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outubro 30, 2006

Portugal Santiago Diário

gago.jpgLeio no Portugal Diário (que por este andar ainda vai tornar redundante o meu trabalho neste blogue) que os "Bolseiros" de Investigação "armaram barraca" (literalmente) em frente à Assembleia da República. «Cientistas estão nas lonas», garantem eles (coisa que, por sinal, me recordou a necessidade de comprar um novo jogo de pneus...).

Há um ditado conhecido, Timeo Danaos et dona ferentes, que signfica (em tradução livre): "Quem o tem, tem medo". Talvez por isso tenha gostado tanto de ler a citação que a notícia a certa altura transcreve: "Mariano Gago anunciou recentemente não temer «a fuga de cérebros portugueses» para o estrangeiro".

A alguém terá ocorrido que Mariano Gago pudesse ter medo da "fuga de cérebros portugueses" para o estrangeiro?

Ele???? Ter medo??? Nunca!!!

Publicado por Santiago às 10:57 PM | Comentários (1)

The Bonfire of the Vanities

0553275976.01._AA240_SCLZZZZZZZ_.jpgUm anónimo qualquer que trabalha em Harvard (mas não esqueçamos que na Harvard University "anónimos" são quase todos...) publicou um artigo numa revista chamada Biochemical and Biophysical Research Communications a que a Lusa e o Portugal Diario decidiram dar um destaque inusitado (é já o segundo artigo que ele publica este mês - Parabéns! Parabéns também à Lusa que pelos vistos não perde uma...).

O destaque dado pelo Portugal Diário é um catálogo quase completo de tudo o que me incomoda no (pseudo-)jornalismo científico português: O provincianismo: A que propósito é que um artigo numa Revista que tem um Impact Factor de 3 (!) merece ser destacado a este ponto?; a falta de informação: Duas ou três frases do primeiro autor do artigo (vindas do Abstract), mais meia-dúzia que vem dos "enlatados" que por lá há, na gaveta marcada "Doença de Parkinson", não chegam para o leitor perceber o que é que de novo e importante foi agora publicado; a ignorância da praxis científica moderna: Escrever em referência ao primeiro autor "Português lidera equipa de cientistas" é minimizar o papel desempenhado pelo Líder do grupo, que normalmente é o último e corresponding author; as falsas esperanças que desnecessariamente cria nos que, infelizmente, sofrem desta doença terrível: Custava muito escrever "[...] uma nova classe de proteínas pode vir a ter efeitos protectores[...]" em vez de "[...]tem efeitos protectores[...]"?.

É boa altura para os jornalistas se inteirarem do significado que habitualmente tem a ordem dos autores num artigo científico (pelo menos nas Ciências Biológicas) e aproveitarem para desistir deste irritante provincianismo, que não revela senão um enorme complexo de inferioridade.

Era bom também que as notícias passassem a incluir a informação (que aliás é pública) sobre o Impact Factor das Revistas em que foram publicados os trabalhos que descrevem. Desconfio que nesse caso muito pessoal (o de Harvard, por exemplo) passava a ter mais tento na língua, quando fala com jornalistas...

Publicado por Santiago às 7:54 PM | Comentários (0)

outubro 29, 2006

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Publicado por RPA às 5:26 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 26, 2006

José Antunes Serra (1914-1990)

chapeu2.jpgProcuro material sobre o Prof José Antunes Serra (indicações sobre publicações do autor e publicações sobre autor e a sua obra que não estejam disponíveis online). Gostaria também de entrar em contacto com antigos colaboradores do Prof. Serra.

O Prof. Serra foi um geneticista português que, entre outros feitos, em 1965 publicou um livro de texto sobre genética em três volumes e quase duas mil páginas, Modern Genetics (Academic Press), obra que durante uns tempos foi a grande referência internacional para os estudantes da área.

Vasco M Barreto

(Contacto:conta_natura
@hotmail.com
)

Publicado por Conta Natura às 4:36 PM | Comentários (0)

Old and Nobel Controversies

RNAi Nobel Prize ignores.jpgTranscrevo abaixo uma "Carta ao Editor" (realces meus) publicada hoje na Nature e que critica a atribuição do Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina deste ano. Não é a primeira vez (nem será a última, obviamente) que aparentes injustiças como esta ocorrem ou que as decisões da Academia Sueca se revelam altamente discutíveis.

Talvez o mais famoso destes casos tenha sido o do Prémio de 1959, que foi atribuído a Arthur Kornberg ignorando a sua mulher Sylvy (entretanto já falecida). Diz-se que quando ela soube da atribuição do Prémio ao seu marido terá exclamado: "I was robbed!". O próprio Arthur Kornberg, com enorme generosidade, reconheceu no seu famoso livro For the Love of Enzymes, a injustiça cometida pela Academia Sueca.

Palpita-me que esta discussão vai continuar para a semana. Trata-se, afinal, de mais um daqueles casos em que o que interessa é a substância da alegação e não a identidade dos seus autores...

Correspondence

(Nature 443, 906(26 October 2006) | doi:10.1038/443906a; Published online 25 October 2006)

RNAi Nobel ignores vital groundwork on plants

Marc Bots 1 , Spencer Maughan 2 and Jeroen Nieuwland 2

1. Flanders Interuniversity Institute for Biotechnology, Technologiepark 927, BE-9052 Gent, Belgium
2. Institute of Biotechnology, University of Cambridge, Cambridge CB21QT, UK

