dezembro 26, 2006

Pergunta

Alguém conhece a "amoeba educação científica"? Estão a organizar ateliers de brinquedos científicos em Serralves, não encontrei website e parece-me uma ideia engraçada..

MM | 7:28 PM | Comentários (4) | TrackBack (0)

dezembro 18, 2006

Gripe dos pinguins

penguins-791213.jpg Macaroni-Penguin---Q.jpg

Não sei se está a acontecer o mesmo em Portugal, mas aqui em Inglaterra uma febre dos pinguins contagiou Londres inteira. Como nestas coisas de modas, Portugal costuma andar um ou dois anos atrás do Reino Unido, suponho que será em 2007/2008 que não se vai conseguir andar em Portugal sem tropeçar numa vela em forma de pinguim, um pinguim de chocolate, cartões de pinguins, peluches, documentários e filmes sobre pinguins.

No verdadeiro estilo avantgarde do ContaNatura, um post sobre pinguins já está em preparação há um bom par de meses. Mas, enfim, a entrega da tese e um novo emprego meteram-se pelo meio. Portanto agora este post meramente acompanha os tempos.

Em Setembro participei como voluntária no Dia da Antárctica, no Museu de Zoologia da Universidade de Cambridge. A minha função era ajudar os miúdos a fazer pinguins de cartolina. Estes animais prestam-se muito bem a isso, porque as sete espécies de pinguins que existem no Pólo Sul têm características bem distintas, como a cor das patas, do bico ou da plumagem do peito. Inclusive o pinguim macaroni tem cabelos amarelos – pus uma foto aqui para verem que os miúdos do lado esquerdo não estavam a inventar. O dia foi um sucesso, os miúdos adoraram, aprenderam um pouco sobre a Antárctica e sobre a diferença entre as espécies, e imagino que estão agora todos colados ao ecrã de televisão a ver o documentário sobre pinguins.

E suponho que devem ter esgotado o stock de pinguins de chocolate.

MM | 9:16 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 25, 2006

Shell Wildlife Photographer of the year

shell wildlife photographer of the year.jpg

MM | 1:58 PM | Comentários (0)

outubro 17, 2006

Workshop

website
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MM | 2:03 PM | Comentários (0)

outubro 11, 2006

Bolinha no canto superior direito

banded mongoose.jpg

Fui o outro dia assistir a uma palestra sobre esta espécie, o manguço-listrado (Mungos mungo). Os hábitos deste animal são tão fascinantes que achei que mereciam um post. Mas aviso: isto não é para crianças de tenra idade!

Os manguços-listrados habitam o continente africano em grupos sociais ou famílias de 15 a 30 indivíduos. Dentro de um grupo há uma hierarquia rígida, com machos e especialmente fêmeas-alfa, e depois machos e fêmeas-beta. A proporção é normalmente de um macho para duas fêmeas. Só os machos-alfa e fêmeas-alfa é que podem procriar.

Na altura certa, todos os machos e fêmeas-alfa juntam-se numa orgia sexual (nos termos de quem deu a palestra) de três dias. As fêmeas grávidas dão à luz no mesmo dia - se se atrasam ou adiantam as crias são mortas e as fêmeas expulsas - e as crias são aleitadas por todas as mães indiscriminadamente. Quando as crias são desmamadas, escolhem um macho ou fêmea-beta para tomarem conta deles. As crias passam a acompanhar os "tios" na procura de comida e os tios partilham com eles a comida que encontram. Normalmente as crias dão preferência a um macho-beta sobre uma fêmea-beta para tomar conta deles, o que é uma escolha onerosa - normalmente um mangusto que está a tomar conta de uma cria perde bastante peso, pois tem que partilhar toda a comida. Isto pode explicar porque é que, com os mangustos, ao contrário de outras espécies semelhantes, os machos vivem mais tempo que as fêmeas.

Já estão a ver que num grupo acumulam-se fêmeas descontentes que nem podem ter, nem criar filhos. Ocasionalmente, um grupo de fêmeas-beta sai do grupo-mãe e tenta estabelecer uma colónia noutro sítio, onde possam ser fêmeas-alfa. Juntam-se a elas alguns machos-beta que vão encontrando pelo caminho. E o ciclo começa de novo.

Há muito mais coisas interessantes obre os manguços-listrados - como é que as crias reconhecem os seus "tios", como é que a proporção de machos e fêmeas muda conforme os recursos disponíveis, etc. Há também muitas coisas por descobrir, por exemplo, quanto material genético é partilhado entre crias e seus "tios".

Como leitura de cabeceira, um artigo de Sarah Hodge.

MM | 1:14 PM | Comentários (1)

outubro 5, 2006

"Aging Research with Bioinformatics Methods"

Curso no Instituto Gulbenkian de Ciência

De 6 a 9 de Novembro

Inscrições até 10 de Outubro

Informações e Inscrição

MM | 4:33 PM | Comentários (0)

setembro 1, 2006

Doença crónica

Num artigo, Howard Gardner, psicólogo americano, e os seus colegas, expõe os estudos que eles fizeram sobre o que torna uma área de emprego e trabalho saudável.
A conclusão principal é que é essencial o alinhamento entre produzir bem ñ trabalho de alta qualidade que resulta em algo útil para a sociedade ñ e sucesso profissional ñ receber mais dinheiro e subir na profissão. Se não existe um bom alinhamento entre estes dois parâmetros, a área de trabalho está doente ou moribunda. Já estão a ver onde eu quero chegar. Nos Estados Unidos, o exemplo que os psicólogos dão de pessoas que têm um trabalho saudável é o de investigadores genéticos (curiosa esta ideia, não?) e de pessoas que trabalham numa área de trabalho doente os jornalistas. O que levanta perguntas divertidas sobre jornalistas especializados em investigação genética, como os editores da Nature Genetics. Mas adiante. Em Portugal, um campo que está obviamente doente é o ensino universitário e, se dependente deste, a investigação. Aqui, o produzir bem chega a prejudicar o avanço profissional e não há nenhuma ligação positiva. Acho que seria útil para as pessoas que estão a tentar “curar” este campo (e felizmente são muitas), olhar para as coisas neste ângulo também.

P.S. Devido a problemas informáticos (e não, infelizmente, devido aos editores estarem de férias ñ quanto muito “em conferências”) este post saiu dois dias mais tarde do que previsto.

MM | 10:00 AM | Comentários (1)

agosto 23, 2006

Só cá faltava o ... entretenimento científico!

O Brainiac é um programa de televisão britânico de um novo género, apelidado por alguns meios de comunicação de entretenimento científico. Eles próprios apelidam-se de parte ciência, parte efeitos especiais. Eu vi um bocadinho na Sexta (antes de desligar, horrorizada) e pareceu-me uma combinação dos piores aspectos do Banzai e do Jackass. Sorte a vossa se não sabem o que isto é. Mas julguem por vocês próprios ñ aqui vai um exemplo das experiências que eles conduziram no programa:
- Atravessar e ficar de pé numa piscina cheia de leite-creme para demonstrar as propriedades de fluidos não-Newtonianos
- conduzir experiências num pub com os reagentes disponíveis
- comer só peixe durante um mês torna-te mais inteligente?
- qual é o óleo doméstico que é mais escorregadio usado numa rampa de 70 metros
- o que é que exercita mais o teu coração: olhar para o peito de uma rapariga bonita durante trinta minutos ou fazer exercício físico durante trinta minutos? (Noto que isto é a modificação de uma experiência já publicada)
- o que acontece quando se mistura os metais alcalinos rubídio e césio a água? (provou-se mais tarde que a explosão resultante foi montada).

MM | 12:54 PM | Comentários (4)

agosto 15, 2006

OTL: FameLab 2006

Em Junho teve lugar a segunda edição do FameLab, uma competição britânica anual para o melhor comunicador de ciência.
O vencedor foi Jonathan Wood, que falou da composição das teias de aranha.
De realçar o comentário no artigo da Seed Magazine, que mencionava que uma das qualidades dos cientistas que competiam que foi mais destacada pelos organizadores do evento era o de terem uma vida activa fora da ciência. Entre as actividades de tempos livres dos competidores estavam a dança do ventre, dança jive, corridas automóveis ou piloto de avião.
Embora eu seja completamente a favor da eliminação da imagem de ëgeekí dos cientistas, acho que pilotar um avião nos tempos livres é levar as coisas um pouco longe demais. Onde é que eles arranjam o tempo e o dinheiro?

MM | 3:44 PM | Comentários (0)

agosto 8, 2006

Vai e vem

Acabei de ter uma ideia sobre uma coisa que gostava mesmo de saber. Se já tiver sido feito, agradecia que me dessem a referência. Se ainda não, que me dissessem quem me poderia contratar para responder à pergunta. Que é: em média, quem é que produz mais “papers” os cientistas que mudam de instituto de três em três anos? Ou os que ficam no mesmo grupo para doutoramento, primeiro pos-doc, segundo pos-doc? Ou seja, é verdade o mito de que a mudança é necessária para a não-estagnação científica? É que é fácil de verificar...

MM | 6:55 PM | Comentários (5)

agosto 1, 2006

Competição

Competição para o ImageBank de fotografias de biologia. Podem ser de trabalho de laboratório, de trabalho de campo ou ate de aspectos de educação de biociência. Primeiro premio 500£, data-limite 31 de Outubro. As entradas podem ser submetidas electronicamente.

MM | 11:00 AM | Comentários (0)

julho 25, 2006

Medicina alternativa vs. Placebo

Consideremos que:
- Os maiores factores na melhoria da condição de um doente são o tempo e a atenção que o médico lhe dá.
- Muitos doentes reagem tão bem a um placebo como a um medicamento normal
- Muitos indivíduos, se informados de efeitos secundários (fictícios) de um placebo, demonstram esses efeitos secundários quando tomam o placebo.
- Pacientes com doenças graves, se inseridos em grupos de apoio, têm melhor prognóstico do que indivíduos que lidam com a doença isolados.

Portanto:
Será que os efeitos da medicina alternativa conseguem ser totalmente explicados por factores psicológicos, entre eles o “efeito placebo”?

