana do Gripept.net regressa ao tema da diversidade do vírus H5N1 esclarecendo alguns conceitos relativos à nomenclatura dos vírus da gripe. Depois, uma colaboração estabelecida que desejamos com um grupo de da Universidade de Cambridge fazendo votos para que seja muito produtiva. Deu direito a fotografias e tudo!

Para mais detalhes, visite o site Gripept.net e participe!


O H5N1 aumenta a sua diversidade

Os vírus influenza podem dividir-se em 3 tipos: A, B e C. O tipo A pode ainda subdividir-se em diferentes subtipos, de acordo com as moléculas hemaglutinina e neuraminidase presentes à superfície do vírus: H1N1, H3N2, H5N1, etc.. O subtipo H5N1, responsável pela morte de mais de 100 pessoas nos últimos anos, pode ainda dividir-se em diferentes categorias, chamadas genótipos. Até agora foram identificados 4 genótipos diferentes de H5N1: V, W, G e Z.

Todos os vírus H5N1 que infectaram humanos até agora pertencem ao genótipo Z. Estudos recentes sugerem que, à medida que o vírus se espalhou pelo mundo, foi também aumentando a sua diversidade, ou número de estirpes. Investigadores do CDC (Center for Disease Control), nos EUA, descobriram recentemente dois subgrupos, ou clades, dentro do genótipo Z, ambos capazes de infectar humanos. Estes dois subgrupos têm uma distribuição geográfica diferente, e parece que o aparecimento do segundo grupo esteve associado à expansão do vírus para a Indonésia, em 2005.

Perceber até que ponto a progressão do vírus a nível geográfico está associada à sua diversificação, ou mutação, é da maior importância. Quanto maior for a diversidade de estirpes de H5N1 maiores são as hipóteses do vírus conseguir gerar uma variante que seja transmissível entre pessoas. Este ponto enfatiza a importância da contenção da dispersão do vírus, bem como do melhoramento dos sistemas de vigilância epidemiológica, a nível nacional e internacional. Estes últimos têm sido alvo de críticas nos últimos tempos, particularmente por a gripe das aves ter exposto muitas das suas insuficiências.

Parceria em epidemiologia e evolução das doenças infecciosas

Dois jovens grupos europeus estabelecem parceria na investigação da epidemiologia e evolução das doenças infecciosas. De um lado temos o grupo de Dinâmica de Populações de Patogéneos da Universidade de Cambridge, liderado por Julia Gog. Do outro lado temos o grupo de Epidemiologia Teórica do Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras, liderado por Gabriela Gomes.

Julia Gog e Gabriela Gomes, ambas matemáticas fascinadas pelas simetrias que regem a formação de padrões na natureza, dedicaram os últimos 7 anos ao estudo das doenças infecciosas. Julia iniciou a sua investigação nesta área com Bryan Grenfell na Universidade de Cambridge, enquanto que Gabriela se iniciava com Graham Medley na Universidade de Warwick. Mas as coincidências não se ficam por aqui. Ambas se sentiram atraídas pelo problema que, em epidemiologia teórica, está mais necessitado de novas ideias e abordagens: a dinâmica de transmissão de patogéneos que se estruturam em estirpes. A dificuldade, que é tanto empírica como teórica, reside no facto de a imunidade actuar de forma específica. Por outras palavras, uma pessoa que foi previamente infectada por uma determinada estirpe adquiriu uma imunidade queserá mais eficaz contra umas estirpes do que contra outras. Assim, a pessoa pode ser infectada várias vezes na vida e vai acumulando imunidade com cada infecção. Construir modelos matemáticos que reproduzam correctamente estes processos, e que sirvam de base ao planeamento de estratégias para o controle das respectivas doenças são a aposta da nova parceria entre as duas equipas.

O vírus da gripe é um dos patogéneos favoritos dos modeladores porque acumula grandes bases de dados empíricos e a sua dinâmica evolutiva processa-se numa escala de tempo que podemos acompanhar. Mas, de facto, estas preocupações e teorias aplicam-se a um vasto conjunto de agentes infecciosos com impacto na saúde pública: o vírus da SIDA, as bactérias causadoras da meningite, o vírus respiratório sincicial, a bactéria da cólera, o parasita da malária, etc. Julia Gog está actualmente a visitar o Instituto Gulbenkian de Ciência e voltará em Setembro com outros elementos do seu grupo. Segundo Gabriela Gomes: "O IGC tem uma forma muito especial de promover colaborações. As pessoas gostam de cá vir e temos conseguido encontros científicos muito produtivos." Segundo Julia Gog: "Penso que somos actualmente os mais capacitados grupos do mundo para investigação neste tema. Esta parceria é importante para a Europa."
cambridge_team.jpg igc_team.jpg

Publicado por RPA às 12:57 PM | Comentários (3)

março 30, 2006

Size matters?

440588b.jpgNem a propósito do que se escreveu aqui sobre a inteligência dos europeus, o QI volta ao ataque. Num estudo publicado hoje na Nature, a inteligência, medida através do QI, pode ser correlacionada com o padrão de crescimento do cérebro, mas não com as suas dimensões finais. Durante a infância o cortex cerebral torna-se mais espesso até atingir o seu máximo e, durante a adolescência, diminui outra vez. Philip Shaw e colegas decidiram estudar se este padrão tem alguma relação com a inteligência. Para tal, efectuaram um estudo que analisou os QIs de mais de 300 crianças e adolescentes dos 6 aos 19 anos. Para as medidas estruturais do cérebro fizeram ressonância magnética a cada um dos participantes, a intervalos de 2 anos. Os resultados indicam que o grupo com o QI mais alto (denominado grupo de inteligência superior) demonstra um padrão de crescimento do cortex característico. O cortex destas crianças começa mais fino que o dos outros grupos, mas recupera rapidamente, tornando-se mais espesso aquando da altura do seu máximo. No entanto, aos 19 anos, os elementos de todos os grupos (inteligência superior, alta e mediana) convergem para cortexes da mesma espessura.
Este estudo não nos proporciona muitas explicações sobre como e porquê os cortexes das crianças com QI mais alto possuem mais plasticidade/agilidade de crescimento que os restantes. Especula-se sobre o de sempre, factores genéticos e ambientais. Para discernir entre as várias incógnitas será necessário analisar os números de neurónios presentes na zona do cortex, a mielinização das fibras e as quantidades de ligações neuronais eliminadas durante a puberdade (por processos normais, mas por que não também pela quantidade de bebedeiras apanhadas entre os 15 e os 19 anos?!). Além disso, se não acreditarmos no QI como medida do que quer que seja, este estudo apenas relaciona os bons resultados no teste de Wechsler com umas diferenças esporádicas, e não significativas no cérebro adulto, do crescimento do cortex.

Publicado por SJA às 7:52 PM | Comentários (0)

março 29, 2006

Pseudo (do Gr. pseúdes, falso)

Fool's fire.jpgDurante o debate de hoje sobre o "Estado da Nação" o 1∞ Ministro anunciou várias medidas sobre aquilo a que se convencionou chamar "Política de Investigação Científica". De acordo com a notícia, as medidas anunciadas foram (destaque para as citações directas do 1∞ Ministro, com sublinhados meus):

1) Reforço do investimento público no sector da ciência de 250 milhões de euros, em 2007

2) "Reforma progressiva do sistema científico e universitário". Numa primeira avaliação, José Sócrates estima a redução de "25 por cento do número dos actuais centros de investigação"

3) Aumento "em mais de 60 por cento das bolsas de doutoramento já este ano", passando de 1550 (em 2005) para 2450 (2006) [multiplicar por 1,6 é difícil, não é?]

..........O primeiro-ministro referiu a criação de um novo tipo de bolsas: "As bolsas de integração na investigação, destinadas a estudantes de licenciatura e mestrado que sejam integrados em centros de investigação"

4) "A viabilização da contratação pelas instituições científicas de 500 novos investigadores doutorados até ao final de 2007"

..........Esta medida passa por propor "contratos-programa às diferentes instituições de investigação, assegurando mecanismos de co-financiamento para permitir a contratação destes investigadores, em regime de contrato individual de trabalho"

5) O Estado vai "apoiar financeiramente o registo internacional de patentes, quer nos Estados Unidos da América, quer na União Europeia"

6) O Executivo vai "tornar obrigatório que, nos investimentos públicos de maior dimensão, as empresas envolvidas tenham de afectar uma percentagem mínima, entre 0,5 e um por cento do total de investimento, para projectos de investigação e desenvolvimento a realizar em território nacional"

7) O Governo pretende "reforçar a intervenção do Programa Ciência Viva junto das escolas e das famílias, tendo em vista a promoção da cultura científica e tecnológica na sociedade portuguesa"

Não posso comentar em detalhe esta notícia porque só tenho acesso à quase-transcrição do press-release do Governo que o Público fez o favor de publicar.
Até aparecer algum trabalho sobre o assunto, com informação por exemplo sobre o que é tudo isto significa e que consequências tem, ou pode vir a ter, no sistema científico nacional, só posso subscrever a beatitude piedosa com que o líder da oposição (cujo esforço nestas matérias está só ligeiramente abaixo do dos Snrs. Jornalistas...) recebeu tão relevantes informações: "totalmente de acordo com o objectivo de investir na ciência, que é o futuro".
Já não acompanho, no entanto, o Snr. Líder no grande estardalhaço que depois armou, ao embirrar com outra medida - provavelmente também "de Política Científica" - que diz respeito à Maternidade de Elvas (parece que há lá uma... e parece que vai fechar...).

Haverá mais alguém que acha tudo isto um grandessíssimo disparate?

Haverá mais alguém que acha que os 250 milhões do anúncio 1 vão ser tão desperdiçados como o foram os 1.000 milhões do anúncio anterior? Ou os já nem sei quantos do antes desse?

Haverá mais alguém que acha que continua a faltar a medida mais importante? E que acha que, enquanto essa medida não for tomada, tudo isto não passa de um vistoso fogo-fátuo (s. m.)? Que é como quem diz: Chama fugitiva que aparece nos cemitérios e pântanos e que provém da inflamação do fosforeto de hidrogénio que se liberta dos corpos orgânicos em decomposição...

Publicado por Santiago às 10:28 PM | Comentários (5)

Get Together

Avian-flu-188.gifA Bear, a Lion and a Chicken meet...

Bear says:
"If I roar in the forests of North America, the entire forest is shivering with fear."

Lion says:
"And if I roar on the great plains of Africa, the entire savannah is afraid of me."

Says the Chicken:
"Big deal. I only have to cough and the entire planet shits itself."

