fevereiro 10, 2007

Ciao!

Mfuscata.jpgEstou de saída. Tenho vontade de participar em algo que me permita escrever sem a preocupação de dar um "spin" científico a cada ideia que tenho.
A participação neste blogue foi muito positiva. Permitiu antes de mais aprofundar amizade com pessoas que conhecia pouco mais que de vista e nelas descobrir qualidades inesperadas. Reconheço principalmente a Sofia, o Ricardo e o Santiago, grandes ajudas na árdua tarefa de desdramatizar a vida. Agradeço-lhes também, principalmente ao último, a muita argúcia na mirada com que raramente deixaram passar em silêncio um acto ou palavra (ou omissão) que pudessem atentar contra as "liberdades".
E, falando de tolerância, quero declarar arrefecida a minha reacção ao post que a este precede. A clarificação dada pelo autor ao responder aos comentários completou o conteúdo do texto e foi suficiente para o meu entendimento da sua opinião. Se a minha atitude deixa algum aspecto de fanatismo ou intransigência, peço desculpa. Não quis com o meu comentário tirar ilações acerca da intenção de voto do autor nem insultar a sua inteligência. Temi apenas que fosse doravante costume do Conta a apresentação de textos de interpretação variegada e desprovidos de explicações quanto à sua escolha.

Bruno, para ti, "aquele abraço".

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VB | 10:58 PM | Comentários (1) | TrackBack (0)

fevereiro 7, 2007

Matriz

flyOUT1600.jpgQuando eu andava na faculdade, a fórmula didáctica de ensinar Bioquímica resumia-se a um programa a dois tempos: apresentação dos processos moleculares básicos do metabolismo e integração dos mesmos ao nível sistémico. Neste (segundo tempo), acumulavam-se os nomes, fórmulas, reacções químicas, ciclos, "shunts", transportes e transduções de sinal. Os colegas mais dedicados ocupavam o pouco tempo que lhes sobrava à carolice de representar graficamente tudo o que aprendiam. Enrolavam-se assim em canudos mapas metabólicos, mais esmiuçados que bordados de bilros, onde a enorme complexidade do todo dava afinal a sensação de pouco informar.

Tal como em relação a tantos outros factos da vida, estava então longe de saber que era desse tipo de dedicação aparentemente inútil o futuro das ciências biológicas. Na era pós moderna, o cérebro electrónico da máquina é guardião das bases de dados e do genoma decorado e o que importa é a representação dos seus mapas. Mapas de interacção entre proteínas, mapas de co-expressão das mesmas, mapas de fenótipos mutantes. Cada interacção e cada semelhança fenotípica ou de expressão entre dois genes cria uma ligação, um segmento de recta entre dois pontos. A orientação desses pontos no espaço, a grossura, comprimento e cor da linha que os une, tudo contém informação. Depois, como antes, integra-se.

No fim, a sobreposição dos mapas produz à vista desarmada a ilusória semelhança com o guia de transportes colectivos de uma mega babilónia futura. A diferença é que o cérebro da máquina é também capaz de dissecar, aumentar a ampliação e desvendar o detalhe desta rede de "pontes"; caroço por caroço. Para quem percebe do assunto, esta passa a ser a nova estratégia para formular hipóteses acerca do funcionamento de um sistema. Mais ainda: se comandada pelo seu "silicónico" mestre, a máquina pode tirar um retrato do mapa em cada momento do desenvolvimento de um embrião, ordenar os retratos em fila e passá-los rapidamente diante dos nossos olhos, reproduzindo-nos a versão real do que foi outrora sonhado pelos Wachowski.

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VB | 5:25 AM | Comentários (6) | TrackBack (0)

fevereiro 6, 2007

Ciência canção

brasil.jpg Embora já não muito original, a concretização de um samba-enredo acerca da Ciência só não ganha aspecto nerd quando é o Gilberto Gil a compor. (Como ele próprio diz, Sei que a arte é irmã da ciência, Ambas filhas de um Deus fugaz, Que faz num momento, E no mesmo momento desfaz...)
Aos laivos nacionalistas do poema devem fazer caso os que secretamente não achariam cool um fado com o mesmo tema.