Curiosamente, uma das grandes dificuldades que a medicina alternativa enfrenta para se poder afirmar é precisamente a dificuldade que tem em criar placebos, ou controles negativos. Nos ensaios clínicos da medicina ocidental, um grupo de pacientes recebe o medicamento com o princípio activo, que foi desenvolvido via investigação científica, com a dose apropriada e possíveis efeitos secundários determinados em modelos animais e voluntários humanos. O outro grupo recebe o medicamento sem o princípio activo. (E é pena que não haja mais ensaios a usar um terceiro grupo que não recebe nada, o que daria melhor para testar o efeito placebo). Se o primeiro grupo apresenta melhoras significativas em relação ao segundo, o princípio activo no medicamento é considerado eficiente na dose utilizada.
O que acontece é que na maioria das terapias alternativas, é difícil estabelecer o equivalente da terapia sem o princípio activo. Para a acupunctura, por exemplo, há alguns estudos a ser feitos em que o placebo é uma agulha falsa que só pica a camada superior da pele, em vez de penetrar para as camadas inferiores como as agulhas verdadeiras. Mas há sempre o problema (o que também é uma das grandes vantagens de muitas terapias alternativas) de o tratamento ser diferente para cada doente, mesmo os que apresentam a mesma doença. O tratamento de enxaquecas, por exemplo, é apresentado como um dos grandes sucessos da acupunctura. No entanto, cada doente é examinado pelo praticante e os pontos de aplicação das agulhas podem variar de indivíduo para indivíduo. Sendo assim, torna-se difícil comparar os efeitos num doente que recebeu o tratamento com agulhas reais, contra outro que foi tratado com agulhas placebo.
No caso de terapias alternativas que consistem em ingestão de substâncias químicas, a dificuldade está em saber qual é o princípio activo, visto que o empirismo e a tradição determinam a escolha e a dose das substâncias. Alguns cientistas e/ou empresas farmacêuticas já começaram a tentar descobrir qual o princípio activo de alguns medicamentos tradicionais ou alternativos.
Apesar das dificuldades (que também são enfrentadas, em menor grau, pelos medicamentos ocidentais), os estudos para provar ou desprovar os efeitos “reais” (isto é, fisiológicos) das terapias alternativas continuam. Neste caminho, que não nego que deva ser percorrido, acho que estamos a perder uma lição importante. Os efeitos psicológicos de uma terapia podem ser muito difíceis de determinar, quantificar ou prever. No entanto, estão lá, existem e enquanto as terapias alternativas tem que provar efeitos fisiológicos para serem usadas em conjunto com a medicina ocidental, é importante não perderem as suas capacidades terapêuticas psicológicas. E talvez, quem sabe, a medicina ocidental passe a incorporar alguns destes aspectos nas suas terapias...

MM | 5:07 PM | Comentários (0)

julho 18, 2006

Escaravelhos

beetle.jpg reflecting light in animals.gif

Encontro-me neste momento a trabalhar temporariamente no Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge. Este é um local fascinante com vários séculos de História, inclusive com alguns dos animais recolhidos por Darwin na sua expedição no Beagle e várias outras amostras referenciadas regularmente em literatura científica popular. Como estou a colaborar no catálogo electrónico da colecção de insectos e têm-me aparecido espécimes de escaravelhos lindíssimos (inclusive um de Portugal em que o torso superior, mais pequeno, é vermelho, e o abdómen, maior, é verde), ocorreu-me perguntar qual é o processo que dá aquela variedade e brilho das cores metalizadas (neste momento já encontrei, em tons metalizados, laranja, roxo, azul, verde e vermelho). A resposta está num fenómeno, com o nome de interferência, que ocorre na estrutura física da quitina do insecto. Várias camadas da cutícula são compostas de espaçamentos minúsculos que permitem às ondas luminosas reforçarem-se mutuamente ou enfraquecerem. Um escaravelho verde metalizado, por exemplo, tem uma periodicidade regular que reflecte só uma gama restrita de comprimentos de onda. No caso de um escaravelho dourado (este infelizmente ainda não me apareceu na colecção), há uma variação da espessura das camadas reflectoras, resultando numa reflexão de luz de vários comprimentos de onda a partir da mesma camada. As cores causadas por interferência não são estáticas mas sim variam conforme o movimento dos raios de luz e este fenómeno provoca as cores mais puras e brilhantes de qualquer pigmento. Daí os escaravelhos terem sido usados como adornos ou pigmentos em muitas culturas.

MM | 2:38 PM | Comentários (1)

julho 11, 2006

Mony, Mony...

contanatura 11 Julho.jpg

Na minha pesquisa sobre a passagem do (da?) Herceptin do domínio académico para o comercial, encontrei este conjunto de perguntas interessantes postas por Robert L. Brachi numa apresentação. Como qualquer investigação que se preze leva sempre a novas perguntas resolvi divagar e apresentá-las aqui. Para debaterem ou simplesmente pensarem no assunto. E sonhar com o dia em que vai ser mesmo preciso responder a estas perguntas no dia-a-dia da Ciência em Portugal.
Já agora, dêem a vossa opinião se Herceptin devia ser feminino ou masculino.

- As universidades devem promover, criar, gerir e/ou investir em “start-ups”?
- As instituições devem fazer investigação patrocinada pela indústria em que a universidade tem um interesse financeiro no resultado?
- Deve ser permitido ao corpo académico de uma faculdade estarem envolvidos em “start-ups” como gerentes ou directores?
- Deve ser permitido a estudantes de serem ao mesmo tempo empregados por “start-ups”?
- Deve ser permitido aos estudantes participarem em projectos de investigação académicos orientados por professores que tem um interesse financeiro no resultado da investigação?
- Se um membro do corpo académico tem um interesse financeiro numa “start-up”, deveria-lhe ser permitido fazer investigação patrocinada por essa “start-up”?

MM | 9:27 AM | Comentários (1)

julho 4, 2006

História de uma droga - continuação

HER2.jpgmed_24148herceptin.jpg
O medicamento Herceptin, nome comercial do trastuzumab, é produzido pela Roche e é um anticorpo contra a proteína HER2 que inibe o crescimento das células cancerosas que sobre-expressam a proteína HER2.

1985 – A proteína HER2 ou NEU ou ERBB2 e o gene que a codifica são identificados.
1987 – Dennis Slamon et al (University of California – Los Angeles) descobrem que 20 a 30% dos casos de cancro da mama sobre-expressam HER2, e que estes são os casos mais agressivos.
1989 – Slamon et al descrevem a acção da HER2 em células cancerosas mamárias.
1998 – O Herceptin ganha o ok da Federal Drugs Administration, a entidade que aprova os medicamentos nos EUA. Na prática, costuma ser a primeira a aprovar medicamentos para uso no mundo inteiro.
1999 – O Herceptin começa a ser comercializado pela Roche.
2006 – Continuam em curso ensaios clínicos para determinar quais os casos e qual o regime de tratamento em que se pode usar Herceptin.

Ainda não consegui descobrir o que se passou entre 1989 e 1998, em que se deu o salto crucial entre investigação académica e investimento comercial farmacêutico. Mas estou a trabalhar no caso!

MM | 1:17 PM | Comentários (2)

junho 20, 2006

História de uma droga

A maioria de nós faz investigação biomédica com o objectivo distante e indirecto mas bem definido de ajudar a desenvolver um novo medicamento que cure ou alivie alguma doença. Recentemente os jornais ingleses estão cheios de um desses novos medicamentos, o Herceptin (ou a Herceptin?). Isto porque algumas pacientes com cancro da mama ganharam um processo contra o sistema de saúde inglês, o NHS, que queria receitar o medicamento só a casos extremos. Terminado o processo, o NHS anunciou que ia passar a financiar o tratamento com Herceptin a qualquer paciente que fosse susceptível ao medicamento (cerca de um sexto dos cancros da mama malignos, se não estou em erro). Isto quer dizer que a NHS vai pagar à Roche, que produz o Herceptin, cerca de 20000£ por cada mulher britânica que receber o tratamento.
Isto é, à partida, uma grande história de sucesso por todos os lados: para as mulheres vítimas de cancro da mama e ovários e os que lhes são próximos, pois aumenta bastante a expectativa de vida (este é um daqueles medicamentos que funciona mesmo); para os accionistas da Roche, que devem ver o seu lucro habitual enorme de 20% ainda mais aumentado; para os cientistas em geral cuja imagem deve ter saído muito melhorada desta história ñ afinal eles até inventam medicamentos que salvam mesmo vidas!
Mas fiquei curiosa com a evolução desta droga. Deve ter começado nalgum laboratório, financiado pelo governo (via universidades ou não) ou por alguma caridade. Em algum momento passou para a Roche. Que agora a vende. Os contribuintes pagarão portanto duas vezes para este medicamento ñ primeiro para financiar a investigação que o descobriu, e agora via os seus impostos para os sistemas nacionais de saúde? Ou para seguros privados? Em que altura terá passado de investigação altruísta para lucro puro e duro? Já comecei a investigar esta história, o próximo post trará novidades.

MM | 2:55 PM | Comentários (5)

junho 16, 2006

Polarização no núcleo

montanatura 3.JPG
Maria João Amorim

Localização da nucleoproteina (NP) do virus influenza A/PR/8/34 em células epiteliais humanas durante um ciclo de infecção. A NP (verde) e a proteina LAP2 (vermelho), usada para delimitar o núcleo, foram detectadas por imunofluorescência. A imagem do meio mostra pela primeira vez a polarização de uma proteina no núcleo de organismos superiores.

Publicado no “Biology Letters” em 2005.

MM | 10:01 AM | Comentários (0)

junho 6, 2006

Um evento não-científico

Na passada quarta-feira fui a um “Café Scientifique” em Cambridge, que era ao mesmo tempo, em evento “Naked Scientist”. Passo a explicar, do pouco que eu sei:
Os “Café Scientifique” existem em vários países (não em Portugal, pelo menos que eu saiba) e pretendem ser debates sobre questões científicas, em ambiente de café, com o público em geral. Aliás já estão a ver que é uma pena não haver em Portugal, com a sua cultura de café e a tradição das tertúlias, seria um sucesso. Porque em Cambridge teve que ser numa livraria, daquelas de cadeia, aberta até mais tarde só porque estava a vender livros dos convidados para o debate. O “Naked Scientist” é divulgação científica, que por esta altura faz-se sobretudo via um programa de rádio com bastante sucesso dirigido pelo Chris Smith. Isto sim, é específico de Cambridge. Portanto este evento era um encontro de café sobre ciência moderado pelo Chris Smith, com o tema “The Science of Happiness”. Até aqui muito prometedor.
O problema era que nem os convidados nem o público eram cientistas. Ou pelo menos era o que parecia ñ os únicos cientistas presentes pareciam ser eu e mais duas amigas, e o Chris Smith. O que por um lado até foi melhor, considerando que o primeiro convidado escreveu um livro com o principal objectivo de parar com a experimentação animal, usando como argumento que os animais também tem sentimentos. Não percebi muito bem porque é que não estavam lá mais dos milhentos cientistas que habitam Cambridge. Falta de divulgação? Falta de interesse? Ou será que já sabiam que isto não ia ser um evento para cientistas? Porque apesar do primeiro convidado intitular-se cientista, definitivamente não estava lá a falar como cientista, ele pôs isso logo claro. A segunda convidada era psicóloga, veio falar do seu livro “The Science of Well-Being” que pelo que eu percebi não era nada sobre Ciência, mas sim um daqueles livros de auto-ajuda. A audiência (cerca de 15 pessoas) estava lá ou para se ouvir, ou para ver se ficavam um pouco mais felizes. O Chris Smith inicialmente defendeu a experimentação em animais com alguns exemplos pouco aprofundados, e depois contentou-se em deixar aquilo prosseguir num tom não-científico, fazendo de vez em quando um comentário numa voz que deve resultar muito bem com um microfone de rádio à frente, mas que ao vivo não se ouvia muito bem.

Antes de ficarem a pensar que isto foi uma desgraça, não foi. Porque é muito melhor haver coisas deste género do que não haver nada. E é sempre fácil melhorar. Por isso, aqui fica lançado o desafio: porque não fazer um café científico (a sério) em Portugal?