Publicado por RPA às 12:49 PM | Comentários (0)

março 28, 2006

QI nacional abaixo de 89?

IQ.gifUm ranking dos povos europeus por estatura média ou peso médio não aquece nem arrefece. Tratando-se do Quociente de Inteligência (QI), é o orgulho nacional que está em jogo. Podemos ser anafados, mas queremo-nos espertos. De acordo com os resultados de uma pesquisa recente, os alemães são o povo mais inteligente, dado corroborado pela História da Filosofia. O autor do estudo explica: "populations in the colder, more challenging environments of Northern Europe had developed larger brains than those in warmer climates further south. The average brain size in Northern and Central Europe is 1,320cc and in southeast Europe it is 1,312cc. “The early human beings in northerly areas had to survive during cold winters when there were no plant foods and they were forced to hunt big game (...) The main environmental influence on IQ is diet, and people in southeast Europe would have had less of the proteins, minerals and vitamins provided by meat which are essential for brain development.” Esta explicação, que nos humilha (mas relativizemos, pensando na minoria dos lusitanos vegetarianos), é do tipo polémico, excelente para pôr a caixa de comentários aos saltos. Enfim, morro de curiosidade. Não constamos da lista por desprezo, por ignorância (Portugal como província de Espanha), pelo nosso atraso (de que resultaria um conjunto de dados pouco fidedignos) ou por estarmos abaixo dos Sérvios? Sem querer alimentar teorias conspiratórias, sobra ainda a hipótese redentora de, não podendo mudar a latitude do nosso país, o autor ter sonegado os dados respeitantes a Portugal para não beliscar a sua carnívora e setentrional hipótese.

Publicado por Conta Natura às 2:28 PM | Comentários (13)

março 25, 2006

Ciclope Cínico

ciclope.jpgazimute.jpg
Azimute s. m.; do ¡r. assimut, caminhos, direcções ¬ngulo que a direcção do corpo celeste, marcada no chão, faz com a direcção do Norte no mesmo plano do horizonte, medido no sentido dos ponteiros do relógio. O azimute vai de 0 a 360 graus, admitindo incrementos de 360 graus para efeitos de dramatização. 1. Navegação de malandragem: o ~ e a altura são dados importantes quando se trata de determinar a posição de um corpo celeste, embora no caso dos corpos celestiais o número de telefone ainda seja mais útil.

Publicado por Conta Natura às 4:28 PM | Comentários (0)

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgA newsletter desta semana do Gripept.net apresenta um resumo dos resultados apresentados em publicações recentes em jornais científicos. Em causa está a a relação entre a facilidade de contágio de um determinado vírus da gripe e o território do aparelho respiratório preferencialmente infectado por esse vírus.

Para mais detalhes, visite o site Gripept.net e participe!

Porquê a baixa transmissibilidade do vírus H5N1 entre humanos?

Duas equipas de investigadores, uma norte americana e a outra holandesa, sugerem em artigos publicados nas revistas Nature e Science, respectivamente, que a baixa transmissibilidade do vírus H5N1 entre humanos se deve ao facto de que as células mais facilmente infectáveis se localizam na parte inferior do sistema respiratório (especialmente os alvéolos; figura 1). Em contraste, a gripe humana contamina as células localizadas na zona superior do sistema respiratório (como o nariz e a faringe; figura 2).

hum.jpg Ap respiratorio.jpg


Todos sabemos que os espirros e tosse são fortes meios de transmissão da gripe humana. Isto deve-se ao facto de as células da parte superior do sistema respiratório produzirem um muco característico dessa zona (por exemplo muco nasal) que serve como bom veículo para contágio. O que este estudo implica é que os espirros e a tosse deixam de ter um peso acentuado como meio de transmissão dado que as células contaminadas pelo vírus H5N1 não estão relacionadas com a produção desse muco.

Programa Nónio-Século XXI

Tirando vantagem do uso das novas tecnologias de informação e comunicação, e com uma forte componente científica e pedagógica, sobretudo a nível escolar, o Projecto Gripept.net gostaria de destacar o Programa Nónio-Século XXI. Tendo presente a importância e utilidade das novas tecnologias, este programa destina-se a modernizar as escolas portuguesas e dotá-las de recursos multimédia, nomeadamente através da formação contínua de professores neste domínio e da produção de software educativo. É incentivado ainda o estabelecimento de uma rede de cooperação internacional. Para saber mais sobre o Programa Nónio, visite o sítio.

Publicado por RPA às 2:00 PM | Comentários (2)

março 24, 2006

O primeiro milho

dodo_skelet.jpgO pardal-comum, passer domesticus, é o teste inicial e final ao ornitólogo amador. Quem não ficar sinceramente fascinado com um animal que existe aos milhares e que vem comer às mesas do espaço comercial Picoas Plaza, bem no centrozinho de Lisboa, não pode ser "filho de bom ornitólogo", digamos assim. A população lisboeta, vê-se bem pela amostra de quem se senta a comer nesse soalheiro espaço, está-se a borrifar para a ornitologia, amadora ou profissional, no que não tenho nada contra. Vejo isso pela curiosidade que colocam nos bichos que lhes tentam roubar a sandes do Pans & Company: "Ai tão giro!", o que é mais ou menos a mesma coisa que chamar "giros" aos Francesco Guardi do Museu Gulbenkian apenas porque estão expostos às dezenas. A ornitologia amadora, por muito que custe aos amadores do amadorismo desta paixão, não pode ser uma busca pelo "raro". Arrisco mesmo o exagero, a imprecisão e a desonestidade intelectual de dizer que a ornitologia amadora, nesse sentido, devia ser o inverso do coleccionismo, que tem na busca da raridade e da excepção o seu principal motivo. Claro que eu, com dinheiro, pagaria o que fosse preciso para ver um destes, cuja ultima estimativa apontava para a existência de 80 exemplares em todo o mundo:

Mas isso não me deve - ou não deveria - impedir de os estudar e tentar compreender com o mesmo afinco e interesse que coloco ao ver uma águia-real ou um pisco-de-peito-azul. O pardal-comum é um pássaro magnifico e merece respeitinho. Por muito que custe compreender, este bicho é tão lindo e tem tanto valor como os demais:

Publicado por maradona às 2:29 PM | Comentários (5)

Les Précautions Nécessaires

grippe1.jpg

Publicado por RPA às 1:06 PM | Comentários (0)

março 23, 2006

The Britannica strikes back

Le combat des chefs.jpgEm Dezembro a Nature publicou um estudo em que tentava demonstrar que o rigor científico da Wikipedia não ficava atrás do da EncyclopÊdia Britannica.
Aparecido na sequência de um episódio que lançou sérias dúvidas sobre a credibilidade da Wikipedia (veja-se aqui), o estudo da Nature reconfortou os wiki-fanáticos e foi amplamente divulgado (aqui, por exemplo) como pretexto para ridicularizar uma instituição que é quase a quintessência da "britishness".

Ora, a dita essência nem mereceria o nome que tem se fosse capaz de "comer e calar"...
Com a fúria própria de uma águia imperial, e com toda a autoridade que os seus quase 250 anos de história lhe conferem, a Vecchia Signora acaba de publicar uma refutação ao estudo da Nature (podem lê-la aqui, em todos os seus 836 kb de glória).

A resposta é devastadora para essa outra instituição (sedeada em Londres, por sinal) chamada Nature. Cito uma pequena frase do texto da Britannica (texto esse que é, note-se, todo ele escrito num inglês magnífico) que diz tudo sobre o que eles pensam da Nature e dos seus métodos:

"We discovered in Natureís work a pattern of sloppiness, indifference to basic scholarly standards, and flagrant errors so numerous they completely invalidated the results".

Perspectiva-se assim uma guerra sem quartel que merece ser seguida com atenção. Não deixem que o ribombar dos canhões vos impeça de ler aqui uma valente bicada no Jim Giles (autor do estudo da Nature), à mistura com uma engraçada insinuação e tudo. Em verdade vos digo: A coisa promete...

A Nature vai ter de responder à Britannica e, de caminho, espero que explique o curioso episódio descrito da seguinte forma (pag 10 da refutação): It is simply unacceptable for Nature to cut and paste different Britannica entries, add its own editorial material, and then pass the resulting pastiche off under Britannicaís name.

Até já adivinho Tribunais metidos neste épico confronto...

Publicado por Santiago às 9:54 PM | Comentários (13)

março 22, 2006

Históricas timidezes...

Referências recentes aos genes (o seu egoísmo e a sua composição química) levam-me a acrescentar 2 publicações à nossa colecção de artigos históricos. Leiam na Hemeroteca o artigo (1944) de Avery, MacLeod e McCarthy que demonstrou que a informação genética é "transportada" pelo ADN, e o artigo (1953) publicado por Watson e Crick que "decifrou" a sua estrutura molecular.watson-crick-dna.jpg

O artigo de Watson e Crick (esta ordem de autores foi decidida, diz a lenda, num lançamento de moeda ao ar) é um dos mais famosos de toda a História da Ciência. Valeu, sozinho, um Prémio Nobel aos seus autores e termina com uma daquelas frases verdadeiramente inolvidáveis: "It has not escaped our notice that the specific pairing we have postulated immediately suggests a possible copying mechanism for the genetic material".
Dou a palavra a Horace Freeland Judson para caracterizar esta afirmação: "That last sentence has been called one of the most coy statements in the literature of science"...

(Coy é uma bonita palavra que significa, segundo o meu dicionário, annoyingly unwilling to make a commitment - esta definição recorda-me, vá-se-lá saber porquê, o muito nosso TLC...).

Em matéria de coyness (em jeito de homenagem traduzo agora a definição acima para a terminologia do maradona: "Falta de tomates") na última frase, Avery and col conseguiram superar os mestres (superá-los avant la lettre, por assim dizer...) ao escrever: "The evidence presented supports the belief that a nucleic acid of the desoxyribose type is the fundamental unit of the transforming principle of Pneumococcus Type III".

Inesquecível também...

Publicado por Santiago às 10:08 PM | Comentários (4)

março 21, 2006

Auberon Waugh sobre os direitos dos animais

Waugh.jpgWhat are the rights of cockroaches?

