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março 31, 2007

Cíclope Cínico

DUPLO.jpgRembrandt%27s.jpgAutópsia (s.f. do gr. auto, próprio + ópsis, visão) Exame de si próprio, mas que em medicina é um acto auxiliado e geralmente tardio. 1. Graves erros etimológicos Embora seja esta a palavra usada para descrever a inspecção e dissecção de um cadáver humano, alopsia, usando a raíz gega állos ("outro; "diferente") é que correctamente significaria: "Ver com os olhos dos outros" 2. Poirot desvenda o passado Na autópsia forense etimologicamente pura o crime é cometido no acto da sua investigação, daqui decorrendo que está resolvido antes de acontecer, mas infelizmente, tal como a cirurgia oftálmica ou a proctoscopia, é impraticável pelo próprio, mesmo com recurso às mais modernas técnicas de imagiologia. Jesus Cristo é o único indivíduo conhecido que a poderia ter realizado logo ao 3º dia, mas as crónicas coevas (ver Actos dos Apóstolos em dicionários menos cínicos) indicam apenas que Ele desapareceu quase 6 semanas depois, deixando um mistério ainda hoje mal solucionado. Vinga a tese de que não é adoptada mais vezes por, sendo o culpado simultaneamente vítima e médico legista, o enredo sair enfraquecido, quiçá implausível (sobre a implausibilidade, ver também criacionismo).

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março 30, 2007

Cruz de Santiago

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Publicado por Santiago às 9:32 PM | Comentários (4) | TrackBack

Leitura recomendada

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No Daily Telegraph John Humphrys pubicou recentemente uma crónica, a respeito de um debate entre Lewis Wolpert e William Lane Craig. O jornal é bom, o jornalista excelente, o artigo estupendo. Recomendo a leitura.

Humphrys apresenta assim um curto resumo do debate:

The essence of Craig's case:

God created the universe. The proof lies in the premise that whatever begins to exist has a cause. The universe began to exist; therefore it has a cause. It was brought into existence by something which is greater than (and beyond) it. And that something was a "personal being".

God "fine tunes" the universe for ever. There is no other logical explanation for the way things operate.

Without God there can be no set of moral values.

The "historical facts" of the life of Jesus prove the basis for Christianity.

God can be known and experienced.


The essence of Wolpert's rebuttal:

It's all bunkum. Every bit of it.

Publicado por Santiago às 3:26 PM | Comentários (4) | TrackBack

março 29, 2007

Ciência Anteontem...

Então não é que o Ciência Hoje publica hoje um artigo do nosso velho amigo Jónatas Machado surpreendentemente (quase) idêntico ao que ele já tinha publicado aqui há dois dias? (era um pincel com 2.196 palavras, mas agora já são 3.145... eu contei-as...)

Anda tudo louco ou sou só eu? Jorge: Você não lê o Conta Natura?


[Soube desta proeza via Terra que gira]

Publicado por Santiago às 10:22 PM | Comentários (2) | TrackBack

Primeira Lei de Santiago do filantropismo privado

O impacto das actividades de uma Fundação é inversamente proporcional ao número de "Trustees" suficientemente notórios para terem entrada individual na wikipedia.
A seriedade com que encaram a sua função também, mas ao quadrado...


Board of Governors of The Wellcome Trust:

William Castell; Martin Bobrow; Adrian Bird; Leszek Borysiewicz; Patricia Hodgson; Richard O Hynes; Alastair Ross Goobey; Peter Smith; Jean Thomas; Edward Walker-Arnott

Membres du Conseil d'Administration de l'Institut Pasteur:

Antoine Gessain; Agnès Labigne; Daniel Louvard; Christine Petit; Jean-Yves Fleurance; Patricia Tortevoye; Alain Fischer; Benoît Lesaffre; Didier Sicard; Rose-Marie Van Lerberghe; François Ailleret; Renaud Denoix de Saint Marc; Jean-Pierre Jouyet ; Bruno Remond ; Jean-Christophe Rufin; Marc Tessier


Honorary Board of Directors of the Champalimaud Foundation:

Mary Robinson (will be replaced by Fernando Henrique Cardoso); Simone Veil; Aníbal Cavaco Silva (emeritus); António Almeida Santos; António Coutinho; António Damásio; António Travassos; Daniel Proença de Carvalho; Carlos Eugénio Corrêa da Silva; João Raposo Magalhães; Pedro D’Abreu Loureiro


[Na minha opinião a Lei das Incompatibilidades devia impedir Cavaco Silva de acumular o cargo de Honorário com o de Emérito. A wikipedia, pudicamente, omite este claro exemplo de versatilidade...]

