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julho 30, 2007

Um Ano Depois das Bodas de Sangue

aids-main.jpgEm Junho de 1981, o boletim da agência epidemiológica federal americana (Centers for Disease Control- CDC) publicou aquele que ficaria conhecido como o primeiro anúncio oficial de uma nova epidemia - a epidemia do século XX. Nele descreviam-se cinco casos graves de pneumonia registados entre Outubro de 1980 e Maio de 1981. Todos os doentes eram homens, com idades compreendidas entre os 29-36 anos, caucasóides, homossexuais e todos partilhavam um diagnóstico de infecção por Pneumocistis carinii registado em hospitais de Los Angeles. Este protozoário, ubíquitário e oportunista, associava-se ainda à infecção por um fungo -Candida albicans- e tinham ainda serologia positiva para citomegalovirus. Todos inalavam poppers (nome usado na gíria para identificar o nitrito de amilo ou de butilo) e apenas um doente tinha antecedentes de toxicofilia endovenosa. Apesar dos enormes esforços terapêuticos, dois faleceram em pouco tempo e os restantes não registavam qualquer melhoria. A explicação para o quadro inseria-se no contexto de uma marcada diminuição no número de linfócitos T.
Apesar destes serem os casos que se tornaram mais conhecidos, outros houve que já tinham sido registados na costa leste, cerca de um ano antes, apesar de ninguém ter estabelecido qualquer associação com os casos californianos. O CDC viria a lançar o alerta ao somar o número de pedidos de prescrição de pentamidina usada nos casos de infecção pneumocística.
A par do número crescente de casos de pneumocistose, este mesmo grupo de doentes jovens imunodeficientes começou a revelar muito frequentemente, uma lesão cutânea rara, conhecida pelo nome de sarcoma de Kaposi e que afectava predominantemente indivíduos com pele mais pigmentada, tanto no mediterrâneo como em África.
Perto do final desse mesmo ano, já se registavam cerca de 200 casos com envolvimento de 15 estados norte americanos.
Em França, o primeiro relato de um doente imunodeficiente com diagnóstico de pneumocistose, candidíase orofarígea, papilomatose cutânea e múltiplas abcessos cerebrais visava um taxista português que trabalhava em Paris desde 1976 e que viria a morrer em 1979, em Portugal. No início dos anos setenta tinha sido motorista da armada portuguesa, durante a guerra colonial em Angola, fazendo muitas vezes o percurso de ligação com Moçambique, passando pelo Zaire. Curiosamente, esta foi uma das primeiras excepções ao perfil comportamental dos doentes, descrito até então, uma vez que se registaram multiplos contactos com mulheres indígenas. A doença não parecia ser tão discriminatória como inicialmente se escreveu mas a dúvida permaneceu por muitos anos, provocando grandes discussões e acesos conflictos sociais.