Journalists who for one reason or another wish to outlaw country recreations have developed the habit of referring to the Countryside Alliance, the body which acts as spokesman for country dwellers, as being "very rich". In fact the Alliance is a church mouse compared to the roaring lions of the opposition. One such organisation alone - the International Federation for Animal Welfare or IFAW - has been credited with receiving $200 million of American money, and I have not seen the figure contradicted. We may wonder how they manage to spend the cash pouring in from American animal sentimentalists in order to prevent English country folk from doing what they want to do.Journalists are not all that expensive.
This week we learnt how the IFAW movement is expanding. In addition to buying journalists, they have started investing in academics, to form the Universities Federation for Animal Welfare (UFAW). Next we will have the Engineers Federation for Animal Welfare (EFAW), the Obstetricians Federation (OFAW) the Car Dealers (CARDFAW). There need be no end to it. Perhaps the whole world could be turned into an organisation for animal welfare, but where would they go after that?
The Universities Federation has shown a way. At a symposium held at the Zoological Society, speaker after speaker argued that insects should be treated as if they were animals, since they are capable of feeling pain.

"Perhaps people should think twice before reaching for the fly spray," said Dr Stephen Wickens, of UFAW. Dr "Chris" Sherwin, of the University of Bristol, described experiments in which a chimpanzee had been given an electric shock in its hand ,and had pulled its hand away,thereby showing its great intelligence. But cockroaches, slugs and snails - none of which are protected by anti-cruelty legislation - reacted in the same way. Obviously they did not pull their hands away, having none to pull, but he claims they showed a similar reaction:
"Slugs will perform in some of these tests the same way as dogs, chimps and cats. They show far more complex patterns of behaviour than we had thought. And if they do feel pain, isn't that a welfare issue?"
It may not be easy to know exactly what Dr Sherwin means by a welfare issue, but the suggestion is plainly that we should consider legislation making it a criminal offence to cause suffering among slugs, snails, cockroaches and flies. Nobody mentions worms, so cruelly cut in half whenever anybody puts a spade into the ground. We have always been assured that they feel nothing. Is this scientifically correct? If not, where do we go from there, in an age which is so concerned about pain?
A later speaker at the UFAW conference, Dr Keith Kendrick, of the Babraham Institute in Cambridge, raised the stakes even higher by insisting that sheep have many human qualities: The way they recognise faces and the way they process face images is very similar to the way we do it . . . animals like sheep are doing things, as far as the brain is concerned, that are so similar to us it does imply that they are capable of some level of consciousness."
Does this mean that we should treat ovine life as if it were human? Fortunately, Dr Kendrick admitted that he occasionally ate lamb, despite his findings. This seems to put the discovery that cockroaches feel pain into perspective. Like many insects, cockroaches are a nuisance. They are greedy and dirty and widely credited with spreading disease, although I am not sure exactly what diseases they spread. Perhaps they experience pain when they are squashed, swept up and put in the dustbin but most people will harden themselves to the fact and decide they simply do not care.
Cockroaches may fulfil an important role in reducing our present obsession with animals to absurdity. Not even. New Labour will quite dare pass a law forbidding People to kill cockroaches in their own homes. There used to be a song many years ago which remonstrated with people who ate Brussels sprouts on the grounds that they were robbing a cabbage of its young, and reminded us that every lettuce has a heart. It was satirically intended, of course, but the sad truth is that the animal welfare industry, with its millions of dollars from American sentimentalists, is a formidable power in the land. As soon as it has stopped people from hunting, shooting and fishing it will move to protecting caterpillars in our gardens.
Its chief officer in this country would appear to be a large young man called Neil Hansen. From a conventional, middle class background, he is now a full-time activist living on welfare, and foolishly allows himself to be photographed in the newspapers, usually demonstrating outside someone's home. He seems to embody the great animal movement. I wish him no particular harm, but I must confess to a fantasy, that if ever I find myself in the unpleasant situation of having to squash a cockroach, I shall shut my eyes and imagine that it is Neil Hansen under my shoe. I hope it does not hurt too much.
The Sunday Telegraph May 14 2000

Publicado por Conta Natura às 11:08 PM | Comentários (0)

Nussbaum sobre os direitos dos animais

nussbaum2.jpg Por incrível que pareça, creio que ainda não escrevemos sobre os direitos dos animais no Conta. Lembrei-me de trazer para aqui dois estilos e duas visões antagónicas, que podem ser um bom ponto de partida. Sobre o assunto, escreveu Martha Nussbaum:

The Moral Status of Animals

In 55 BC, the Roman leader Pompey staged a combat between humans and elephants. Surrounded in the arena, the animals perceived that they had no hope of escape. According to Pliny, they then "entreated the crowd, trying to win its compassion with indescribable gestures, bewailing their plight with a sort of lamentation." The audience, moved to pity and anger by their plight, rose to curse Pompey ó feeling, wrote Cicero, that the elephants had a relation of commonality (societas) with the human race.

In 2000 AD, the High Court of Kerala, in India, addressed the plight of circus animals "housed in cramped cages, subjected to fear, hunger, pain, not to mention the undignified way of life they have to live." It found those animals "beings entitled to dignified existence" within the meaning of Article 21 of the Indian Constitution, which protects the right to life with dignity. "If humans are entitled to fundamental rights, why not animals?" the court asked.

We humans share a world and its scarce resources with other intelligent creatures. As the court said, those creatures are capable of dignified existence. It is difficult to know precisely what that means, but it is rather clear what it does not mean: the conditions of the circus animals beaten and housed in filthy cramped cages, the even more horrific conditions endured by chickens, calves, and pigs raised for food in factory farming, and many other comparable conditions of deprivation, suffering, and indignity. The fact that humans act in ways that deny other animals a dignified existence appears to be an issue of justice, and an urgent one.

Indeed, there is no obvious reason why notions of basic justice, entitlement, and law cannot be extended across the species barrier, as the Indian court boldly did.

In some ways, our imaginative sympathy with the suffering of nonhuman animals must be our guide as we try to define a just relation between humans and animals. Sympathy, however, is malleable. It can all too easily be corrupted by our interest in protecting the comforts of a way of life that includes the use of other animals as objects for our own gain and pleasure. That is why we typically need philosophy and its theories of justice. Theories help us to get the best out of our own ethical intuitions, preventing self-serving distortions of our thought. They also help us extend our ethical commitments to new, less familiar cases. It seems plausible to think that we will not approach the question of justice for nonhuman animals well if we do not ask, first, what theory or theories might give us the best guidance.

In my new book, Frontiers of Justice: Disability, Nationality, Species Membership, I consider three urgent problems of justice involving large asymmetries of power: justice for people with disabilities, justice across national boundaries, and justice for nonhuman animals. During the past 35 years, theories of justice have been elaborated and refined with great subtlety and insight, stimulated by John Rawls's great books, which built, in turn, on the classical doctrine of the social contract in Locke, Kant, and Rousseau. The social-contract tradition has enormous strength in thinking about justice. Devised in the first instance to help us reflect on the irrelevance of class, inherited wealth, and religion to just social arrangements, its theories have been successfully extended, in recent years, to deal with inequalities based on race and gender. The three issues that are my theme, however, have not been successfully addressed by such theories, for reasons inherent in their very structure ó or so I argue.

In each case, a "capabilities approach" I have developed provides theoretical guidance. It begins from the question, "What are people actually able to do and to be?" It holds that each person is entitled to a decent level of opportunity in 10 areas of particular centrality, such as life, health, bodily integrity, affiliation, and practical reason.

On the question of animal entitlements, the approach gives better results than existing Kantian theories ó which hold that respect should be given to rational beings ó or Utilitarian approaches ó which hold that the best choice is to maximize the pleasure or satisfaction of preferences. A capabilities approach can recognize a wide range of types of animal dignity, and of what animals need in order to flourish, restoring to Western debate some of the complexity the issue had in the time of Cicero, which it has subsequently lost.

As Richard Sorabji argues in his excellent book Animal Minds and Human Morals: The Origins of the Western Debate (Cornell University Press, 1993), the ancient Greek and Roman world contained a wide range of views that held promise for thinking about the moral status of animals. However, Stoicism, with its emphasis on the capacity of humans for virtue and ethical choice, exercised far more widespread influence than any other philosophical school in a world of war and uncertainty ó but it had a very unappealing view of animals, denying them all capacity for intelligent reaction to the world, and denying, in consequence, that we could have any moral duties to them. Because of the attractiveness of Stoicism's view of human virtue and choice, that picture of animals became widespread. I think we need to add to Sorabji's account the fact that Stoic views of animals fit better than others with the Judeo-Christian idea that human beings have been given dominion over animals. Although that idea has been interpreted in a variety of ways, it has standardly been understood to give humans license to do whatever they like to nonhuman species and to use them for human purposes.

Kant argues that all duties to animals are merely indirect duties to human beings: Cruel or kind treatment of animals strengthens tendencies to behave in similar fashion to our fellow humans. So animals matter only because of us. Kant cannot imagine that beings who (as he believes) lack self-consciousness and the capacity for ethical choice can possibly have dignity, or be objects of direct ethical duties. The fact that all Kantian views ground moral concern in our rational and moral capacities makes it difficult to treat animals as beings to whom justice is due.

Classical Utilitarianism has no such problem. It begins, admirably, with a focus on suffering. Its great theoretical pioneers, Jeremy Bentham and John Stuart Mill, had intense concern for the well-being of animals. Bentham famously argued that the species to which a creature belongs is as irrelevant, for ethical purposes, as race: It does not supply a valid reason to deprive a sentient being of a decent life. If, as Utilitarianism holds, the best choice is the one that maximizes total (or, in some versions, average) utility, understood as pleasure and/or the absence of pain, good choice would lead to radical change in our treatment of animals. Peter Singer's courageous work on animal suffering today follows the Utilitarian paradigm. Singer argues that the right question to ask, when we think about our conduct toward animals, is, What choice will maximize the satisfaction of the preferences of all sentient beings? That calculation, he believes, would put most of our current pain-inflicting use of animals off limits.

Nevertheless, valuable though Utilitarian work on animal suffering has been, it has some serious difficulties. One notorious problem concerns the Utilitarian commitment to aggregation: that is, to summing together all pleasures and pains. The choice maker is instructed to produce the largest total (or average) pleasure. That can allow results in which a small number of creatures have very miserable lives, so long as their miseries are compensated for by a great deal of pleasure elsewhere. Even slavery is ruled out ó if it is ó only by fragile empirical calculations urging its ultimate inefficiency. It remains unclear whether such a view can really rule out the cruel treatment of at least some animals, which undoubtedly causes great pleasure to a very large number of meat eaters, or the infliction of pain on small numbers of animals in laboratory testing in order to provide benefits for many humans. (Here Kantian views about humans offer a good corrective, insisting that even the well-being of society as a whole does not justify egregious harms and indignities to any individual.)