Publicado por Santiago às 1:25 PM | Comentários (9) | TrackBack

março 27, 2007

E Cavaco Silva ficou sem este magnífico exclusivo...

James Watson acha possível cura do cancro dentro de 20 anos

"Acho que já temos o conhecimento técnico base, é uma questão de usá-lo", afirmou o cientista norte-americano aos jornalistas no final da reunião.

Publicado por Santiago às 11:16 PM | Comentários (4) | TrackBack

março 26, 2007

"The Limits of Science"

cartoon.jpgJá uma vez tive uma troca de impressões com o Ludwig Krippahl a propósito do "naturalismo" em Ciência ( ele começou, eu repliquei, e ele treplicou).

Mais recentemente, e a pretexto de um comentário do Jónatas Machado que suscitou a minha mais viva concordância, o Ludwig argumentou de novo que "não há qualquer premissa naturalista [em] Ciência", e que as (putativas) explicações "sobrenaturais" para os fenómenos observados são rejeitadas por serem "contrárias à evidência" ( à propos, aproveito para dizer que esta formulação do Ludwig não me parece muito exacta. O que na realidade acontece é que não existe evidência para sustentar explicações "sobrenaturais" e não que a evidência disponível é contrária às explicações "sobrenaturais").

Volto agora ao assunto porque fiquei a dever-lhe uma resposta e porque me parece que a natureza "naturalista" da Ciência é o único tema que vale a pena debater, no meio deste absurdo diálogo de surdos em que o debate "Criacionismo" vs. "Evolucionismo" (CvE) se está a transformar. Não me interessa particularmente debater o CvE, e parece-me além disso que só conseguiria repetir muito do que já disse, e não tenho nada mais de original para acrescentar.

Para mim o problema em discussão não se devia reduzir à questão (menor, a meu ver) de saber qual das duas "hipóteses" melhor explica a origem das espécies. Creio que o âmago do problema é saber quais são na realidade "os limites da Ciência".

Vou tentar explicar bem do que estou a falar. Trata-se de um velhíssimo problema que pode ser analisado sob diferentes ângulos, todos eles igualmente interessantes tanto para cientistas como para não-cientistas. Vale a pena ler o interessante ensaio de Peter Medawar, "The Limits of Science" onde também é abordado o aspecto particular que me interessa discutir agora. Lewis Wolpert tem publicados vários textos discutindo o "Problema da Demarcação".

A questão é como definir "Ciência" de uma forma que inclua tudo aquilo que consideramos "actividade científica" (mesmo que acabe por abranger também a "má-ciência"), excluindo ao mesmo tempo tudo aquilo que consideramos "não-ciência", ou "anti-ciência".

É um problema que não tem solução fácil. Obriga-nos a procurar uma definição a priori que deixe de fora toda uma série de campos de investigação que não queremos incluir. Admito em começo de conversa esta "batota" de escolher uma definição que exclui deliberadamente o que quero excluir. Parece-me que só posso argumentar que o "criacionismo" (por exemplo) não é ciência, por definição, se reconhecer com honestidade que, deliberadamente, o excluí das "fronteiras" da "Ciência".

Tudo isto se pode assemelhar a jogos de palavras, mas só pensarão isso os que apenas quiserem discutir superficialmente o problema. Quem admite como hipótese que o "sobrenatural" seja uma possível explicação para um qualquer fenómeno "natural" (e é mesmo só destes que trata a "Ciência") não pode depois recusar a participação de criacionistas (ou até de partidários de outras hipóteses mais bizarras e/ou surpreendentes) em debates científicos onde se discuta, por exemplo, a origem das espécies. Afinal, como todos sabemos, "ausência de evidência" não é "evidência de ausência", e por isso teria de ser considerado legítimamente "científico" qualquer projecto que buscasse encontrar evidência das tais "actividades criadoras" (no sentido que os partidários do I.D. lhe dão) "desconhecidas", ou "não aparentes". Foi o que Becquerel, Avery, Burnett e tantos outros fizeram e foi por o terem feito que fizeram descobertas tão importantes...