MM | 10:18 AM | Comentários (6)

maio 30, 2006

Peixes

Atherinaboyeri3.jpg
Apesar da fotografia, este post não é novamente sobre assuntos culinários, mas sim sobre um website que, de relance, me pareceu fenomenal. É, simplesmente, uma base de dados de todos os peixes existentes em Portugal. Esta fotografia, por exemplo, é do Atherina boyeri, de nome comum verdugo (entre outros), localizado no litoral Mediterrânico e Mar Negro, com populações isoladas no Atlântico. Tem ainda a descrição do habitat, ciclo de vida, etc. e também os factores que ameaçam esta espécie. O website também pode ser pesquisado por local ou autor. Eu até nem sou uma fã por aí além de peixes mas o valor e esforço deste recurso parecem-me incalculáveis.
Carta Piscícola Nacional. Autores: F. Ribeiro, R. Beldade, M. Dix, & J. Bochecas, 2005
Como indicado, façam login como ëguestí.

E seguindo a minha política de referenciar a minha fonte de informação, e até porque neste caso é uma fonte um pouco fora do normal, devo dizer que vi este site noticiado na revista “Dica da Semana”.

MM | 11:48 AM | Comentários (4)

maio 23, 2006

Para a cozinha! Bork bork bork!

chef2.gif Uma breve nota para falar da cozinha científica e da gastronomia molecular.
Estes dois conceitos estão muito próximos e no entanto bastante distantes. A cozinha científica pode ser entendida como uma maneira de divulgar ciência, especialmente para os mais jovens, explicando as reacções químicas que ocorrem nos alimentos enquanto se cozinham pratos do dia-a-dia.
Um livro ilustrativo desta ideia é “El cocinero cientifico” do divulgador científico argentino Diego Golombek.
A gastronomia molecular é uma corrente da culinária que está a sair do laboratório para os jornais em que cozinheiros com formação científica experimentam novos métodos de preparar alimentos, muitas vezes usando técnicas químicas que normalmente não seriam usadas na cozinha. (Quem pense que esta corrente é moderna, que releia “A cidade e as Serras” do Eça, em que ele fala de servir morangos com éter). Em Inglaterra, o grande exponente é o Heston Blumenthal, em França, a colaboração entre o físico-químico Hervé This e o chefe de cozinha Pierre Gagnaire. Os portugueses estão a acompanhar bem a tendência, tendo já ganho um prémio no 1º encontro de Ciências e Cozinha, realizado em Paris.
E para que só tiver lido por causa da imagem do “Swedish Chef” dos Marretas, fiquem sabendo que é possível arranjar os sketches dele na Internet e até há um clube de fansÖ

MM | 12:21 PM | Comentários (4)

maio 16, 2006

Activismos

Apesar de não ser Ciência, achei que valia a pena divulgar esta notícia, dada a preocupação do Conta com questões ambientais. Queria também dizer que esta notícia foi-me enviada por uma amiga minha a partir do blog Dias com árvores, que o publicou dia 2 ñ tem que se dar crédito a quem “descobre” primeiro! Além de que tem lá os links para a reportagem completa e outros sites interessantes.
Notícia: "...armed only with shrubs and plants..." Guerrilla%20Gardening-gg36b.jpg
´Guerrilla gardeners wage turf war: Guerrilla gardeners are sowing the seeds of resistance in south London, with a spot of illicit gardening in its neglected public spaces.
Striking at night, armed only with shrubs and plants, they set out to brighten up roundabouts and verges. (...) Mr Reynolds said he has never run into any problems with the authorities - in fact he even entered one of his guerrilla gardens into a local "in bloom" competition and got a nomination. (...)
It is a continuing battle against vandalism, water shortages and errant cars, but the guerrilla gardeners are holding firm. Member Camilla Maxwell-Morris told the BBC: "It's about brightening up people's lives and putting a bit of green and flowers into the grey areas of London."


E para quem quiser discutir este ou outros activismos em Lisboa:

2™ Sessão do Workshop - O Direito na Intervenção Ambiental

"Novas formas de activismo e protecção ao activista: contributos para a causa ambiental"

20 Maio 2006, das 10h às 17h
Local:
Biblioteca/Museu República e Resistência - Espaço Cidade Universitária,
Rua Alberto de Sousa - Zona B do Rego, Lisboa

Organização: RADICA (Rede de Acção para a Denúncia e a Intervenção em Crimes
Ambientais)
Programa

MM | 12:00 PM | Comentários (1)

maio 9, 2006

E depois do adeus ñ “Scientistsí gap year?”

Estando a concluir um doutoramento em Inglaterra, é natural que tenha (e realmente tenho) vários amigos que estejam aproximadamente na mesma fase do processo: a prepararem-se para começar a escrever, em fase de escrita, ou recém-terminados (sortudos). Das várias conversas que tive com eles, um aspecto salienta-se: muitos estão a pensar em deixar a investigação científica e procurar emprego noutras áreas. Em nenhum dos casos a experiência do doutoramento foi desagradável, e portanto não pode ser citada como causa do abandono.
As razões mais comuns são:

1 ñ Experimentar outra coisa para ver se há algo de que se gosta mais; daí eu achar que devia haver uma aceitação e formalização maior de um “gap year” para doutorados em Ciências, tal como funciona o “gap year” em vários países para estudantes que estão entre o 12o ano e a universidade (não em Portugal, infelizmente). Haveria, então, empregos e empregadores específicos para este ano. Atenção que talvez tente desenvolver esta ideia por isso nada de roubar ñ mas opiniões aceitam-se.

2 ñ Querer sair da “torre de cristal”, ou seja, o isolamento social do meio académico, e sentir que se está no mundo real e a contribuir de uma forma mais directa para a sociedade.

3 ñ Poder ter a sensação que se produziu qualquer coisa de tangível ao fim de cada dia.

4 ñ A ideia de que não se tem o espírito de sacrifício e motivação suficiente para ser um bom cientista.

Não acho que seja necessariamente mau haver doutorados em Ciência a querer sair do meio académico. O problema é se começa a ser a maioria (o que parece estar a acontecer aqui em Inglaterra), e/ou se for principalmente pela razão 4. Aí convém repensar o papel de um doutoramento e a percepção do que é um bom cientista. Apesar disto ainda não estar a acontecer ainda em Portugal, já está a acontecer com doutorados portugueses no estrangeiro. E quando começar a haver outras opções em Portugal para doutorados em Ciência também vai começar a acontecer no nosso país. É um assunto que tem de ser debatido, portanto.

MM | 11:55 AM | Comentários (10)

maio 2, 2006

Fórum Novas Ciências - Mariano Gago

O meu post da semana passada, sobre o tratado de Bolonha, apesar de inspirado pelo debate do Fórum Novas Ciências e Tecnologias, foi uma espécie de desvio. Volto agora ao Fórum propriamente dito. Como o website Ciencia Hoje esta a tentar publicar as intervenções de todos os oradores convidados, resolvi passar directamente ao que eu aproveitei da intervenção final de Mariano Gago.
(Como neste momento estou a escrever a tese de doutoramento e ando muito irritada por não o poder fazer em “bullet points”, resolvi que pelo menos neste “post” podia faze-lo e dai o formato pouco ortodoxo do que vem a seguir.)
O discurso de Mariano Gago foi muito diferente do de José Sócrates. Primeiro ele tentou fazer um somatório e resumo do que ele tinha achado mais importante das intervenções anteriores. Depois adicionou algumas ideias que as intervenções lhe tinham suscitado. Dai resultou um discurso que obviamente não tinha sido preparado, mas que em parte por causa disso, parecia muito mais honesto e definido. Acho que uma grande vantagem de pertencermos a um país pequeno e que tanto o Primeiro-Ministro como o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior puderam ouvir, ao mesmo tempo que o publico e directamente, uma serie de cientistas portugueses falar sobre a ciência em Portugal. Cá vão então os “bullet-points”:
- ate agora, a investigação científica teve que se desenvolver nas dobras e interstícios que conseguia encontrar dentro do ensino universitário. Isto tem que acabar e as universidades devem ser modificadas de modo a conjugarem-se com a investigação.
- notou-se um imenso avanço desde as jornadas científicas de 1987, especialmente no que toca a interdisciplinaridade.
- não deve haver “nacionalismos”, ou seja, o favorecimento de investigadores portugueses.
- na definição de áreas prioritárias, os investigadores responsáveis fazem um “truque de secretaria”: definem como áreas prioritárias aquelas em que eles próprios estão a trabalhar, eliminando assim uma avaliação competitiva com todas as áreas. Como e impossível saber quais são as áreas que vão ter sucesso no futuro (um aspecto ignorado por todas as discussões que eu já ouvi sobre áreas prioritárias), o que se deve fazer e apoiar grupos de excelência e não áreas.

Continue a ler "Fórum Novas Ciências - Mariano Gago"

MM | 3:29 PM | Comentários (20)

abril 25, 2006

O processo de Bolonha e o “wishful thinking”

Ainda não se falou muito no Conta sobre este suposto mega-evento que está a abanar os alicerces da educação universitária portuguesa e que (diz-se) vai mudar completamente o ensino em Portugal. Mas é importante falarmos disto porque o ensino científico seria um dos mais afectados. Convenhamos, o ensino de Francês ou Direito é necessariamente diferente em Portugal e em França. No entanto, um curso de Bioquímica ou Física convinha que fosse parecido nos dois países, pelo menos o suficiente para que um bioquímico português pudesse candidatar-se a um emprego em França ou um físico francês pudesse concorrer a um doutoramento em Portugal.
Já dá para ver o que eu creio ser um dos maiores problemas do processo de Bolonha e principalmente da sua aplicação em Portugal. Isto é, um caso sério de “wishful thinking”. Porque claro que mesmo com a equivalência de graus empregos em Bioquímica em França ou doutoramentos em Física em Portugal não andam por aí aos pontapés. Reconhecido, o fenómeno de “wishful thinking” não é um grande problema. Ou seja, reconhecermos quais as coisas que não vão acontecer só porque queremos que elas aconteçam já é meio caminho andado para pensar no que mais é preciso fazer para que os desejos se concretizem. Se não for reconhecido, é que é o problema. Isto é, lá por gostarmos muito dos ideais do processo de Bolonha e da ideia das universidades portuguesas os cumprirem, não é por elas dizerem que aderem que vão passar a ter por objectivo primordial e determinante um ensino dos seus alunos adequado, competitivo e equiparado aos outros países europeus. Como bom exemplo da maneira como uma universidade portuguesa pode subverter um bom princípio, conto um caso que aconteceu há alguns anos mas que ainda podia acontecer agora:

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MM | 5:20 PM | Comentários (2)

abril 18, 2006

Desvio

Ia escrever um texto sobre o Tratado de Bolonha. Já tinha feito a pesquisa e tudo. Mas atrasos de vários tipos acumularam-se e o texto não estava ainda pronto quando tropecei neste abstract da minha selecção da Faculty of 1000. Achei tão interessante que resolvi pô-lo assim, tal qual. O post sobre o Tratado de Bolonha fica para a semana. Depois não digam que eu não avisei.

