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fevereiro 13, 2006

Do verbo à verdade

DMlogo.jpgJohn
8:31 Then said Jesus to those Jews which believed on him, If ye continue in my word, [then] are ye my disciples indeed;
8:32 And ye shall know the truth, and the truth shall make you free.

Recentemente vieram à tona algumas fraudes científicas espectaculares. A mais conhecida, amplamente noticiada, foi o caso do Dr Hwang e suas mágicas células estaminais. No espaço de alguns meses, o cientista Koreano navegou os arquétipos da sabedoria asiática de um extremo ao outro. Começou Senhor Myagi e terminou Fu Manchu. Foi uma queda vertiginosa, de 11 linhas de células estaminais humanas obtidas a partir de adultos, a 2 linhas humanas, até finalmente parar em um (01) cão clonado.
Pouco tempo depois, um grupo Norueguês foi acusado de ter inventado um importante estudo de cancro oral, publicado na revista Lancet, que habita, em conjunto com o New England Journal of Medicine, o Olympo das revistas de investigação clínica. Este caso também tem traços de telenovela mexicana (nunca passaria pelo controle de qualidade da Rede Globo): os co-autores do acusado incluem sua mulher e seu irmão gêmeo. O autor sênior, um certo Jon Sudbo, caiu na desgraça científica, mas ascendeu ao panteão dos autores épicos em vista da acusação de fabricar nomes, dados clínicos e diversos outros parâmetros de 908 pacientes. Aos seus pés estão Tolstoy e Dickens e os ridiculamente pobres elencos de clássicos como Guerra e Paz ou A Tale of Two Cities. [nota do editor: Balzac?]

A fraude canónica, o ne plus ultra da sacanagem em Biologia, certamente foi o Homem de Piltdown. Eoanthropus dawsoni era supostamente um hominídeo fóssil datando do Pleistoceno. O nome vulgar seguiu a regra comum em espécimes de hominídeos, sendo derivado do local de descoberta (Homem de Peking, o Homem de Java, etc), Piltdown em Sussex, na Inglaterra. O cavalheiro teve seu debut social ao ser apresentado em reunião da Royal Society em Londres, em dezembro de 1912. Imediatamente se tornou uma sensação, não só na comunidade científica, como também da mídia da época. O Homem de Piltdown seria o famigerado Elo perdido, um título itinerante em biologia humana, que hoje em dia se encontra em posse, diriam alguns, do Presidente Bush, diriam outros, do grande Steven Seagal.
A fraude durou quase meio século, até 1953. A bem da verdade, Eoanthropus não se enquadrava na sequência de hominideos predominante, e mesmo muitos dos antropólogos que não suspeitavam da sua autenticidade acreditavam que ele representava uma linhagem menor, um cul-de-sac da evolução humana.
Se me permitem um momento Martha Stewart [especialista em etiqueta e talentos domésticos, também ex-presidiária] , aqui vai a receita do Homem de Piltdown, segundo uma equipa de investigadores do British Museum:

1 crânio humano medieval
1 mandíbula de orangotango de Sarawak
Dentes fossilizados de chimpanzé a gosto
Temperar com solução férrica e ácido crómico

A historia do Homem de Piltdown tem um elenco enorme de suspeitos; o acusado mais frequente é o próprio descobridor, Charles Dawson. Mas os participantes das escavações em Sussex e da análise de Eoanthropus incluíram figuras como Sir Arthur Woodward, curador de história natural no British Museum, Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) e Pierre Teilhard de Chardin*, vários dos quais foram apontados como sendo o culpado. Como a moda de Jack o Estripador, a fraude de Piltdown originou muitas teorias, algumas banais, outras enxergando vastas conspirações.doghwang.jpg
Em comun com a fraude de Hwang, o caso de Piltdown foi obviamente premeditado e laboriosamente executado. Ambos os casos também escolheram temas de ressonância junto ao grande público. Deste modo, os autores transcendem o dano à comunidade científica em geral, e em particular aos desgraçados que têm como ponto de partida para seus próprios experimentos relatos espúrios. Mas o mais grave é trazerem para um debate público onde a ética já se debatia legitimamente, como no caso das células embrionárias, o estigma da desonestidade.

