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fevereiro 26, 2007

Causas E Consequências Das "Fomes"

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fevereiro 25, 2007

Temos Fome, Temos Muita Fome

O planeta é hoje habitado por 6,55 mil milhões de seres humanos. Menos de um sexto vivem em 57 países, ditos desenvolvidos, o que corresponde aproximadamente à população que vive abaixo do limiar de pobreza, com $1 por dia, nos restantes países. Destes, estima-se que 820 milhões sofram de malnutrição. Objectivamente, todos os dias, 16 mil crianças morrem literalmente de fome, uma criança a cada 5 segundos. Mas outros números oficiais de fontes como as Nações Unidas chegam a referir valores na casa das 20000 a 24000 pessoas mortas, por dia, pela Fome ou por causas directamente ligadas.

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Mas sejam quais forem os números reais eles não nos podem surpreender se tomarmos em conta que nos últimos 30 anos se registou um aumento na produção agrícola de calorias/dia de 17 por cento, enquanto a população cresceu 70 por cento no mesmo período.

No último número da edição europeia da revista Fortune esta realidade é identificada, com o realismo e a frieza dos números, como o Problema nº 2 com que a humanidade se deve confrontar, logo a seguir ao Aquecimento Global. Talvez, se o mundo tivesse um Vice-Presidente americano ou candidato a Presidente igualmente empenhado neste problema, a Fome fosse elevada ao 1º lugar da lista...
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Curiosamente, e segundo a mesma revista, cada um dos problemas tem assegurados enormes sucessos empresariais. Para acudir à Fome já existe uma empresa francesa -Nutriset- que registou lucros milionários em 2006, por se ter dedicado a produzir umas barras nutritivas que funcionam como suplemento alimentar. Na realidade, estes produtos terão mantido vivas cerca de meio milhão de crianças só no ano passado, graças ao apoio financeiro da UNICEF. Uma pequena embalagem de plumpy nut proporciona uma refeição de 500 calorias, vitaminas e sais minerais.

Mas a Fome revela ainda um paradoxo à escala mundial. Na face opulenta do globo, chocamo-nos com outras mortes, também provocadas pela fome, como as das modelos Ana Carolina e Carla Casales. Estas não são casos de pobreza. Estas são casos em que a abundância tem como reverso da medalha a saciedade letal, o desejo de não viver porque a morte não nos vem visitar com a mesma assiduidade.

Segundo o mapa da FAO, o continente africano é das regiões do globo mais afectadas por este flagelo, especialmente a África Subsariana que conta com a presença de dois países ligados a nós pela História e pela Língua.
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Li, hoje no Expresso, o esboço do programa da Política Externa da Presidência Portuguesa da União Europeia onde o Brasil tem lugar de destaque. Não existe uma única referência a África, e em especial, àquela África carente de apoio e solidariedade. Estamos ainda bem a tempo de não esquecer aqueles que um dia também foram portugueses e que hoje têm Fome, têm muita Fome.

Publicado por RPA às 11:36 PM | Comentários (5) | TrackBack

fevereiro 23, 2007

Cíclope Cínico

DUPLO.jpgAnérgico (adj. do gr. an, sem + enérgeia, pelo lat. energía-, energia + ico) Literalmente: "incapaz de produzir trabalho" 1. Contextualização Diz-se dos Governos, das oposições, dos impotentes e da equipa de futebol do Sporting, em jogos das competições europeias 2. Imunologia Conceito frequentemente utilizado para criar a doce ilusão de que se percebeu o que aconteceu, nomeadamente quando as experiências não funcionam 3. Homofonias aproximativas Apesar de facilmente confundível com alérgico, na alergia, pela falta de energia, a anergia dá alegria.

Publicado por Santiago às 5:53 PM | Comentários (3) | TrackBack

Álcool

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Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá Carneiro

Publicado por Santiago às 2:14 PM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 22, 2007

10º Aniversário da Clonagem

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A partir do núcleo de uma célula adulta da glândula mamária de uma ovelha e de um óvulo enucleado (após retirado o respectivo núcleo) conseguiu-se "clonar", pela primeira vez em mamíferos, uma ovelha inteira. A técnica designa-se por transferência somática de núcleo.