"Evolution of hormone-receptor complexity by molecular exploitation.
Bridgham JT, Carroll SM, Thornton JW.

Center for Ecology and Evolutionary Biology, University of Oregon, Eugene, OR 97403, USA.

According to Darwinian theory, complexity evolves by a stepwise process of elaboration and optimization under natural selection. Biological systems composed of tightly integrated parts seem to challenge this view, because it is not obvious how any element's function can be selected for unless the partners with which it interacts are already present. Here we demonstrate how an integrated molecular system-the specific functional interaction between the steroid hormone aldosterone and its partner the mineralocorticoid receptor-evolved by a stepwise Darwinian process. Using ancestral gene resurrection, we show that, long before the hormone evolved, the receptor's affinity for aldosterone was present as a structural by-product of its partnership with chemically similar, more ancient ligands. Introducing two amino acid changes into the ancestral sequence recapitulates the evolution of present-day receptor specificity. Our results indicate that tight interactions can evolve by molecular exploitation-recruitment of an older molecule, previously constrained for a different role, into a new functional complex. "

Science. 2006 Apr 7;312(5770):97-101.

MM | 5:05 PM | Comentários (1)

abril 11, 2006

Ensinar (e aprender) a pescar

A estrela do Fórum no passado dia 1 foi, sem dúvida, a Margarida Correia-Neves. O primeiro-ministro estava vidrado nas suas palavras, embora para isso talvez tenha contribuído a sua visita aos países africanos nos dias a seguir e que está a encher as páginas dos jornais. Todas as outras pessoas também ouviram e o que ela disse parece que já está a ter resultados práticos, o que para mim é uma das maiores evidências que as coisas foram bem ditas.
Margarida Correia-Neves é investigadora auxiliar no IBMC na área das doenças infecciosas e é directora da secção de Moçambique da Associação Ciência para o Desenvolvimento. Deixo aqui as suas palavras:

“Novas Fronteiras
1 de Abril de 2006
Margarida Correia-Neves

Fui desafiada a falar sobre a importância da internacionalização da ciência para o desenvolvimento da ciência em Portugal. É do conhecimento de todos, dada a divulgação realizada pelos media, que este governo se tem empenhado efectivamente na concretização de protocolos com instituições de reconhecido mérito científico e tecnológico. Este esforço, pelo menos o que nos tem sido dado a conhecer, assenta essencialmente na cooperação tecnológica com países com indicadores de investigação científica e desenvolvimento tecnológico superiores ao nosso.

O que gostaria de trazer hoje para esta discussão prende-se com a internacionalização da ciência portuguesa com países em vias de desenvolvimento, especialmente em ¡frica.

Sem dúvida que a palavra cooperação faz parte do léxico político diário. É um facto que Portugal tem contribuído activamente em cooperação, por exemplo, na educação e formação de quadros africanos. No entanto o que me trás aqui hoje é a colaboração em termos de investigação científica e desenvolvimento tecnológico. Neste aspecto julgo que muito há a fazer. A título de exemplo, consultando concursos e resultantes projectos de cooperação financiados pelo IPAD, Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento, não encontrei no ano de 2005, palavras como: investigação, ciência e/ou tecnologia.

A internacionalização da ciência em Portugal através de projectos de colaboração com países africanos é frequentemente encarada como uma ajuda unilateral que prestamos a colegas africanos.

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MM | 1:11 PM | Comentários (0)

abril 4, 2006

Um dia não-simbólico

Fui no Sábado ao Fórum Novas Fronteiras da Ciência e do Conhecimento, na Alfândega do Porto. Isto foi, no fundo, uma apresentação sobre política científica e áreas de excelência em Portugal, com o factor adicional que estavam lá as pessoas de peso todas: o primeiro-ministro, o ministro da Ciência, o ministro da Reforma do Estado e da Administração Pública (Alberto Martins), o presidente da FCT e uma série dos "notáveis" na ciência portuguesa. E provavelmente uma série mais de políticos que eu não reconheci.
Confesso que ao princípio achei que ia ser mesmo um encontro de dia 1 de Abril, com um discurso cuidadosamente preparado e absolutamente demagógico de José Sócrates. Mas todas as apresentações que vieram a seguir elevaram o tom, com questões a serem discutidas de um modo sério, uma visão de áreas que são realmente de excelência em Portugal e a apresentação de soluções ambiciosas mas concretas. E José Sócrates, honra lhe seja feita, ficou até ao fim e ouviu e registou tudo. E ficou, portanto, no ar um leve cheiro, não a mentira, mas sim a verdade e esperança para o contexto científico português (e não só).
Do conteúdo das apresentações falarei nas próximas semanas, já que muitas delas merecem posts individuais. Na mania da contradição e para satisfazer os cínicos leitores do Conta, publico hoje só os "prémios", se bem que se lerem tudo, verão que no fim até há umas frases acertadas.

Prémio maior feito desde os Descobrimentos
“O primeiro laboratório de nanotecnologia internacional, financiado por Portugal e Espanha, vai ser localizado aqui em Portugal” José Sócrates, primeiro-ministro
Prémio olha que não sei...
“Na Ciência o que valem são as incertezas, não as certezas.” Idem
Prémio mas qual, qual?!
“O discurso político serve para indicar uma estratégia” ibidem
(este prémio devia ser mudado para prémio cartoon Dilbert, segundo o publicado no dia 1 no Conta que até parece de propósito)
Prémio lágrima ao canto do olho
“Eu acredito principalmente nos cientistas portugueses.” ibidem

Prémio quem vai achar um novo “oma”
“Cognoma – cognição no homem e na máquina” Luís Moniz Pereira
Prémio e não será um bocadinho exagerado?
“Em cinco anos vai-se poder aplicar o cognoma da mesma maneira que se aplica o genoma hoje em dia” idem

Prémio então para que é que lhes deram o grau?
“Nem todos os doutorados têm competência para fazer investigação” Teresa Lago
Prémio poesia científica
“As minhas keywords até rimam” idem
Prémio e tu, foste avaliada?
“A avaliação é precisamente a coisa essencial” ibidem

Prémio para o uso de palavras estrangeiras só quando é justificado:
“Portugal sofre de miscasting” Rui L. Reis
Prémio Grrrr...
A extinção do GRICES (Gabinete de Relações Internacionais da Ciência e Ensino Superior) foi a melhor notícia que me deram nos últimos tempos. idem

Prémio políticamente correcto
“Inicialmente éramos todos negros.” Manuel Sobrinho Simões

Prémio ah, ah, ah foste desmascarado:
“Depois de uma era glacial, a Europa foi repovoada partir da península ibérica portanto os finlandeses, que criaram a Nokia e que o Sr.Primeiro Ministro tanto admira, descendem dos portugueses” Manuel Sobrinho Simões
“É preciso dar independência aos jovens, porque nem sempre nós, os mais velhos, temos razão. Por exemplo, o Manuel Sobrinho Simões não tem razão quando diz que os finlandeses descendem dos iberos, na realidade vêm da ¡sia” Fernando Lopes da Silva

Prémio duplo grrrr
"Precisamos de uma avaliação dentada, que morda" Fernando Lopes da Silva

MM | 12:44 PM | Comentários (4)

março 21, 2006

Complexidade ou engenharia

Hoje não ponho um texto meu, já que não estou muito inspirada e já pus um texto no Sábado. Em vez disso pus um texto delicioso na hemeroteca: "Can a biologist fix a radio". Aqui vai um extracto: "...A more successful approach will be to remove components one at a time or to use a variation of the method,in which a radio is shot at a close range with metal particles.In the latter case radios that malfunction (have a “phenotype ”)are selected to identify the component whose damage causes the phenotype. Although removing some components will have only an attenuating effect,a lucky postdoc will accidentally find a wire whose deficiency will stop the music completely. The jubilant fellow will name the wire Serendipitously Recovered Component (Src)and then find that Src is required because it is the only link between a long extendable object and the rest of the radio.The object will be appropriately named the Most Important Component (Mic)of the radio..." E para ilustrar, uma imagem/brincadeira que uma amiga minha (engenheira por sinal) me mandouimage003.jpg

MM | 4:42 PM | Comentários (1)

março 18, 2006

4a mostra da Universidade do Porto

Resolvi passear um pouco por esta mostra, que está no seu 4o ano e decorre no Pavilhão Rosa Mota de 16 a 19 de Março, para ver como estava o interesse pelos cursos científicos e médicos. Relembro que a baixa adesão aos cursos de ciências básicas é uma preocupação crescente, não só em Portugal como na Europa inteira. Em Inglaterra, por exemplo, uma das maiores universidades decidiu, pura e simplesmente, encerrar o curso de Química (embora mantendo vários cursos aplicados), em Portugal não há alunos a querer entrar em Física.
Esta falta de interesse aparente não era, de modo nenhum, visível nesta mostra. Apesar de haver quase tantos jornalistas ou “camera-men” como alunos de liceu a percorrer os “stands” e dos alunos terem claramente vindo em excursões organizadas pelos liceus, os “stands” que tinham mais alunos à volta eram claramente os dos cursos de ciências e do Abel Salazar (Medicina, Ciências do Meio Aquático e Veterinária). Exposições muito interactivas contribuíam definitivamente para a adesão. Fiquei espantada com a idade dos alunos que passeavam por lá – não só com 16 e 17, mas mais novos, igualmente cativados. É óbvio, portanto, que não é a falta de interesse por Ciência que faz diminuir a vontade de seguir cursos científicos. Talvez a falta de conhecimento sobre saídas profissionais? Não vi muita evidência de informação sobre este aspecto – para os cursos de Ciências parece-me que seria necessário mesmo um stand próprio. De qualquer maneira, iniciativas destas são de louvar e esperemos que todas as Universidades Portuguesas imitem o exemplo.

MM | 2:19 PM | Comentários (0)

março 14, 2006

O papel II - uma série de perguntas

Apareceram nas últimas semanas anúncios para doutoramentos, uns no Instituto Superior Técnico, outros no Instituto Gulbenkian de Ciência. Confesso que estes últimos me interessaram mais por ter a impressão que vieram tomar o lugar deixado vago pelo programa de doutoramento da Gulbenkian que terminou o ano passado e do qual eu fiz parte. No entanto ambos os anúncios têm uma coisa em comum: dizem que "o candidato deve concorrer obrigatoriamente às bolsas de doutoramento da FCT, cujo prazo termina a 31 de Março". Não se percebe muito bem - os candidatos são seleccionados pelo IST e pelo IGC e depois tem bolsa garantida? Ou são seleccionados pela FCT e a selecção pelos institutos permite só por um orientador e projecto específico na candidatura?
E para mim as perguntas mais pertinentes:
1- Como é que é possível estimular a manutenção dos critérios ridículos da FCT de ter que se ter média mínima de 14 para fazer doutoramento e com mais de 16 ter bolsa quase garantida? Deixou portanto de haver qualquer hipótese de um aluno com média mais baixa de fazer doutoramento? E para garantir que há menos complicações e que os alunos recebem efectivamente a bolsa, será que os institutos vão dar preferência aos alunos com média mais alta e usar isto como critério principal?
2 - Como é que anúncios postos duas semanas antes do prazo limite para concorrer a bolsas esperam arranjar candidatos suficientes?