Sir:
The Nobel prize, by recognizing the individuals behind breakthroughs, inspires all scientists to do great science. The discovery of RNA interference (RNAi) changed the face of gene regulation, a feat deservedly recognized with this year's Nobel Prize in Physiology or Medicine 1.
As undergraduates, we witnessed with great excitement the discovery of gene silencing. At that time, almost all research in that area was being conducted by plant scientists, and as young plant biologists we were lucky to have front-row seats to this molecular drama.
Like all great advances, RNAi is turning out to be important in ways that could not have been guessed at even a decade ago. Therefore we were not surprised to discover that the topic was selected for this year's honour ó but we were shocked that the plant scientists who were so crucial in discovering and communicating the underlying mechanism of RNAi were not awarded a share.
Of course there is often controversy around the awarding of the Nobel prize. Yet in this case we feel that a grave error has been made in overlooking key researchers, all of whom work on plants. Most of the six points cited in support of the prize were not first shown by Andrew Fire or Craig Mello, who won the prize, but were already known from plant research. For example, the sequence specificity, RNA degradation and post-transcriptional nature of gene silencing had all been shown in studies on plants and plant viruses 2,3 . In addition, the observation that silencing is non-cell-autonomous was first done in plants 4. Moreover, the models involving double-stranded RNA and amplification mechanisms had been proposed by plant researchers before the publications of RNAi mechanisms in animal systems 5.
In our view, the main importance of the work by Fire, Mello and colleagues (accessible via ref. 1., together with other relevant articles) was the integration of these elements to demonstrate that they stood up to testing in an animal system, the nematode worn Caenorhabditis elegans. Subsequently, plant research continued to break new ground on mechanisms of RNAi-based genetic regulation.
As the Nobel prize may be shared by three people, a plant scientist should have been included. One who springs to mind as a pioneer in the field is David Baulcombe (see http://www.sainsbury-laboratory.ac.uk/dcb). His work was key to understanding the mechanism of RNAi and paved the way for Fire and Mello's findings.
By ignoring the work done in plants, the Nobel committee has undermined the values at the centre of the prize and is sending a discouraging message, especially to young researchers.

References

1 Nature 443, 488 (2006)

2 Baulcombe, D. C. Plant Mol. Biol. 32, 79ñ88 (1996)

3 Van der Krol, A. R. et al. Plant Cell 2, 291ñ299 (1990)

4 Voinnet, O. & Baulcombe, D. C. Nature 389, 553 (1997)

5 Metzlaft, M., O'Dell, M., Cluster, P. D. & Flavell, R. B. Cell 88, 845ñ854 (1997)

Publicado por Santiago às 12:22 PM | Comentários (4)

BEHAVIOUR PATHOLOGIES

Parte da nova série de workshops do IGC, realizar-se-á, de 14 a 16 de Fevereiro de 2007 o Workshop on “BEHAVIOUR PATHOLOGIES: BIOLOGICAL APPROACHES”. O data limite para inscrições é dia 12 de Dezembro.

Poster_Workshop.JPG

Publicado por SJA às 10:53 AM | Comentários (0)

outubro 25, 2006

Shell Wildlife Photographer of the year

shell wildlife photographer of the year.jpg

Publicado por MM às 1:58 PM | Comentários (0)

outubro 24, 2006

Milipeia

F1-P281.jpg
"Milipeia", ou "Super-Centopeia", é o novíssimo supercomputador do país que foi ligado com sucesso, na Universidade de Coimbra, na passada quarta-feira, estando agora em fase de testes. Este computador, que tem 528 processadores, sucede à Centopeia, que tinha apenas 108 e que estava a trabalhar desde 1998, e é cerca de dez vezes mais rápido. O seu rendimento sustentado é de 1,5 Teraflops (um milhão e meio de milhões de operações aritméticas por segundo). Este projecto, realizado no Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra, por Carlos Fiolhais, Manuel Fiolhais, Pedro Alberto e Fernando Nogueira (os "meninos" da foto), tem um investimento total que ronda os 700 mil euros, para além do custo da infraestrutura que já estava disponível.

Optou-se, primeiro na "Centopeia" e agora na "Milipeia", pela computação paralela, feita por uma bateria de processadores em paralelo. O nome das máquinas vem daí: assim como uma centopeia ou um milípede (bichos do grupo dos miriápodes) têm de movimentar todas as patas ao mesmo tempo para avançar, assim também para resolver um problema científico todos os processadores ("patas") têm de avançar ao mesmo tempo. A "Milipeia" tem um milhão de megabytes de memória, um valor cerca de 2000 vezes superior ao dos computadores pessoais à venda no mercado.

O novo supercomputador, o maior do país, vai poder ser usado por cientistas portugueses para efectuarem cálculos em áreas como a a física de partículas e nuclear, astrofísica, geofísica, bioquímica e biomedicina, estando aberto à comunidade científica. Entre os bio-projectos inclui-se um de cálculo de “folding” de proteínas realizados por bioquímicos de Coimbra e, em fase embrionária, um programa de biomedicina computacional, em colaboração com o Centro de Neurociências da Universidade de Coimbra e que envolve as Faculdades de Medicina e Farmácia daquela universidade.

Ainda que bastante poderoso, este "cluster" de computadores não consegue entrar na lista dos 500 mais poderosos do mundo , um ranking dominado pelos EUA e onde a Espanha marca presença com um sistema, o MareNostrum. Carlos Fiolhais quer mais, conforme declarou no recente encontro no Porto sobre "Novas Fronteiras das Ciências": "Gostaríamos de ter três mil processadores com cerca de dez teraflops de desempenho e gostaríamos de poder beneficiar de uma rede nacional de supercomputação. Temos de nos associar para dispor de algo maior, algo que seja competitivo à escala internacional. Querer isso não é querer a Lua, mas simplesmente querer estar no cimo da Terra."

Publicado por SJA às 1:31 AM | Comentários (2)

outubro 23, 2006

Cíclope Cínico

DUPLO.jpgadiposo.jpgadiposo (tecido) (adj.) Tipo especial de tecido conjuntivo composto por adipócitos. 1. Função Serve de reserva energética, isolamento térmico, pára-choques e até de equipamento, como nos lutadores de Sumô. Em humanos é ainda usado para aumentar o volume do pénis, quando ele existe e precisa disso (ver cirurgia plástica). Em animais hibernantes uma variedade especial, o ~ castanho, é abundante porque tem a característica única de libertar energia directamente sob a forma de calor, coisa bem útil tendo em conta o preço a que chegou a electricidade. 2. Cultura No que respeita à popularidade, nenhum outro tecido depende tanto da localização (ver mama e barriga), nem oscilou tanto ao longo do tempo (ver a ilustração que contrasta a Venus de Willendorf com um homólogo moderno) 3. Gordura é formosura Os adipócitos deixam de proliferar ao fim dos 3 primeiros anos de vida e o seu número mantém-se desde então essencialmente inalterado, salvo em casos excepcionais, como a autofagia das nádegas entre contorcionistas, (mas ver ainda lipo-sucção ). O seu volume, no entanto, pode chegar a atingir proporções, digamos, excessivas, como em exemplos que o leitor facilmente recordará no espaço de liberdade que é a sua esfera privada . 4. Musa inspiradora A sugestão de Jô Soares para o seu futuro epitáfio - "enfim, magro" - dá vontade de ser gordo. 4. "Fatties have more fun? A ideia de que os gordos são mais divertidos do que os magros inspirou as histórias do bom Califa e do mau Vizir Iznougoud, mas admite excepções como por exemplo António Silva e Pacheco Pereira.