Ciência e arte

Tu és meu Brasil em toda parte
Quer na ciência ou na arte
Portentoso e altaneiro
Os homens que escreveram tua história
Conquistaram tuas glórias
Epopéias triunfais
Quero neste pobre enredo
Reviver glorificando os homens teus
Levá-los ao panteon dos grandes imortais
Pois merecem muito mais

Não querendo levá-los ao cume da altura
Cientistas tu tens e tens cultura
E neste rude poema destes pobres vates
Há sábios como Pedro Américo e Cesar Lattes

Gilberto Gil, 1997

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VB | 2:41 PM | Comentários (1) | TrackBack (0)

fevereiro 5, 2007

Inteligência

2006_sb_coaches.jpgOntem os "potros" ganharam aos "ursos" num dos maiores acontecimentos desportivos do ano nos EUA. Estava escrito.

Em 41 anos de existência, nunca se registaram equipas dirigidas por Afro Americanos no Super Bowl. Este ano, tanto Lovie Smith (Bears, Chicago) como Tony Dungy (Colts, Indiana) são de raça negra. Mas disso pouco se falou nos meios de comunicação. Coisa boa a priori, pensaria eu. Infelizmente, a razão do silêncio pouco teve que ver com a igualdade racial finalmente assumida pelos media e reflectida, realmente, no colectivo.

Primeiro pensei que outros interesses "naturalmente superiores" tivessem ocupado lugar cabeceiro no rescaldo ultra dissecado do jogo de ontem. Como por exemplo, o facto de ter rompido records de audiência emissão televisiva, simultaneamente representando para o respectivo consórcio um lucro significativo e um acrescido peso imediato no mercado bolseiro de Nova Iorque.

Mas não. "Googlear" Super Bowl hoje significa encontrar um número pouco usual de ligações a portais da imprensa cristã estado-unidense. Parece que outro aspecto em comum entre as duas equipas técnicas finalistas é o fervor religioso. Muito à semelhança dos brasileiros numa final de outro tipo de jogo, Tony Dungy apontou logo para o alto ao soar do clarim final (embora Smith nunca tenha indicado o chão, digo Inferno, no seu momento de derrota). Diz quem viu que, pouco depois de receber o objecto de todo um ano de esforço, Dungy dedicou-se a um discurso acerca da justiça divina, da caridade e demais virtudes teologais, e de como, principalmente, o resultado final ter sido (ao contrário do que a maioria supunha) uma escolha única e exclusivamente divina, uma vez que ambos finalistas eram ... good christians.

Apesar da lógica duvidosa, um alívio parcial. Por momentos pensei ver o seu catequizar a apontar quilhas rumo ao intelligent design.

VB | 6:58 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 2, 2007

Lufthansos

old_lufthansa1960_01a.JPGEscrevo do avião, cinco da manhã em Vila do Conde, meia-noite em Nova Iorque. O passageiro transatlântico de segunda classe experimenta da Lufthansa a objectividade (convencionada como) "tipicamente alemã". Um claro exemplo que demonstra o porquê daquele bilhete ser o menos caro de todas as ofertas "online" é o entretenimento disponível. Um único, mísero filme (com um título à altura do conteúdo) que só duas pintas de cerveja, um gin tónico, três copos de maduro branco e um Baileys podem tornar “assistível”. Junto o consumo deste último licor à seguinte confissão: nem a Akeelah nem a sua abelha soletradora (mais uma sugestão hollywoodiana de que nos EUA só é possível a emergência do gueto ou para o estrelato desportivo ou para profundidades etimológicas) foram capazes de arrancar-me uma lágrima. Porém, perante a impiedade destas linhas aéreas para com o meu vício de "infosurfista" (preço da Internet nos aviões: 26 dólares à hora), derramo calmamente o meu pranto entre as horas ténues que separam o hoje do ontem.

Um documentário narra a saga do Jardim Zoológico de S. Diego que durante três anos procurou com sucesso a reprodução de Pandas em cativeiro. Afinal uma produção interessante do Discovery Channel que inclui novidades científicas conseguidas através de cuidadas e (por conseguinte) trabalhosas horas observando o comportamento, habitat e demais aspectos do nicho destes animais. O melhor do estudo de Ailuropoda melanoleuca permitiu o nascimento de uma cria em cativeiro, um fenómeno que adquiriu proporções mediáticas inesperadas e contribuiu assim para a popularidade da (a meu ver) única vantagem do zoo: condições controladas para a preservação das espécies. O Washington Post até ofereceu (se é que ainda não oferece) durante meses o acesso gratuito a uma câmara de televisão que permitia a observação permanente da cria.
Repentinamente, uma metamorfose a telenovela: alguém da equipa californiana deixou de lado o desenvolvimento do “urso” recém-nascido para ler mensagens aparentemente colhidas ao acaso entre o abundante correio electrónico chegado ao seu servidor. Uma delas vem do Iraque. Diz o soldado que assistir em directo ao crescimento da cria ...jorrou luz, conforto e esperança sobre aquele seu ambiente; que ele e os colegas deixavam diariamente os tiros para espreitar a filha da Bai Yun; que se sentem mais unidos, etc...