MM | 1:58 PM | Comentários (21)

março 7, 2006

O papel

O papel é, como todos sabemos, calão antigo para dinheiro. A tradução para inglês é "paper", que é a moeda corrente da comunidade científica. Esta ligação linguística manifesta-se em Portugal, onde supostamente a falta de "papel" não é grande problema para os cientistas, pois eles podem sempre alimentar-se de "papers" (se são "peer-reviewed" ou não já é outra questão). Este trocadilho sem grande sentido (desculpem lá, às vezes uma pessoas cai nestas coisas) serve para introduzir uma notícia (?) sobre o financiamento da investigação científica portuguesa:

1 - O presidente da FCT, João Sentieiro, e a vice-presidente, Lígia Amâncio, anunciam que começam a cumprir a promessa de regularizar as datas de atribuição de subsídios, para os cientistas saberem a quantas andam (financeiramente, é claro). Pelo que eu percebi, o problema maior não é o que é resolvido com as datas descritas abaixo, mas uma vez um cientista sabendo que vai receber dinheiro, também ter ideia em que data é que vai começar a chegar à sua conta bancária. Para ver quantos dias é que ainda vai ter que comer "papers". Mas esta declaração pode ser um começo:
": 15 Feb 2006 16:08:57 +0000
Subject: Calendário das iniciativas da FCT em 2006
Caro Investigador
O Conselho Directivo da FCT, estabeleceu, entre outras, como prioridades da sua acção a intensificação do diálogo com a comunidade científica e a introdução de maior previsibilidade e regularidade nos concursos da FCT, divulgando à comunidade, com antecedência, calendários e procedimentos que permitam às instituições e aos investigadores planear a sua actividade de investigação e de formação de recursos humanos;
Dando concretização a estas prioridades vimos agora dar a conhecer o calendário das iniciativas que a FCT lançará durante 2006:
- No dia 1 de Março, abrirá pelo período de um mês, até 31 de Março, o concurso de bolsas de mestrado e doutoramento. As bolsas a conceder no âmbito deste concurso deverão iniciar-se em Janeiro de 2007, podendo em casos verdadeiramente excepcionais ter início ainda durante 2006, mas nunca antes de 1 de Outubro. Neste concurso será feita também a avaliação das bolsas de pós-doutoramento.As candidaturas a estas bolsas que sejam lacradas até 28 de Fevereiro e venham a ser aprovadas poderão ter início a partir de Setembro de 2006. As que venham a ser lacradas até 31 de Março e venham a ser aprovadas não poderão ter início antes de 2007.
- Entre 15 de Junho e 31 de Julho, estará aberto o concurso de projectos de I&D em todos os domínios científicos. Os projectos que venham a ser aprovados após avaliação por painéis internacionais, deverão iniciar-se no decurso do ano de 2007.
- No que respeita à avaliação das Unidades de I&D o processo terá início no dia 15 de Setembro para todas as unidades de I&D cujo último exercício de avaliação decorreu entre Junho de 2002 e Janeiro de 2004. Nos Laboratórios Associados as acções de acompanhamento e avaliação decorrerão de acordo com o previsto nos respectivos contratos.
- Entre 1 de Novembro de 2006 e 31 de Janeiro de 2007 estará aberto o processo de pré-candidaturas à constituição de novas unidades. "

MM | 1:48 PM | Comentários (3)

fevereiro 28, 2006

Os meninos da rádio II

A TSF iniciou, na passada segunda-feira, um programa intitulado "125 perguntas sobre Ciência" com o apoio da revista Science e da Fundação Gulbenkian. Uma pergunta e uma resposta sobre ciência por dia. Para o programa inaugural, o jornalista Rui Tukayna falou com o Professor João Caraça, director do Centro de Ciência da Fundação Gulbenkian sobre o que são 125 perguntas sobre Ciência. Podem ouvir as entrvistas online. Ou às 17.30 na rádio mesmo.

MM | 4:19 PM | Comentários (1)

fevereiro 20, 2006

Já que nos estamos a deprimir...

(com a ideia que certas pessoas tem dos cientistas):

Uma investigação feita no Reino Unido com 900 pessoas descobriu que, com cada aumento de 16 pontos no Quociente de Inteligência, decresce em 40% a probabilidade de uma mulher se casar. O homem, pelo contrário, aumenta em 35% a probabilidade de casar com cada aumento de 16 pontos
Leia a notícia aqui.

MM | 10:37 PM | Comentários (8)

fevereiro 14, 2006

Veia de saudade

il etait une fois la vie.jpgUm amigo relembrou-me esta série da minha infância. “Era uma vez...a vida” explicava como é que funcionava o corpo humano, as células, o DNA. Havia os homenzinhos vermelhos que transportavam as moléculas de oxigénio e que ficavam mais claros quando as libertavam, havia os polícias brancos, uns que libertavam umas criaturas voadoras (anticorpos), outros que comiam seres indesejáveis (macrófagos?), a central de produção, os operadores que enrolavam o DNA convenientemente (helicases, talvez?). Vi um episódio desta série há pouco tempo (já não via desde o liceu) e pasmei-me com quantidade e rigor da informação que ali estava. Em meia hora acho que coube metade da minha licenciatura.
Pela facilidade que há em obter os episódios na internet, acho que não sou a única a gostar de me recordar desta série. Mas resolvi mencioná-la aqui. Todos juntos agora:
“Et voici la vie”…

MM | 1:02 PM | Comentários (14)

fevereiro 8, 2006

A troca

Imaginem um grupo de indivíduos que têm tudo para ser felizes e viver bem. Trabalham, tem casa e o suficiente para comer, têm diversas actividades sociais e estão bem inseridos no seu grupo. No entanto, estes indivíduos passam grande parte do seu tempo livre e gastam uma quantidade incrível de recursos com o único objectivo de trocar certos objectos com outros indivíduos. Todos os indivíduos já possuem estes objectos, simplesmente cada indivíduo tem um objecto ligeiramente diferente. Não são de modo nenhum necessários à sobrevivência ou ao conforto. (Não, isto não é uma campanha contra o vício de coleccionar cromos).
O acto de efectuar a troca gasta imensos recursos energéticos, deixando os indivíduos exaustos e/ou a precisar de um bom pequeno-almoço. Talvez por causa disto, pelo menos metade dos indivíduos preferem efectuar a troca no Sábado à tarde. (Se houver alguém que, até este ponto, ainda não tenha percebido qual é a troca, por favor deixem uma nota nos comentários que é para eu ver quantos românticos iludidos ainda há neste mundo).
Depois, há o incrível gasto de recursos para convencer o indivíduo com quem queremos efectuar a troca a aceitar. Pode ser preciso pagar-lhe o jantar, ou então passar várias horas em frente ao espelho a enfeitar-se para tentar tornar a proposta mais atraente. Alguns indivíduos, para não estarem sempre a gastar estes recursos, chegam a estabelecer um contrato vitalício para fazer a troca sempre com o mesmo indívduo.
O mais triste é que isto não é uma opção que um grupo de indivíduos tome conscientemente, mas sim um impulso biológico praticamente incontrolável, muitas vezes mais forte que o próprio instinto de sobrevivência. Que chatice.

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MM | 2:35 PM | Comentários (0)

janeiro 31, 2006

Jared Diamond: Um biogeógrafo fala sobre as sociedades

jared-diamond.gif Assisti em Londres à palestra de apresentação do novo livro de Jared Diamond. Começo por notar que tal como as empresas acenam com portáteis ou GTIs aos seus empregados para os manterem, o Imperial College (e suponho todas as outras grandes universidades) acena com palestras às quais dificilmente se poderia assistir noutro lado. Só nestes últimos meses, já tivemos o Tim Smit (o criador do Eden Project na Cornualha - imperdível) e o Richard Dawkins.

Jared Diamond é professor de Geografia e Fisiologia na UCLA e já ganhou um prémio Pulitzer. É também um evolucionista, arqueólogo, ambientalista, biólogo molecular e mais uma série de coisas.

Para este livro, ele estudou várias civilizações ou sociedades que desapareceram, desde os Maias até os Nórdicos na Gronelândia. Achou depois que tinha que, num exemplo elementar de boa ciência, comparar as civilizações que tinham falhado com as que tinham sobrevivido face às mesmas ameaças, como o Japão ou a Nova Guiné. Collapse_book.jpg E, como diz o título, tentar ver porquê.
Obviamente que, na hora que durou a palestra, não deu para aprofundar a questão. Deu antes para ter vontade de ler o livro. Portanto, vou apenas falar de alguns pontos de interesse:

- É assustador como algumas sociedades gastaram os recursos até à última. Uma pergunta interessante foi o que teria dito o habitante da ilha da Páscoa que derrubou a última árvore existente na ilha. Tal como neste caso, pensa-se que a deflorestação terá sido a causa do colapso de muitas outras sociedades. Neste momento continua-se, claro, a usar os recursos até à última com a diferença de que, com a globalização, os recursos (e o eventual colapso) são os do planeta inteiro e não só de uma ilha.

- Outro ponto interessante gerado por uma pergunta da audiência foi que a democracia parecia não fazer diferença na taxa de sobrevivência de uma sociedade. Jared Diamond não viu diferença nesta taxa comparando democracias com ditaduras, por exemplo.

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MM | 4:26 PM | Comentários (6)

janeiro 24, 2006

Arte Molecular

Por Nuno Micaelo
12/01 a 12/03 no espaço Garfos e Letras, Rua Cândido dos Reis, 18, Porto
17/2 a 18/3 na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa
lat_esq_A_molecular.jpg
Vale a pena ver esta exposição. Para um cientista habituado a ver imagens gráficas de moléculas rotineiramente, parece ao princípio uma coisa banal, um“ovo de Colombo”. Passado um bocado, passa a ser “pop-art”, só que com moléculas em vez de latas de sopa de tomate Campbell.

Para quem não conseguir ir ver, podem ver online a galeria de Nuno Micaelo.

MM | 1:37 PM | Comentários (0)

janeiro 17, 2006

Os homens dos medicamentos

Em Março realizar-se-á em Curitiba (Brasil) um encontro destinado a debater a propriedade intelectual dos medicamentos tradicionais dos índios. Este acontecimento lembrou-me, primeiro que tudo, o filme "The Medicine Man", que eu gostei principalmente pelo herói da história ser bioquímico, e representado pelo Sean Connery.
Neste filme, Sean Connery representa a dicotomia dos males e benefícios da ciência. O mal porque na sua ânsia de investigar trouxe o sarampo para uma tribo índia (inverosímil, é certo, mas isto é um filme americano), e porque se encontra a investigar só porque é pago por uma companhia farmacêutica. O bom, porque acaba por dedicar a sua vida a tentar salvar outra tribo, e a diversidade das espécies e um medicamento tradicional que pode curar o cancro, dos efeitos da deflorestação. A maneira como ele descobre qual é a substância que compõe o medicamento é em si uma historiazita interessante de investigação científica.
Este encontro em Curitiba pega onde o filme deixou. Uma vez descoberto o medicamento, de quem são os direitos da patente - para quem vão os lucros da comercialização? Até agora tem sido todos para as farmacêuticas que patrocinam a comprovação científica dos efeitos terapêuticos. Os índios querem agora uma parte dos benefícios para manter a sua cultura. O que faz sentido, pois só mantendo esta cultura se preserva o conhecimento empírico sobre outros possíveis medicamentos. Aqueles, talvez, que os cientistas nunca conseguirão descobrir.