Mudemos os termos da questão: Que tal evitar as emoções envolvidas no debate do CvE e discutir porque é que a parapsicologia, por exemplo, não é uma "Ciência"? Trata-se de outro campo de investigação onde não existe nenhuma evidência para a ocorrência de fenómenos a carecer de explicação (telepatia, telequinése, etc), mas não há também evidência alguma que os ditos fenómenos não ocorram. No entanto parapsicologia não é Ciência e não aceito nenhuma definição de "Ciência" que não exclua a parapsicologia!

A razao para este meu "preconceito" é bem simples de explicar: A parapsicologia (e disciplinas afins) invocam causas não-naturais (ie: Que não explicam em termos de interacções entre matéria e energia). Parapsicologia é "communication or interaction between organisms and their environment that do not appear to rely on the established sensorimotor channels", na deliciosa definição do European Journal of Parapsychology, e por mais voltas que os seus partidários lhe queiram dar, parapsicologia não é Ciência e nenhuma definição de Ciência que permita a inclusão de parapsicologia pode ser correcta.

Incluo portanto o estudo de "causas naturais" como elemento essencial da definição de "Ciência". Todos os que estudam outras causas não estão, na minha opinião, a trabalhar em Ciência.

Publicado por Santiago às 2:55 PM | Comentários (14) | TrackBack

março 24, 2007

Olha eu a concordar totalmente com o Jónatas Machado

Jo%CC%81natas.jpg(...) [O] evolucionismo é o resultado necessário, isto é, é o único possível. E isto vale para todas as disciplinas científicas. Se as mesmas assentarem em premissas naturalistas, é claro que elas só podem teoricamente corroborar o evolucionismo. De resto, como se observa. Coisa diferente é saber se, na prática, conseguem fazê-lo.

Já pelo menos uma vez chamei a atenção para o facto de o "naturalismo" ser uma premissa NECESSÁRIA da actividade científica.

Sinto portanto enorme contentamento em estar tão de acordo com o Jónatas Machado, pois assim nem ele me poderá criticar a recusa em debater o criacionismo...

Publicado por Santiago às 7:20 PM | Comentários (2) | TrackBack

março 22, 2007

As notícias da nossa morte...

Maradona.jpgO maradona (notem a minúscula, por favor) confessa ser "o contrário de um cientista" (sic). Talvez por isso não consiga distinguir a anergia da mera ausência de vida...

Publicado por Santiago às 10:32 AM | Comentários (0) | TrackBack

março 21, 2007

Jim Watson vai presidir ao Conselho Científico da Fundação Champalimaud

Jim%20Watson.jpg

C'est pas sérieux
Les chats sauvages

.....C'est pas sérieux mon amour, mon amour
.....De s'embrasser comme ça dans la rue qui nous voit
.....Avec ses yeux trop curieux tout autour
.....Alors viens donc chez moi, viens chez moi, viens chez moi
(...)
.....C'est pas sérieux mon amour, mon amour
.....Oui mais le plus souvent quand on n'fait dans la vie
.....Que c'qui est sérieux mon amour, mon amour
.....C'est comme ça qu'on s'ennuie, qu'on s'ennuie, qu'on s'ennuie.
.....C'est comme ça qu'on s'ennuie,...
.....

Leonor%20Beleza.jpg

Publicado por Santiago às 9:42 PM | Comentários (9) | TrackBack

março 13, 2007

Eu seja cão se aquilo não é um Planeta...

Pluto.jpgEm 1897 o Estado de Indiana aprovou uma lei que, na prática, atribuia a Pi (π) o valor de 3,2. A história não regista a evolução dos círculos nesse belo Estado da União, mas suspeito que foi uma Lei olimpicamente ignorada por todos, visto que os automóveis continuam a circular por lá, sem solavancos de maior...

