novembro 26, 2004
The view from the South: Feliz aniversário, Charles (enquanto ainda é tempo)
Dia 24 de Novembro completaram-se os 145 anos da publicação de uma das mais revolucionárias obras de todos os tempos, “On the Origin of Species by Means of Natural Selection” do naturalista Charles Darwin. A primeira edição esgotou-se imediatamente; não era a primeira vez que os ingleses vitorianos corriam às livrarias para comprar tratados científicos, algo que hoje só aconteceria se o Paulo Coelho resolvessse escrever um. Darwin preparava o livro há décadas e acredita-se que só teria aceite publicá-lo postumamente, ou pelo menos após a morte de sua mulher, Emma, que era profundamente religiosa e a quem ele queria poupar a inevitável briga com a igreja que se seguiria à publicação. O próprio Darwin se afastou bastante da religião-mas este tópico é objecto de discussão entre seus biógrafos-especialmente após a morte aos 10 anos de Annie, sua filha favorita. Darwin se viu forçado a publicar porque recebeu do jovem Alfred Russel Wallace um manuscrito apresentando ideias semelhantes. Darwin e Wallace tiveram uma experiência profisional equivalente, trabalhando como naturalistas em viagens oceânicas: Darwin pela América (com sua famosa parada nos Galápagos); Wallace pelos arquipelágos do Oriente. Após um período de pânico que todo cientista conhece bem, Darwin e Wallace chegaram a um acordo e submeteram conjuntamente um artigo entitulado "On the Tendency of Species to form Varieties; and on the Perpetuation of Varieties and Species by Natural Means of Selection" à Linnean Society de Londres em 1858. A publicação do tijolo que todo biólogo tem em casa mas poucos têm paciência para ler (os vários capítulos sobre criação de pombos certamente não ajudam) veio um ano depois e levou a várias décadas de intensos debates dentro da comunidade científica, como entre os cientistas e a sociedade. O debate científico de fato ainda não está inteiramente resolvido, em parte porque, como aponta o grande evolucionista Ernst Mayr, a teoria de Darwin não é uma só, mas cinco: a evolução em si, isto é, a ideia de ëdescent and modificationí; a origem comum de todas as especies ; o gradualismo; a formação de espécies como fenómeno populacional e, finalmente, a seleção natural como mecanismo. Embora hoje não exista grande debate na comunidade científica sobre as duas primeiras teorias, as três últimas são objeto de estudos e discussões intensas- uma marca de vigor científico e não de tibieza, ao contrário do que pretendem fazer ver os criacionistas.
Mas, afinal, será esta uma batalha que se considera vencida, pelo menos do que diz respeito à evolucão em si e excetuando cantos da terra onde a manteiga de Yak é a principal fonte de iluminação e aquecimento? Ledo engano. Aqui no Alabama provavelmente começaram já acendendo fogueiras e queimando cópias da Origem das Espécies. Recentemente fui informado por uma colega do laboratório que colabora com ensino de alunos do secundário que ela foi instruída para não usar a palavra “evolução” em sala de aula. E assim os idiotas passam da burrice pessoal- que não nos interessa- ao imperdoável, perpetuando a ignorânciaÖ
*Nota ao editor: alguém precisa contribuir algo neste espaco comemorando o centenário do Mayr. Resposta: alguém precisa explicar ao Thiago que um teclado português não limita a escrita em inglês e que o inverso não é verdadeiro. O tempo que gasto a acentuar os textos de Birmingham, Alabama, podia ser investido noutras actividades como, por exemplo, contribuir com algo neste espaço comemorando o centenário do Mayr.
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Thiago Carvalho | 9:20 PM | Comentários (8)
outubro 16, 2004
NOBEL 2004, parte II- O Cheiro e o Lixo
É interessante notar que em 2004 a academia premiou com Nobel da Química três investigadores que trabalham numa questão eminentemente biológica. Aaron Ciechanover e Avram Hershko, do Instituto Israel de Tecnologia, em Haifa, e Irwin Rose, da University da Califórnia, Irvine, dividiram o generoso pé de meia (10 milhões de Kronors suecos, ou US$ 1.300.000) pelas suas descobertas na área da degradação de proteínas celulares.
