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fevereiro 6, 2007
Ciência canção
Embora já não muito original, a concretização de um samba-enredo acerca da Ciência só não ganha aspecto nerd quando é o Gilberto Gil a compor. (Como ele próprio diz, Sei que a arte é irmã da ciência, Ambas filhas de um Deus fugaz, Que faz num momento, E no mesmo momento desfaz...)
Aos laivos nacionalistas do poema devem fazer caso os que secretamente não achariam cool um fado com o mesmo tema.
Ciência e arte
Tu és meu Brasil em toda parte
Quer na ciência ou na arte
Portentoso e altaneiro
Os homens que escreveram tua história
Conquistaram tuas glórias
Epopéias triunfais
Quero neste pobre enredo
Reviver glorificando os homens teus
Levá-los ao panteon dos grandes imortais
Pois merecem muito mais
Não querendo levá-los ao cume da altura
Cientistas tu tens e tens cultura
E neste rude poema destes pobres vates
Há sábios como Pedro Américo e Cesar Lattes
Gilberto Gil, 1997
Clarificação geral:
1. além de físico Pedro Américo de Figueiredo e Mello (1843-1905) foi pintor e novelista com honras de retrato na Galeria degli Uffizzi (Florença); uma espécie de Da Vinci brasileiro.
2. Cesar Lattes (1924-2005) foi também físico, um dos mais importantes do Brasil, dando um grande impulso à emergência da física das partículas elementares.
Publicado por VB às 2:41 PM | Comentários (1) | TrackBack
outubro 31, 2005
Liv Tyler, Steve Tyler e a herança dos caracteres adquiridos
Confesso: o texto do Vasco sobre a retrospectiva 2005 me encorajou ao diletantismo. Até semana passada eu tinha um plano complexo para o próximo texto do Cruzeiro do Sul, que esperava as horas livres do fim de semana para vir ao mundo. Mas a complexidade foi por água abaixo: acabei de assistir ao "Jersey Girl", filme de 2004 do Kevin Smith, e aparição da Liv Tyler no meu monitor foi muito forte para mim, não estou conseguindo me concentrar mais... Eu devia estar muito próximo do micro, sei lá.
Procurei mais informações sobre ela, e inevitavelmente esbarrei em seu pai, roqueiraço das antigas, Steve Tyler. Meu deus, como pode? Ok, ok, variabilidade existe, eu sei. Mas o cara não é só feio, é esquisito. A Liv é linda e perfeita. E pela benção da mãe natureza, não vai ficar igual a ele.
O Kevin Smith é um diretor de cinema interessante: ele tem uma filmografia marcada por temas recorrentes, como sua cidade natal Nova Jersey, ícones culturais da geração que passou a infância nos anos 70, muito cinema, é claro, heróis de quadrinhos e bandas de rock. Uma espécie de 'núcleo duro' de atores (Ben Affleck, Matt Damon e o Jason Lee) sempre aparece em suas películas, o que dá aos filmes uma atmosfera familiar. Em "Jay and Silent Bob Strike Back", besteirol de 2001, ele desencava Mark Hamill e Carrie Fischer (mais conhecidos como respectivamente Luke Skywalker e Leia Skywalker) para fazer paródias de humor negro com 'Guerra nas Estrelas'. Em "Mallrats", Kevin lança mão de nada menos que Stan Lee (o mítico criador do Homem-Aranha, em carne, osso e cabelos brancos) interpretando a si próprio. Como diz o nome, o filme fala de dois adolescentes que passam seu tempo livre (que é o tempo todo) em um shopping center. Os dois são obcecados por quadrinhos, e ao fim da história têm a chance de conversar com Stan Lee, que lhes dá valiosos conselhos 'de um homem adulto'. Em "Chasing Amy", os mesmos Ben Affleck e Jason Lee são autores de histórias em quadrinhos, e confrontam seus preconceitos infantis quando um deles (Ben) se apaixona e inicia um romance com uma lésbica. Nesse filme, até Lando Carlissian é citado!