Publicado por Santiago às 5:50 PM | Comentários (1)

outubro 20, 2006

Os Grandes Portugueses

Acabei de ver a Maria Elisa, talvez a mais pequena das portuguesas, apresentar um novo concurso da RTP em que se pretende escolher o maior de entre eles. Antes que escolham o D. Afonso Henriques (ou até, sei lá, o Marques Mendes) faço questão de revelar aos nossos amáveis leitores em quem votei no concurso dos "GRANDES PORTUGUESES":

..........................Grande%20Portugue%CC%82s.jpg

Apetece-me agora parafraseá-lo: "Enterrem-se os vivos, e cuide-se dos mortos". É já tempo...

Publicado por Santiago às 11:07 PM | Comentários (10)

outubro 18, 2006

Quid est veritas?

Pilatos.jpgNo Agreste Avena continua o debate sobre a "verdade" científica, com um novo contributo meu aqui. É longo, mas assim tive espaço para dar mais porrada em Popper e ainda umas bicadas nos "Cientistas" Sociais e (demasiado) Humanos.

Entretanto, o Zèd publicou uma réplica ao meu texto anterior, tocando nalguns pontos que merecem tréplica. Diz ele:

1) "tomando a visão de Popper em sentido lato, vendo o princípio da falsificação como uma abstracção (e uma simplificação), como sendo apenas um modelo de trabalho, uma forma de sistematização lógica do funcionamento da Ciência, pode argumentar-se que a Biologia Molecular (o tal novo paradigma) é a refutação da explicação instrutiva.

Não sou suficientemente íntimo de Popper para saber se ele concordaria com este "sentido lato" que toma o seu querido "princípio da falsificabilidade" como uma "abstracção". O meu argumento, no entanto, era que a Biologia Molecular não refutou de todo a Teoria Instrutiva. Houve uma altura em que se pensou que havia incompatibilidade entre os princípios biológicos comummente aceites e a T. I., mas isso foi um erro. Na realidade há proteínas (Hemoglobina e enzimas alostéricos, por exemplo) que podem adaptar a sua conformação tri-dimensional a um substracto e portanto a T. I. acabou abandonada por más razões. Wolpert (sempre ele...) colocou o dedo na ferida: "This view [...] fails to explain how one knows that a falsification is correct".

2) "A Ciência sem resultados empíricos é apenas especulação. Ou seja, podem construir-se teorias, mas que não se constituirão em paradigmas se não forem corroborados por observações experimentais, se não forem testados empiricamente."

Segundo o Zèd há aqui um ponto de discórdia, mas creio que está enganado Nunca quis negar valor ao "empirismo" e falei do "progresso pela razão" (expressão tirada da aula que originou a minha 3a Grande Lição de Filosofia) para tentar ser provocatório ao chamar a atenção para o que ele justamente diz "acumular dados empíricos sem que se construa a partir daí um modelo explicativo não é propriamente Ciência". Acho é que, às vezes, os dados empíricos só são acumulados (só há razão para "ir à procura deles") depois de o modelo explicativo ter sido formulado.

3) "outro ponto que me parece importante e que o Santiago não abordou: Como se constrói um paradigma? Quem decide que uma teoria se transforma em paradigma?"

São duas excelentes perguntas, que têm uma resposta muito fácil: Não sei muito bem...

No contexto talvez valha a pena contar a história do paradigma (dominante quando comecei a trabalhar em Imunologia) da "Network Theory" (Jerne, outra vez. Acabo sempre a falar só de uma meia-dúzia de indivíduos...). Nasceu quase como "Teoria Pura" sem muitas bases empíricas. Cresceu, e tomou proporções gigantescas, por acumulação de grande quantidade de resultados experimentais exclusivamente fenomenológicos. E depois morreu de repente.

É uma Teoria que nunca foi falsificada, nem sequer foi substituída por outra. Passou a ser simplesmente ignorada. É um bocado como aqueles primos afastados que só causam embaraços nos baptizados de família e que são depois envergonhadamente enterrados com toda a discrição, deixando os tios a fazer tudo o que podem para fingir que eles nunca existiram.

Vou tentar colocar na Hemeroteca o artigo original e partilhar com os amáveis leitores as minhas reflexões sobre essa extraordinária mistura de trivialidade, tontice e trompe l'oeil em que tantos (eu incluído) se deixaram enredar (ah! ah!), durante tanto tempo.

Ainda hoje não sei porquê...

Publicado por Santiago às 8:20 PM | Comentários (4)

Cíclope Cínico

DUPLO.jpgAmazons.jpgAmazonas (do Lat. amazon < Gr. amázon: a, sem + mazós, seio) 1. Lendárias mulheres guerreiras que mutilavam o seio direito para melhor manejarem o arco, facto que torna muito enigmático o destino que davam às canhotas. Viviam num reino só de mulheres, o que aparentemente levanta sérios problemas biológicos, não respondidos de forma satisfatória pela partenogénese. Consta que as Amazonas acasalavam com homens de outras tribos e depois guardavam apenas as meninas. O esquema talvez lhes trouxesse as vantagens do vigor híbrido, mas só se cada tribo ficasse de pousio durante pelo menos uma geração, caso contrário a mana Amazonas podia, sem querer, acasalar com o mano dela apartado à nascença (vide endogamia e Habsburgos ). A lenda das Amazonas é particularmente apreciada entre feministas e lésbicas, servindo de inspiração a uma iconografia em registo erótico onde é patente que as guerreiras entretanto terão desenvolvido uma técnica de tiro com arco menos invasiva que a original (ver ilustração) 2. Megalomania fálica Após o abandono do projecto da "Transamazónica", uma longa faixa de alcatrão penetrando pela densa e frondosa floresta adentro, só uma benévola explicação psicanalítica salva agora os seus responsáveis (ver também coitus interruptus) 3. Amazonas (rio): O mais caudaloso rio do mundo foi assim baptizado por Francisco Orelhana, porque ao descê-lo, em 1541, encontrou uma tribo de mulheres guerreiras cujos seios, na azáfama da batalha, não chegou a ter tempo de contar. Sendo duro de ouvido, Orelhana (ver hereditariedade) julgou que os indígenas logo adoptaram o seu nome, quando na verdade o nome Tupi do rio é "amassunu", para "ruído das águas". Por seu turno, os índios cedo se deram conta da tremenda falta de jeito que os espanhóis revelam para línguas, pelo que lhes pareceu que ao dizer ~ Orelhana estava a adoptar a toponímia local. Esta história prova que o multiculturalismo funciona sobretudo quando dois equívocos se complementam. O problema actual do multiculturalismo é que o número de equívocos aumentou e tende a ser ímpar.