Apesar de nos poder surpreender, a natureza da imunodeficiência que hoje conhecemos por SIDA, só viria a tornar-se clara com os primeiros casos de hemofílicos que tinham recebido produtos derivados do sangue submetidos a previamente a filtração. Ficou-se a saber que a doença era claramente infecciosa, tinha origem num vírus e era transmitida pelo contacto sexual e pelo sangue.
Ao mesmo tempo que os clínicos e os epidemiologistas trabalhavam para dissecar a teia dos contactos e das causas prováveis de infecção, dos dois lados do atlântico começava a corrida para o isolamento do agente. Do lado de lá, Robert Gallo em Bethesda no National Cancer Institute. Deste lado, Luc Montagnier no Instituto Pasteur de Paris. O resultado final, depois de inúmeras peripécias que em nada dignificaram o espírito científico, que esqueceram o dever de rigor e que desrespeitaram a propriedade intelectual, foi a identificação de um novo membro de uma família de retrovírus já conhecida. Antes de conquistar o nome de Human Immunodeficiency Virus (HIV) em 1986 este agente foi cunhado com o nome híbrido de LAV/HTLV-III, segundo recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), ou por ordem inversa (HTLV-III/LAV), como o fazia o governo americano e a maioria das revistas anglo-saxónicas. A clarificação da propriedade intelectual não se limitava aos anseios de cada uma das partes de alcançar o Prémio Nobel. Tratava-se, sobretudo, de acautelar o domínio sobre os gigantescos interesses financeiros que se perfilavam com a comercialização dos métodos de diagnóstico e de intervenção terapêutica, quer através da vacinação quer da terapêutica farmacológica. O diferendo chegou mesmo à ao rubro quando o Instituto Pasteur ameaça apresentar queixa formal contra o governo americano. O epílogo desta história foi escrito e firmado numa declaração conjunta entre os chefes de estado dos dois países repartindo os direitos entre ambos (i.e. países, institutos e investigadores).
Pelo meio, convém recordar o papel de alguns portugueses na identificação de um outro HIV, responsável por uma quadro clínico de menor gravidade e evolução indolente. Foram António Champalimaud, Kamal Mansinho e Odete dos Santos Ferreira que identificaram este subgrupo de doentes, ergueram a hipótese e acabaram por oferecer à equipa francesa mais uma conquista, desta vez sem os embaraços da competição americana. Fica o travo um pouco amargo de pensar que um importante contributo científico poderia ter sido dado a partir daqui, deste rectângulo.
Mas o importante mesmo é a aprendizagem rápida, a salvação de mais doentes e a diminuição da morbilidade. Os anti-retrovirais são um marco fundamental na lista das conquistas da ciência biomédica face à doença, e em especial da farmacologia. Com o controlo da cadeia de montagem do vírus, quer no início com a inibição da polimerase quer na fase final, com inibição da protease viral, controlou-se a carga viral, e conseguiu-se anular a inevitabilidade da morte dolorosa, abrindo espaço para uma vida com esperança. Importa recordar que muitas descobertas fascinantes sobre dinâmica linfocitária se alcançaram com o estudo de indivíduos em tratamento e que impulsionaram significativamente a Imunologia clínica.
Passados 26 anos, o número de pessoas mortas ultrapassou os 25 milhões. Só em 2006 terão morrido 2,9 milhões de pessoas com SIDA. Segundo a OMS no final do ano paasado o mundo registou 39,5 milhões de infectados pelo HIV (em 1990 eram 8 milhões). Cerca de metade são jovens entre os 15 e os 24. Por dia somam-se mais 6000 portadores de HIV. Uma vez mais, o continente Africano é o mais severamente afectado, estimando-se que 63% do total dos indivíduos infectados se encontre em África, onde cerca de 12 milhões de crianças estão órfãs. Mas as soluções terapêuticas conquistadas ainda não chegam a todos. Neste momento, cerca de 7 milhões de doentes com SIDA precisam destes fármacos para poderem sobreviver e apenas 1 em cada 4 tem-nos ao seu alcance…
Em Portugal, a epidemia de SIDA envolveu-se nos últimos anos num cenário de vergonha, ocupando o primeiro lugar de toda a Europa Ocidental com mais de 200 novos casos por milhão de habitantes, segundo números oficiais do EuroHIV de 2005. Segundo os dados nacionais do INSA até Dezembro de 2006 já morreram 6599 pessoas, na sua maioria por tuberculose. Quantos mais terão de morrer para que tomemos consciência? É bom que reflictamos no muito que resta por fazer em matéria de educação para a saúde… Bons êxitos nesta área poderão representar, não apenas uma melhoria da qualidade de vida das populações mas também, uma redução dos gastos com saúde, uma diminuição no número de estirpes bacterianas multi-resistentes, e sobretudo, trarão mais sáude para o país, que tanto precisa.

Publicado por RPA às 11:48 PM | Comentários (0) | TrackBack