Para o Dr Hwang, ao lago com botas de cimento.

Legenda das figuras: Dick Vigarista e Muttley, em 1969 (cartoon), e Dick Vigarista e Muttley, em 2005 (fotografia).

Thiago Lopes-Carvalho

[nota final: a coluna do Senhor não foi publicada ontem por falha minha; o Senhor Thiago foi de irrepreensível pontualidade.]

* Pierre Teilhard de Chardin foi um padre Jesuíta que se dedicou a biologia, tentando adaptá-la aos desígneos Divinos. Em termos objetivos, está para a Biologia séria, com B maiúsculo, como Britney Spears está para a mecânica quântica. Sua obra The Phenomenon of Man foi objecto de uma devastadora crítica do nobelista brasileiro Peter Medawar, disponível online http://www.cscs.umich.edu/~crshalizi/Medawar/phenomenon-of-man.html
e de onde tiro esta pérola: “It would have been a great disappointment to me if Vibration did not did not somewhere make itself felt, for all scientistic mystics either vibrate in person or find themselves resonant with cosmic vibrations; but I am happy to say that on page 266 Teilhard will be found to do so.”

Publicado por Conta Natura às 5:12 PM | Comentários (3)

fevereiro 6, 2006

Exodus

burning_Bush.jpg7 And the LORD said, I have surely seen the affliction of my people which are in Egypt, and have heard their cry by reason of their taskmasters; for I know their sorrows;
8 And I am come down to deliver them out of the hand of the Egyptians, and to bring them up out of that land unto a good land and a large, unto a land flowing with milk and honey; unto the place of the Canaanites, and the Hittites, and the Amorites, and the Perizzites, and the Hivites, and the Jebusites.
9 Now therefore, behold, the cry of the children of Israel is come unto me: and I have also seen the oppression wherewith the Egyptians oppress them.
10 Come now therefore, and I will send thee unto Pharaoh, that thou mayest bring forth my people the children of Israel out of Egypt.


Ao contrário das células tronco embrionárias pluripotentes, o actual Santo Graal da medicina, as células estaminais (ou tronco) do sistema hematopoiético (HSC)- que têm a capacidade de gerar todas as outras células do sangue- fazem parte da realidade clínica. As HSCs normalmente se encontram na medula óssea, muito próximas da superfície do osso, numa zona acessível apenas pela via dolorosa da biopsia. A citoquina* G-CSF (granulocyte-colony stimulating factor) é desde longa data usada como factor de mobilização das HSCs. A mobilização se refere à migração de grandes números destas células para a corrente sanguínea. O G-CSF pode não ser um sinal tão dramático quanto o arbusto em chamas a falar com Moisés, mas essencialmente os dois estão a dizer a mesma coisa: “hit the road, Jack”.

Entretanto, o mecanismo desta mobilização das HSCs pelo G-CSF não é conhecido em detalhe. Recentemente na revista Cell Yoshio Katayama** e colaboradores propõem uma nova interacção durante o processo de mobilização, através da acção do sistema nervoso. Antes que alguém se ponha a fazer ioga ou meditação transcendental para por as células tronco a correr, cabe a ressalva que o trabalho se refere ao sistema nervoso autónomo, no seu ramo mais casmurro, paradoxalmente conhecido como o simpático. Como meus dois leitores devem se recordar da fisiologia do secundário, o sistema nervoso pode ser dividido em somático e autonómico. O sistema nervoso somático (SNS) recebe sinais dos orgãos sensoriais (os olhos, ouvidos, etc), e através dele efectuamos respostas usando os músculos esqueletais. Por exemplo, é através do SNS que a sensação de desconforto nos testículos da origem ao tradicional gesto da mais fina elegância masculina que na minha terra se chama “coçar o saco”. Em geral isto tudo se processa no córtex cerebral de modo consciente. Já o sistema nervoso autónomo (SNA) trata principalmente dos estímulos dos órgãos internos, regulando por exemplo o batimento cardíaco e o movimento do diafragma- embora o SNA também responda a estímulos externos, como mudanças de temperatura. Em geral estes sinais se processam em regiões que na minha época se diriam mais primitivas do cérebro, como a medula e o hipotálamo. Finalmente, o SNA se divide em parassimpático e simpático. Alguns componentes do sistema parassimpático estão sob o controle pelo menos parcialmente consciente- felizmente ainda temos direito a alguma opinião sobre o abrir e fechar de certos esfíncters. O SNA simpático entretanto, com perdão da indelicadeza, está a se cagar para o que queremos ou deixamos de querer. E aqui retomamos nosso filme, o G-CSF, as HSCs e o SNA simpático- A Vingança dos Acrónimos.stem-cell.jpg