Os únicos indivíduos do sexo masculinos envolvidos foram de facto os investigadores Ian Wilmut e Keith Campbell. Mais uma vez a ganância dominou sobre o reconhecimento do verdadeiro autor e os louros foram quase exclusivos de Wilmut até 2006, altura em que reconheceu a grande responsabilidade de Keith Campbell no projecto desenvolvido anos antes.

A Dolly morreu a 14 de Fevereiro de 2003, e encontra-se hoje empalhada e exposta no Royal Museum of Scotland.

A outra, a madrinha, ao que consta está viva e de boa saúde.

Publicado por RPA às 4:53 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 21, 2007

E agora na série: "Os Mortos-Mortos"

Quando é que foi a última vez que aqueles pândegos do Conselho dos Laboratórios Associados deram sinal de vida?

Publicado por Santiago às 1:05 PM | Comentários (7) | TrackBack

Ainda na série: "Os Mortos-Vivos"

Alguém sabe o que é que aconteceu ao Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação?

Publicado por Santiago às 1:01 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 20, 2007

INEM Mais Ninguém

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O Portal da Saúde anunciou, em Junho do ano passado, que o Instituto Nacional de Emergência Médica tinha alcançado uma cobertura de 97% da população portuguesa residente no continente. Sem querer diminuir este valor importará não esquecer algumas questões suscitadas pelo episódio trágico de há um mês. Em concreto, um acidentado próximo de Odemira com traumatismo crânio-encefálico grave terá levado cerca de 6 horas a chegar a Lisboa para ser assistido por uma equipa neurocirúrgica.

Tenho grande dificuldade em compreender por que motivo os serviços de emergência terão levado tanto tempo a percorrer 200Km mas foi após ouvir as declarações do Director Clínico do INEM à TSF que esta incompreensão se converteu em revolta.

Ainda esta semana testemunhamos um exemplo de eficácia de uma grande equipa de Busca & Salvamento da Protecção Civil que localizou com êxito o corpo da última vítima do desastre ferroviário da Linha do Tua. É um exemplo de competência dos serviços e denota respeito para com os familiares das vítimas que só fica bem ao serviço público. Acontece que a vítima, desaparecida, estava morta. No caso de Odemira, a vítima só veio a falecer 4 dias depois. Apesar das dificuldades do terreno no rio Tua, 5 barragens foram encerradas. Em Odemira, um anónimo de 54 anos, sem a atenção dos "Directos" jornalísticos não foi, claramente, alvo do mesmo afã e da mesma dedicação.

"Em Odemira não existem viaturas com apoio médico", disse à TSF o director clínico do Instituto, Nélson Pereira " refere um jornal diário. Eu próprio ouvi o mesmo director referir na mesma estação que "é evidente que não existe a mesma segurança nos cuidados de emergência médica em Odemira que em Lisboa"...

Concordo com a política de encerramento das unidades de saúde que são inúteis e cuja função maioritária é a de assinar guias de transporte para hospitais centrais de Lisboa, Coimbra ou Porto, (para além dos gastos avultados de recursos escassos). Por isso mesmo estou completamente à vontade para criticar a atitude negligente do Serviço Nacional de Saúde quando descrimina os cidadãos de Odemira ou de qualquer outra região do país e não compensa a concentração dos serviços de saúde, pondo em marcha uma política exigente de emergência médica com cobertura total do território. É um imperativo constitucional assegurar equidade no socorro de todos os doentes através de meios de transporte rápido, por terra ou por ar, de acordo com as necessidades. Não é apenas na cobrança de taxas moderadoras para as cirurgias que poderá existir risco de afastamento dos cidadãos aos mais elementares cuidados de saúde.

Ao Director Clínico do INEM ficou-lhe mal a ligeireza e a naturalidade com que admitiu as assimetrias dos serviços. Ao Ministro da Saúde ficou-lhe mal a opção de não instaurar um inquérito que, mesmo que tivesse o epílogo de todos os inquéritos em Portugal, pelo menos revelaria, da parte das autoridades, o mesmo respeito por esta vítima que mereceu a outra vítima, a tal que o país inteiro acompanhou durante uma semana no acidente do Tua.

