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outubro 10, 2007
Nao havia necessidade...
Carlos Fiolhais diz (bolds sao meus):
E qual vai ser o futuro do DNA? Foi entretanto completada a sequenciação do genoma humano, conseguida por uma grande colaboração (o Projecto do Genoma Humano foi de início dirigido por Watson). Hoje procura-se uma sequenciação barata (e, portanto, individual). E abrem-se perspectivas para aplicações outrora inimagináveis: já hoje se fazem “chips” de DNA de um indivíduo que, lidos informaticamente, permitem detectar a propensão genética para certas doenças. Vários tipos de cancro poderão ser antecipados e porventura prevenidos dessa maneira. Se na altura houvesse a tecnologia do diagnóstico por análise do DNA o cancro de Rosalind Franklin poderia ter sido evitado e ela poderia ter ido a Estocolmo receber o seu merecido prémio...
Ha' alguns aspectos importantes a salientar - que me ocorrem agora, perdoem-se outros lapsos. Fala-se da sequenciacao do genoma humano e da suposta "completa" tarefa da sua sequenciacao. Na realidade, isto esta' longe da verdade. Inicialmente, quando foi anunciado com pompa e circunstancia a sequenciacao, o que havia era um draft do genoma humano. Na traducao mais literal, um rascunho da sequencia mas mais fiel sera' chamar-lhe uma versao rasca.
O outro aspecto e' o que o Carlos apelidou de chips de DNA. Confesso que estou a pensar em chips que contem pequenos trechos do genoma humano, com variantes ou nao, etc. Existem sob varias formas e feitios. No entanto, e' importante salientar que estes chips nao contem o DNA de ninguem per se. Na realidade, o que acontece e' bem diferente. O DNA e' extraido de qualquer celula do paciente e e' entao hibidrizado com o DNA nestes chips. Se que e' complementar, ha' um sinal. Isto permite perceber que "variantes" do gene/promotor/etc o paciente tem. O chips nao contem o DNA de ninguem.
Por ultimo, como diz o famoso autor portugues, "nao havia necessidade..." Acho que este tipo de comentarios a respeito de cancro sao enganadores e nao contribui positivamente para o otherwise excelente blog que e' o De Rerum Natura (aqui fica a minha venia publica). O cancro e' algo que ninguem realmente percebe em toda a sua extensao. Salvo raras excepcoes, nao e' uma doenca genetica baseada em mutacoes pontuais e evidentes. E' sim uma doenca complexa do ponto de vista genetico, na medida em que nao existe uma relacao causal e clara entre uma mutacao num gene e a doenca. Ha' marcadores - variacoes ao nivel de DNA comuns a varios pacientes - claros que sao obvios para certos tipos de cancro mas sao casos raros.
Publicado por BA às 4:21 AM | Comentários (0)
março 7, 2007
Manzanar É O Nome da Esperança
A Fome afecta muito particularmente o continente africano. Se, por um lado, o clima e a desertificação dos solos não são favoráveis à resolução do problema nalguns países africanos, outros há em que, as guerras, a instabilidade política e a perseguição religiosa são responsáveis por um grande número de vítimas. Infelizmente, os países com maiores riquezas naturais são os que, regra geral, se têm revelado mais resistentes à aceitação da paz. Mas no meio do horror das guerras, das lutas pelo poder, das epidemias, da miséria e de muitas mortes, ainda há espaço para a esperança no futuro deste continente.

A Eritreia é um jovem país que conquistou, ao fim de 30 anos e pela força das armas, a sua independência, depois do domínio da Etiópia. Alcançado o novo estatuto político em 1991, e tendo em conta a sua localização geográfica, a melhoria da qualidade de vida das populações tinha grandes obstáculos ambientais impostos por anos de secas repetidas. A ausência de um sistema de rega eficaz, não permitia à agricultura produzir o mínimo para manter o novo país, sem recorrer à ajuda humanitária internacional. Apesar das dificuldades e da pesada herança da guerra, este país respira hoje outra esperança. É graças a um cientista que o país olha de frente para o futuro e eu, tive a honra maior de o ter conhecido.
