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maio 9, 2006

E depois do adeus ñ “Scientistsí gap year?”

Estando a concluir um doutoramento em Inglaterra, é natural que tenha (e realmente tenho) vários amigos que estejam aproximadamente na mesma fase do processo: a prepararem-se para começar a escrever, em fase de escrita, ou recém-terminados (sortudos). Das várias conversas que tive com eles, um aspecto salienta-se: muitos estão a pensar em deixar a investigação científica e procurar emprego noutras áreas. Em nenhum dos casos a experiência do doutoramento foi desagradável, e portanto não pode ser citada como causa do abandono.
As razões mais comuns são:

1 ñ Experimentar outra coisa para ver se há algo de que se gosta mais; daí eu achar que devia haver uma aceitação e formalização maior de um “gap year” para doutorados em Ciências, tal como funciona o “gap year” em vários países para estudantes que estão entre o 12o ano e a universidade (não em Portugal, infelizmente). Haveria, então, empregos e empregadores específicos para este ano. Atenção que talvez tente desenvolver esta ideia por isso nada de roubar ñ mas opiniões aceitam-se.

2 ñ Querer sair da “torre de cristal”, ou seja, o isolamento social do meio académico, e sentir que se está no mundo real e a contribuir de uma forma mais directa para a sociedade.

3 ñ Poder ter a sensação que se produziu qualquer coisa de tangível ao fim de cada dia.

4 ñ A ideia de que não se tem o espírito de sacrifício e motivação suficiente para ser um bom cientista.

Não acho que seja necessariamente mau haver doutorados em Ciência a querer sair do meio académico. O problema é se começa a ser a maioria (o que parece estar a acontecer aqui em Inglaterra), e/ou se for principalmente pela razão 4. Aí convém repensar o papel de um doutoramento e a percepção do que é um bom cientista. Apesar disto ainda não estar a acontecer ainda em Portugal, já está a acontecer com doutorados portugueses no estrangeiro. E quando começar a haver outras opções em Portugal para doutorados em Ciência também vai começar a acontecer no nosso país. É um assunto que tem de ser debatido, portanto.

Publicado por MM às 11:55 AM | Comentários (10)

abril 25, 2006

O processo de Bolonha e o “wishful thinking”

Ainda não se falou muito no Conta sobre este suposto mega-evento que está a abanar os alicerces da educação universitária portuguesa e que (diz-se) vai mudar completamente o ensino em Portugal. Mas é importante falarmos disto porque o ensino científico seria um dos mais afectados. Convenhamos, o ensino de Francês ou Direito é necessariamente diferente em Portugal e em França. No entanto, um curso de Bioquímica ou Física convinha que fosse parecido nos dois países, pelo menos o suficiente para que um bioquímico português pudesse candidatar-se a um emprego em França ou um físico francês pudesse concorrer a um doutoramento em Portugal.
Já dá para ver o que eu creio ser um dos maiores problemas do processo de Bolonha e principalmente da sua aplicação em Portugal. Isto é, um caso sério de “wishful thinking”. Porque claro que mesmo com a equivalência de graus empregos em Bioquímica em França ou doutoramentos em Física em Portugal não andam por aí aos pontapés. Reconhecido, o fenómeno de “wishful thinking” não é um grande problema. Ou seja, reconhecermos quais as coisas que não vão acontecer só porque queremos que elas aconteçam já é meio caminho andado para pensar no que mais é preciso fazer para que os desejos se concretizem. Se não for reconhecido, é que é o problema. Isto é, lá por gostarmos muito dos ideais do processo de Bolonha e da ideia das universidades portuguesas os cumprirem, não é por elas dizerem que aderem que vão passar a ter por objectivo primordial e determinante um ensino dos seus alunos adequado, competitivo e equiparado aos outros países europeus. Como bom exemplo da maneira como uma universidade portuguesa pode subverter um bom princípio, conto um caso que aconteceu há alguns anos mas que ainda podia acontecer agora:

A minha mãe, que foi professora na Faculdade de Letras da U.P. e durante algum tempo presidente do conselho pedagógico, lutou arduamente durante muitos anos para que se introduzisse na Faculdade uma avaliação dos professores à maneira americana. Este é um sistema em que todos os anos os alunos avaliam o desempenho e qualidade dos professores que lhes deram aulas. Os resultados desta avaliação são afixados, antes dos alunos que estão a chegar escolherem as cadeiras que vão tirar. Claro que um aluno que veja um professor com muito má pontuação vai pensar duas vezes antes de se inscrever na cadeira e possivelmente escolherá outra. Ao fim de alguns anos, se o professor não melhorar o seu ensino, deixa de ter alunos e é substituído (numa adaptação humana da selecção natural). Ora bem, os professores da Faculdade de Letras aceitaram (incrivelmente, vocês devem estar a pensar) serem avaliados anonimamente pelos alunos. Mas com uma condição: o resultado da avaliação de cada professor só seria conhecido pelo próprio professor ñ nem pelos futuros alunos, nem pelos colegas, nem pelo conselho responsável pela renovação do contrato. E a partir daqui, a Faculdade de Letras da Universidade do Porto pode passar a dizer que fazia avaliação dos professores pelos alunos.
Uma coisa nestes moldes é o que eu ouço dizer que as universidades portuguesas estão a fazer à adesão ao processo de Bolonha. Mas gostava de ouvir se alguém soubesse de exemplos concretos de como se está a conduzir (mal ou bem) a adesão. Entretanto, para efeitos de clareza, aqui ficam os objectivos, tais como estão no tratado:
“Texto da Declaração de Bolonha
Declaração conjunta dos Ministros da Educação europeus reunidos em Bolonha a 19 de Junho de 1999
[...]
ïAdopção de um sistema de graus de acessível leitura e comparação, também pela implementação do Suplemento ao Diploma, para promove entre os cidadãos europeus a empregabilidade e a competitividade internacional do sistema europeu do Ensino Superior;
ïAdopção de um sistema essencialmente baseado em dois ciclos principais, o graduado e o pós-graduado.O acesso ao segundo ciclo vai requerer o termo com êxito dos estudos do primeiro ciclo, com a duração mínima de três anos. O grau conferido, após o primeiro ciclo, será também relevante para o mercado europeu do trabalho como nível apropriado de qualificação O segundo ciclo deverá conduzir aos graus de mestre e/ou doutor como acontece em muitos países europeus;
ïEstabelecimento de um sistema de créditos -como, por exemplo, no sistema ECTS -como um correcto meio para promover a mobilidade mais alargada dos estudantes. Os créditos podem também ser adquiridos em contextos de ensino não superior, incluindo a aprendizagem ao longo da vida, desde que sejam reconhecidos pelas respectivas Universidades de acolhimento;
ïPromoção da mobilidade, ultrapassando obstáculos ao efectivo exercício da livre mobilidade, com particular atenção:
o aos estudantes, no acesso às oportunidades de estudo e formação, bem como a serviços correlativos;
o aos professores, investigadores e pessoal administrativo, no reconhecimento e na valorização dos períodos passados num contexto europeu de investigação, de ensino e de formação, sem prejuízo dos seus direitos estatutários;
ïPromoção da cooperação europeia na avaliação da qualidade, com vista a desenvolver critérios e metodologias comparáveis;
ïPromoção das necessárias dimensões europeias do Ensino Superior, especialmente no que respeita ao desenvolvimento curricular, à cooperação interinstitucional, aos esquemas da mobilidade e aos programas integrados de estudo, de formação e de investigação.
Comprometemo-nos, por este meio, a alcançar estes objectivos [...]
Na convicção de que o estabelecimento do espaço europeu do Ensino Superior requer constante apoio, vigilância e adaptação às necessidades contínuas que se vão desenvolvendo, decidimos voltar a reunir dentro de dois anos para avaliar a progressão conseguida bem como os novos passos a dar.
Assinada por:
¡ustria, Bélgica (comunidades flamenga e francófona), Bulgária, República
Checa, Dinamarca, Estónia, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria,
Islândia, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Holanda,
Noruega, Polónia, Portugal, Roménia, República Eslovaca, Eslovénia,
Espanha, Suécia, Suíça e Reino Unido”

Publicado por MM às 5:20 PM | Comentários (2)

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