Publicado por Santiago às 3:15 PM | Comentários (4)

Prémios IgNobel 2006

winners-and-laureates2005.gif
Os prémios IgNobel 2006 foram mais uma vez organizados pelo Annals of Improbable Research e entregues, em Boston, no dia 5 de Outubro. Sempre com o intuito de divertir, este ano, na sua 16™ edição os IgNobeis foram atribuídos, entre outros, à explicação científica do porquê de os picapaus não terem dores de cabeça, ao estudo da atracção de um mosquito ao cheiro do queijo e ao relatório médico da terminação do soluços por massagem (digital) anal.

O prémio IgNobel da Ornitologia foi para Philip May e Ivan Schwab que se perguntaram por que é que os picapaus não têm dores de cabeça. Os picapaus, que chegam a bater com os bicos nos troncos das árvores mais de 12000 vezes ao dia, possuem crâneos preparados para tais actividades. Possuem também um mecanismo que faz com que os seus olhos não saiam das órbitas pelo impacto do bico contra o tronco.

Na Biologia, os louros do IgNobel foram para o estudo, de Bart Knols e Ruurd de Jong, sobre a atracção do mosquito Anopheles Gambiae ao cheiro do queijo Limburger. Para além disso, estes cientistas demonstraram que a atracção do mosquito, não é só ao cheiro do queijo, mas igualmente ao cheiro a pés humanos.

O prémio IgNobel da Medicina foi atribuído a Francis Fesmire pelo seu relatório médico da cura de um caso (quase) intratável de soluços. Depois de tentar todas as soluções possíveis o Dr. Fesmire conseguiu curar o seu paciente dos soluços que o torturavam há 72 horas, efectuando uma massagem rectal com o seu dedo. Daí até à publicação e ao IgNobel foi um piscar de olhos.

Fica-nos o conselho. Nada de sustos ou beber água por um copo ao contrário. Em casos agudos de soluços já se sabe o que fazer.

Publicado por SJA às 12:04 AM | Comentários (0)

outubro 17, 2006

As melhores previsões são sempre a posteriori...

Monod_musicien.jpg
.....
.....
Chanson d'automne

Les sanglots longs
Des violons

.....De l'automne

Blessent mon coeur
D'une langueur

.....Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand

.....Sonne l'heure,

Je me souviens
Des jours anciens

.....Et je pleure,

Et je m'en vais
Au vent mauvais

.....Qui m'emporte

Deçà, delà
Pareil à la

.....Feuille morte.

(Paul Verlaine)

.....
.....
.....
.....
.....
.....
Jacques Monod revelou desde muito cedo um grande gosto pela música clássica. A sua mãe ambicionava para ele uma carreira musical de relevo e só consentiu que ele aderisse a uma Banda de músicos amadores depois de se assegurar junto dos responsáveis que o jovem Jacques tinha talento para chegar a Chefe-de-Orquestra.

Aos 22 anos de idade ganhou uma Bolsa para estagiar num prestigiado Laboratório. Passou o ano a praticar violoncelo e foi por isso incapaz de apresentar um relatório no final do seu estágio. O responsável pelo programa de Bolsas criticou-o severamente pela sua inaptidão para o trabalho científico e vaticinou-lhe um futuro nada brilhante: "Il me paraÓt evident, Monsieur, que vous n'êtes pas doué pour la recherche!"

François Gros contou esta história num Simpósio em memória de Jacques Monod. Gosto de pensar que, longe de ter sido simplesmente um mau prognóstico, foi aquela agressividade que espicaçou Monod a dedicar-se com mais afinco à Biologia.

Se calhar perdeu-se um Chefe-de Orquestra indiferente, mas felizmente ganhou-se um Princeps da Ciência...

Publicado por Santiago às 6:46 PM | Comentários (0)

Workshop

website
poster1_outlines.jpg

Publicado por MM às 2:03 PM | Comentários (0)

outubro 16, 2006

Cíclope Cínico

DUPLO.jpgAstrologia s.f. do Gr. ástron, astro + lógos, tratado) Burla por meio dos astros. Distingue-se do camdomblé, que é a burla por meio dos búzios, e da quiromancia, que é a burla com recurso à palma da mão. Surgiu há milhares de anos e de forma independente em várias culturas, uma prova de que partilhamos o mesmo céu e as mesmas taras.1. Criação de gado Ao contrário do que o nome indica trata-se duma disciplina sem bases empíricas, já que postula haver grande atracção dos nativos de Carneiro pelas nativas de Virgem. Na realidade passa-se rigorosamente o oposto, nomeadamente entre imberbes pastores 2. índice Civilizacional Uma sociedade diz-se evoluída quando o número de astrónomos ultrapassa o número de astrólogos, desde que não haja acumulação de cargos 3. Congressos Partidários Há quem acredite que os grandes conflitos políticos estão escritos nas estrelas, mas eles na verdade ocorrem apenas na Lua. 4. Não cumpre o critério da falsificabilidade; ainda assim, quando não são vagos, os horóscopos são falsos. 5. Tycho Brahe (1546 ?1601) foi um dos últimos astónomos-astrólogos, mas em certos círculos académicos especula-se que Zandinga, um astrólogo português no activo, tem uma luneta e sabe fazer derivadas.

Publicado por Santiago às 8:18 PM | Comentários (1)

Cíclope Cínico

DUPLO.jpgimage-1.jpg
Astrofísica s.f. Ramo da Astrologia que descreve a influência dos astros na vida das pessoas através de equações, recorrendo à espectroscopia e à fotometria, entre outras técnicas 1. Glórias terrenas Zandinga, na Física, como António Lobo Antunes na literatura, são os dois lusitanos que actualmente mais hipóteses têm de chegar a um Nobel.