Katayama et al demonstram mais uma vez o quanto Pasteur estava certo quando disse que “o acaso favorece o jogador com quatro ases”. O grupo estudava outro mecanismo de regulação da mobilização das HSCs, através da síntese de uma moécula chamada sulfatide. Usando murganhos geneticamente modificados para não produzirem uma enzima (Cgt) necessária à síntese de sulfatide, revelaram uma deficiência na mobilização de HSCs em reposta a G-CSF. Até aí, tudo ia conforme o esperado. Mas testes subsequentes demonstraram que a mobilização deficiente era independente da síntese ou não de sulfatide. Uma das consequências da deficiência de Cgt é uma produção precária da bainha de mielina, uma proteína que reveste as fibras nervosas, agindo como isolamento elétrico e garantindo a integridade da transmissão dos sinais nervosos (a progressiva desmielinização dos nervos em humanos tem uma consequencia trágica, a esclerose múltipla). Partindo desta observação os autores examinaram diversos modelos genéticos e farmacológicos onde a sinalização do sistema nervoso se encontrava alterada e concluíram que a produção de noradrenalina pelo SNA simpático é em grande parte responsável pelos efeitos mobilizadores do G-CSF.

O artigo inaugura uma linha de investigação promissora não só pelas possibilidades terapêuticas e farmacológicas, mas também do ponto de vista da ciência básica. Qual será a importância do sistema nervoso na fisiologia da hematopoiese? Alguns editores desta página se têm dedicado ao estudo das diferentes fases da produção das células sanguíneas, que tem uma aspecto cigano, começando em primordios embrionários com nomes giros como esplancnopleura paraortica (gesundheit!), passando pelo fígado fetal e o baço do recém nascido, até se instalar definitivamente na medula óssea. Estará este êxodo ligado ao desenvolvimento dos nervos periféricos? Ou então à produção de noradrenalina? Conseguirão nossos heróis escapar da diabólica armadilha do Coringa?
Join us next week...

Até lá, Bom Domingo. And by the way, if you are reading this, Happy Birthday, Laura Linney. Call me.

Thiago Lopes-Carvalho

laura68.jpg
* Citoquinas são moléculas usadas para comunicação entre células- quando por exemplo um linfócito produz a citoquina interferão-gama está frequentemente avisando outras células que foi detectada uma infecção viral. O nome, como no caso do G-CSF, em geral denota a primeira observação empírica do efeito da molécula- mesmo que com a passagem do tempo este não se tenha revelado o mais importante.

** “Signals from the Sympathetic Nervous System Regulate Hematopoietic Stem Cell Egress from Bone Marrow.” Yoshio Katayama, Michela Battista, Wei-Ming Kao, Andrés Hidalgo, Anna J. Peired, Steven A. Thomas, and Paul S. Frenette. Cell, Vol 124, 407-421, 27 January 2006.

*** Nota do editor (VMB): a citação original, que o Thiago parafraseia à la Monte-Carlo, pervertendo-a(!) é: "Dans les champs de líobservation, le hazard ne favorise que les esprits préparés".

Publicado por Conta Natura às 12:21 AM | Comentários (0)

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