Another sort of aggregation also causes difficulty: Utilitarians consider together diverse aspects of lives, reducing them all to experienced pain and pleasure. But we might think that a good life, for an animal as for a human, has many different aspects: movement, affection, health, community, dignity, bodily integrity, as well as the avoidance of pain. Some valuable aspects of animal lives might not even lead to pain when withheld. Animals, like humans, often don't miss what they don't know, and it is hard to believe that animals cramped in small cages all their lives can dream of the free movement that is denied them. Nonetheless, it remains valuable as a part of their flourishing, and not just because its absence is fraught with pain. Even a comfortable immobility would be wrong for a horse, an elephant, or a gorilla. Those creatures characteristically live a life full of movement, space, and complex social interaction. To deprive them of those things is to give them a distorted and impoverished existence.

Finally, all Utilitarian views are highly vulnerable on the question of numbers. The meat industry brings countless animals into the world who would never have existed otherwise. For Utilitarians, that is not a bad thing. Indeed, we can expect new births to add to the total of social utility, from which we could then subtract the pain the animals suffer. Wherever that calculation might come out, such a view would countenance the production of large numbers of creatures with lives only marginally worth living. So Utilitarianism has great merits, but also significant problems.

My capabilities approach, as so far developed, starts from the notion of human dignity and a life worthy of it. But it can be extended to provide a more adequate basis for animal entitlements than the other two theories under consideration. It seems wrong to think that only human life has dignity. As the Indian court said, the idea of a life commensurate with a creature's dignity has clear implications for assessing the lives we all too often make animals live.

The basic moral intuition behind my approach concerns the dignity of a form of life that possesses both deep needs and abilities. Its basic goal is to take into account the rich plurality of activities that sentient beings need ó all those that are required for a life with dignity. With Aristotle and the young Marx, I argue that it is a waste and a tragedy when a living creature has an innate capability for some functions that are evaluated as important and good, but never gets the opportunity to perform those functions. Failures to educate women, failures to promote adequate health care, failures to extend the freedoms of speech and conscience to all citizens ó all those are treated as causing a kind of premature death, the death of a form of flourishing that has been judged to be essential for a life with dignity. Political principles concerning basic entitlements are to be framed with those ideas in view.

The species standard is evaluative. It does not simply read off norms from the way nature actually is. Once we have judged, however, that a central human power is one of the good ones, one of the ones whose flourishing is essential for the creature to have a life with dignity, we have a very strong moral reason for promoting it and removing obstacles to its development.

The same attitude to natural powers that guides the approach in the case of human beings guides it in the case of nonhuman animals: Each form of life is worthy of respect, and it is a problem of justice when a creature does not have the opportunity to unfold its (valuable) power, to flourish in its own way, and to lead a life with dignity. The fact that so many animals never get to move around, enjoy the air, exchange affection with other members of their kind ó all that is a waste and a tragedy, and it is not a life in keeping with the dignity of such creatures.

So the capabilities approach is well placed, intuitively, to go beyond both Kantian and Utilitarian views. It goes beyond Kant in seeing our ethical duties to animals as direct, not indirect, and also in its starting point, a basic concern for sentient life, not just rational life (though there is surely far more rationality in animal lives than Kant would have acknowledged). It goes beyond the intuitive starting point of Utilitarianism because it takes an interest not just in pleasure and pain, but in complex forms of life. It wants to see each living thing flourish as the sort of thing it is, and wants political principles to protect, for all sentient beings, a set of basic opportunities for flourishing.

Does justice focus on the individual, or on the species? It seems that here, as in the human case, the focus should be the individual creature. The capabilities approach attaches no ethical importance to increased numbers as such; its focus is on the well-being of existing creatures, and the harm that is done to them when their powers are blighted. Consequently the survival of a species may have weight as a scientific or aesthetic issue, but it is not an ethical issue, and certainly not an issue of justice ó apart from the harms to existing creatures that are usually involved in the extinction of a species. When elephants are deprived of a congenial habitat and hunted for their tusks, harm is done to individual creatures, and it is that harm that should be our primary focus when justice is our concern, even while we may for other reasons seek the preservation of elephant species.

Almost all ethical views of animal entitlements hold that there are morally relevant distinctions among forms of life. Killing a mouse seems to be different from killing a chimpanzee. But what sort of difference is relevant for basic justice? Singer, following Bentham, puts the issue in terms of sentience. Animals of many kinds can suffer bodily pain, and it is always bad to cause pain to a sentient being. If there are animals that do not feel pain ó and it appears that crustaceans and mollusks, as well as sponges and the other creatures Aristotle called "stationary animals," fall in that category ó there is either no harm or only a trivial harm done in killing them. Among the sentient creatures, moreover, some can suffer additional harms through their cognitive capacity: A few animals can foresee and mind their own death, and others will have conscious interest in continuing to live. The painless killing of an animal that does not foresee its own death or take a conscious interest in the continuation of its life is, for Singer and Bentham, not bad, for all badness consists in the frustration of interests, understood as forms of conscious awareness. Singer is not, then, saying that some animals are inherently more worthy of esteem than others; he is simply saying that, if we agree with him that all harms reside in sentience, the creature's form of life limits the conditions under which it can actually suffer harm.

Similarly, James Rachels, whose view does not focus on sentience alone, holds that the level of complexity of a creature affects what can be a harm for it. What is relevant to the harm of pain is sentience; what is relevant to the harm of a specific type of pain is a specific type of sentience (for example, the ability to imagine one's own death). What is relevant to the harm of diminishing freedom, Rachels goes on, is a being's capacity for freedom or autonomy. It would make no sense to complain that a worm is being deprived of autonomy, or a rabbit of the right to vote. My capabilities view follows Rachels, denying that there is a natural ranking of forms of life, but holding that the level of complexity of a creature affects what can be considered to be a harm to it.

Like Bentham, however, I do think of sentience as a minimum necessary condition for moral status. Does species membership matter when we consider the form of life that is good for a creature? For Utilitarians, and for Rachels, the species to which a creature belongs has no moral relevance. What matters are the capacities of the individual creature: in Rachels's words, "moral individualism." Utilitarian writers are fond of comparing apes to young children and to mentally disabled humans, suggesting that the ethical questions we should consider are the same in all those cases. The capabilities approach, by contrast, with its talk of characteristic functioning and forms of life, seems to attach some significance to species membership as such.

What type of significance is that? There is much to be learned from reflection on the continuum of life. Capacities do crisscross and overlap: A chimpanzee may have more capacity for empathy and perspectival thinking than a very young child, or than an older child with autism. And capacities that humans sometimes arrogantly claim for themselves alone are found very widely in nature. But it seems wrong to conclude from such facts that species membership is morally and politically irrelevant. A child with mental disabilities is actually very different from a chimpanzee, though in certain respects some of her capacities may be comparable. Such a child's life is difficult in a way that the life of a chimpanzee is not difficult: She is cut off from forms of flourishing that, but for the disability, she might have had. There is something blighted and disharmonious in her life, whereas the life of a chimpanzee may be perfectly flourishing. Her social and political functioning, her friendships, her ability to have a familyall may be threatened by her disabilities, in a way that the normal functioning of a chimpanzee in the community of chimpanzees is not threatened by its cognitive endowment.

That is relevant when we consider issues of basic justice. For children born with Down syndrome, it is crucial that the political culture in which they live make a big effort to extend to them the fullest benefits of citizenship they can attain, through health benefits, education, and re-education of public culture. That is so because they can flourish only as human beings. They have no option of flourishing as happy chimpanzees. For a chimpanzee, on the other hand, it seems to me that expensive efforts to teach language, while interesting and revealing for human scientists, are not matters of basic justice. A chimpanzee flourishes in its own way, communicating with its own community in a perfectly adequate manner that has gone on for ages.

In short, the species norm (duly evaluated) tells us what the appropriate benchmark is for judging whether a given creature has decent opportunities for flourishing.

There is a danger in any theory that alludes to the characteristic flourishing and form of life of a species: the danger of romanticizing "Nature," or seeing nature as a direct source of ethical norms. Nature is not particularly ethical or good. It should not be used as a direct source of norms. In the human case, therefore, my capabilities view does not attempt to extract norms directly from some facts about human nature. We must begin by evaluating the innate powers of human beings, asking which ones are central to the notion of a life with dignity. Thus not only evaluation but also ethical evaluation is put into the approach from the start. Many things that are found in human life, like the capacities for cruelty, despair, or self-destruction, are not on the capabilities list.

In the case of nonhuman animals, however, we need to remember that we are relatively ignorant of what a good life for each sort of animal is and strongly biased in favor of our own power interests. Thus our attempts to evaluate the capacities of animals, saying that some are good and others not so good, may easily go wrong. Moreover, while we can expect a potentially violent human (as all humans are) to learn to restrain her or his capacity for violence, we cannot expect so much learning and control from many animal species. Thus to deny a tiger the exercise of its predatory capacities may inflict significant suffering, whereas we require a human to learn to live at peace with others (or we should!).

Here the capabilities view may, however, distinguish two aspects of the capability in question. A tiger's capability to kill small animals, defined as such, does not have intrinsic ethical value, and political principles can omit it (and even inhibit it in some cases). But a tiger's capability to exercise its predatory nature so as to avoid the pain of frustration may well have value, if the pain of frustration is considerable. Zoos have learned how to make that distinction. Noticing that they were giving predatory animals insufficient exercise for their predatory capacities, they have had to face the question of the harm done to smaller animals by allowing such capabilities to be exercised. Should they give a tiger a tender gazelle to crunch on? The Bronx Zoo has found that it can give the tiger a large ball on a rope, whose resistance and weight symbolize the gazelle. The tiger seems satisfied. Wherever predatory animals are living under direct human support and control, such solutions seem the most ethically sound.

Much more remains to be done to ground this approach philosophically and to articulate its results, which I try to do in Frontiers. What, however, should the practical upshot be?

In general the capabilities approach suggests that it is appropriate for each nation to include in its constitution or other founding statement of principle a commitment to regarding nonhuman animals as subjects of political justice and to treating them in accordance with their dignity. The constitution might also spell out some of the very general principles suggested by the capabilities approach, and judicial interpretation can make the ideas more concrete. The High Court of Kerala made a good beginning, thinking about what the idea of "life with dignity" implies for the circus animals in the case. The rest of the work of protecting animal entitlements might be done by suitable legislation and by court cases demanding the enforcement of laws, where they are not enforced. At the same time, many of the issues covered by this approach cannot be dealt with by nations taken in isolation, but can be treated only through international cooperation. So we also need international accords committing the world community to the protection of animal habitats and the eradication of cruel practices.