Publicado por Santiago às 8:12 PM | Comentários (0)

outubro 12, 2006

Prémio Citomed de Investigação em Imunologia 2006

cartazcitomedpeq180.jpg


O prémio Citomed de investigação em imunologia vai ser este ano atribuído a Leonor Sarmento durante a XXXII Reunião Anual da Sociedade Portuguesa de Imunologia em Braga, no próximo sábado, dia 14 de Outubro. Este prémio, uma iniciativa conjunta da Associação Viver a Ciência, da Sociedade
Portuguesa de Imunologia
e da empresa Citomed, foi atríbuido a esta cientista pelos resultados do seu trabalho sobre o efeito de Notch1 na progressão do ciclo celular.

Leonor Sarmento interessou-se pela relação entre o ciclo celular (nomeadamente
os mecanismos de diferenciação e especialização das células) e as origens e
dinâmicas de tumores. Afinal, se a divisão celular descontrolada está na
génese dos cancros, a activação ou inibição desse processo, num momento
preciso de decisão, poderá fazer toda a diferença, em termos de
desenvolvimento ou não da doença. Da mesma forma, seria possível manter por
mais tempo a capacidade pluripotencial das células estaminais ñ isto é, a
possibilidade de se especializarem em células de determinado tecido. Uma via
importante quando pensamos em transplantes para fins terapêuticos. A
investigadora portuguesa e colaboradores apostaram num condicionador de
desenvolvimento chamado “sinal Notch”, que viaja entre a membrana e o núcleo
da célula, influenciando uma proteína (a p27) que, por sua vez, controla a
maquinaria da divisão celular. Uma das novidades que Leonor Sarmento trouxe
para a ciência foi a que o “si
nal Notch” não influenciava directamente aquela proteína. Havia um elo
intermédio, que tinha passado despercebido aos investigadores: uma outra
proteína, também já conhecida, de seu nome SKP2. Então sim. Descobriram que, a
partir de aqui, eram capazes de modelar a dinâmica celular, interferindo nos
estímulos que as jovens células recebiam do seu ambiente circundante para que
se especializassem ñ para que fossem os “tijolos” do osso, ou do músculo, ou
dos nervos... Introduzindo, naquele preciso momento do ciclo celular, o “sinal
Notch”, evitava-se a decisão irreversível. As células ficam indiferenciadas
mais tempo, com alguma capacidade pluripotencial e sem se dividirem demasiado.
Estava esclarecido mais um pequeno mistério do mecanismo da divisão celular e
aberta uma pista para a terapia molecular. Leonor Sarmento alerta, contudo,
que a manipulação para fins terapêuticos ainda tem um longo caminho a
percorrer e bastantes riscos a eliminar.

O prémio Citomed de investigação em Imunologia, lançado pela primeira vez este
ano, mas de periodicidade anual, é mais uma parceria de sucesso em que a
Associação Viver a Ciência alia financiamento privado a investigação
científica. Pretende-se, assim, contribuir para o desenvolvimento de carreiras
científicas e promover a investigação de excelência em Portugal, incentivando
a responsabilidade social das empresas perante o progresso do país.

texto proveniente do comunicado de imprensa emitido pela Associação Viver a Ciência

Publicado por SJA às 10:14 AM | Comentários (0)

outubro 11, 2006

Bolinha no canto superior direito

banded mongoose.jpg

Fui o outro dia assistir a uma palestra sobre esta espécie, o manguço-listrado (Mungos mungo). Os hábitos deste animal são tão fascinantes que achei que mereciam um post. Mas aviso: isto não é para crianças de tenra idade!

Os manguços-listrados habitam o continente africano em grupos sociais ou famílias de 15 a 30 indivíduos. Dentro de um grupo há uma hierarquia rígida, com machos e especialmente fêmeas-alfa, e depois machos e fêmeas-beta. A proporção é normalmente de um macho para duas fêmeas. Só os machos-alfa e fêmeas-alfa é que podem procriar.

Na altura certa, todos os machos e fêmeas-alfa juntam-se numa orgia sexual (nos termos de quem deu a palestra) de três dias. As fêmeas grávidas dão à luz no mesmo dia - se se atrasam ou adiantam as crias são mortas e as fêmeas expulsas - e as crias são aleitadas por todas as mães indiscriminadamente. Quando as crias são desmamadas, escolhem um macho ou fêmea-beta para tomarem conta deles. As crias passam a acompanhar os "tios" na procura de comida e os tios partilham com eles a comida que encontram. Normalmente as crias dão preferência a um macho-beta sobre uma fêmea-beta para tomar conta deles, o que é uma escolha onerosa - normalmente um mangusto que está a tomar conta de uma cria perde bastante peso, pois tem que partilhar toda a comida. Isto pode explicar porque é que, com os mangustos, ao contrário de outras espécies semelhantes, os machos vivem mais tempo que as fêmeas.

Já estão a ver que num grupo acumulam-se fêmeas descontentes que nem podem ter, nem criar filhos. Ocasionalmente, um grupo de fêmeas-beta sai do grupo-mãe e tenta estabelecer uma colónia noutro sítio, onde possam ser fêmeas-alfa. Juntam-se a elas alguns machos-beta que vão encontrando pelo caminho. E o ciclo começa de novo.

Há muito mais coisas interessantes obre os manguços-listrados - como é que as crias reconhecem os seus "tios", como é que a proporção de machos e fêmeas muda conforme os recursos disponíveis, etc. Há também muitas coisas por descobrir, por exemplo, quanto material genético é partilhado entre crias e seus "tios".

Como leitura de cabeceira, um artigo de Sarah Hodge.

Publicado por MM às 1:14 PM | Comentários (1)

outubro 7, 2006

3º Encontro - O Ensino Informal das Ciências para as Pessoas com Necessidades Especiais

3ºencontro.jpg No próximo dia 12 de Outubro vai realizar-se no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva, o 3º Encontro “O Ensino Informal das Ciências para as Pessoas com Necessidades Especiais”. Neste 3™ Encontro pretende-se promover o debate e a partilha de experiências entre profissionais, divulgar novos projectos e programas e discutir novas abordagens para a promoção da ciência junto das pessoas com necessidades especiais.
Este encontro focar-se-á na divulgação das várias estratégias que têm sido utilizadas nalguns centros de ciência, as quais permitem que as crianças e os jovens com necessidades especiais possam tirar o máximo de experiências, quer sociais quer cognitivas. Também se apresentarão vários projectos de divulgação científica, onde as escolas e instituições de educação especial podem recorrer e participar ao longo do ano. E por último, realizar-se-ão também workshops para informar e disponibilizar vários programas (software e sites) ligados às Ciências e Tecnologias de Informação e Comunicação que têm sido e/ou podem ser utilizados com as pessoas com necessidades especiais.
A partilha entre o museu e os professores/técnicos é indispensável para o sucesso de qualquer acção. Sem essa relação, nada ou pouco acontece!