O país não é muito pequeno mas tem uma área aceitável para que se possa garantir uma cobertura territorial completa e eficiente, com algum esforço adicional. Falta apenas vontade e "um bom motivo".

Desta vez morreu um "homem de 54 anos", um adulto, um anónimo. Podia ser qualquer um de nós. Recordava aqui que já para a suspensão dos "Touros de Morte" em Portugal, foi preciso que um grande amigo do Rei fosse morto, na arena, na sua presença. Quem mais terá de morrer?

Publicado por RPA às 11:10 PM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 19, 2007

Ruas que a vida tece!

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Mais cedo ou mais tarde todos nós aprendemos a atravessá-las...

Publicado por Santiago às 10:25 PM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 15, 2007

b12 Ataca HIV-1

B12_antibody.jpgEsta é a imagem que hoje correu mundo em todos os jornais e TVs e que mostra uma representação da estrutura, obtida por cristalografia de Raios X, de um anticorpo com nome de bombardeiro (a verde) ligado a uma proteína do envólucro do HIV-1, designada pela matrícula gp-120.

A gp-120 é uma glicoproteína presente na camada exterior do vírus e que, por isso mesmo, está directamente implicada no processo de entrada na célula, começando no reconhecimento do seu co-receptor, a molécula CD4. Esta é a primeira de várias etapas que levará à fusão entre a membrana do vírus com a membrana da célula alvo.

O CD4, por seu lado, está presente maioritariamente numa subpopulação de linfócitos com origem no Timo que recebem o seu nome (linfócitos T CD4) e em monócitos e macrófagos. É a expressão deste co-receptor que faz as células susceptíveis à infecção pelo HIV.

Por outro lado, as proteínas do revestimento do vírus têm, tal como no vírus da gripe, uma elevada taxa de mutação, sendo esta tão rápida (ou a resposta imunitária lenta demais) que o sistema imune nunca consegue eliminar completamente o HIV. Por esse motivo a infecção torna-se crónica e a destruição progressiva de todos os linfócitos CD4 é inevitável.

Até agora só se conhecem dois anticorpos capazes de eficazmente bloquear a entrada do HIV-1 nas células alvo: b12 e o 2G12. A capacidade neutralizadora foi estudada já in vivo em macacos infectados por via vaginal, tendo a administração do anticorpo monoclocal b12 revelado proectção. No entanto, ainda não se compreendia como se fazia a interacção entre as duas partes, anticorpo e gp-120.

Ontem a revista Nature veio revelar, num artigo com direito a capa, que existe pelo menos uma região invariável da gp-120 que é acessivel à ligação por um anticorpo, o b12. Este trabalho é uma grande conquista pelas dificuldades técnicas inerentes à instabilidade da molécula gp-120, motivo pelo qual foi usada na sua forma "congelada" em associação com o CD4.

A novidade neste artigo está no "ver" com exactidão, o que só a cristalografia permite, quais os pontos de ligação e as partes das duas moléculas envolvidas, permitindo abrir as portas para a descoberta de outros anticorpos e de uma vacina. Por outro lado compreender que no processo de ligação entre a gp-120 e o CD4 existe uma alteração da conformação que torna exposta, à ligação por anticorpos, a tal região conservada que está normalmente pouco acessível.

Parece que desta vez o tiro foi certeiro. Teremos agora que aguardar pelos ensaios clínicos para avaliar a sua eficácia nos indivíduos infectados.

Publicado por RPA às 4:54 PM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 14, 2007

A "nova" Boca do Corpo

ug_female.jpg Há 18 meses atrás fiz referência aqui no Conta a um problema de saúde publica grave que afecta as mulheres. Ao longo deste tempo tenho respondido ao todas as perguntas que me fazem sobre a matéria. Julgo que deveria recordar alguns conceitos, tanto mais que surgiram grandes notícias nos últimos dias.

O carcinoma do colo do útero associado à Infecção pelo vírus do papiloma humano (HPV) poderá ser prevenido com a distribuição no mercado de uma vacina. Desde há duas semanas está disponível no mercado português uma vacina tetravalente contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do HPV e que poderá proteger as mulheres que ainda não estejam infectadas sobretudo pelos tipo 16 e 18 do cancro da vulva, da vagina, verrugas genitais ou de lesões do colo pré-cancerosas.