MM | 2:03 PM | Comentários (0)

janeiro 11, 2006

A Investigação Científica em primeira página

O conselho da Fundação Sommer-Champalimaud reúne-se hoje para decidir se criará um centro de investigação próprio ou se se limitará ao financiamento de projectos de investigação. Uma decisão que poderá ter um peso histórico na Ciência em Portugal.

Apareceu ontem no telejornal da RTP1, em horário nobre, uma breve reportagem sobre o debate realizado no IGC sobre o retorno dos cientistas portugueses, já mencionado no Conta. Não deu bem para perceber porque é que só puseram a notícia ontem; de qualquer modo ainda deu para ver excertos das entrevistas realizadas a Miguel Castelo Branco, Nuno Arantes e Oliveira e a nossa SJA.

Refiro também a menção que apareceu no programa "O Cofre" à investigação científica: havia um participante que era investigador científico e uma bioquímica. Curiosamente, o investigador científico estava a fazer um doutoramento em letras sobre linguagem, e a bioquímica estava a fazer investigação científica em terapia génica do cancro. Isto lembra-me o problema de que nome dar à nossa profissão: se ainda estamos a fazer doutoramento, somos estudantes ou investigadores? A partir de que altura passamos a ser cientistas? E nesta época da interdisciplinaridade, devemos auto-intitular-nos segundo o nome da nossa licenciatura?

MM | 12:36 PM | Comentários (4)

janeiro 2, 2006

Notas soltas para um Novo Ano

- Ambiente vs. ambiente ñ normalmente a construção de barragens opõe interesses económicos à protecção do ambiente. No caso da barragem sobre o rio Sabor, o governo lembrou-se de usar a arma ambiental: contra o estudo que mostrava um impacto negativo na fauna e flora da região e que levou a um congelamento dos fundos da Comunidade Europeia, o governo contrapôs que a dita barragem levaria a uma redução de emissões poluentes. Claro que só se lembraram disto agora porque a dita redução levaria também a uma redução à multa aplicada a Portugal por não cumprir o protocolo de Quioto.

- Estudos provaram o efeito “beer-goggles”, ou seja, que a atractividade das mulheres aumenta conforme o grau de alcoolemia do homem. Há inclusive uma equação que calcula o aumento do poder de atracção. Em contrapartida, outro estudo mostra que as mulheres se sentem mais atraídas por homens que são bons dançarinos. Portanto o meu conselho aos leitores masculinos do Conta: este ano bebam e dancem muito ñ só não se esqueçam de nestas ocasiões, deixar as chaves do carro em casa.

- Morgan Spurlock, o autor do documentário “Super-size me” sobre fast-food, está a preparar um novo documentário sobre a política científica dos Estados Unidos e a sua gestão pela administração Bush. Revelações chocantes aguardam-se com expectativa.

MM | 9:18 PM | Comentários (2)

dezembro 27, 2005

Encontro do Alumínio

Tinha já um post planeado e escrito em rascunho para hoje, mas dado que surgiu a oportunidade, resolvi dar antes um relato resumido, quase em tempo real, da primeira parte do "Gulbenkian Alumni Meeting". Este encontro já foi mencionado pela SJA e estou certa que ela ou o RPA farão uma descrição mais promenorizada da segunda parte.

Passemos então às notícias e assuntos de interesse geral na introdução de António Coutinho:

- A apifarma está a fornecer um subsídio de instalação para grupos que saiem do IGC para novos institutos. Tem também apoios financeiros para esforços de "networking" científico.

- Está a colocar-se a ideia de um encontro mais alargado dos estudantes de doutoramento portugueses, estilo FEBS, que serviria também como plataforma de emprego.

- A exibição sobre Einstein na Gulbenkian está a bater o recorde de visitantes a esta Fundação. Prova que a divulgação científica está a avançar de vento em popa.

- o IGC está a pensar criar um programa de pós-doutoramento.

MM | 1:31 PM | Comentários (3)

dezembro 21, 2005

Golfinhos 2

A Sónia Mendes está a fazer um doutoramento em Biologia Marinha na Universidade de Aberdeen, na Escócia. O seu projecto debruça-se sobre a ecologia alimentar e distribuição de cachalotes no Atlântico Norte. Estuda cetáceos desde 1997. Pedi-lhe para comentar o processo contra Portugal por parte da Comissão Europeia, já noticiado por RPA ontem.

A Comissão dá início a procedimentos contra oito Estados-Membros, com base na insuficiente protecção das baleias, golfinhos e botos (20 Dez 2005)

A Comissão Europeia deu início a processos por infracção contra oito Estados-membros, incluindo Portugal, pelo facto de não procederem a um acompanhamento adequado da forma como as respectivas populações de cetáceos ñ baleias, golfinhos e botos ñ estão a ser protegidas.

http://europa.eu.int/rapid/pressReleasesAction.do?reference=IP/05/1641&format=HTML&aged=0&language=PT&guiLanguage=en~

Mesmo sem estudos de grande escala realizados na costa portuguesa é óbvia a degradação de habitats marinhos e o declínio das populações de botos e roazes que costumavam frequentar com assiduidade os estuários do Douro, do Minho, do Tejo, e que ainda vão permanecendo no Sado, apesar das dificuldades nesta zona em implementar medidas de conservação, em particular a “Directiva Habitats”.

(ver: http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=2119)

Evidente também é a problemática das redes de emalhar que provoca a morte a dezenas de golfinhos-comuns (e outras espécies) por ano e que causa transtorno aos pescadores. No entanto, a extensão do problema e o seu impacto nas populações de pequenos cetáceos não foi ainda devidamente avaliada devido à falta de recursos.

Existem lacunas no conhecimento de cetáceos em Portugal e das ameaças que estes e os seus habitats encontram. Este facto deve-se à inerente dificuldade em estudar estes animais, mas também à falta de recursos financeiros e humanos que caracteriza a política de ambiente do nosso país, e talvez também à falta de uma consciência colectiva de apreciação do património natural. A maioria dos portugueses não faz ideia de que há golfinhos a pouca distância das nossas praias, ou não foi sensibilizado para a observação do que é natural e belo, simples e grátis! Mais uma ironia de um país que nasceu voltado para o mar e que tão pouco olha para ele.

MM | 2:54 PM | Comentários (6)

dezembro 13, 2005

Prática clínica e investigação biomédica

Artigo de Opinião
João Eurico Cabral da Fonseca
Responsável pela Unidade de Artrite Reumatóide do Instituto de Medicina Molecular; Professor Auxiliar de Reumatologia da Faculdade de Medicina de Lisboa; Assistente Hospitalar de Reumatologia do Hospital de Santa Maria

A integração entre a prática clínica e a investigação biomédica é um tema referido com frequência, embora seja claramente um conceito abstracto para a maioria das pessoas, incluindo os próprios médicos e os investigadores que realizam trabalho laboratorial na área biomédica. Há várias justificações para esta falta de compreensão do problema. A primeira questão fundamental é que, de facto, a actividade clínica e a actividade de investigação laboratorial são realidades diárias muito diferentes. Sem qualquer juízo de valor subjacente é evidente que o tipo de solicitações, pressões, factores de stress, horários, remunerações e responsabilidades são diferentes nestas duas actividades. Por outro lado, o tipo de raciocínio face a um problema é também diferente. O pragmatismo da actividade clínica diária premeia uma atitude perante novos conceitos ou novas hipóteses do género: “E depois?”; “Qual a aplicação prática?”. Por oposição, o investigador laboratorial centra as sua questões em: “Porquê?”; “Qual o mecanismo explicativo?”. Esta realidade, aparentemente dicotómica, é muito evidente quando um clínico faz uma apresentação a um grupo de investigadores biomédicos ou vice-versa. Na verdade, ambas as atitudes são relevantes para o desenvolvimento do conhecimento médico, mas na prática são frequentemente antagónicas e fonte de desconforto na relação entre os dois grupos. A tentativa de ligar estes dois mundos é frequentemente acompanhada por uma sensação de entrada num limbo, numa terra de ninguém e deserta.

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MM | 8:30 AM | Comentários (3)

dezembro 7, 2005

Entrevista com António Coutinho

No Domingo passou na RTP2 uma entrevista com o Dr. António Coutinho sobre a Ciência em Portugal. Apesar de essa entrevista ter sido também apresentada no jornal "Público" no dia seguinte, resolvi dar o meu apanhado pessoal da entrevista, porque tem nuances diferentes e é mais resumido que a transcrição do Público e porque creio que muitos leitores do Conta não tem acesso à RTP2 e/ou ao Público.

O Dr. António Coutinho formou-se em Medicina, fez carreira em investigação em Imunologia e é agora director do Instituto Gulbenkian de Ciência, entre outras coisas. Isto é o currículo oficial. Na prática, creio que é uma das pessoas que conseguiu melhor entender quando e onde manobrar a "alavanca", no sentido da frase "Dêem-me uma alavanca e eu consigo levantar o mundo". António Coutinho, aplicando ideias e pressões nos sítios e alturas certas, é um dos poucos portugueses que conseguiu individualmente levantar grande parte da Ciência feita em Portugal ou por Portugueses.
Dada a dificuldade da tarefa, queria, em primeiro lugar, elogiar os entrevistadores Ana Machado e José Pedro Frazão que colocaram perguntas inteligentes e pertinentes, deixando espaço a António Coutinho para falar. Mostraram também um trabalho de preparação cuidado e extenso.