Participação gratuita. Inscrições limitadas (120 participantes)

Telefone: 218917100

Fax: 218917171

Pessoa Contacto: Fátima Alves

E-mail: 3encontro_ne@pavconhecimento.pt

Publicado por SJA às 2:41 PM | Comentários (0)

Who was Popper, anyway?

Karl Popper.jpgO Zèd, do Agreste Avena, colocou um post com vários links para um debate que houve na revista BioEssays acerca do especioso assunto de qual a utilidade hoje em dia, para um cientista, das ideias defendidas pelo Dear Sir Karl.

O debate é bastante interessante e recomendo vivamente que lá vão, e leiam a grande troca de correspondência provocada por uma simples frase de Robin Holliday: "Popper may well be a great philosopher, but there is much he did not understand about the way scientists operate and the way science advances."

Como eu gosto muito de citar o Lewis Wolpert vou, tal como o Zèd, destacar o seu contributo. Escreve Wolpert "Falsification also does not help us distinguish science from non-science; the idea that eating hamburgers will make you a better poet is falsifiable but is not science", e ainda (referindo-se a Popper) "His reputation is greatly inflated with respect to science." Brilhante, não é?

Aproveito para informar os nossos amáveis leitores que pelos lados do Agreste Avena estou envolvido com o Zèd num debate quase parecido com este, acerca do problema da "verdade científica" e da possibilidade da sua obtenção. A coisa ainda vai durar, e um contributo meu pode ser lido aqui, num texto em que, sauf Darwin, consegui só mencionar indivíduos agraciados com o Prémio Nobel.

Publicado por Santiago às 12:38 AM | Comentários (8)

outubro 5, 2006

"Aging Research with Bioinformatics Methods"

Curso no Instituto Gulbenkian de Ciência

De 6 a 9 de Novembro

Inscrições até 10 de Outubro

Informações e Inscrição

Publicado por MM às 4:33 PM | Comentários (0)

Ciclope Cínico

atp.jpgDUPLO.jpgATP (acrónimo de adenosina trifosfato) 1. A unidade de energia da célula, de valor menos flutuante que o do barril de petróleo 2. Síntese Pode ser verde (quando resulta da fotossíntese), poluente (ver flatulência) e não renovável (ver Malthus), nos casos em que é produzido pela respiração celular a partir dos hidratos de carbono ou dos lípidos 2. Em matéria de detalhes, ganha o Diabo Na forma desoxi- o ~ radioactivo é usado no laboratório para marcar o ADN (ver Southern) com sondas (ver Pioneer). Com o decaimento radioactivo o ácido nucleico acaba por ficar minado por átomos de enxofre, não valendo nem um fósforo 3. Polissemia O circuito ~ não deve ser confundido com o ciclo de Krebs, embora o abandono de qualquer um deles se traduza naacumulação de gordura

Publicado por Conta Natura às 11:33 AM | Comentários (0)

outubro 4, 2006

Prémio Nobel da Física 2006

Medal Nobel Physics .jpg


O Conta tem a honra de apresentar José Natário, um ilustre docente de matemática do IST e investigador em geometria e relatividade. Terá a missão de nos trocar por miúdos os aspectos básicos do trabalho que desenvolveram mais dois americanos e que lhes rendeu ontem o Prémio Nobel da Física. O Conta dá-te as boas vindas e conta contigo para novas colaborações.


mather.jpgsmoot.jpgO Prémio Nobel da Física de 2006 foi atribuido aos americanos John Mather e George Smoot, pela sua "descoberta do espectro de corpo negro e anisotropia da radiação cósmica de fundo".

A radiação cósmica de fundo é, como o nome indica, radiação que é medida no céu a partir de todas as direcções, sem ser originada em nenhuma fonte discernível (estrelas, galáxias, ...). A sua descoberta acidental, em 1964, valeu já um prémio Nobel da Física.

De onde vem então esta radiação? De acordo com o modelo do Big Bang, vem do Universo primitivo, que seria incrivelmente denso e quente. Devido à temperatura elevada, não existiam átomos, mas apenas núcleos de hidrogénio e hélio e electrões dissociados, o que tornaria o Universo completamente opaco (um pouco como é opaco o interior do Sol). ¿ medida que o Universo se expandia, arrefecia; quando a temperatura baixou o suficiente para se formarem átomos, tornou-se subitamente transparente. A radiação que existia nessa época tem estado a viajar desde então (durante cerca de 14 mil milhões de anos, mais de 3 vezes a idade da Terra!). Na altura era composta predominantemente de luz visível, mas a expansão do Universo "esticou" o seu comprimento de onda até a tornar em radiação de microondas.

O que é então o "espectro de corpo negro" e a "anisotropia" desta radiação? Se se medir a intensidade da radiação de uma dada frequência emitida por um corpo a uma dada temperatura, e se traçar o gráfico "intensidade" versus "frequência", obtém-se uma curva característica, que só depende da temperatura do corpo. É a esta curva que se chama o "espectro do corpo negro" (claro que o corpo emissor não tem que ser preto; pode ser o Sol, um corpo humano ou mesmo um cubo de gelo). O espectro do corpo negro é a assinatura de um corpo que está todo à mesma temperatura, isto é, está em equilíbrio térmico.

O modelo do Big Bang previa que a radiação cósmica de fundo devia ter esta forma, mas tal não era claro dos dados inicialmente disponíveis. O satélite COBE (COsmic Background Explorer), lançado em 1989, e cujo principal responsável era John Mather, confirmou isto para lá de qualquer dúvida: o espectro da radiação cósmica de fundo é um dos espectros de corpo negro mais perfeitos da Natureza.