Estou persuadido de que, mais tarde ou mas cedo, a vacina do HPV será integrada no calendário nacional de vacinas a administrar na pré-adolescência.

Na Europa morrem por dia 40 mulheres com cancro do colo do útero sendo a segunda causa de morte oncológica nas mulheres a seguir ao cancro da mama na faixa etária dos 15-44 anos. De um total de 33500 mulheres que, anualmente, são diagnosticadas com esta doença, 15000 acabam por morrer.

Em Portugal são 17/100 000 as mulheres afectadas pelo cancro do colo do útero, uma das mais elevadas taxas da Europa.

Não tardemos a prevenir o que tem solução fácil!

Publicado por RPA às 4:10 PM | Comentários (5) | TrackBack

fevereiro 10, 2007

Ciao!

Mfuscata.jpgEstou de saída. Tenho vontade de participar em algo que me permita escrever sem a preocupação de dar um "spin" científico a cada ideia que tenho.
A participação neste blogue foi muito positiva. Permitiu antes de mais aprofundar amizade com pessoas que conhecia pouco mais que de vista e nelas descobrir qualidades inesperadas. Reconheço principalmente a Sofia, o Ricardo e o Santiago, grandes ajudas na árdua tarefa de desdramatizar a vida. Agradeço-lhes também, principalmente ao último, a muita argúcia na mirada com que raramente deixaram passar em silêncio um acto ou palavra (ou omissão) que pudessem atentar contra as "liberdades".
E, falando de tolerância, quero declarar arrefecida a minha reacção ao post que a este precede. A clarificação dada pelo autor ao responder aos comentários completou o conteúdo do texto e foi suficiente para o meu entendimento da sua opinião. Se a minha atitude deixa algum aspecto de fanatismo ou intransigência, peço desculpa. Não quis com o meu comentário tirar ilações acerca da intenção de voto do autor nem insultar a sua inteligência. Temi apenas que fosse doravante costume do Conta a apresentação de textos de interpretação variegada e desprovidos de explicações quanto à sua escolha.

Bruno, para ti, "aquele abraço".

Foto: Macaca fuscata, habitante das fontes de água quente do Parque Natural de Jigokudani, Nagano, a norte do Japão.

Publicado por VB às 10:58 PM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 8, 2007

Um Testemunho Por Carta

EFsizeactual.jpgA poucos dias do referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez deixo aqui a citação de um livro intitulado "Toda a vida pede amor" de Nuno Serras Pereira.

Lúcia V. uma jovem freira da Bósnia, depois de ter sido violada durante horas a fio pelos soldados sérvios, escreve à sua Madre Geral:

"... Escrevo-lhe, Madre, não para receber conforto, mas para me ajudar a agradecer a Deus por me ter associado a milhares de concidadãs minhas, ofendidas na sua honra e obrigadas a maternidades indesejadas. A minha humilhação une-se à delas e, uma vez que nada mais posso oferecer pela expiação dos pecados cometidos pelos anónimos violadores e por uma pacificação entre as duas etnias, aceito a desonra sofrida e entrego-a à misericórdia de Deus.

Não se admire de lhe pedir que partilhe esta acção de graças que pode parecer absurda. Tenho chorado nestes meses todas as minhas lágrimas pelos meus dois irmãos assassinados pelos mesmos agressores que vão aterrorizando as nossas cidades e pensava que mais do que isso não poderia sofrer. Estava longe de imaginar que a dor pudesse ter dimensões bem diferentes.

À porta do nosso convento batiam cada dia centenas de pessoas famintas, hirtas de frio, com o desespero nos olhos. Justamente na semana passada, uma rapariga de 18 anos tinha-me dito: "Felizes vós que escolhestes esta casa onde ninguém pode entrar". E prosseguiu: "Nunca sabereis o que é a desonra".

Pensei muito nisso, e convenci-me que era uma parte secreta da dor da minha gente que me não tocava e quase tinha vergonha de ser excluída. Agora sou uma delas, uma de tantas mulheres anónimas do meu povo com o corpo devastado e a alma saqueada. O Senhor admitiu-me ao Seu mistério de vergonhas, e mais, Religiosa, concedeu-me o privilégio de entender até ao fundo a força diabólica do mal.