Na semana passada surgiu a notícia que a Câmara de Representantes do Estado do Novo México (outro dos belos Estados da União - alguém sabe onde é???), tomando as dores que um certo rochedo deve ter sentido aquando de uma decisão recente da IAU, vai debater uma resolução proclamando que o objecto celeste batizado com nome de cão é um Planeta!!!

Aparentemente o único gajo mais ou menos famoso nascido nesse Estado (refiro-me ao Novo México, claro - alguém sabe onde é que isto é???) foi quem descobriu essa "coisa" orbitando o Sol. O orgulho estadual foi violentamente abalado em 2006, e aquela gente não se fica...

Imagino agora o Senado Estadual desse Estado do Novo México (Se calhar já disse isto, mas quero repetir: Trata-se de outro dos belos Estados da União - alguém sabe onde é???) a emendar essa resolução declarando que Plutão é um tonto. Em conferência das duas Câmaras, poderá então ser aprovada uma Lei promovendo o melhor amigo do Mickey à categoria de Pateta...

O preâmbulo dirá talvez:

"Se quiser ver o Pateta
e saber o que ele diz,
ponha os olhos no céu
e no cumeta o nariz"

Publicado por Santiago às 11:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 11, 2007

Evolução e Religião

poster_religiao.JPGA partir de amanhã, e durante dois dias, a Religião será debatida por cientistas e filósofos, à luz do conceito biológico de Evolução. No fundo trata-se de uma aproximação ideológica da Ciência à Religião ou vice versa, duas áreas que o saudoso Stephen Jay Gould designou por Nonoverlapping magisteria (NOMA) no seu livro "Rocks of Ages- Science and Religion in the fullness of Life", mantendo-as assim respeitosa e pacificamente "Senhoras dos seus espaços".

"Writing with bracing intelligence and clarity, internationally renowned evolutionist and bestselling author Stephen Jay Gould sheds new light on a dilemma that has plagued thinking people since the Renaissance: the rift between science and religion. Instead of choosing them, Gould asks, why not opt for a golden mean that accords dignity and distinction to each realm?

In his distinctively elegant style, Gould offers a lucid, contemporary principle that allows science and religion to coexist peacefully in a position of respectful noninterference. Science defines the natural world; religion our moral world in recognition of their separate spheres of influence. In exploring this thought-provoking concept, Gould delves into the history of science, sketching affecting portraits of scientists and moral leaders wrestling with matters of faith and reason. Stories of seminal figures such as Galileo, Darwin, and Thomas Henry Huxley make vivid his argument that individuals and cultures must cultivate both a life of the spirit and a life of rational inquiry in order to experience the fullness of being human."

Quer se escolha o programa completo do encontro ou a versão reduzida das conferências das 18h estão assegurados debates muito interessantes.

A todos os leitores do CONTA o nosso convite para aparecerem.

Publicado por RPA às 2:05 AM | Comentários (1) | TrackBack

março 7, 2007

Manzanar É O Nome da Esperança

A Fome afecta muito particularmente o continente africano. Se, por um lado, o clima e a desertificação dos solos não são favoráveis à resolução do problema nalguns países africanos, outros há em que, as guerras, a instabilidade política e a perseguição religiosa são responsáveis por um grande número de vítimas. Infelizmente, os países com maiores riquezas naturais são os que, regra geral, se têm revelado mais resistentes à aceitação da paz. Mas no meio do horror das guerras, das lutas pelo poder, das epidemias, da miséria e de muitas mortes, ainda há espaço para a esperança no futuro deste continente.

Sato.jpg
A Eritreia é um jovem país que conquistou, ao fim de 30 anos e pela força das armas, a sua independência, depois do domínio da Etiópia. Alcançado o novo estatuto político em 1991, e tendo em conta a sua localização geográfica, a melhoria da qualidade de vida das populações tinha grandes obstáculos ambientais impostos por anos de secas repetidas. A ausência de um sistema de rega eficaz, não permitia à agricultura produzir o mínimo para manter o novo país, sem recorrer à ajuda humanitária internacional. Apesar das dificuldades e da pesada herança da guerra, este país respira hoje outra esperança. É graças a um cientista que o país olha de frente para o futuro e eu, tive a honra maior de o ter conhecido.