It has been obvious for a long time that the pursuit of global justice requires the inclusion of many people and groups not previously included as fully equal subjects of justice: the poor; members of religious, ethnic, and racial minorities; and more recently women, the disabled, and inhabitants of poor nations distant from one's own. But a truly global justice requires not simply looking across the world for fellow species members who are entitled to a decent life.

It also requires looking around the world at the other sentient beings with whose lives our own are inextricably and complexly intertwined. Kant's approach does not confront these questions as questions of justice. Probably a strict Kantian could not so confront them, not without considerably modifying Kant's own view about rationality as the basis of moral respect. Utilitarian approaches boldly confront the wrongs animals suffer, and they deserve high praise. But in the end, I have argued, Utilitarianism is too homogenizing ó both across lives and with respect to the heterogeneous constituents of each life ó to provide us with a fully adequate theory of animal justice. The capabilities approach, which begins from an ethically attuned concern for each form of animal life, offers a model that does justice to the complexity of animal lives and their strivings for flourishing. Such a model seems an important part of a fully global theory of justice.

Martha C. Nussbaum is a professor in the philosophy department, law school, divinity school, and the college at the University of Chicago. Her book Frontiers of Justice: Disability, Nationality, Species Membership has just been published by Harvard University Press.
The Chronicle Review Volume 52, Issue 22, Page B6 February 3, 2006

Publicado por Conta Natura às 10:54 PM | Comentários (1)

Dilema

velhagrotesca.jpgFEV: forced expiratory volume, a razão entre a capacidade pulmonar real de um indivíduo e o valor esperado em condições óptimas de saúde, considerando os parâmetros altura, idade e sexo (isto é, masculino ou feminino, não muito ou pouco).
Um FEV exemplar deveria ser superior a 0.85. Consequentemente, a morbidade pode reflectir-se na diminuição desse valor. Por exemplo, a curva que descreve o declínio do FEV com o tempo em fumadores é dramaticamente mais acentuada que em não fumadores. Um fumador agarrado, com mais de 50 anos de idade, pode chegar a um FEV de 0.4, valor que para um não fumador saudável seria atingido, por extrapolação, ao século de vida. Durante o desenvolvimento do adolescente o FEV aumenta até atingir, em condições normais, um valor máximo aos 25 anos. A partir dos 30 o FEV diminui em contínuo até à morte. Esta decadência natural do FEV rege-se por um declive tão pequeno que, idealmente, a morte por asfixia (FEV<0.11) ocorreria para lá dos 120 anos.
Mas isso pouco importa, it's beside the point. O que custa a engolir é esta realidade: hoje cumpro 34 anos e dou por conseguinte mais um passo no pós-recém-estreado anúncio do ocaso.
É a bruxa fedorenta da velhice que vem com a sua língua de sépia dar-me as primeiras lambidelas destemidas na nuca. Não sei que faça. Demonstrar enfado para incorrer no risco de ofendê-la e passar da marmelada à canelada? Ou optar pelo riso fingido ignorando quanto do meu charme poderá apaixoná-la?

Publicado por VB às 8:46 PM | Comentários (1)

Complexidade ou engenharia

Hoje não ponho um texto meu, já que não estou muito inspirada e já pus um texto no Sábado. Em vez disso pus um texto delicioso na hemeroteca: "Can a biologist fix a radio". Aqui vai um extracto: "...A more successful approach will be to remove components one at a time or to use a variation of the method,in which a radio is shot at a close range with metal particles.In the latter case radios that malfunction (have a “phenotype ”)are selected to identify the component whose damage causes the phenotype. Although removing some components will have only an attenuating effect,a lucky postdoc will accidentally find a wire whose deficiency will stop the music completely. The jubilant fellow will name the wire Serendipitously Recovered Component (Src)and then find that Src is required because it is the only link between a long extendable object and the rest of the radio.The object will be appropriately named the Most Important Component (Mic)of the radio..." E para ilustrar, uma imagem/brincadeira que uma amiga minha (engenheira por sinal) me mandouimage003.jpg

Publicado por MM às 4:42 PM | Comentários (1)

março 18, 2006

Rui e PP, aquele abraço

rui.jpgpaulo.jpgO Conta está a passar por uma revolução tranquila, que inclui alterações na equipa dos editores. O Rui Martinho (imagem da esquerda) e o Paulo Pereira (à direita), que fizeram parte da equipa desde que o blogue é colectivo, abandonam oficialmente esta casa. A rescisão foi amigável e eles têm um livre-trânsito para voltar, se e quando lhes der fome de post. Para uns instantes estilo Conta Nostalgia, deixo aqui todos os posts publicados pelo Rui e pelo Paulo. Em nome de toda a equipa, agradeço-vos pelo tempo que dedicaram ao Conta. Até breve, rapazes.

Publicado por Conta Natura às 11:17 PM | Comentários (1)

The Selfish Gene comemora 30 anos

0192860925.02.LZZZZZZZ.jpgLeio aqui que um dos livros de divulgação científica mais famosos de sempre celebra este ano três décadas de existência. A propósito da efeméride, nada como dar a palavra ao autor, Richard Dawkins. Para o efeito seleccionei alguns parágrafos do prefácio de uma futura edição do livro, mas como queria juntar uma nota pessoal e outra mundana, arrumei a prosa de Dawkins na "entrada estendida", que é uma forma sacana de não diminuir o que escrevo pela comparação com o seu verbo fácil.
Foi com emoção que me reconheci nas reacções descritas por Dawkins de alguns dos seus leitores. A coincidência não surpreende. Provavelmente depende da idade com que se lê o livro e dos conhecimentos que ainda não temos, mas poucos ficarão indiferentes à ideia de que, enquanto indivíduos, mais não sejamos do que máquinas que propagam os seus genes. É também com algum desencantamento que vemos alguns exemplos máximos de altruísmo no reino animal serem explicados, de forma satisfatória, ainda como sacrifícios individuais mas que, afinal, contribuem para a propagação das cópias dos genes do mártir, carregadas por aqueles que se salvam. Quando contactei com o livro, não me era estranha a noção intuitiva e trivial de que não existe altruísmo puro, na medida em que nos sacrificamos pelos outros para responder a um imperativo de consciência. Porém, foi com este livro- certamente por ignorância e muito antes de travar conhecimento com as obras canónicas da tradição humanista - que deparei com uma primeira verbalização inteligível de um certo pessimismo antropológico, para mais com a carga fatalista da explicação evolutiva. A força do The Selfish Gene não está na explicação mecanicista dos princípios evolutivos, nem na escrita feliz de Dawkins ou, sequer, no instante inspirado que foi a invenção do termo "meme", enunciado pela primeira vez no livro e hoje um dos melhores exemplos daquilo que define (o meme é o equivalente cultural do gene, sujeito também a mutações e propagando-se no tempo e no espaço). Apesar das ressalvas do autor, o que marca neste livro são as implicações morais do que é apresentado e, embora por vezes fruto de simples equívocos de linguagem, as nossas convicções mais profundas foram por momentos abaladas.


trivers.jpgNão faltam exemplos de divulgadores de ciência que foram também académicos brilhantes, com obra original (Stephen Jay Gould, Ernst Mayr e John Maynard Smith, para mencionar apenas evolucionistas desaparecidos nos últimos anos). Dawkins, pelo contrário, é sobretudo um divulgador de ciência e uma personalidade mediática. Isto não é pecado e sou o primeiro a louvar a sua longa cruzada contra o fundamentalismo religioso. De resto, ele é muito mais influente na sociedade do que um cientista puro. Mas Dawkins sabe que facilmente pode gerar anticorpos entre os colegas cientistas. Uma nota de rodapé num livro de divulgação vale pouco e as regras da citação não estão bem definidas. O leitor leigo tende a confundir o mensageiro com o autor da mensagem. O caso do The Selfish gene é disso um bom exemplo, como em tempos referi. Quase todas as ideias aí expostas não são de Dawkins e, apesar de ele nunca ter reclamado a sua autoria - seria coisa de lunático -, pareceu-me bizarro que o prefácio da primeira edição tivesse desaparecido das edições subsequentes. Consta que o autor do prefácio também não terá achado graça à omissão. Trata-se de Robert Trivers, um dos gigantes da sociobiologia e um homem que publicou uma mão cheia de artigos nos anos setenta que se tornaram clássicos. Seria deselegante e levemente vingativo aproveitar a ocasião para falar de Trivers, mas conto escrever em breve sobre um livro sui generis dele, editado recentemente, que é mais do que uma colecção dos seus trabalhos, funcionando quase como uma autobiografia científica. A obra vem cheia de episódios e comentários divertidos, envolvendo inclusive alguns dos nomes acima mencionados, mas vale sobretudo pela clareza com que os problemas são enunciados e pela honestidade crua - que não esconde alguma vaidade - com que Trivers descreve parte do seu acidentado percurso. Cumprida esta pequena digressão com o intuito de, à nossa escala, fazer justiça a Trivers, voltemos a Dawkins:

It is sobering to realise that I have lived nearly half my life with The Selfish Gene ó for better, for worse. Over the years, as each subsequent book has appeared, publishers have sent me on tour to promote it. Audiences respond to the new book with gratifying enthusiasm, applaud politely and ask intelligent questions. Then they line up to buy, and have me sign . . . The Selfish Gene. That is a bit of an exaggeration. Some do buy the new book and, for the rest, my wife consoles me by arguing that people who newly discover an author will naturally tend to go back to his first book: having read The Selfish Gene, surely theyíll work their way through to the latest and (to its fond parent) favourite baby?


I would mind more if I could claim that The Selfish Gene had become severely outmoded and superseded. Unfortunately (from one point of view) I cannot. (...)
Let me begin with some second thoughts about the title. In 1975, I showed the partially completed book to Tom Maschler, doyen of London publishers, and we discussed it in his room at Jonathan Cape. He liked the book but not the title. “Selfish”, he said, was a “down” word. Why not call it The Immortal Gene? Immortal was an “up” word, the immortality of genetic information was a central theme of the book, and “immortal gene” had almost the same intriguing ring as “selfish gene” (neither of us, I think, noticed the resonance with Oscar Wildeís The Selfish Giant). I now think Maschler may have been right. Many critics, especially vociferous ones learned in philosophy as I have discovered, prefer to read a book by title only. No doubt this works well enough for The Tale of Benjamin Bunny or The Decline and Fall of the Roman Empire, but I can readily see that The Selfish Gene, without the large footnote of the book itself, might give an inadequate impression of its contents. Nowadays, an American publisher would in any case have insisted on a subtitle.