Sei que, doravante, as palavras de encorajamento e de consolação que conseguir tirar do meu coração serão decerto credíveis, porque a minha história é a sua história, e a minha resignação, amparada pela fé, poderá servir de exemplo, pelo menos de confronto com as suas reacções morais e afectivas.

Basta um sinal, uma palavra, um apelo fraterno para pôr em movimento a esperança de um exército de pessoas desconhecidas. Deus escolheu-me (que Ele me perdoe a presunção) para guiar as pessoas mais humilhadas para uma aurora de redenção e de liberdade. Não poderão já duvidar da sinceridade das minhas propostas, porque venho com elas da fronteira da abjecção.

Lembro-me de que, quando frequentava em Roma a Universidade "Auxilium" para o doutoramento em Letras, uma velha professora de literatura eslava citou-me estes versos de Aleixo Mislovic: "Não deves morrer, porque foste escolhido para estar do lado do dia". Na noite em que, durante horas e horas, fui dilacerada pelos sérvios, repeti a mim própria aquelas palavras: pareciam-me bálsamo para a alma precisamente na altura em que o desespero quase se apossava de mim. Agora tudo passou e tenho a impressão de ter tido um pesadelo.

Tudo passou, mas agora tudo começa. No seu telefonema, após ter-me dito palavras de conforto que sempre agradecerei, perguntava-me: "Que vais fazer da vida que foi lançada no teu ventre?" Senti que a sua voz tremia ao fazer-me esta pergunta e achei por bem não responder logo: não porque não tivesse já reflectido sobre a opção a tomar, mas para não interferir nos seus projectos a meu respeito. Já decidi. Se vier a ser mãe, o menino será meu e de mais ninguém. Sei que poderia entregá-lo a outras pessoas, mas ele tem direito, apesar de eu não o esperar nem desejar, ao meu amor de mãe.

Não se pode separar uma planta das suas raízes. O grão de trigo caído no rego precisa de crescer onde o misterioso, embora perverso, semeador o lançou. Realizarei a minha vocação religiosa, mas de outra maneira...
Partirei como o meu filho. Não sei para onde, mas Deus, que interrompeu inesperadamente a minha maior alegria, me indicará o caminho a seguir para fazer a Sua vontade.

Regressarei pobre, retomarei o velho avental e os socos que as mulheres usam no dia de trabalho e irei com a minha mãe resina nos grandes bosques bósnios. Tem de haver alguém que seja o primeiro a romper a cadeia de ódio secular que destrói os nossos países. Ao filho que vier ensinarei somente o amor. Ele, nascido da violência, testemunhará ao meu lado que a única grandeza da pessoa humana é a do perdão."

Publicado por RPA às 2:03 AM | Comentários (10) | TrackBack

fevereiro 7, 2007

Matriz

flyOUT1600.jpgQuando eu andava na faculdade, a fórmula didáctica de ensinar Bioquímica resumia-se a um programa a dois tempos: apresentação dos processos moleculares básicos do metabolismo e integração dos mesmos ao nível sistémico. Neste (segundo tempo), acumulavam-se os nomes, fórmulas, reacções químicas, ciclos, "shunts", transportes e transduções de sinal. Os colegas mais dedicados ocupavam o pouco tempo que lhes sobrava à carolice de representar graficamente tudo o que aprendiam. Enrolavam-se assim em canudos mapas metabólicos, mais esmiuçados que bordados de bilros, onde a enorme complexidade do todo dava afinal a sensação de pouco informar.

Tal como em relação a tantos outros factos da vida, estava então longe de saber que era desse tipo de dedicação aparentemente inútil o futuro das ciências biológicas. Na era pós moderna, o cérebro electrónico da máquina é guardião das bases de dados e do genoma decorado e o que importa é a representação dos seus mapas. Mapas de interacção entre proteínas, mapas de co-expressão das mesmas, mapas de fenótipos mutantes. Cada interacção e cada semelhança fenotípica ou de expressão entre dois genes cria uma ligação, um segmento de recta entre dois pontos. A orientação desses pontos no espaço, a grossura, comprimento e cor da linha que os une, tudo contém informação. Depois, como antes, integra-se.