E foi assim que um passageiro à procura do sono, de nádegas semi calosas, escarro flutuando no caldo, cai vítima de uma espécie de tortura "kubrickiana". Não é a preocupação da Madonna com o futuro da Humanidade (a propósito da educação da Britney Spears) o principal sinal da acelerada degradação da nossa espécie durante os últimos vinte anos. Nem sequer o é a suspeita de que tantos jovens de outrora travaram conhecimento com a música africana através do Graceland enquanto os de agora contentam-se com o Rei Leão. O que me aterra é termos chegado a um ponto de tão escassa escapatória a esta maquina gigante que, sem hesitar, transforma em propaganda o emprenhar de um ursídeo.

VB | 1:14 AM | Comentários (2)

fevereiro 1, 2007

Ano Novo, "Casa" Nova?

Para dar prioridade à sua "frescura", uma notícia não traduzida mas enormemente "ansiada" pela comunidade científica (principalmente de biomédicas) estado-unidense.


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Dear FASEB E-Action Member:
Great News! I am very pleased to report that the House of Representatives just voted to pass the FY2007 Joint Funding Resolution, which includes a $620 million increase for NIH, and provides significant increases to the National Science Foundation ($335 million increase) and the Department of Energy's Office of Science ($200 million increase). The Senate is expected to take up the measure next week. However, it's widely expected that the Senate will fully endorse the FY2007 Joint Funding Resolution.
I also want to thank you again for urging your Congressional Members to support increased funding for the National Institutes of Health. House and Senate leaders met over this past weekend to finalize the FY2007 Joint Funding resolution. The voices of our key Congressional supporters [Senators Tom Harkin (D-IA) and Arlen Specter (R-PA) and House Appropriations Chairman David Obey (D-WI)], as well as the thousands of FASEB Society member scientists who took the time to write, were clearly heard as Congressional leaders agreed to provide NIH with a $620 million increase in FY2007. Thank you for helping make a difference.
Leo T. Furcht, M.D.
FASEB President

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VB | 9:22 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Dialéctica codificada

sofa_wolvercote.jpgLewis: we all want to keep our jobs...
Morse: we are not all engaged in a high-minded persuit of the truth.
Lewis: well, not high-minded, perhaps... but we want to know, don't we?
Morse: yes, Lewis, we have that in common: policeman and academics. But the difference is that we'd be sacked for withholding information.

Relações entre dois personagens, em livro, filme ou teatro, que com o contar da história representem também o conciliador equilíbrio dinâmico entre dois princípios opostos, tendem a ser do meu agrado. Crick e Watson, Marta e Maria, Marx e Engels (Batman e Robin?), tanto faz...
O caso é que é esta a explicação mais racional que encontro para o meu secreto amor pelas duplas de detectives. Não me refiro tanto à discreta veneração passiva do amigo do Holmes e seu garantidor pessoal de álibis, mas do carácter prático e recto de Lewis (Kevin Whately) que com o seu chief inpector (John Thaw) durou treze anos sobre os ecrãs da grande audiência britânica, numa histórica série policial. Sinto saudades do Morse, da sua enorme cultura, do seu Jaguar vermelho e dos seus dilemas afectivos (maiores ainda que a dita cultura), dos quais encontrou refúgio na judiciária de Oxford. É certo que os humanos fizeram da existência esta cadeia sem fim de possíveis "spines" onde há sempre um modo de relacionar algo com qualquer outra parte do resto. Não será contudo mais que coincidência o número de paralelismos possíveis entre cientistas e elementos das "forças da ordem"? E se aqueles não forem fabricações, serão justos?

VB | 5:56 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

setembro 18, 2006

Os Batas-molhadas

labcoat11.jpgNão se refere este post a um qualquer concurso estival para a eleição da(o) mais sexy cientista do ano. O título, por afinidade à sempiterna problemática de quem cruza a fronteira a salto, alude a um outro tipo de problema: qual o nível de tolerância racial dos cientistas. Ou, ainda mais simplesmente: os chineses.

Tenho encontrado vários elementos de racismo antiasiático no comportamento de um número crescente de colegas. Um desses elementos é o estereótipo fácil, invariavelmente associado a aspectos "desagradáveis" à "etiqueta ocidental". Outro é a frequência com que a etnia é usada na identificação do sujeito pelo narrador caucasiano em acções condenáveis: "O chinês deu uma canelada ao John". Um último exemplo é, como analisa Cornell West no seu Race Matters, o constante relevo dado às acções imorais dos marginalizados ignorando a responsabilidade pública pela circunstâncias imorais que os afectam.