Das opiniões de António Coutinho discutidas, destaco as que me pareceram mais importantes:

1 - O principal entrave à investigação científica em Portugal é

Continue a ler "Entrevista com António Coutinho"

MM | 12:38 PM | Comentários (8)

novembro 29, 2005

De Pablo Neruda

Ode ao laboratorista

Há um homem
escondido
observa
com um só olho
de ciclope eficiente,
são coisas minúsculas,
sangue,
gotas de água,
olha
e escreve ou conta,
naquela gota
circula o universo,
a via láctea treme
como um pequeno rio,
observa
o homem,
e anota,

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MM | 4:08 PM | Comentários (0)

novembro 23, 2005

Há coisas assimÖ

O Dana Centre é um local em Londres dedicado à interacção entre a ciência e a arte. Tem eventos e debates, alguns deles transmitidos via webcasting, e também um fórum de discussão sobre assuntos relacionados com a Ciência e a sociedade. É, no fundo, a comunicação da Ciência no seu aspecto mais pluridisciplinar.
Visitem:http://www.danacentre.org.uk/calendar.asp?filter=date&date=03/11/2005

MM | 2:01 PM | Comentários (0)

novembro 15, 2005

Salvar o mundo

Durante muito tempo, quando as pessoas perguntavam o que é que eu fazia e eu dizia que fazia investigação em biologia, ouvia de resposta: "Sim senhora, com que então a salvar pessoas e o mundo!". Ao qual eu retorquia que a Ciência não resolvia problemas nenhuns no mundo, que por muitas potencias soluções que a Ciência apresente para questões actuais, quem decide se são problemas e se depois as soluções são usadas ou não são os economistas e os políticos. Dou como exemplo a SIDA, a malária, os alimentos transgénicos que parecem que são problemas científicos também mas para os quais a única coisa que os biólogos podem fazer é contribuir com uma ideia que talvez ajudasse se uma longa série de "ses" políticos e económicos fossem preenchidos.
Isto tudo a propósito de o filme "The Constant Gardener" que estreou há algumas semanas na Europa. Provavelmente já ouviram falar de qual é a base do filme: a mulher de um diplomata inglês é assassinada porque descobre que se estão a testar medicamentos para a tuberculose que tem efeitos secundários graves em pacientes africanos. Os doentes se se recusarem a servir de cobaias deixam de receber tratamento para a SIDA. Pelo meio é mencionado o caso real de empresas farmacêuticas que enviam medicamentos fora de prazo para os países subdesenvolvidos, recebendo em troca descontos nos impostos. Junto uma informação que me foi dada por um amigo e não está no filme: as companhias farmacêuticas são as indústrias que apresentam uma margem de lucro maior, na ordem dos 20%, que é muito maior que outros sectores, incluindo os bancos por exemplo.
A maioria de nós está no princípio desta cadeia, a fazer investigação que permite desenvolver novos medicamentos, vacinas, terapias. Mas que só são realmente medicamentos, vacinas, terapias se no fim da cadeia as companhias farmacêuticas e os políticos assim o entenderem.
Se ainda não viram o filme vão ver, pois além das questões éticas, é também uma belíssima história de amor. Entre duas pessoas e também entre a equipa de produção e ¡frica.

MM | 2:57 PM | Comentários (8)

novembro 8, 2005

EVENTOS BíBLICOS

Há notícia de uma praga de mosquitos no Funchal. Apesar de não ter um tom tão bíblico como a praga de gafanhotos que dizimou a agricultura de alguns países africanos há alguns meses, mesmo assim dá que pensar. Especialmente no facto de que uma das consequências previstas do aquecimento global é, precisamente, a migração de espécies tropicais e possivelmente o alargamento do alcance de doenças tropicais. Estes mosquitos que invadem a Madeira não trazem nenhuma doença infecciosa. Para já.

MM | 8:44 AM | Comentários (0)

novembro 1, 2005

J¡ QUE FALAMOS DE GRIPE...

Podia ter sido porque nos disseram que éramos demasiado herméticos. Podia ter sido porque o VMB apontou o dedo ao facto de raramente escrevermos sobre temas da área científica de especialização de cada um. Podia, finalmente, ter sido porque houve um comentário ao texto de ontem no sentido de os textos mais populares no Conta serem os não-científicos. Podia ter sido qualquer uma destas razões a inspiração do meu post hoje. A realidade foi que, simplesmente, uma amiga fez-me uma pergunta à qual eu não consegui responder em condições. As razões acima servem simplesmente de justificativos adicionais. O post de hoje é, então, só a pergunta. ¿ partida, espero que os imunólogos editores do Conta respondam. Mas qualquer dos leitores pode contribuir. Cá vai:

PORQUE É QUE QUANDO APANHAMOS FRIO, SAíMOS DE CASA COM O CABELO MOLHADO OU SEM CACHECOL, ESTAMOS MAIS EM RISCO DE APANHAR UMA CONSTIPA«√O OU GRIPE?

Eu respondi qualquer coisa sobre o enfraquecimento do sistema imune. Também disse que, no meu caso, apanho constipações ou gripes só quando não durmo suficiente ou estou deprimida, o que me serve de justificação perfeita para nunca me obrigar a levantar cedo e para ir fazendo sempre ¥retail therapy¥. Ou seja, só mandei bitaites...

MM | 9:14 PM | Comentários (0)

outubro 26, 2005

O INI/AMIGO P⁄BLICO

we are scientists.jpg Inspirada pela notícia de um novo álbum deste grupo musical, do qual eu nunca tinha ouvido falar, achei que era uma boa altura para debater a imagem pública dos cientistas nos dias que correm.

O grupo declara que o nome apareceu após alguém, numa festa, perguntar aos três membros do grupo se eles eram cientistas, dado o facto (supõem eles) de serem pálidos, magros e com uma determinada maneira de vestir.
Não consegui encontrar uma pergunta nesse sentido, mas acho que os gatos na capa podem referir-se ao Dr. Colin Blakemore. Este neurocientista inglês, director do Medical Research Council, é um dos principais alvos dos defensores extremistas dos direitos dos animais, devido às suas experiências com gatos (em que cosia os olhos de gatos bebés para estudar o desenvolvimento da visão). Que levaram à melhoria da vista de muitos seres humanos.
Se quiserem um exemplo de vida real da série “Sim, Senhor Ministro”, basta ler a transcrição da sessão do parlamento sobre a decisão de não atribuir o grau de ësirí a Colin Blakemore:
http://www.publications.parliament.uk/pa/cm200304/cmselect/cmpubadm/212/4020502.htm .

Entretanto correm muitos boatos aqui em Inglaterra sobre o próximo ëreality-showí - sobre cientistas.

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MM | 1:31 PM | Comentários (2)

outubro 23, 2005

MALA DE CART√O

Confesso que fiquei um pouco surpreendida com os resultados do inquérito, visto que nem conhecia dois dos institutos que ficaram em primeiro lugar. Prova que quantidade (de vezes que aparecem mencionados nos meios de comunicação) não é sinónimo de qualidade.

Começo pela selecção das minhas frases preferidas:

1 - “comida: já há mais que sanduíches para almoçar; cozinheiro experimentalista importado do Zimbabuéí.” Referente ao Gurdon Institute, em Cambridge.

2 - “Não há grandes queixas da instituição. Nas palavras do boss, é o departamento mais rico per capita do mundo. O pessoal é porreiro, e há sempre cerveja no frigorífico. Só escusava de fazer tanto frio no Inverno.” Referente ao Massachusetts General Hospital, em Boston.

3 ñ “O instituto: é muito bom, mas o IGC (Oeiras) é muito melhor... mas não contes a ninguém.” Referente ao IMM, em Lisboa

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MM | 3:43 PM | Comentários (2)

outubro 11, 2005

PROGN”STICO S” DEPOIS DO RESULTADO

Cá estão, finalmente, os resultados do inquérito tuga sobre institutos de investigação. Por ordem, a começar pelos melhores.


1 - Instituto Gulbenkian de Ciência, Lisboa, Portugal

Instituto de Cancro Holandês, Amesterdão, Holanda

Massachusetts General Hospital, Boston, EUA

2 ñ Instituto de Medicina Molecular, Lisboa, Portugal

3 - University of Pensylvannia, Filadélfia, EUA

Wellcome Trust/CRUK Gurdon Institute, Cambridge, Reino Unido

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MM | 3:51 PM | Comentários (4)

outubro 4, 2005

O sonho genético

G+S_Gattaca.jpg

Apeteceu-me recordar este filme. Principalmente por ter o Ethan Hawke e o Jude Law, ambos no seu melhor. Mas também por falar num futuro com uma possibilidade cada vez mais forte de se concretizar. Resumindo a história para quem não viu:
Numa sociedade em que a manipulação genética se encontra plenamente desenvolvida, a sociedade divide-se nos indivíduos cujos genes foram cuidadosamente seleccionados para dar origem a seres humanos perfeitos, e aqueles que originaram segundo o processo natural, de recombinação aleatória dos genes dos pais, e que possuem genes ëdefeituososí.
Jude Law, já na sua auto-caricatura de homem perfeito, que depois virá a repetir em “A.I” e “I Heart Huckabees”, representa o ser humano perfeito, seleccionado para não ter nenhuns genes que causem doenças, nem genes de agressividade ou instabilidade mental. E ainda, claro, para ser excelente desportista, não usar óculos, etc. Ainda jovem tenta-se suicidar e perde o uso das pernas. Ethan Hawke representa o papel do ser humano genuíno: os pais idealistas decidem deixar ao destino a composição genética do filho. Ele tem, portanto, um coração fraco, é instável emocionalmente, usa óculos, etc.
Claro que não conto o resto do filme! Basta dizer que ainda há a linha romântica com a Uma Thurman,

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MM | 5:30 PM | Comentários (5)

setembro 27, 2005

Mr. T-shirt molhada

beauty competition.jpg
Este texto é, além do debate sobre um tema interessante, também parte da resposta prometida ao texto do Vasco sobre características sexuais secundarias. E também uma oportunidade de por uma foto de um dos meus actores preferidos. Vejam se descobrem qual é!

Um dos grandes temas de investigação da evolução ou etologia humana é quais os critérios que as mulheres usam para seleccionar os parceiros sexuais. Parece estar estabelecido que, tal como o resto da natureza, o objectivo principal é garantir a saúde e robustez dos filhos. Há teorias até segundo as quais as mulheres, tal como as fêmeas de algumas outras espécies de primatas, ocasionalmente garantem segurança e robustez para a sua descendência por duas vias diferentes: escolhendo para pai ëoficialí um macho que mostre instintos paternais e protectores fortes e para pai biológico um macho que mostre que tem genes robustos. Já explico o que isto é. É claro que para esta técnica funcionar, o pai ësocialí tem que acreditar que o filho é seu. Esta é uma das explicações utilizadas para justificar o facto do período fértil das fêmeas da espécie humana não ser abertamente perceptível ñ para o macho não saber se produziu ou não descendência ao acasalar. Embora também haja estudos que indicam que o odor das mulheres é mais atraente para os homens quando elas estão no período fértil. Isto leva-nos directamente à explicação prometida de como são seleccionados os genes para robustez e à questão das feromonas:

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MM | 12:38 PM | Comentários (4)

setembro 20, 2005

” meus amigozzzzÖ

Found a young girl, who suited him nice
Went to his papa to ask his advice
His papa said son, I have to say no
That girl is your sister but your mama don't know
Wohohoho, it's real, shame and scandal in the family...

Went to his mama, and thought what he said
And told his mama, what his papa had said
His mama she laughed she says, go man go
Your daddy ain't your daddy, but your daddy don't know...

("Shame and Scandal", traditional, lead vocals - Peter Tosh, 1965 produced by - Coxone Dodd)


Não paternidade: Situação em que o alegado pai de um indivíduo não é o pai biológico.


Embora os casos de não paternidade sejam principalmente uma dor-de-cabeça para os investigadores que trabalham em genética humana, a proporção de não paternidade nas diferentes populações humanas é um assunto de debate a nível evolutivo e sociológico, tendo também implicações éticas.

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MM | 2:47 PM | Comentários (0)

setembro 13, 2005

O DEVER CíVICO

Resolvi colocar novamente o inquérito no post de hoje, já que agora todos os leitores (e editores) devem ter voltado de férias. Que era, tenho a certeza, a única razão pela qual a maioria ainda não tinha respondidoÖ

Modo de resposta: um identificador pessoal (pode ser o nome, um nom-de-guerre, ou outro conjunto de caracteres que outras pessoas não utilizem); o instituto de investigação e a letra da pergunta, seguida do número da resposta.