No fim, a sobreposição dos mapas produz à vista desarmada a ilusória semelhança com o guia de transportes colectivos de uma mega babilónia futura. A diferença é que o cérebro da máquina é também capaz de dissecar, aumentar a ampliação e desvendar o detalhe desta rede de "pontes"; caroço por caroço. Para quem percebe do assunto, esta passa a ser a nova estratégia para formular hipóteses acerca do funcionamento de um sistema. Mais ainda: se comandada pelo seu "silicónico" mestre, a máquina pode tirar um retrato do mapa em cada momento do desenvolvimento de um embrião, ordenar os retratos em fila e passá-los rapidamente diante dos nossos olhos, reproduzindo-nos a versão real do que foi outrora sonhado pelos Wachowski.

A imagem é retirada de uma página do Instituto Niels Bohr.

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fevereiro 6, 2007

Ciência canção

brasil.jpg Embora já não muito original, a concretização de um samba-enredo acerca da Ciência só não ganha aspecto nerd quando é o Gilberto Gil a compor. (Como ele próprio diz, Sei que a arte é irmã da ciência, Ambas filhas de um Deus fugaz, Que faz num momento, E no mesmo momento desfaz...)
Aos laivos nacionalistas do poema devem fazer caso os que secretamente não achariam cool um fado com o mesmo tema.

Ciência e arte

Tu és meu Brasil em toda parte
Quer na ciência ou na arte
Portentoso e altaneiro
Os homens que escreveram tua história
Conquistaram tuas glórias
Epopéias triunfais
Quero neste pobre enredo
Reviver glorificando os homens teus
Levá-los ao panteon dos grandes imortais
Pois merecem muito mais

Não querendo levá-los ao cume da altura
Cientistas tu tens e tens cultura
E neste rude poema destes pobres vates
Há sábios como Pedro Américo e Cesar Lattes

Gilberto Gil, 1997

Clarificação geral:
1. além de físico Pedro Américo de Figueiredo e Mello (1843-1905) foi pintor e novelista com honras de retrato na Galeria degli Uffizzi (Florença); uma espécie de Da Vinci brasileiro.
2. Cesar Lattes (1924-2005) foi também físico, um dos mais importantes do Brasil, dando um grande impulso à emergência da física das partículas elementares.

Publicado por VB às 2:41 PM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 5, 2007

Inteligência

2006_sb_coaches.jpgOntem os "potros" ganharam aos "ursos" num dos maiores acontecimentos desportivos do ano nos EUA. Estava escrito.

Em 41 anos de existência, nunca se registaram equipas dirigidas por Afro Americanos no Super Bowl. Este ano, tanto Lovie Smith (Bears, Chicago) como Tony Dungy (Colts, Indiana) são de raça negra. Mas disso pouco se falou nos meios de comunicação. Coisa boa a priori, pensaria eu. Infelizmente, a razão do silêncio pouco teve que ver com a igualdade racial finalmente assumida pelos media e reflectida, realmente, no colectivo.

Primeiro pensei que outros interesses "naturalmente superiores" tivessem ocupado lugar cabeceiro no rescaldo ultra dissecado do jogo de ontem. Como por exemplo, o facto de ter rompido records de audiência emissão televisiva, simultaneamente representando para o respectivo consórcio um lucro significativo e um acrescido peso imediato no mercado bolseiro de Nova Iorque.

Mas não. "Googlear" Super Bowl hoje significa encontrar um número pouco usual de ligações a portais da imprensa cristã estado-unidense. Parece que outro aspecto em comum entre as duas equipas técnicas finalistas é o fervor religioso. Muito à semelhança dos brasileiros numa final de outro tipo de jogo, Tony Dungy apontou logo para o alto ao soar do clarim final (embora Smith nunca tenha indicado o chão, digo Inferno, no seu momento de derrota). Diz quem viu que, pouco depois de receber o objecto de todo um ano de esforço, Dungy dedicou-se a um discurso acerca da justiça divina, da caridade e demais virtudes teologais, e de como, principalmente, o resultado final ter sido (ao contrário do que a maioria supunha) uma escolha única e exclusivamente divina, uma vez que ambos finalistas eram ... good christians.