A extensão destes e outros "sacramentos racistas" à nossa comunidade científica tem como grande bode expiatório o vínculo entre raça e cheap labour. Não são incomuns os casos de pos-docs chineses a ganhar muito menos que "os outros", apenas descobrindo o "ardil" anos mais tarde, na hora do despedimento. Talvez isto se deva em parte ao preconceito comum de que os chineses comem qualquer coisa e vivem todos juntos, naquele quarteirão onde tudo é mais barato. Aliás a própria "guetização" dos cientistas chineses é apresentada como consequência exclusiva do comportamento dos mesmos. Também conhecem-se exemplos de investigadores principais que vêem as mãos chinesas como laboriosas, incansáveis e dispostas a trabalhos de terraplanagem. Dessas sobre as quais depositam um estojo para géis de electroforese antes de trancá-las no armário do vão da escada e esperar o "Pdf" num par de horas.

Sendo o racismo independente da educação, não deveríamos esperar ao menos algo da inteligência? Pessoas com doutoramento em ciências ainda são capazes de cair na armadilha do "vêm para cá roubar-nos as posições"?
E quem poderá ainda crer naquela máxima de velhos apaziguados: "Em ciência só conta a razão"? Com efeito, acho mesmo o contrário, isto é, que com tantos desconfortos antichineses esquecemo-nos de perguntar o que se faz no país que levou a cabo a sequenciação da Oryza sativa. A sabe-lo, nós os falantes de inglês esqueceríamos o mito do tecnológico chinês e descobriríamos a utilidade de mais traduções de relatórios. É mais vantajosa a tolerância que a simples utilização de beldades para salvar a honra a filmes de terceira.

VB | 12:45 AM | Comentários (0)

setembro 15, 2006

GM kids

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VB | 10:28 AM | Comentários (0)

setembro 11, 2006

Mosquito na Sopa

palu4.jpgSendo uma das principais causas de morte entre membros da nossa espécie, a infecção por Plasmodium falciparum através de vectores do género Anopheles duplicou nos últimos vinte anos e duplicará novamente no próximo par de décadas. Esta e outras doenças de epidemiologia semelhante, continuam a ser o estigma dos países pobres.

O uso de vectores geneticamente modificados no combate a doenças transmitidas por insectos conheceu um incentivo recente com a atribuição de cerca de 20 milhões de dólares a um grupo de investigação sediado em Irvine, Califórnia, por parte da Fundação Bill e Melinda Gates. Com o objectivo de impedir a transmissão substituindo populações de vectores por outras de mosquitos resistentes, a iniciativa tem suscitado um debate que já vai entrando na adolescência. Alguns pontos óbvios nesta contenda:

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VB | 3:58 AM | Comentários (3)

setembro 9, 2006

Em defesa dos geeks do mundo inteiro.

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O tema principal da semana passada foi, na Time Out New York, uma classificação em paródia de vários estereótipos do nerd na cidade, dita New Dork City.

Claro que a primeira e mais evidente vítima da lista é o ur-nerd, o cientista caixa d'óculos, alérgico ao desporto, com o nome escrito nas cuecas e (principalmente) retratado pelo homem da Microsoft. Confesso: causou-me mais desconforto isto que qualquer brasileiro a contar piadas de padaria.

Felizmente, neste último número, a carta eleita como da semana foi escrita por uma colega minha defendendo com unhas e dentes a coolness do cientista. Pena é que a mensagem confirme o que afinal tenta negar. Mais, o meu optimismo obriga-me a crer que a frase que conclui a missiva tem como único objectivo o riso do leitor.

VB | 12:36 AM | Comentários (2)

agosto 28, 2006

Oops! ou Cinismo na Sub-Sub-Secção

spellingsbush.jpg Quando rio das declarações ou actos zelotas da ultra direita religiosa yankee, nunca sei se o faço por simples alternativa ao pranto ou se por querer reconfortar a própria consciência com a noção de que todo o cidadão extra estado-unidense é isento de tais fantasias. Infelizmente, esta última é mentira, a julgar pela tinta que já rolou (por exemplo) acerca de cruzes nas escolas portuguesas, véus nas francesas ou astrónomos nos observatórios italianos.

O fundamentalismo religioso do Ocidente não tem piada alguma. Não é inócuo tanto pelas guerras que ajuda a gerar como pelo modo pragmático e metódico com que tem atentado contra as liberdades e a razão.