Ao longo dos anos 70 e 80 os três demonstraram que as células regulam de maneira extremamente ordenada o seu ciclo de proteínas. Se por um lado a síntese de proteínas já era processo estudado em rico detalhe, pouco era conhecido sobre como era tratada a eliminação do “lixo”. Os premiados deste ano demonstraram que as células utilizam a ubiquitina, um pequeno polipeptídeo de 76 amino ácidos, como um rótulo que marca outras proteínas para destruição. Proteínas marcadas pela ubiquitina são entaão destruídas pelo proteossomo, uma espécie de triturador do lixo proteico das células (a ubitiquina é libertada da proteína logo antes da degradação, sendo então reaproveitada). Este processo, conhecido como ubiquitinação, permite às células regularem fenómenos tão diversos como a divisão celular e a diferenciação, bem como uma resposta eficiente a estímulos externos. A ubiquitinação tambem é vital na degradação de proteinas defeituosas ou tóxicas, inclusive formas potencialmente carcinogénicas. Ao longo das duas décadas subsequentes à sua descoberta, deficiências na ubiquitinacao foram implicadas na etiologia de diversas doenças, como a fibrose cística e algumas formas de cancer cervical.
Como nota de rodapé, preciso lembrar que assim como Che Guevara, Richard Axel, vencedor do Nobel em medicina e fisiologia de2004, também foi imunologista antes de “cheiroso”. Nao sei bem como este fato crucial escapou a Susana no seu o ótimo texto sobre o assunto, até porque estamos perante um padrão recorrente. Veja-se o caso presente da ubiquitinação: sua função mais importante certamente diz respeito à apresentação de antígenos aos linfócitos T! Está dada a dica: jovens, a imunologia é o caminho para a glória e sucesso.
Ao longo dos anos 70 e 80 os três demonstraram que as células regulam de maneira extremamente ordenada o seu ciclo de proteínas. Se por um lado a síntese de proteínas já era processo estudado em rico detalhe, pouco era conhecido sobre como era tratada a eliminação do “lixo”. Os premiados deste ano demonstraram que as células utilizam a ubiquitina, um pequeno polipeptídeo de 76 amino ácidos, como um rótulo que marca outras proteínas para destruição. Proteínas marcadas pela ubiquitina são entaão destruídas pelo proteossomo, uma espécie de triturador do lixo proteico das células (a ubitiquina é libertada da proteína logo antes da degradação, sendo então reaproveitada). Este processo, conhecido como ubiquitinação, permite às células regularem fenómenos tão diversos como a divisão celular e a diferenciação, bem como uma resposta eficiente a estímulos externos. A ubiquitinação tambem é vital na degradação de proteinas defeituosas ou tóxicas, inclusive formas potencialmente carcinogénicas. Ao longo das duas décadas subsequentes à sua descoberta, deficiências na ubiquitinacao foram implicadas na etiologia de diversas doenças, como a fibrose cística e algumas formas de cancer cervical.
Como nota de rodapé, preciso lembrar que assim como Che Guevara, Richard Axel, vencedor do Nobel em medicina e fisiologia de2004, também foi imunologista antes de “cheiroso”. Nao sei bem como este fato crucial escapou a Susana no seu o ótimo texto sobre o assunto, até porque estamos perante um padrão recorrente. Veja-se o caso presente da ubiquitinação: sua função mais importante certamente diz respeito à apresentação de antígenos aos linfócitos T! Está dada a dica: jovens, a imunologia é o caminho para a glória e sucesso.
Amanhã explico como a Nastassja Kinski era feinha e solitária antes de sua breve aventura com linfócitos, assim como o estudo das imunoglobulinas levou Edson Arantes do Nascimento a se tornar Pelé, o maior futebolista de todos os tempos.
Thiago Carvalho | 10:58 PM | Comentários (1)
outubro 13, 2004
Fernando Gonsales
Fernando Gonsales nasceu em São Paulo, Brasil em 1960. Formado em biologia e veterinária, os animais são quase sempre os astros de suas tiras. Só que, ao invés de nos brindar com bichinhos fofinhos, nos traz insetos, baratas viciadas em inseticida, morcegos, ratos que não se parecem o Mickey e outros párias. A tira circula diariamente em alguns dos principais jornais brasileiros, com o título Níquel Náusea (o nome de um dos personagens recorrentes, uma ratazana), tendo começado na Folha de São Paulo, há 16 anos.

Thiago Carvalho | 12:26 AM | Comentários (5)