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novembro 7, 2006

Será que a Genética é de esquerda?

Geografiahumana.gifPaulo de Oliveira, biólogo da Universidade de Évora, comenta artigo de Sergio Danilo Pena e a tese de que o conceito de “raça humana” não tem fundamento biológico.

Para poupar tempo na análise do artigo , fui directamente à procura do parágrafo mais significativo deste artigo de opinião, do nosso ponto de vista como biólogos: "A inexistência biológica de 'raças' humanas". Diz o autor o seguinte, a certo passo:

«A constatação de que uma parte muito pequena da variação genômica humana ocorre entre as supostas 'raças' leva necessariamente à conclusão de que elas não são significativas do ponto de vista genético ou biológico.»

Pois eu digo (e estou longe de ser o único, evidentemente), que não leva, não senhor. O autor deste artigo não se tem actualizado, apesar da aparência que dá por estar a pseudo-citar uma excelente publicação cujo primeiro autor, em França, deve ser patrício (brasileiro).

Aquela afirmação estafada tem a sua origem num estudo baseado em variação alélica isoenzimática humana, datado dos inícios dos anos 70, donde se gerou um paradigma de refutação do conceito de "raças" (eu na FCL aprendi a preferir "grupos humanos") que desde então se tornou muito jeitoso para o politicamente correcto, mas que tem gerado imensa polémica entre meios que, politicamente correctos à mesma, se inscrevem em correntes de pensamento de direita. E não apenas por preconceito (que está em todos os campos, infelizmente), mas por simples falta de substância científica.

Será que a Genética é de esquerda por causa desse paradigma? Não devia, pelo menos. E, nem mais nem menos, deve ser de direita.

Aliás, a sua a investigação agora publicada (pdf) faz tudo para refutar a refutação. Baseada em marcadores genéticos tidos como bastante fiáveis (inserções e deleções do DNA, que são eventos únicos na história evolutiva e depois disso não são obscurecidos por uma taxa de mutação pontual demasiado elevada - têm muito maiores probabilidades de serem evolutivamente neutrais do que os alelos isoenzimáticos), produz um gráfico, o qual remeto em anexo (da figura 1), onde se distinguem com muita nitidez pelo menos 5 agrupamentos, um dos quais até rompendo com a tradição de continuidade entre Extremo Oriente e Américas.

Manifestamente, Sérgio Danilo Pena não está interessado no conteúdo desta investigação, mas sim em usá-la como pretexto para repisar os argumentos duma desracialização que pode parecer muito boazinha sociologicamente (embora, como sabemos, sem efeitos práticos) e só faz perdurar uma confusão que a Biologia devia (e pode, em princípio) desfazer.

O problema da interpretação dos resultados assenta em dois aspectos: primeiro, quais os marcadores genéticos utilizados (neste caso, as indels revelam coisas que nenhum outro tipo de marcador autossómico conseguiu), e qual é o peso que se dá às estatísticas genéticas.

Marcadores como os isoenzimas (cf. estudos dos anos 70) fazem uma amostragem dos genomas que todos sabem ser demasiado enviesada, pois são em pequeno número, têm constrangimentos estruturais sobre a divergência mutacional e, principalmente, são seleccionados pelos investigadores em função de apresentarem polimorfismos intrapopulacionalmente -- consequentemente, seria mesmo de admirar se não dessem como resultado "85,4% da diversidade alélica ... dentro das próprias populações".

Quanto à interpretação das percentagens, e só para dar mais um exemplo, o facto de haver cerca de 1% de divergência entre humanos e chimpanzés pode parecer pouco, mas na realidade quer dizer 30 milhões de pares nucleotídicos por genoma haplóide;actualmente ainda não se sabe quais dessas divergências têm um significado biológico, e era isso que o autor devia colocar em primeiro lugar, antes de ser levado a tirar conclusões. Sócrates (o antigo), tantos se esquecem da tua famosa frase...

E afirmações como «Assim como a cor da pele, essas características físicas das porções expostas do corpo dependem da expressão de poucos genes.» Mesmo que um dia se prove ele ter razão, ele não sabe (a não ser que alguém do lado divino lho tenha bichanado ao ouvido - a Biologia não sabe), e tenho sérias dúvidas que seja por se tratar de porções expostas do corpo!

O conceito de raça acarreta confusões em dois planos muito distintos, e é por isso que eu não o uso: por um lado, é a semântica da expressão inglesa "human race", que se traduz como "humanidade", ou "género humano"; por outro, é o peso histórico baseado nos genes de pigmentação (em grande medida ainda por identificar...), quando afinal eram (são!) meros pretextos de superiorização eurocêntrica. Se virmos bem, os somalis, os guineenses e os singalis têm todos pigmentação semelhante, no entanto devem pertencer (cf. anexo) aos grupos Middle East, Africa e Central Asia, respectivamente. A isto dá-se o nome de paralelismo evolutivo.

A definição racista de raça deve ser posta no seu lugar (lixo) pela evidência científica, mas não pela negação falaciosa da descontinuidade genética entre grupos humanos (a insistência de Lewontin também é preconceituosa), antes pela evidência historico-geográfica nela reflectida.

Paulo de Oliveira

PS: Ver também aqui.

Publicado por Conta Natura às novembro 7, 2006 12:09 AM

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Comentários

Excelente texto!

Publicado por: Sofia Loureiro dos Santos às novembro 7, 2006 10:23 PM

Bom texto! É uma crítica justa aos que sentem necessidade de basear os seus valores éticos em conhecimentos científicos (que na maior parte dos casos são apenas pseudo-científicos).

Infelizmente há gente que não aprendeu grande coisa com a história dos muitos horrores a que esse tipo de raciocínio deu origem...

Publicado por: P Vieira às novembro 7, 2006 10:56 AM

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