Gordon Sato é biólogo, americano de origem japonesa. Deu os primeiros passos como estudante de biologia no Caltech, onde foi orientado por Max Delbruck e onde conviveu com Dulbecco aquele que inventou o meio de cultura com o seu nome e George Beadle, três cientistas que viriam a ser distinguidos com o Prémio Nobel. Sato tem hoje 78 anos, mas o tempo só lhe acrescentou energia e determinação na mudança da paisagem da Eritreia e, com ela, da saúde do seu povo. A chave para este drama tem o nome de código Projecto Manzanar, o mesmo que identificou um campo de concentração na Califórnia criado em 1942 pelo governo americano, para alojar imigrantes japoneses e seus descendentes. Manzanar (Pomar, em Castelhano) era nessa altura o nome de um terreno, no vale californiano de Owen que ficou desertificado após o desvio das suas águas, graças à construção de um enorme aqueduto, para suportar o crescimento da cidade de Los Angeles. Foi aqui que Gordon Sato passou alguns anos da sua adolescência e onde aprendeu a cultivar a terra. As dificuldades e as humilhações da guerra também ficaram gravadas na sua memória, mas foram os conhecimentos que adquiriu em Manzanar que transformariam as vidas de muitos outros, do outro lado do globo, mais de meio século depois.

massawa102506%5B1%5D.jpgCom o objectivo claro de ajudar a combater a fome no mundo, Sato trouxe, para a escala humanitária, o conhecimento e a formação de uma brilhante carreira como investigador e professor universitário. Escolheu a Eritreia, um enclave no “Corno de África” e começou por desenvolver a aquacultura, como fonte de proteína, essencial a uma população tão carenciada e tao malnutrida. Conta com o apoio do exército que combatia as tropas etíopes mas, com o fim da guerra, o peso do projecto aumentou na mesma proporção que, entretanto, diminuíam os seus apoios. A inevitabilidade força-o a virar a sua atenção para outra fonte proteica - a carne de gado. A ideia ocorreu-lhe com a observação de camelos a pastar em mangais. Rapidamente, começou a cultivar estas plantas que cresciam espontaneamente em apenas 15 por cento de território em forma de faixa ao longa da costa, com 100 metros de largura e 1000 quilómetros de extensão. Milhares secaram e morreram nas primeiras tentativas. A observação mais atenta da sua distribuição no meio selvagem localizou-as na proximidade de canais que transportam as águas das chuvas, em poucos, muito poucos, dias de cada ano. A água doce não poderia ser a razão da subsistência destas plantas, mas a matéria orgânica transportada pelas lamas para as linhas costeiras constituíam uma hipótese mais plausível. Uma simples experiência em laboratório, expondo ao sol uma suspensão de algas em água salgada, revelou o impacto que tinha na taxa de crescimento vegetal, a adição de fosfato de amónio e ferro à cultura. O mesmo viria a verificar-se com as espécies de árvores plantadas nos novos mangais.

massawa102506%5B1%5D.jpg

Na verdade, as plantas são muito mais resistentes do que pensamos, e podem ser cultivadas em meios tão inóspitos como a areia ou a água, desde que sejam preenchidas algumas condições: o pH e a salinidade do meio; a presença dos minerais apropriados; a ventilação das raízes e a temperatura tolerada pela planta.

A plantação sistemática de cada árvore na proximidade de um pequeno saco perfurado com fosfato de amónio e óxido de ferro permitiu plantar, com sucesso, milhares de plantas, à densidade de 1000 por hectare. Os rebentos destes mangais são colhidos, lavados e acrescentados à ração de cabras, ovelhas e vacas, fazendo disparar a produção sustentada de gado que alimenta hoje as populações e impulsiona a economia regional.

group_with_Sato%5B1%5D.jpgPara além das mudanças na paisagem, o aumento da quantidade de matéria orgânica costeira está a estimular o crescimento da população de crustáceos e, com estes, o de muitas espécies de peixe. Para já, o objectivo é chegar aos 10 milhões de árvores na costa da Eritreia, na faixa de terra naturalmente regada pelas marés. Se for alargado a outros países do Mar Vermelho poderá multiplicar por cinco a densidade vegetal na região, e por muito mais, o seu impacto económico.