Por outro lado, sabia-se já que a radiação cósmica de fundo é incrivelmente isotrópica, isto é, igual em todas as direcções. Isto confirma o modelo do Big Bang, que modela o Universo a largas escalas como sendo homogéneo e isotrópico. No entanto, o Universo não é completamente homogéneo e isotrópico: possui irregularidades locais - estrelas, galáxias... O modelo do Big Bang explica a formação das galáxias como resultado de pequenas irregularidades no Universo primitivo, que teriam sido ampliadas pela expansão do Universo. Estas irregularidades foram medidas pela primeira vez na radiação cósmica de fundo pelo COBE; a medição foi coordenada por George Smoot.

José Natário

Publicado por RPA às 12:53 PM | Comentários (1)

outubro 3, 2006

Please don't speak to yourself, Joe...

Galaxy Song.jpgPray that there's intelligent life somewhere out in space
'cause there's bugger all down here on Earth!

...
...
Joe Davis trabalha no M.I.T. e é um "Artista Científico". O seu trabalho consiste em criar novas formas de arte biológica. É por isso uma daquelas pessoas com uma actividade, digamos assim, tão útil como a do Treponema pallidum.

Num dos seus trabalhos mais recentes e aclamados, ele "recorded the vaginal contractions of ballerinas with the Boston Ballet and other women, then translated this impetus of human conception into text, music, phonetic speech and ultimately into radio signals, which were beamed from MIT's Millstone radar to Epsilon Eridani, Tau Ceti, and two other nearby star systems."

Explica ele assim a utilidade deste projecto: "The images of humans placed aboard the Pioneer 10 and 11 spacecraft show impeccably groomed men that lack any facial and body hair," Davis hoots, "and women with no external genitalia." Poetica Vaginal was in part a response to this curious censorship. "By making this attempt to communicate with the other," he explains, "we're really communicating with ourselves."

É claro que se houver vida inteligente em Tau Ceti, ela vai ficar com fundadas dúvidas sobre a existência da mesma em Sol...

Publicado por Santiago às 7:33 PM | Comentários (0)

Nem La Palisse diria melhor...

Picture 2.jpg
Expliquem-me lá como é que 11 minutos antes deste brilhante artigo a BBC conseguiu publicar tudo isto?

Os jornalistas em Portugal não sabem para que é que servem os press releases?

Publicado por Santiago às 12:38 PM | Comentários (1)

outubro 2, 2006

Prémio Nobel em Fisiologia ou Medicina 2006

med.jpg

fire.jpg

mello.jpg


Mais um vez, e sempre na primeira segunda-feira de Outubro, o Comité Nobel atribuiu hoje o Prémio em Fisiologia ou Medicina. Para não surpreender excessivamente a comunidade científica, os laureados são dois americanos: Andrew Z. Fire e o Craig C. Mello. Ambos laboram em escolas médicas, o primeiro na de Stanford e o segundo na de Massachusetts.

Este ano premiou-se a regulação da comunicação da "informação genética". O trabalho resume-se a esta frase "RNA interference ñ gene silencing by double-stranded RNA", o que quer dizer na língua de Camões que se descobriu um mecanismo de silenciamento génico que ocorre a meio caminho entre, a transcrição de um gene activo no núcleo e a produção da proteína por ele codificada no citoplasma, através da eliminação das etapas intermédias.

O nosso genoma, presente no núcleo das células, encerra o conjunto dos nossos 30 000 genes. Esses contêm a informação, em forma de código, para a síntese das proteínas que nos compõem, num outro espaço - o citoplasma das células. A comunicação entre estes dois compartimentos faz-se através da síntese de um outro ácido nucleico com função telecomunicativa - "o RNA mensageiro ou RNAm".

O que se pensava antes destes dois senhores terem publicado os seus trabalhos, simplificava excessivamente os mecanismos de produção ou não-produção de proteínas. Antes associava-se a síntese proteica à presença deste RNAm, com uma sequência complementar de nucleótidos da dos genes nucleares, e à sua migração para fora do núcleo. O que se descobriu vai muito mais além. Pode haver síntese de RNAm e transporte para o citoplasma sem haver síntese de proteína, através da formação de complexos de cadeia dupla entre duas moléculas de RNAm que activam um sistema de destruição com especificidade para o reconhecimento desse RNA de cadeia dupla. A ausência deste "mensageiro" tem como consequência a ausência da síntese proteica e, como tal, o gene apesar de tentar "proferir algumas palavras" é silenciado de forma tão eficaz como o são algumas vozes discordantes em regimes políticos radicais ou nem por isso.

Curioso é também perceber que esta forma pidesca de regulação génica é um mecanismo muito conservado na biologia celular desde as origens da vida e, como tal, presente tanto em plantas como em animais e nós não somos excepção.

Mas o impacto desta descoberta vai muito para além da regulação da função celular. O trabalho este ano agraciado permite-nos compreender os mecanismos de defesa celular contra as infecções virais e bem como uma nova forma de controlo de material génico potencialmente perturbador da paz celular - os genes saltitantes - por se tratar de uma válvula de segurança intermédia entre os ácidos nucleicos e a síntese das proteínas. Não devemos ainda esquecer o papel importante dos oncogenes na geração e sustentação de uma célula maligna. Aqui como noutras áreas de que envolvam "hiperactividade génica" o recurso ao silenciamento através de RNA complementar poderá ser uma arma terapêutica muito poderosa.

O Conta Natura junta-se ao Comité Nobel e felicita de viva voz os laureados de 2006, mas não contribuímos para o prémio de mais de 1 milhão de euros que será entregue, também como todos os anos, no dia 10 de Dezembro!

Publicado por RPA às 5:46 PM | Comentários (2)

Ah! Eis um debate com graça

carbon.jpgEscreve o LUDWIG KRIPPAHL neste interessante post que "a ciência não está limitada ao natural. O Universo é que veio sem acessórios sobrenaturais, e a ciência apenas nos diz que é assim que as coisas são."

O meu agnosticismo militante impede-me de aceitar sem um pio a peremptória afirmação de o Universo não ter sido equipado com "acessórios" sobrenaturais (como é que ele sabe? Foi algum "ser sobrenatural" que lhe garantiu a sua própria não existência?), mas a minha grande discordância é com aquela ideia de a Ciência não estar limitada ao mundo natural.

Esse tal mundo natural, físico, que nos rodeia e pode ser pesado, medido, analisado e quantificado é constituído por átomos (deixo de lado a existência de energia e do universo sub-atómico, que não tenho bagagem para discutir. Não me parece que os argumentos que seguem mudem muito se tomarmos isso em conta).