Exemplo: Nome: Pocahontas
Instituto de investigação: Instituto de Biologia Molecular, Universidade de Madrid
Cidade: Madrid País: Espanha

A. 1
B. 3
C. 2

etcÖ

Mandem as respostas para maya.mendiratta@gmail.com

Quanto ao instituto de investigação, devem estar lá há pelo menos um ano, e pode ser Português ou de outro país qualquer, ligado a uma universidade (neste caso ponham a faculdade ou centro) ou independente.


INQUÉRITO AOS CIENTISTAS PORTUGUESES SOBRE A QUALIDADE DE INSTITUTOS DE INVESTIGAC√O


Nome:
Instituto de Investigação:
Cidade:
País:


Tuga à vista!

A: Quantidade de portugueses nas redondezas:
1 ñ zero
2 ñ um ou dois
3 ñ paletes

A cesta do lanche

B: Facilidade em arranjar bacalhau, chouriço, nestum com figos, etcÖ
1- os meus papás causam dores de cabeça aos serviços alfandegários
2- se estiver disposto a atravessar a cidade toda lá se arranja
3- há uma mercearia portuguesa na esquina

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MM | 9:55 AM | Comentários (0)

setembro 6, 2005

Divagações quânticas

quantencomputer.png

Antes do assunto de hoje, queria lembrar aos leitores o inquérito de dia 30 de Agosto. Houve aproximadamente 180 visitas nesse dia e só oito pessoas responderam até agora! E já que houve dúvidas nesse aspecto, queria deixar claro que cientistas que estejam a fazer investigação em Portugal podem e devem responder também.

neurons.jpg O que se segue não é um texto num dos sentidos do termo ñ não tem uma sequência lógica ou principio, meio e fim. É mais um aglomerado de ideias, estilo ëstream of consciousnessí. Este estilo é, no entanto, inteiramente apropriado ao assunto em questão e por isso contínuo. Deixando a ressalva adicional que não sou neurobióloga nem física e que portanto estas ideias são muito vagas.

Um amigo meu tem-se debruçado sobre a questão da possibilidade do cérebro humano funcionar com computação quântica. Há também umas ligações com o António Damásio. A seguir vem uma linha de ideias:

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MM | 6:57 PM | Comentários (1)

agosto 30, 2005

O INQUÉRITO

Cá está o inquérito! Modo de resposta: um identificador pessoal (pode ser o nome, um nom-de-guerre, ou outro conjunto de caracteres que outras pessoas não utilizem); o instituto de investigação e a letra da pergunta, seguida do número da resposta.

Exemplo: Nome: Pocahontas
Instituto de investigação: Instituto de Biologia Molecular, Universidade de Madrid
Cidade: Madrid País: Espanha

A. 1
B. 3
C. 2

etcÖ

Mandem as respostas para maya.mendiratta@gmail.com

Quanto ao instituto de investigação, devem estar lá há pelo menos um ano, e pode ser Português ou de outro país qualquer, ligado a uma universidade (neste caso ponham a faculdade ou centro) ou independente.


INQUÉRITO AOS CIENTISTAS PORTUGUESES SOBRE A QUALIDADE DE INSTITUTOS DE INVESTIGAC√O


Nome:
Instituto de Investigação:
Cidade:
País:


Tuga à vista!

A: Quantidade de portugueses nas redondezas:
1 ñ zero
2 ñ um ou dois
3 ñ paletes


A cesta do lanche

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MM | 4:09 PM | Comentários (10)

agosto 23, 2005

Inquérito

⁄ltima oportunidade para dar sugestões para o inquérito para eleger o melhor instituto de investigação para cientistas Portugueses. Para já, ficou estabelecido que é importante perguntar sobre a facilidade de encontrar comida portuguesa e outros Portugueses. Também houve sugestões no sentido de perguntar sobre a qualidade de transportes para o instituto de investigação, e sobre a qualidade do sexo oposto.
Começo a preparar o inquérito esta semana mas ainda podem ir dando sugestões!

MM | 4:25 PM | Comentários (2)

agosto 9, 2005

Inquérito tuga

Recentemente tem havido muitos inquéritos sobre a qualidade das instituições científicas, em termos de oferta a post-docs ou a alunos de doutoramento.
Mas nenhum foi desenhado a pensar especificamente no cientista português. Achei que já era tempo de colmatar esta falha.
Esta semana queria pedir-vos sugestões sobre o que pôr no inquérito. Aquelas coisas que determinaram a vossa felicidade ou infelicidade numa unidade de investigação. Aqueles aspectos que vos levaram a recomendar um sítio aos amigos.
Há as perguntas óbvias: é fácil arranjar bacalhau nas redondezas? E um café decente? Como é a relação com o pessoal do laboratório? Mas deve haver muitas coisas de que não me lembrei. Ponham as vossas sugestões nos comentários e eu preparo o inquérito para lançar daqui a uma ou duas semanas.

MM | 11:09 AM | Comentários (7)

agosto 2, 2005

Confesso que agora até

phdeditorial.gif

Confesso que agora até estou com um bocado de medo de escrever algo aqui. O que eu pensava ser uma simples informação gerou um debate político à verdadeira maneira Portuguesa, e desconfio que alguma mudança em algumas relações pessoais também! Só tenho pena de eu não ter tido nenhum comentário tão polémico que tivesse que ser apagadoÖ

Hà pouco tempo li um artigo sobre o último encontro TED. Este encontro anual pretende juntar cientistas, inventores e pensadores em geral para tentar resolver os problemas do mundo e debater grandes questões. Um pouco grandiloquente, mas a leitura do site e as questoes que eles debatem são realmente fascinantes:

http://www.ted.com

MM | 10:12 AM

julho 26, 2005

Politiquices

Por muito que queiramos dedicar-nos só à Ciência e ignorar assuntos mais sujos, o certo é que temos que saber o que se passa no mundo da admnistração científica, nem que seja para saber de onde é que vem o dinheiro. A semana passada aconteceram, ou digamos, progrediram, alguns marcos na política científica portuguesa:

- Foi formado o Conselho Científico do Conselho Europeu de Investigação. O Conselho Europeu de Investigação será uma entidade financiadora de investigação de ponta ligado à Comunidade Europeia. O Conselho Científico, por sua vez, será responsável por determinar a estratégia e excelência científica do CRI.
- Teresa Lago foi escolhida como a representante Portuguesa do Conselho Científico.
- O ministro da Ciência e Ensino Superior, Mariano Gago, está a mudar alguns dos ëchefõesí: o presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Ramôa Ribeiro, deverá ser substituído por João Sentieiro, actual secretário de Estado dos Conselhos dos Laboratórios Associados, e Luís Magalhães foi nomeado presidente da Agência para a Sociedade do Conhecimento (UMIC), substituindo Diogo Vasconcelos que tinha sido colocado por Durão Barroso em 2002.

MM | 6:39 PM | Comentários (54)

julho 19, 2005

Meditações computacionais

Tenho andado às voltas com alguns amigos meus sobre algumas questões com um pouco de biologica, um pouco de matemática, um pouco de física:

- Neste momento, a matemática e a física já estão avançadas o suficiente para construir um modelo de como funciona o cérebro humano e o sistema nervoso, perante fornecimento dos dados experimentais adequados?
- Ou será que, para explicar o funcionamento deste sistema é preciso algoritmos matemáticos e teorias físicas que ainda não foram completamente delineados?
- Ou ainda: será que o cérebro humano é capaz de compreender o cérebro humano? Por outras palavras, será que para compreender um sistema de um determinado nível de complexidade, não é preciso um sistema de complexidade superior?

MM | 4:32 PM

julho 12, 2005

Grandes questões

A Science começou a publicar uma lista das grandes questões científicas do nosso tempo, mencionando que havia suficiente para dar trabalho a muitos cientistas durante muitos anos. Achei que seria interessante debater algumas delas.
Cá vai uma:

Até que ponto a variação genética está ligada à saúde de um indivíduo?

Para juntar umas achas à fogueira:


Am J Epidemiol. 2005 May 1;161(9):831-9.

The role of cognitive ability (intelligence) in explaining the association between socioeconomic position and health: evidence from the Whitehall II prospective cohort study.

Singh-Manoux A, Ferrie JE, Lynch JW, Marmot M.

INSERM U687, National Hospital of Saint-Maurice, 94415 Saint-Maurice, France. Archana.Singh-Manoux@st-maurice.inserm.fr

Associations among cognitive ability, socioeconomic position, and health have been interpreted to imply that cognitive ability could explain social inequalities in health. The authors test this hypothesis by examining three questions: Is cognitive ability related to health? To what extent does it explain social inequalities in health? Do measures of socioeconomic position and cognitive ability have independent associations with health? Relative indices of inequality were used to estimate associations, using data from the Whitehall II study (baseline, 1985-1988), a British prospective cohort study (4,158 men and 1,680 women). Cognitive ability was significantly related to coronary heart disease, physical functioning, and self-rated health in both sexes and additionally to mental functioning in men. It explained some of the relation between socioeconomic position and health: 17% for coronary heart disease, 33% for physical functioning, 12% for mental functioning, and 39% for self-rated health. In analysis simultaneously adjusted for all measures of socioeconomic position, cognitive ability retained an independent association only with physical functioning in women. These results suggest that, although cognitive ability is related to health, it does not explain social inequalities in health.


E neste momento no meu instituto (tal como em muitas outros, tenho a certeza), há um grande debate sobre como estudar a genética da obesidade. Há factores genéticos que predispõe para ganhar peso excessivamente? Terão a ver como processamento de gorduras? Com o controle do apetite? Ou com factores psicológicos? Ou será tudo ambiental e cultural?

Para quem quiser ver o link original:
http://www.sciencemag.org/sciext/125th/

MM | 1:31 PM

junho 28, 2005

Viagem à Etiópia

Finalmente a segunda parte do relato da Ana Franco! E como prometido, cá vai o contexto:

Neste momento há várias linhas de investigação científica para tentar reduzir a taxa de infecção com malaria, ou de mortalidade devido a esta doença. Como referido num post anterior, a malaria é uma das maiores causas de morte no mundo, afectando todas as faixas etárias. Continua-se a tentar desenvolver uma vacina. Estão-se a desenvolver várias abordagens para eliminar os mosquitos, torná-los estéreis ou afastá-los das pessoas. Caso alguma destas investigações tenha sucesso, para aplicá-la a nível global serão necessaries muitos recursos. Uma maneira de tornar qualquer solução mais eficiente, e outra abordagem para tentar conter a doença, é a investigação sobre os padrões de parasitismo dos seres humanos por parte do mosquito, que transmite o parasita que causa a malaria. Ou seja, a epidemiologia da interacção mosquito-hospedeiro.
É neste ultimo aspecto que a Ana Franco está a fazer o doutoramento. Combina o desnvolvimento de modelos matemáticos em Londres com visitas de campo a locais onde a malária é endémica para obter os dados necessários para validar ou ajustar os modelos.


2. Etiópia (24 Agosto- 30 Setembro e 22 Novembro a 15