Entradas recentes na categoria Ficção Natural


agosto 21, 2006

Ficção Natural: guevedoce.

Three.jpgConta a lenda que perdida num oceano pouco distante havia uma ilha de gente invulgar, onde a pergunta Menina ou menino? raramente era feita à pertinaz gestante a respeito do seu embrião, mas ao(à) adolescente acerca de si próprio(a).
A culpa por tal dúvida de género provinha de uma herdada deficiência que intimidava o genótipo masculino por de trás do fenótipo oposto. Diz-se que a insuficiente produção de 5-alfa-reductase aplacava o primeiro pico de actividade da testosterona durante o desenvolvimento do macho humano. Só na adolescência viam os testículos a luz do dia, crescia desproporcionadamente o que antes se julgava clítoris, soava o soprano onde primeiro tinia o contralto e eriçava-se de penugem o que antes era "dermicamente" macio.
Naturalmente, a gente dessa ilha teria constituído uma Atlântida para os antropólogos. O conceito de comportamento desviante era necessariamente distinto do nosso. Nas festas de escola secundária, nada de dramas: ninguém era obrigado a dançar aos pares. O cor-de-rosa era considerada uma tonalidade do vermelho não apenas desprovida de nexo mas também de sexo. A primeira geração nunca fazia e (sobretudo!) impunha planos para o futuro da segunda. Cada pessoa possuía assim uma predisposição acentuada para o "normal absoluto", isto é, para a bissexualidade descomplexada.
Quanto de doença haverá afinal na insensibilidade a androgénios?

Publicado por VB às 12:00 AM | Comentários (2)

maio 7, 2006

Ficção Natural: fatum.

V4Vcover.jpgAlan Moore é assim como uma espécie de Tony Kushner da banda desenhada. A sua extraordinária capacidade de envolver o leitor numa teia de ideias originais, onde numerosos elementos da nossa cultura e fantasia desenham cenários fascinantes e fenómenos sociais fáceis de entender, faz com que ele, o leitor, quase se impacienta de não ver passar um "herói" alado pela janela de 25o andar do seu apartamento em Manhattan. Moore consegue colocar em relevo o que de mais atraente existe na Ficção Científica: o formidável que se transforma em plausível.

Este escritor é também capaz de reunir com humor os quatro cantos das nossas mais remotas memórias etnográficas, integrando o jazz com o clássico, o comunista com o fascista, a cultura pop com a erudita, e por aí fora. Como resultado, equacionamos muitas variáveis em simultâneo e, embora cheguemos a conclusões bem pouco distantes das que encontramos ao ruminar sobre a "vida real", consolamo-nos com ideias de utopia, com as surpresas que o futuro poderá trazer. Esta capacidade de escrever acerca de tudo surpreende mesmo os mais snobes pirrónicos desta forma de arte. Por exemplo, na saga Watchmen, Moore brica com a suposição de que o que o Ocidente assistiu durante a Guerra Fria ocorreu de modo completamente independente do conhecimento científico que a humanidade tinha ou pudesse ter tido. As diversas acções que ocorrem em paralelo (e ainda outras que decorrem em livros de banda desenhada que os próprios personagens vão lendo) são intercaladas com textos de ficção que complementam o que o desenho não é capaz de transmitir. Até textos de carácter ornitológico podem ser reescritos com acrescida beleza neste quadro futurista (Maradona? Por onde andas? Píu, píu,píu!).

Alan Moore foi recentemente anunciado ao "público global" através da conversão para o cinema de um dos seus textos mais premiados: V for Vendetta. Para a (esperada) infelicidade de ver grande parte da mensagem original ser "mastigada", "digerida" e "arredondada" sobre os grandes ecrãs do mundo, apenas encontrei refrigério na figura da Natalie Portman e na homenagem a Alexandre Dumas. Nem um nem outro se encontram no texto de Moore, cuja reflexão sonda as profundezas do terrorismo de estado, da luta de classes e de uma visão niilista da História. No campo científico "V" é provavelmente a narrativa com menor elaboração, embora contenha um aviso pouco novo mas continuamente caído no olvido:
V4Vscience.jpg

Publicado por VB às 12:35 AM | Comentários (0)

Ver os arquivos desta categoria por mês...