Apesar da lógica duvidosa, um alívio parcial. Por momentos pensei ver o seu catequizar a apontar quilhas rumo ao intelligent design.

Publicado por VB às 6:58 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 3, 2007

Grandes Entrevistas...

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Judite de Sousa: O que é que se investiga [no IBMC]?

Alexandre Quintanilha: AAAhhh!!! O que é que se investiga??? Olhe: Investiga-se...
Eu vou pegar em dois ou três temas que acho que podem ter interesse. Um é a questão das doenças genéticas humanas.
De origem portuguesa se quiser, ou cuja prevalência é maior em Portugal.
Doenças metabólicas, doenças genéticas... doenças metabólicas que têm um foro genético.
A "doença dos pézinhos" que é muito conhecida de toda a gente, a "doença de Machado-Joseph", que é outra também portuguesa.
Muitas dessa doenças são neuronais, são da área das neurociências. Portanto há muitos grupos a trabalhar em neurociências...
Depois há outra grande area que tem a ver a com a forma como respondemos a infecções, ao stress. Como é que são os nossos mecanismos de adaptação e de resposta...

... (interrupção profundamente irrelevante da entrevistadora, com o propósito de sugerir ao público que ela talvez tenha, a final, um QI acima de 70)...

Alexandre Quintanilha: Há uma outra grande área que se está a desenvolver agora, que é a área da regeneração de tecidos...

[Alexandre Quintanilha, em entrevista a Judite de Sousa para o programa "Grande Entrevista" da RTP1, no dia 1 de Fevereiro de 2007. Pode ver tudo aqui em formato "Real Player" (Mac), ou aqui em formato "Windows Media Video (para os que usam PC)]
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Obviamente sem discordar do Alexandre (visto que ele deve saber melhor do que eu o que é que se investiga no IBMC) ainda me atrevo a sugerir que esta sumária descrição do Instituto que ele dirige desdenha o mais importante do que por lá se passa...

Publicado por Santiago às 12:22 AM | Comentários (2) | TrackBack

fevereiro 2, 2007

Lufthansos

old_lufthansa1960_01a.JPGEscrevo do avião, cinco da manhã em Vila do Conde, meia-noite em Nova Iorque. O passageiro transatlântico de segunda classe experimenta da Lufthansa a objectividade (convencionada como) "tipicamente alemã". Um claro exemplo que demonstra o porquê daquele bilhete ser o menos caro de todas as ofertas "online" é o entretenimento disponível. Um único, mísero filme (com um título à altura do conteúdo) que só duas pintas de cerveja, um gin tónico, três copos de maduro branco e um Baileys podem tornar “assistível”. Junto o consumo deste último licor à seguinte confissão: nem a Akeelah nem a sua abelha soletradora (mais uma sugestão hollywoodiana de que nos EUA só é possível a emergência do gueto ou para o estrelato desportivo ou para profundidades etimológicas) foram capazes de arrancar-me uma lágrima. Porém, perante a impiedade destas linhas aéreas para com o meu vício de "infosurfista" (preço da Internet nos aviões: 26 dólares à hora), derramo calmamente o meu pranto entre as horas ténues que separam o hoje do ontem.

Um documentário narra a saga do Jardim Zoológico de S. Diego que durante três anos procurou com sucesso a reprodução de Pandas em cativeiro. Afinal uma produção interessante do Discovery Channel que inclui novidades científicas conseguidas através de cuidadas e (por conseguinte) trabalhosas horas observando o comportamento, habitat e demais aspectos do nicho destes animais. O melhor do estudo de Ailuropoda melanoleuca permitiu o nascimento de uma cria em cativeiro, um fenómeno que adquiriu proporções mediáticas inesperadas e contribuiu assim para a popularidade da (a meu ver) única vantagem do zoo: condições controladas para a preservação das espécies. O Washington Post até ofereceu (se é que ainda não oferece) durante meses o acesso gratuito a uma câmara de televisão que permitia a observação permanente da cria.
Repentinamente, uma metamorfose a telenovela: alguém da equipa californiana deixou de lado o desenvolvimento do “urso” recém-nascido para ler mensagens aparentemente colhidas ao acaso entre o abundante correio electrónico chegado ao seu servidor. Uma delas vem do Iraque. Diz o soldado que assistir em directo ao crescimento da cria ...jorrou luz, conforto e esperança sobre aquele seu ambiente; que ele e os colegas deixavam diariamente os tiros para espreitar a filha da Bai Yun; que se sentem mais unidos, etc...