Mas os efeitos, deste Pomar à beira mar plantado, não se limitam às populações. As regiões tropicais e subtropicais estão ameaçadas pela desertificação. Gordon Sato está a conseguir tratar a fome por ela causada. A solução é também a mesma que poderá ajudar a curar a própria desertificação, contribuindo para uma diminuição do aquecimento global do nosso planeta.

Isto é o que o que um Homem e uma pequena equipa são capazes de realizar. Agora imagine o que muitos poderiam fazer…

Publicado por RPA às 5:20 AM | Comentários (2) | TrackBack

março 6, 2007

Dizem que é uma espécie de ciência...

Presidente da República realiza em Março 2ª Jornada do Roteiro para a Ciência, dedicada às Tecnologias Limpas

Valerá a pena explicar ao Chefe de Estado que Technology is not Science?

Publicado por Santiago às 12:11 AM | Comentários (3) | TrackBack

março 5, 2007

Qum vê nicks não vê corações...

Deception.jpgEm Julho de 2006, a revista The New Yorker publicou um artigo de Stacy Schiff acerca da Wikipedia, do seu fundador, da comunidade de "wikicontributors", das regras de edição, etc, em que se fazia referência a alguns contribuidores mais famosos. O artigo é estupendo, como quase todos os dessa revista, e recomendo-o vivamente a todos os nossos amáveis leitores, em especial aos mais "wikifanáticos".

Um dos mais famosos, e profícuos - mais de 16.000 entradas -, contribuidores da Wikipedia retratados nesse artigo, é um personagem com o nick Essjay (S.J. ??), que é descrito como tendo um Grau Universitário em Lei Canónica, um Doutoramento em Teologia e uma posição como Professor Universitário de Religião. A sua fama é enorme na "comunidade wiki" e Essjay foi "promovido" a um nível bastante elevado na "hierarquia", tendo poderes alargados de edição de textos e de arbitragem nas disputas sobre o conteúdo das entradas.

Subitamente na semana passada, a The New Yorker publicou na edição online do artigo uma adenda precisando que tinham entrevistado Essjay por recomendação da própria Wikipedia, embora ele "[...] would not identify himself other than by confirming the biographical details that appeared on his user page. At the time of publication, neither we nor Wikipedia knew Essjay’s real name". A adenda editorial esclarece depois que "Essjay now says that his real name is Ryan Jordan, that he is twenty-four and holds no advanced degrees, and that he has never taught"...

Sem me deter muito sobre o embaraço que uma revista tão prestigiada como a New Yorker deve sentir por não ter esclarecido originalmente os leitores que não tinha verificado a identidade de um indivíduo que foi entrevistado para a preparação de um artigo, fiquei a pensar como facilmente acreditamos em tudo o que lemos.

Vejo diariamente cientistas meus amigos, habituados a duvidar de tudo o que lêem em artigos científicos, habituados a farejar todos os indícios de bias, contradições, falácias, etc, nos artigos que lêm e discutem em Journal Clubs, pelos corredores, ou à noite no bar da esquina, acreditar piamente em tudo o que vem nos jornais... ou nos profiles que os utilizadores da blogosfera compõem...

Sobre o caso do Essjay, leia também o que se diz nesse verdadeiro monumento jornalístico chamado NYT

Publicado por Santiago às 5:12 PM | Comentários (3) | TrackBack

março 1, 2007

Efemérides

Becquerel.jpg
Completam-se hoje 111 anos sobre a descoberta da radioactividade por Antoine Henri Becquerel.

A Wired regista a efeméride, acrescentando que Becquerel foi galardoado com o Prémio Nobel da Física do ano 1903 e "was also elected permanent secretary of the Academie des Sciences in 1908, the year he died".

Como os Cíclopes sempre suspeitaram, estes cargos "Perpétuos" são das coisas mais efémeras que existem...

Publicado por Santiago às 5:59 PM | Comentários (0) | TrackBack