The best way to explain the title is by locating the emphasis. Emphasise “selfish” and you will think the book is about selfishness, whereas, if anything, it devotes more attention to altruism. The correct word of the title to stress is “gene”, and let me explain why. A central debate within Darwinism concerns the unit that is actually selected: what kind of entity is it that survives, or does not survive, as a consequence of natural selection? That unit will become, more or less by definition, “selfish”. Altruism might well be favoured at other levels. Does natural selection choose between species? If so, we might expect individual organisms to behave altruistically “for the good of the species”. They might limit their birth rates to avoid overpopulation, or restrain their hunting behaviour to conserve the speciesí future stocks of prey. It was such widely disseminated misunderstandings of Darwinism that originally provoked me to write the book.

Or does natural selection, as I urge instead, choose between genes? In this case, we should not be surprised to find individual organisms behaving altruistically “for the good of the genes”, for example by feeding and protecting kin who are likely to share copies of the same genes. Such kin altruism is only one way in which gene selfishness can translate itself into individual altruism. The Selfish Gene explains how it works, together with reciprocation, Darwinian theoryís other main generator of altruism.

Unwriting a book is one thing. Unreading it is something else. What are we to make of the following verdict, from a reader in Australia? “Fascinating, but at times I wish I could unread it . . . On one level, I can share in the sense of wonder Dawkins so evidently sees in the workings-out of such complex processes . . . But at the same time, I largely blame The Selfish Gene for a series of bouts of depression I suffered from for more than a decade . . . Never sure of my spiritual outlook on life, but trying to find something deeper ó trying to believe, but not quite being able to ó I found that this book just about blew away any vague ideas I had along these lines, and prevented them from coalescing any further. This created quite a strong personal crisis for me some years ago.”

I have previously described similar responses from readers. A teacher reproachfully wrote that a pupil had come to him in tears after reading the same book, because it had persuaded her that life was empty and purposeless. But if something is true, no amount of wishful thinking can undo it. As I went on to write, “Presumably there is indeed no purpose in the ultimate fate of the cosmos, but do any of us really tie our lifeís hopes to the ultimate fate of the cosmos anyway? Of course we donít; not if we are sane. Our lives are ruled by all sorts of closer, warmer, human ambitions and perceptions. To accuse science of robbing life of the warmth that makes it worth living is so preposterously mistaken, so diametrically opposite to my own feelings and those of most working scientists, I am almost driven to the despair of which I am wrongly suspected.” Richard Dawkins

Publicado por Conta Natura às 4:47 PM | Comentários (2)

4a mostra da Universidade do Porto

Resolvi passear um pouco por esta mostra, que está no seu 4o ano e decorre no Pavilhão Rosa Mota de 16 a 19 de Março, para ver como estava o interesse pelos cursos científicos e médicos. Relembro que a baixa adesão aos cursos de ciências básicas é uma preocupação crescente, não só em Portugal como na Europa inteira. Em Inglaterra, por exemplo, uma das maiores universidades decidiu, pura e simplesmente, encerrar o curso de Química (embora mantendo vários cursos aplicados), em Portugal não há alunos a querer entrar em Física.
Esta falta de interesse aparente não era, de modo nenhum, visível nesta mostra. Apesar de haver quase tantos jornalistas ou “camera-men” como alunos de liceu a percorrer os “stands” e dos alunos terem claramente vindo em excursões organizadas pelos liceus, os “stands” que tinham mais alunos à volta eram claramente os dos cursos de ciências e do Abel Salazar (Medicina, Ciências do Meio Aquático e Veterinária). Exposições muito interactivas contribuíam definitivamente para a adesão. Fiquei espantada com a idade dos alunos que passeavam por lá – não só com 16 e 17, mas mais novos, igualmente cativados. É óbvio, portanto, que não é a falta de interesse por Ciência que faz diminuir a vontade de seguir cursos científicos. Talvez a falta de conhecimento sobre saídas profissionais? Não vi muita evidência de informação sobre este aspecto – para os cursos de Ciências parece-me que seria necessário mesmo um stand próprio. De qualquer maneira, iniciativas destas são de louvar e esperemos que todas as Universidades Portuguesas imitem o exemplo.

Publicado por MM às 2:19 PM | Comentários (0)

março 17, 2006

Ciclope Cínico

PV.jpgAvery.jpgAvery, Oswald T. (Cientista, 1877ñ1955) 1. A massa de que os genes são feitos: Foi quem demonstrou, em 1944, juntamente com Colin M. MacLeod e Maclyn McCarty, que o ADN é o material que transporta a informação genética, um dado precioso para o actual sucesso na prática de muitas aldrabices forenses. O subsequente desenvolvimento da indústria dos testes de paternidade revelou inesperados herdeiros nalgumas familias, provocou ruinosos divórcios noutras e, por último, abalou a Jurisprudência, com a necessidade de se definir a categoria do "incesto por desconhecimento de causa", prática corrente na grande literatura, mas menos conhecida nos tribunais. 2. Monica Lewinsky: A melhor maneira de evitar embaraços públicos é o uso abundante de uma enzima, chamada DNAse, que está para o DNA como os glutões estão para as nódoas difíceis. A DNAse é uma enzima que respeita até o azul mais delicado, um dado que a "Inteligência" da Casa Branca descurou.

Publicado por Conta Natura às 2:58 PM | Comentários (0)

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgA newsletter desta semana do Gripept.net continua a discutir a diversidade dos vírus da gripe. As diferenças e as semelhanças entre partículas virais permitem o seu agrupamento, a sua classificação. A análise cuidada da evolução da diversidade dentro destes grupos e entre eles, permite compreender melhor como surgem as novas pandemias e poderão ajudar-nos a fazer algumas previsões.

Para mais detalhes, visite o site Gripept.net e participe!

"Clusters" de vírus Influenza

Na semana passada foi introduzido o conceito de imunidade cruzada entre as diversas variantes de vírus Influenza. Esta interacção reflecte o grau de semelhança entre estirpes - imunidade induzida por uma determinada estirpe actua mais eficazmente contra estirpes semelhantes do que contra estirpes muito diferentes. Estabelece-se assim uma noção de distância que nos indica como posicionar as estirpes sobre um eixo ou sobre um plano.

Uma das características das estirpes do vírus Influenza A é a sua agregação em clusters. Cada um destes clusters contém um determinado número de estirpes. A figura disponível no link abaixo, ilustra 6 clusters: 3 vermelhos que pertencem a um primeiro subtipo (por exemplo H1N1) e 3 verdes que pertencem a um segundo subtipo (por exemplo H2N2). O mais curioso na dinâmica dos vírus Influenza é o facto de os clusters se sucederem em vez de coexistirem, sendo que cada um tem uma duração média de 4 anos. Aquilo que se observa é que a emergência de um novo cluster leva o anterior à extinção impedindo que se acumule diversidade viral. A razão para este percurso evolutivo é ainda motivo de debate entre os cientistas, nomeadamente os modeladores matemáticos.
clusters2.jpg Uma pandemia corresponde à emergência de um vírus de um novo subtipo que é muito diferente daquele que circulava anteriormente. Este novo vírus origina, ele próprio, um cluster de estirpes, eliminando o subtipo anterior e iniciando uma nova sucessão de clusters pertencentes ao novo subtipo. Foi o que aconteceu em 1918, com a introdução do subtipo H1N1; em 1957, quando o H1N1 foi substituído pelo H2N2; e em 1968, quando o H2N2 desapareceu para dar lugar ao subtipo H3N2.

Estes aspectos, únicos do vírus Influenza A, contribuem para captar a atenção dos cientistas. No entanto, o seu estudo não é conduzido apenas por estes interesses básicos. A compreensão dos mecanismos evolutivos da gripe é uma componente muito importante na previsão das estirpes que estarão em circulação no próximo ano, previsão essa que determina a escolha de estirpes a incluir no desenvolvimento da vacina para a próxima época gripal.

Publicado por RPA às 12:33 PM | Comentários (0)

março 15, 2006

PsicoNeuroParalogias...

Geller.jpgInforma-nos o inevitável Dr. Luís Portela, no Jornal de Notícias de hoje, que entre 29 de Março e 1 de Abril a Fundação Bial organizará o 6∞ Simposium Bial, este ano subordinado ao tema "Aquém e Além do Cérebro". Algumas sessões deste Simpósio ameaçam ser até interessantes, mas não tanto como a terceira, que terá como tema: "A relação entre a memória e os fenómenos parapsicológicos" (espero que esta sessão se realize a 1 de Abril - é o dia certo!).

Uma das conferencistas deste fascinante Simpósio é Caroline Watts, apresentada como "Professora de Parapsicologia" na Universidade de Edimburgo. Fui dar com o currículo desta, sem dúvida eminente, investigadora no website da Universidade e constatei que a Snra Watts tem vários artigos publicados no Journal of Parapsychology (e também um, com o intrigante título Tacit information in remote staring research: The Wiseman-Schlitz interviews, publicado numa coisa chamada Paranormal Review).

Adorava ler estes artigos, mas o Journal of Parapsychology não sente, obviamente, necessidade de ter um website. Já o pessoal do European Journal of Parapsychology, revelando alguma falta de fé na sua própria definição do que estudam (e.g.:"communication or interaction between organisms and their environment that do not appear to rely on the established sensorimotor channels") oferecem a Table of Contents aos que, como eu, são pouco dotados nestas artes telepáticas.

Alguém conseguirá transmitir-me, por qualquer meio, o artigo de Yung-Jong Shiah e Wai-Cheong Carl Tam com o título Do human fingers "see" ? - "Finger-reading" studies in the East and West? Prometo recompensar, por canais sensorimotores não estabelecidos, com uma grande quantidade de notas de 20 euros...

Publicado por Santiago às 1:44 PM | Comentários (14)

Ficção Natural: vade ultra

superman-baby-buntings.gifO Superman gritou desesperado porque a mocinha morrera e voou furioso levado pela vontade cega de contrariar aquela realidade. Destacou-se assim o aspecto humano da sua super-natureza. Mas as semelhanças a Cristo não acabaram ali: ao ascender ao céu o Super-Homem também ultrapassou a estratosfera. A diferença esteve no facto de que Kal-El quis mudar o rumo à história, embora sempre com uma ressurreição em mente. Rodopiou em torno da Terra a uma velocidade de fazer corar a luz mas no sentido contrário ao da diária viagem planetária. Deu tantas voltas que o globo, por razões electromagnéticas ou extra físicas de todo desconhecidas dos astrónomos, teólogos e demais comedores de pipocas, mudou de spin retroagindo com ele o tempo. Foi assim que a comunidade "hollywoodesca" reflectiu boquiaberta acerca da função "Rew" no controlo remoto de Deus.