Gordon Sato é biólogo, americano de origem japonesa. Deu os primeiros passos como estudante de biologia no Caltech, onde foi orientado por Max Delbruck e onde conviveu com Dulbecco aquele que inventou o meio de cultura com o seu nome e George Beadle, três cientistas que viriam a ser distinguidos com o Prémio Nobel. Sato tem hoje 78 anos, mas o tempo só lhe acrescentou energia e determinação na mudança da paisagem da Eritreia e, com ela, da saúde do seu povo. A chave para este drama tem o nome de código Projecto Manzanar, o mesmo que identificou um campo de concentração na Califórnia criado em 1942 pelo governo americano, para alojar imigrantes japoneses e seus descendentes. Manzanar (Pomar, em Castelhano) era nessa altura o nome de um terreno, no vale californiano de Owen que ficou desertificado após o desvio das suas águas, graças à construção de um enorme aqueduto, para suportar o crescimento da cidade de Los Angeles. Foi aqui que Gordon Sato passou alguns anos da sua adolescência e onde aprendeu a cultivar a terra. As dificuldades e as humilhações da guerra também ficaram gravadas na sua memória, mas foram os conhecimentos que adquiriu em Manzanar que transformariam as vidas de muitos outros, do outro lado do globo, mais de meio século depois.
Com o objectivo claro de ajudar a combater a fome no mundo, Sato trouxe, para a escala humanitária, o conhecimento e a formação de uma brilhante carreira como investigador e professor universitário. Escolheu a Eritreia, um enclave no “Corno de África” e começou por desenvolver a aquacultura, como fonte de proteína, essencial a uma população tão carenciada e tao malnutrida. Conta com o apoio do exército que combatia as tropas etíopes mas, com o fim da guerra, o peso do projecto aumentou na mesma proporção que, entretanto, diminuíam os seus apoios. A inevitabilidade força-o a virar a sua atenção para outra fonte proteica - a carne de gado. A ideia ocorreu-lhe com a observação de camelos a pastar em mangais. Rapidamente, começou a cultivar estas plantas que cresciam espontaneamente em apenas 15 por cento de território em forma de faixa ao longa da costa, com 100 metros de largura e 1000 quilómetros de extensão. Milhares secaram e morreram nas primeiras tentativas. A observação mais atenta da sua distribuição no meio selvagem localizou-as na proximidade de canais que transportam as águas das chuvas, em poucos, muito poucos, dias de cada ano. A água doce não poderia ser a razão da subsistência destas plantas, mas a matéria orgânica transportada pelas lamas para as linhas costeiras constituíam uma hipótese mais plausível. Uma simples experiência em laboratório, expondo ao sol uma suspensão de algas em água salgada, revelou o impacto que tinha na taxa de crescimento vegetal, a adição de fosfato de amónio e ferro à cultura. O mesmo viria a verificar-se com as espécies de árvores plantadas nos novos mangais.

Na verdade, as plantas são muito mais resistentes do que pensamos, e podem ser cultivadas em meios tão inóspitos como a areia ou a água, desde que sejam preenchidas algumas condições: o pH e a salinidade do meio; a presença dos minerais apropriados; a ventilação das raízes e a temperatura tolerada pela planta.
A plantação sistemática de cada árvore na proximidade de um pequeno saco perfurado com fosfato de amónio e óxido de ferro permitiu plantar, com sucesso, milhares de plantas, à densidade de 1000 por hectare. Os rebentos destes mangais são colhidos, lavados e acrescentados à ração de cabras, ovelhas e vacas, fazendo disparar a produção sustentada de gado que alimenta hoje as populações e impulsiona a economia regional.
Para além das mudanças na paisagem, o aumento da quantidade de matéria orgânica costeira está a estimular o crescimento da população de crustáceos e, com estes, o de muitas espécies de peixe. Para já, o objectivo é chegar aos 10 milhões de árvores na costa da Eritreia, na faixa de terra naturalmente regada pelas marés. Se for alargado a outros países do Mar Vermelho poderá multiplicar por cinco a densidade vegetal na região, e por muito mais, o seu impacto económico.
Mas os efeitos, deste Pomar à beira mar plantado, não se limitam às populações. As regiões tropicais e subtropicais estão ameaçadas pela desertificação. Gordon Sato está a conseguir tratar a fome por ela causada. A solução é também a mesma que poderá ajudar a curar a própria desertificação, contribuindo para uma diminuição do aquecimento global do nosso planeta.
Isto é o que o que um Homem e uma pequena equipa são capazes de realizar. Agora imagine o que muitos poderiam fazer…
Publicado por RPA às 5:20 AM | Comentários (2) | TrackBack