E foi assim que um passageiro à procura do sono, de nádegas semi calosas, escarro flutuando no caldo, cai vítima de uma espécie de tortura "kubrickiana". Não é a preocupação da Madonna com o futuro da Humanidade (a propósito da educação da Britney Spears) o principal sinal da acelerada degradação da nossa espécie durante os últimos vinte anos. Nem sequer o é a suspeita de que tantos jovens de outrora travaram conhecimento com a música africana através do Graceland enquanto os de agora contentam-se com o Rei Leão. O que me aterra é termos chegado a um ponto de tão escassa escapatória a esta maquina gigante que, sem hesitar, transforma em propaganda o emprenhar de um ursídeo.

Publicado por VB às 1:14 AM | Comentários (2)

fevereiro 1, 2007

Ano Novo, "Casa" Nova?

Para dar prioridade à sua "frescura", uma notícia não traduzida mas enormemente "ansiada" pela comunidade científica (principalmente de biomédicas) estado-unidense.


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Dear FASEB E-Action Member:
Great News! I am very pleased to report that the House of Representatives just voted to pass the FY2007 Joint Funding Resolution, which includes a $620 million increase for NIH, and provides significant increases to the National Science Foundation ($335 million increase) and the Department of Energy's Office of Science ($200 million increase). The Senate is expected to take up the measure next week. However, it's widely expected that the Senate will fully endorse the FY2007 Joint Funding Resolution.
I also want to thank you again for urging your Congressional Members to support increased funding for the National Institutes of Health. House and Senate leaders met over this past weekend to finalize the FY2007 Joint Funding resolution. The voices of our key Congressional supporters [Senators Tom Harkin (D-IA) and Arlen Specter (R-PA) and House Appropriations Chairman David Obey (D-WI)], as well as the thousands of FASEB Society member scientists who took the time to write, were clearly heard as Congressional leaders agreed to provide NIH with a $620 million increase in FY2007. Thank you for helping make a difference.
Leo T. Furcht, M.D.
FASEB President

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Publicado por VB às 9:22 PM | Comentários (0) | TrackBack

Dialéctica codificada

sofa_wolvercote.jpgLewis: we all want to keep our jobs...
Morse: we are not all engaged in a high-minded persuit of the truth.
Lewis: well, not high-minded, perhaps... but we want to know, don't we?
Morse: yes, Lewis, we have that in common: policeman and academics. But the difference is that we'd be sacked for withholding information.

Relações entre dois personagens, em livro, filme ou teatro, que com o contar da história representem também o conciliador equilíbrio dinâmico entre dois princípios opostos, tendem a ser do meu agrado. Crick e Watson, Marta e Maria, Marx e Engels (Batman e Robin?), tanto faz...
O caso é que é esta a explicação mais racional que encontro para o meu secreto amor pelas duplas de detectives. Não me refiro tanto à discreta veneração passiva do amigo do Holmes e seu garantidor pessoal de álibis, mas do carácter prático e recto de Lewis (Kevin Whately) que com o seu chief inpector (John Thaw) durou treze anos sobre os ecrãs da grande audiência britânica, numa histórica série policial. Sinto saudades do Morse, da sua enorme cultura, do seu Jaguar vermelho e dos seus dilemas afectivos (maiores ainda que a dita cultura), dos quais encontrou refúgio na judiciária de Oxford. É certo que os humanos fizeram da existência esta cadeia sem fim de possíveis "spines" onde há sempre um modo de relacionar algo com qualquer outra parte do resto. Não será contudo mais que coincidência o número de paralelismos possíveis entre cientistas e elementos das "forças da ordem"? E se aqueles não forem fabricações, serão justos?

Publicado por VB às 5:56 AM | Comentários (0) | TrackBack