O que o Kevin faz é retratar a atualidade pop americana com um cinema fortemente autoral, onde, os personagens principais consomem cultura de massa. E com riqueza de detalhes. A pergunta que me vem é: porque o Kevin e seu cinema não se tornaram mainstream? Porque não são um novo Friends? Afinal, é engraçado e fala de gente comum consumindo cultura que todos conhecem. O Ben Affleck filma uma bomba como "A Soma de Todos os Medos" e é cinema-pipoca, circuito mundial. Filma com o Kevin Smith, interpretando um gerente de lojas de shopping (em Mallrats) e é cinema cult? Séries de tv, com o sucesso de "Mad About you", onde Helen Hunt e Paul Reiser desfilam as filigranas de sua vida diária (ok, ok, tem a Helen Hunt...), e Seinfeld, sobre um grupo de amigos atrapalhados, mostram o quanto a vida diária interessa ao grande público. Porque Hollywood insiste em criar o número googol de filmes metafísicos sobre o fim do mundo?
Aqui o Cruzeiro do Sul começa a fazer algum sentido ao leitor habitual do Conta. A pergunta do parágrafo acima pode ser refeita assim: o que qualquer obra tem que ter para virar mainstream? O que falta à ciência (que é o nosso assunto) para virar assunto de mesa de bar? Como pode ser, que sejamos nós tão entusiasmados com ela, e o resto do público não dê a mínima?
O Richard Dawkins tem um livro de divulgação científica chamado "Unweaving the Rainbow", de 1998, onde ele tenta refutar a idéia, defendida por alguns, que a ciência, ao explicar a natureza, lhe retira o encanto. Em um trecho introdutório, ele diz:
"I recently attended a briefing session where scientists were urged to put on events in shopping malls designed to lure people in the joys of science. The speaker advised us to do nothing that might conceivably be seen as a turn-off. Always make your science 'relevant'  to ordinary people's lives, to what goes on in their own kitchen or bathroom. Where possible, choose experimental materials that your audience can eat at the end. At the last event organized by the speaker himself, the scientific phenomenon that really grabbed attention was the urinal that automatically flushed as you stepped away. The very word science is best avoided, we were told, because 'ordinary people' see it as threatening."
(...)
"when I protest that whats being marketed here is not real science, I am rebuked for my 'elitism', and told that luring people in, by any means, is a necessary first step..."
(O que me chama a atenção nesse relato é a idéia que a divulgação científica possa estar criando um espaço a meio caminho entre o cientista e o pú blico, e de onde o cientista esteja sendo, por estes motivos, desestimulado de participar. Isso é grave, embora o exemplo acima me pareça extremo. Mas o conflito existe.)
Para efeito da nossa pergunta, a experiência do Dawkins ilustra o quanto é difícil falar de uma coisa como a ciência para o grande público. Lembre se que o leitor médio da ScientificAmerican ou, sei lá, da New Scientist, pelo menos teve a iniciativa de ir comprar a revista. É um interessado. O público que passa pela alameda de um shopping sabe ou se interessa por ciência muitíssimo menos.
O problema pode estar ligado às diferenças entre o que é cultura 'erudita' ou 'popular'. Uma definição simples diria que erudito é algo que necessita de informação prévia para ser entendido, enquanto o popular oferece todos os elementos necessários em si mesmo.
Aqui no Brasil a massa consumidora de música, por exemplo, compra música de péssimo gosto. Música clássica é uma minoria. E ninguém questiona a idéia de que música clássica é encantadora. Dois anos atrás, uma série de concertos de música clássica gratuita - organizados pela prefeitura, em palcos armados nas praias do Rio teve seus dias lotados, todos,independente da programação. E o público era de gente do povo. Os críticos de jornais se puseram a afirmar que a música clássica vende bem. Dias depois, donos de gravadoras continuavam empurrando lixo goela abaixo da pobre gente. E lixo vende sempre muito bem. A música clássica não vende tanto, mas será que deveríamos esperar isso dela?
Me parece que, para o bem ou para o mal, ciência faz parte do que é entendido como 'cultura fina', ou 'coisa para poucos'. O seu aspecto 'erudito' é evidente, na demanda por uma boa educação, que forneça a informaç ão prévia necessária ao entendimento. Não só em relação à ciência essa polaridade 'cultura fina' ou 'cultura do povo' existe. Na literatura também, na poesia e na música, como dito.
E se o público não assiste o Kevin porque é engraçado e familiar, pelo menos podia assistir pelo sorriso da Liv Tyler.
Até a próxima!
PS - eu o adverti do diletantismo na primeira linha.
Bruno Buys
Publicado por Conta Natura às 4:04 AM | Comentários (4)