A descoberta da composição do mundo natural foi talvez o maior avanço da Ciência e abriu-nos as portas a uma verdadeira compreensão da realidade. Os átomos que compõem a matéria organizam-se em Moléculas e, no caso da matéria viva, ainda em Células, Organismos e Populações. Ciência é o estudo das interacções moleculares/atómicas (que são as únicas "causas naturais" existentes) da matéria, organizada em qualquer destes níveis. Os fenómenos naturais ocorrem por interacção entre esses átomos e alargar a definição de Ciência para incluir o estudo de "coisas não-naturais" seria admitir o estudo "científico" de "causas" que não envolvessem interacções entre átomos. Isto não só é negar a "Ciência" tal como a conhecemos hoje em dia, mas também criaria dificuldades graves ao "problema da demarcação" entre o que é Ciência e o que é não-ciência, ou pseudo-ciência.

Ciência é "o estudo das causas naturais dos fenómenos naturais". Por outras palavras: Procura conhecer as interacções atómicas e moleculares que causam os fenómenos que observamos. Só chegamos ao conhecimento total do mundo natural quando um dado fenómeno tem explicação molecular. Mas quando a tem, esse mesmo fenómeno alcança a sua "explicação final". A estrutura do gene ou o mecanismo de geração de diversidade dos anticorpos, por exemplo, nunca mais serão explicados de outra forma porque hoje em dia os conhecemos molecularmente, em todo o detalhe. São dois exemplos de "fenómenos" cujo "paradigma" (à la Kuhn) nunca mais se alterará (em aparte esclareço que sou um opositor acérrimo da noção que toda a verdade científica é provisória e é sempre superseded por uma melhor explicação da realidade...).

Esta raciocínio torna fácil distinguir Ciência do que não é Ciência: Qualquer ramo do conhecimento só pode ser considerado "científico" se alcançar uma "explicação molecular" (segundo este ponto de vista, a Biologia só se tornou científica depois da verdadeira "revolução" que sofreu em consequência dos trabalhos daqueles 3 senhores cuja fotografia se pode ver no meu anterior post...). As "Ciências" Sociais e Humanas, embora possam ser consideradas como ramos da Biologia das Populações, não alcançaram ainda esse nível de explicação dos fenómenos que estudam e por isso não as considero disciplinas científicas.

Um problema inteiramente distinto deste de saber qual é a maneira mais adequada de descrever o que fazemos é a questão de saber o que fazer se algum dia tivermos evidência da ocorrência de fenómenos ou causas não-naturais (ou sobre-naturais... para-naturais... meta-naturais, anyone?).

Entendo que esses putativos fenómenos e causas deverão ser estudados, claro, mas nunca o poderão ser por cientistas. Cientistas que o fizessem estariam a negar a sua própria raison d'être, abandonando o "naturalismo metodológico" que é a verdadeira essência da actividade cientifica...

Aproveitando a embalagem, quero também embirrar com os parágrafos que dizem:

"Vamos supor que queremos melhorar as colheitas, e que consideramos duas hipóteses. Uma, naturalista, diz que devemos irrigar os campos e usar fertilizante. A outra diz que devemos propiciar os deuses para que providenciem uma colheita abundante. Há uma forma clara de determinar a melhor hipótese: irrigamos e fertilizamos metade das plantações, e na outra metade sacrificamos vacas, rezamos, ou seja o que for que a segunda hipótese indique como propiciando melhor os deuses. No final medimos quanto foi produzido e já sabemos o que funciona melhor."
"O método é o mesmo, e é o Universo que determina a melhor alternativa. É pelo Universo ser como é que nós irrigamos os campos em vez de sacrificar vacas, ou levamos o carro avariado ao mecânico em vez de o levar à igreja. A ciência diz-nos que é melhor fazê-lo desta maneira, mas se fosse melhor fazer da outra, também era a ciência que o iria mostrar pela comparação dos resultados."

Não me parece particularmente feliz ir buscar o exemplo de uma actividade puramente tecnológica (a agricultura) para argumentar que devemos preferir a explicação científica por ser a mais bem sucedida. Nem os mais ferrenhos sobre-naturalistas se furtam, na maior parte dos casos, aos confortos que a tecnologia moderna põe à sua disposição...

Mas embirro mesmo é por não achar que o "argumento do sucesso", tão subjectivo como é, seja bom para justificar a actividade cientifica. Não há tanta gente que (negando embora o que a mim parece óbvio) nega as explicações científicas e só se convence com explicações sobre-naturais? Não é difícil perceber que este argumento os deixe bastante indiferentes e por isso os ouçamos argumentar (como infelizmente argumentam por vezes) que a actividade científica é desnecessária (ou até errada) como mecanismo de compreensão do mundo em vivemos.

Como eles aceitam que, pelo menos nalguns casos, os fenómenos naturais têm causas naturais, creio que deixar de lado o argumento do sucesso será a melhor maneira de eles nos deixarem em paz...

Publicado por Santiago às 2:39 PM | Comentários (10)

outubro 1, 2006

Grandes Frases, Grandes Filósofos

Monod.jpg"Voilà la frontière, presque aussi infranchissable pour nous qu'elle l'était pour Descartes. Tant qu'elle n'est pas franchie, le dualisme conserve en somme sa vérité opérationnelle. La notion de cerveau et celle d'esprit ne se confondent pas plus pour nous dans le vécu actuel que pour les hommes du XVIIème siècle."

Jacques Monod

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Delbruck.jpg"Thus, even if we learn to speak about consciousness as an emergent property of nerve nets, even if we learn to understand the processes that lead to abstraction, reasoning and language, still any such development presupposes a notion of truth that is prior to all these efforts and that cannot be conceived as an emergent property of it, an emergent property of a biological evolution. Our conviction of the truth of the sentence, "The number of prime numbers is infinite", must be independent of nerve nets and of evolution, if truth is to be a meaningful word at all."

Max Delbr¸ck

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Crick.jpg"The mental picture that most of us have is that there is a little man (or woman) somewhere inside our brain who is following (or at least, trying hard to follow) what is going on. I shall call this the Fallacy of the Homunculus. Many people do indeed feel this way - and that fact, in due course, will itself need an explanation - but our Astonishing Hypothesis states that this is not the case. Loosely speaking, it says that "it's all done by neurons."

Francis Crick

Publicado por Santiago às 12:58 PM | Comentários (5)