O biólogo, não precisou de cabine telefónica nem de super-amendoins. Desesperado pela lentidão da sua carreira, pelo comprimento das suas horas de trabalho e pela música estocástica que lhe guiava o bailarico da vida, quis negar a realidade e criar algo de memorável. Destacou-se assim o divino na sua natureza humana. Limpou a gordura do esparguete aos flancos encardidos da bata como se pudesse fazer o mesmo à memória dos oito meses de gestação imposta ao seu manuscrito por parte de um revisteca praticamente internacional. Naquele dia daria à história um devir alternativo através de uma sua auto infligida experiência: manipular os factores determinantes da actividade da DNA Polimerase de modo a reverter a sua função. Assim, ao transformar as suas próprias células com esse(s) gene(s), o biólogo fez com que a mega enzima desfizesse o que estava feito, soltando um poeiral de nucleótidos com apreciável libertação de energia. De fazer corar qualquer mitocôndria. Porém, sempre com a regressão em mente, o biólogo produziu afinal um recuo apenas fisiológico da sua própria constituição, uma redução semi-conservativa do seu material genético. Restava uma célula onde antes havia duas, diminuindo o tamanho do tecido, revertendo a morfogénese do órgão, recuando o desenvolvimento do sistema. O cabelo voltou a crescer-lhe, a barba era cada vez mais rara e a sua voz cada vez mais aguda. Rapidamente assistiu-se à reencarnação de um novo e real Benjamin Button, narrando ao vivo a adivinhação de Fitzgerald. A metamorfose foi tão significativa que o próprio biólogo passou a caminhar com os pulinhos coordenados de uma macaca imaginária. Após uma adolescência e infância galopantes o nosso herói expirou no fundo de uma alcofa, num infantário para órfãos algures na cidade. Desapareceu deixando apenas uma única célula diplóide sem saber o que fazer (e também alguns conhecidos boquiabertos).

Publicado por VB às 12:04 AM | Comentários (3)

março 14, 2006

O papel II - uma série de perguntas

Apareceram nas últimas semanas anúncios para doutoramentos, uns no Instituto Superior Técnico, outros no Instituto Gulbenkian de Ciência. Confesso que estes últimos me interessaram mais por ter a impressão que vieram tomar o lugar deixado vago pelo programa de doutoramento da Gulbenkian que terminou o ano passado e do qual eu fiz parte. No entanto ambos os anúncios têm uma coisa em comum: dizem que "o candidato deve concorrer obrigatoriamente às bolsas de doutoramento da FCT, cujo prazo termina a 31 de Março". Não se percebe muito bem - os candidatos são seleccionados pelo IST e pelo IGC e depois tem bolsa garantida? Ou são seleccionados pela FCT e a selecção pelos institutos permite só por um orientador e projecto específico na candidatura?
E para mim as perguntas mais pertinentes:
1- Como é que é possível estimular a manutenção dos critérios ridículos da FCT de ter que se ter média mínima de 14 para fazer doutoramento e com mais de 16 ter bolsa quase garantida? Deixou portanto de haver qualquer hipótese de um aluno com média mais baixa de fazer doutoramento? E para garantir que há menos complicações e que os alunos recebem efectivamente a bolsa, será que os institutos vão dar preferência aos alunos com média mais alta e usar isto como critério principal?
2 - Como é que anúncios postos duas semanas antes do prazo limite para concorrer a bolsas esperam arranjar candidatos suficientes?

Publicado por MM às 1:58 PM | Comentários (21)

março 13, 2006

maradona no Conta

dodo_skelet.jpgPassamos a contar com um novo colaborador, um blogger consagrado que assina como "maradona". Convidei-o por três motivos: 1) gosto da sua prosa; 2) queria alguém com uma visão mais macroscópica da biologia do que a dos biólogos moleculares que por aqui abundam; 3) sei que algumas das opiniões dele são polémicas e talvez animem as caixas de comentários. Na sua apresentação, verão que o maradona parece algo incomodado com o facto de não ser um cientista no activo, mas esquece-se que o Conta é um espaço para diletantes, onde ninguém escreve sobre os assuntos que de facto domina, antes pelo contrário.
Tomei a liberdade de seleccionar uma imagem com o esqueleto do Dodo para ilustrar as entradas do nosso novo colaborador. Com sabem, o Dodo foi um produto do gigantismo insular e uma das primeiras aves extintas pelo homem. O nome é também um dos poucos vocábulos lusos que penetraram na língua inglesa, pois Dodo deriva do português arcaico doudo que os nossos navegadores terão usado para baptizar esta ave, pela forma curiosa e inconscientemente destemida com que se aproximava dos homens. O Dodo simboliza a preocupação do maradona com a conservação das espécies e dos habitats e, de algum modo, a forma também destemida - para não dizer louca - como ele por vezes discute estas coisas.

És muito bem-vindo, maradona.

O Vasco Barreto não sabe, porque desconhece a minha admiração pelas pessoas que fazem ciência, o orgulho que me dá ter sido convidado para escrever aqui no Conta Natura. Se soubesse, não me teria convidado, pois, como assinalou para toda a eternidade Groucho Marx, descobrir que estas pessoas estão dispostas a aceitar-me no mesmo espaço que eles em muito diminuiu a consideração que por eles tinha.
Desejo iniciar esta coisa com um pequeníssimo conjunto de esclarecimentos, todos decorrentes da conjugação de sentimentos que acima tentei animar com uma referência à cultura popular. Sendo embora, até na minha profissão, um amador, detesto amadorismos; estou a querer extrair o seguinte corolário: qualquer conjunto de afirmações que aqui ocorram assinadas por "maradona" têm um peso específico completamente diferente de uma afirmação assinada por qualquer um dos outros membros.
Notem, pelo amor de deus, notem: isto não é modéstia, é, tão somente, uma pessoa de Direita a falar. Considero que devem existir pessoas com mais direitos que outras e, no caso concreto de um blogue colectivo sobre ciência como este, que o valor das opiniões concedida pelos leitores a cada um de nós não deve, não pode, absolutamente não pode, estar distribuído igualitariamente.
É uma constatação de facto que a minha vida não é estudar, ao contrário de todos os outros marmanjos que aqui escrevem. Mesmo que fosse, o poder académico instituído declarou-me como quase inapto na aquisição de conhecimentos mínimos sobre o que quer que seja de científico, pelo que seria tentar violentar a minha dignidade como ser humano de Direita ver-me concedida qualquer tipo de paridade com os restantes pessoas aqui do local que não a que resultasse das opressivas e ditatoriais hierarquias académicas.
Peço encarecidamente que respeitem esta disposição e que não a vejam como modéstia ou busca de simpatia. Busca da vossa simpatia talvez seja um pouco, mas manifestação de modéstia absolutamente não. Se fosse modesto não teria aceitado nem sequer escrever sobre pássaros, que é o que tenciono fazer. Pode-se até exclamar com raiva "quem é que ele pensa que é?", pois mesmo de pássaros o meu conhecimento é apenas, digamos assim, puramente aéreo, decorrendo que algum eventual interesse que derivem do que eu venha a escrever, não carece, antes exige, a consulta de bibliografia e informação acreditada por quem faz da ornitologia a sua profisssão, hoje, felizmente, por todo o lado tão abundante.
Gostar de ver pássaros através de binóculos nos seus habitats naturais e detestar que eles se extingam são as minhas únicas credenciais. Que tenham, pois, isto sempre em atenção.
maradona.

Publicado por Conta Natura às 12:28 PM | Comentários (3)

março 12, 2006

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgA newsletter desta semana do Gripept.net aborda, de forma simples e acessível aos nossos leitores pouco versados no mundo da biologia, o tema da diversidade dos vírus da gripe e o seu impacto na eficácia da resposta imunitária.

Para mais detalhes, visite o site Gripept.net e participe neste projecto.

"Clusters" de vírus Influenza

Os vírus Influenza, aqueles que provocam a gripe, não se mantêm sempre iguais ao longo do tempo. Se fossem sempre iguais, o nosso sistema de defesas, ou sistema imunitário, reconhecê-lo-ia logo mal fossemos infectados, e trataria imediatamente de o combater. Assim, esse vírus deixaria de ser perigoso para nós porque nos tornávamos imunes a ele e nunca mais nos causaria qualquer doença. Mas como os vírus são "inteligentes", arranjaram maneira de se irem transformando para que o nosso sistema imunitário não os reconheça imediatamente e para que mantenham a sua capacidade de nos provocar uma gripe. Isso significa, em primeiro lugar, que o vírus Influenza não é sempre igual e, em segundo lugar, que existem diversas variedades, ou estirpes, do vírus Influenza.

Resumindo:

- o nosso organismo, quando foi infectado por uma determinada estirpe, não volta a ser infectado por ela - adquire, portanto, imunidade específica total. É o que se pode ver no boneco 2 (na figura em baixo) que está a azul por ter sido infectado no passado com a estirpe a.

- se somos infectados por um vírus parecido com um que já nos infectou no passado, a probabilidade de ficarmos doentes é menor. Isto acontece porque o nosso organismo registou as características do vírus que nos havia infectado e, se reconhece algum parecido, tenta de imediato combatê-lo. É a isto que os epidemiologistas chamam imunidade cruzada e que se pode ver também no boneco 2 nas setas verde e vermelha.

Temos assim uma forma de medir se os vírus são próximos ou não. Curiosamente, os vírus Influenza, na natureza, estão agrupados em conjuntos de estirpes próximas. Estes conjuntos são conhecidos por "clusters". No exemplo, as estirpes a e b poderiam formar um "mini" cluster. clusters.jpg

A figura representa duas pessoas: um indivíduo que nunca foi infectado (1), que tem uma determinada probabilidade de ser infectado por qualquer tipo de vírus, representados pelas setas coloridas; e outro, que já foi infectado pela estirpe a (2).

Publicado por RPA às 11:06 AM | Comentários (0)

março 9, 2006

O Conta de parabéns

foguetes.jpg
Assunto para celebrar. Ganhámos o título de melhor blogue de ciência/de cientista num concurso organizado pelo blogue BLOPEs. Obtivemos 36% dos votos, o que não foi exactamente uma maioria absoluta. Tivemos competição cerrada do ResearchCafe.net (25%) e do Caminhos do Conhecimento (21%). Parabéns a todos e obrigada a quem votou em nós.

Publicado por SJA às 9:17 AM | Comentários (3)

março 7, 2006

Batuque de Santiago

Batuque.jpgTôrno torna, bate escuro
bate escuro, rodopia, pára.
Canta bate hesita e roda
torna tôrno, bate forte...

......A noite em roda reboa
......ess'cusa escura cresce,
......mistério feito planta
......de som crescendo à toa...

Vaso de mãos que batem
compasso, passo que dança
cresce, espera, cresce mansa
sob luzes que se esbatem

......Cresce a planta canto e dor
......lenta melopeia funda e baça
......espiral de som tecida em cor

O vento, o vento, o pó o vento
roda, uiva bate e cansa

......Tôrno torna bate duro
......canto triste longo lento
......ritmo baço fofo e escuro

...A luz ao longe bruxoleia...
o vento sopra e arrasta a areia

(Santiago, 1969)




Albano Neves e Sousa era o mais angolano dos pintores portugueses. Escreveu uma vez: "As coisas que eu não conseguia transmitir pintando, eu as transformava em poesia e a terra e eu éramos uma só ideia. Fazendo um retrospecto acho que cantei a ¡frica de todas as maneiras que sabia e algumas que não sabia..."

Publicou este Batuque de Santiago no livro Macuta e meia de nada

Publicado por Santiago às 11:20 PM | Comentários (0)

O papel

O papel é, como todos sabemos, calão antigo para dinheiro. A tradução para inglês é "paper", que é a moeda corrente da comunidade científica. Esta ligação linguística manifesta-se em Portugal, onde supostamente a falta de "papel" não é grande problema para os cientistas, pois eles podem sempre alimentar-se de "papers" (se são "peer-reviewed" ou não já é outra questão). Este trocadilho sem grande sentido (desculpem lá, às vezes uma pessoas cai nestas coisas) serve para introduzir uma notícia (?) sobre o financiamento da investigação científica portuguesa:

1 - O presidente da FCT, João Sentieiro, e a vice-presidente, Lígia Amâncio, anunciam que começam a cumprir a promessa de regularizar as datas de atribuição de subsídios, para os cientistas saberem a quantas andam (financeiramente, é claro). Pelo que eu percebi, o problema maior não é o que é resolvido com as datas descritas abaixo, mas uma vez um cientista sabendo que vai receber dinheiro, também ter ideia em que data é que vai começar a chegar à sua conta bancária. Para ver quantos dias é que ainda vai ter que comer "papers". Mas esta declaração pode ser um começo:
": 15 Feb 2006 16:08:57 +0000
Subject: Calendário das iniciativas da FCT em 2006
Caro Investigador
O Conselho Directivo da FCT, estabeleceu, entre outras, como prioridades da sua acção a intensificação do diálogo com a comunidade científica e a introdução de maior previsibilidade e regularidade nos concursos da FCT, divulgando à comunidade, com antecedência, calendários e procedimentos que permitam às instituições e aos investigadores planear a sua actividade de investigação e de formação de recursos humanos;
Dando concretização a estas prioridades vimos agora dar a conhecer o calendário das iniciativas que a FCT lançará durante 2006:
- No dia 1 de Março, abrirá pelo período de um mês, até 31 de Março, o concurso de bolsas de mestrado e doutoramento. As bolsas a conceder no âmbito deste concurso deverão iniciar-se em Janeiro de 2007, podendo em casos verdadeiramente excepcionais ter início ainda durante 2006, mas nunca antes de 1 de Outubro. Neste concurso será feita também a avaliação das bolsas de pós-doutoramento.As candidaturas a estas bolsas que sejam lacradas até 28 de Fevereiro e venham a ser aprovadas poderão ter início a partir de Setembro de 2006. As que venham a ser lacradas até 31 de Março e venham a ser aprovadas não poderão ter início antes de 2007.
- Entre 15 de Junho e 31 de Julho, estará aberto o concurso de projectos de I&D em todos os domínios científicos. Os projectos que venham a ser aprovados após avaliação por painéis internacionais, deverão iniciar-se no decurso do ano de 2007.
- No que respeita à avaliação das Unidades de I&D o processo terá início no dia 15 de Setembro para todas as unidades de I&D cujo último exercício de avaliação decorreu entre Junho de 2002 e Janeiro de 2004. Nos Laboratórios Associados as acções de acompanhamento e avaliação decorrerão de acordo com o previsto nos respectivos contratos.
- Entre 1 de Novembro de 2006 e 31 de Janeiro de 2007 estará aberto o processo de pré-candidaturas à constituição de novas unidades. "

Publicado por MM às 1:48 PM | Comentários (3)

março 6, 2006

Será Que Falha?

pato.jpg

Publicado por RPA às 4:15 PM | Comentários (0)

março 5, 2006

Biogaffe: Sociologicando

nerd1.jpg S.Diego em Abril é só sol diário e maresia omnipresente. Conheço uma pessoa versada em sociologia que, levada por acontecimentos furtuitos, encontrava-se naquela cidade durante esse mês, aproveitando despreocupadamente o dito clima no mesmo hotel onde decorria uma certa conferência de biólogos.

Como estou casado com essa pessoa, convenci-me que o que mais atraiu o seu "olho sociológico" à "fauna" do congresso foram não os bíceps dos estudantes mas os sinais sensíveis da obsessão geral: as "t-shirts" ilustrando insectos atacados de antropomorfismo, o ostensivo hermetismo da linguagem, enfim, o autismo (digamos) vestigial de insistir no tema das moscas-da-fruta.

"Vivemos num tempo de avançado conhecimento,..."
dizia-lhe um douto participante, como se entrevistado ao vivo no tapete vermelho dos ”scares. Embora nerd em desleixo, a sua camisola trazia uma ilustração distinta da média: um felino correndo na savana. Quase cool, não fosse a legenda em letra miúda versar: The chase for the most specific hot start PCR result is over!
"...por isso existem encontros tão especializados como este, em que não se discute senão um único organismo".

Abstendo-se de comentar a noção de "avanço" e temendo qualquer tipo de confronto ideológico acerca da velocidade das chitas ("quem ou que é PCR?"), a veraneante salvou-se do embaraço pela chegada de mais duas drosofilistas. Uma delas faz perguntas à pessoa que encontrou em companhia do seu amigo biólogo, querendo conhecer o seu laboratório de proveniência.

"Socióloga? Mas quê, socióloga de moscas?"

Não é assim tão triste que uma pessoa com doutoramento em biologia seja incapaz de reconhecer o sujeito da sociologia. O que realmente deprime é o facto dessa mesma pessoa gastar o resto da conversa defendendo a possibilidade "mais que cabal" de estudos sociológicos em moscas. Após uma tentativa frustrada para tentar fazer notar à seguidora de Morgan que a sociologia define-se pela relação entre indivíduos e instituições, a filha de Durkheim desistiu. Afinal de contas também é do sociólogo estar pronto ao confronto público, à gente que lhe cospe na cara, que arranca-lhe a barba ou, para diluir um pouco o exagero, que questiona constantemente a utilidade do seu campo de estudo.

Que o cientista tenha tendências para a secura do humor, já é sabido. Mas que além disso deixe transformar a soberba em ignorância, é aviltante. Será que a Abel Salazar ainda exibe no seu átrio a faixa com aquela famosa frase do homem que lhe deu o nome e a honra?

Publicado por VB às 4:21 PM | Comentários (1)

março 3, 2006

GripePT.Notícias

logoGripenet.jpgA newsletter desta semana do Gripept.net mostra um interessante mapa que resume as várias ondas de propagação do H5N1, desde Abril de 2003 a Fevereiro de 2006.

Leia com atenção e para mais detalhes, visite o site Gripept.net e participe neste projecto.

Actualidade da Gripe das Aves
O mapa do link abaixo contém um resumo da propagação da Gripe das Aves desde 2003. No decurso da quarta onda de propagação, em Fevereiro de 2006, o perigoso vírus H5N1 foi descoberto em mais 13 países, dando entrada em ¡frica e na Europa. Como podemos confirmar a vermelho no mapa, temos:

Continente Asiático: índia, Irão, Iraque.
Continente Europeu: França, Alemanha, Itália, Eslovénia, Grécia, ¡ustria, Hungria, Arménia.
Continente Africano: Nigéria, Egipto.

Mapa:

map2.jpg Publicado por RPA às 5:01 PM | Comentários (3)

março 2, 2006

Lythos

39089923.sun_set_rock.jpgNão há razão nenhuma em particular para se fazer uma ligação entre Ciência e Arte. Também não há motivos para não o fazermos. SciArt, ou Arte e Ciência, que é como se chama esta secção do Conta, é algo, a que muito gostamos de referir-nos. Do lado da Ciência, do nosso lado, gostamos de falar da beleza das imagens científicas e do seu conteúdo artístico. Do lado da Arte, há artistas a mergulharem em laboratórios para dar um novo rumo à arte que fazem. Uma das discussões correntes usa os velhos argumentos sobre o que é mesmo a arte na ciência ou a ciência na arte. Tenho ouvido cientistas, e muitos, dizerem o quão perto estão das artes gráficas quando tiram fotografias, fazem desenhos e olham para os seus ratinhos transgénicos. Ai a beleza artística e o conteúdo de uma mosca expressando proteínas verdes fluorescentes num qualquer grupo de células! Imagens bonitas talvez sim, assim como as estereotípicas fotografias das férias, mostrando um pôr do sol sobre a Ilha do Pessegueiro. Como as fotografias que exibimos, às vezes, no Montra Natura. Uma imagem vale mil palavras, mas daí até ser Arte, há muito trabalho a fazer. O único caminho a percorrer será mesmo o da estreita colaboração entre artistas e cientistas. Poderemos aprender uns com os outros e levar mais além tanto os conceitos artísticos como a própria SciArt.
Não desfazendo, de um lado e do outro já se vai fazendo alguma coisa na aproximação das duas àreas. Não falta por aí gente com muita vontade e “muito engenho e arte”. Um deles, que descobrimos um destes dias, é o José Paulo Andrade. O José Paulo, é fotógrafo amador e, nas horas vagas, professor da Faculdade de Medicina do Porto. É autor do projecto Lythos que onde tentou encontrar formas e paisagens virtuais nos pequenos detalhes das rochas e minerais. Para este projecto o José Paulo baseou-se nos trabalhos de Bill Atkinson, conseguindo no seu projecto fazer melhor que quem o inspirou.
As fotografias são bonitas. O assunto “científico”. É mesmo caso para dizer, é um “sciartista” português vindo do mundo da Ciência. Voltaremos com outros.

Publicado por SJA às 9:03 AM | Comentários (1)