Na semana passada mais uma prova deu à costa: um pequeno (mesmo despercebido) artigo no New York Times fala da omissão da Biologia Evolutiva na lista de cursos a cujos alunos de baixo rendimento económico é permitido o concurso a bolsas de estudo públicas. Ironicamente, o financiamento federal foi instituído este ano pelo Congresso com o título SMART (Science and Mathematics Access to Retain Talent).

Mas a ironia não acaba aqui. A exclusão de candidatos às bolsas SMART por quererem estudar Evolução foi explicada por Katherine McLane, uma porta-voz do Departamento de Estado da Educação, como um... lapso! Uma falta (aparentemente corrigida na passada sexta-feira) por omissão de uma sub sub secção na lista de cursos aprovados pelo Governo Federal para o ensino superior. Uma coincidência curiosa.

Ainda propósito da supracitada porta-voz, foi dito por Margaret Spellings, a Ministra da Educação que a nomeou: Katherine is a talented communicator who brings experience and integrity to the position. She gained a strong understanding of education issues during her time on Gov. Schwarzenegger's staff. Perdi de novo a compostura. Ri.

VB | 12:13 AM | Comentários (3)

agosto 21, 2006

Ficção Natural: guevedoce.

Three.jpgConta a lenda que perdida num oceano pouco distante havia uma ilha de gente invulgar, onde a pergunta Menina ou menino? raramente era feita à pertinaz gestante a respeito do seu embrião, mas ao(à) adolescente acerca de si próprio(a).
A culpa por tal dúvida de género provinha de uma herdada deficiência que intimidava o genótipo masculino por de trás do fenótipo oposto. Diz-se que a insuficiente produção de 5-alfa-reductase aplacava o primeiro pico de actividade da testosterona durante o desenvolvimento do macho humano. Só na adolescência viam os testículos a luz do dia, crescia desproporcionadamente o que antes se julgava clítoris, soava o soprano onde primeiro tinia o contralto e eriçava-se de penugem o que antes era "dermicamente" macio.
Naturalmente, a gente dessa ilha teria constituído uma Atlântida para os antropólogos. O conceito de comportamento desviante era necessariamente distinto do nosso. Nas festas de escola secundária, nada de dramas: ninguém era obrigado a dançar aos pares. O cor-de-rosa era considerada uma tonalidade do vermelho não apenas desprovida de nexo mas também de sexo. A primeira geração nunca fazia e (sobretudo!) impunha planos para o futuro da segunda. Cada pessoa possuía assim uma predisposição acentuada para o "normal absoluto", isto é, para a bissexualidade descomplexada.
Quanto de doença haverá afinal na insensibilidade a androgénios?

VB | 12:00 AM | Comentários (2)

agosto 14, 2006

Anel3

phaeno.jpg
Foi através de um artigo da biógrafa Jean Strouse num dos últimos números do New Yorker que conheci o trabalho de Gerhard Trimpin. Com a complexidade de princípios, de definições e de origens que o presente apresenta o mundo da criação artística, Trimpin é alguém de difícil descrição. Não se trata exactamente de um outsider, uma vez que recebeu formação académica. Tampouco é um músico, apesar da busca inquietante que lhe preencheu a juventude, e do papel central que "a arte do som em movimento" desempenha no seu trabalho. Contudo, contrariamente a S. Agostinho, o autor desta definição, Trimpin quis realmente criar "sinais sensíveis" para o tal movimento, tornando-se assim escultor, inventor, matemático e físico com recurso à electrónica.

A arte de Trimpin, segundo ele próprio, consiste em esculpir para o cego "ver" e em compor melodias "audíveis" ao surdo. Foi dela que se extraiu o "Roots and Brunches", um gigante turbilhão de guitarras "auto afináveis" que decoram com forma e som o edifício do experience music project (EMP), construído com puro capital Microsoft. Outro exemplo é o "”rgão de Fogo" no qual Trinpim controla, através de um software, a intensidade da chama dos bicos de Bunsen instalados na base de tubos de ressonância, permitindo a variação de pressão e consequente produção sonora. Também aqui em Nova Iorque esteve (no Hall of Science) a instalação Liquid Percussion: um instrumento musical gigante em que a frequência das gotas de água caídas sobre diferentes superfícies podia ser controlada através de um teclado de piano.

Apesar do vínculo inquebrável com o "silicone", e que aliás parece ter motivado a mudança da sua Alemanha natal para Seattle, Trimpin diz-se defensor do acústico. Pessoalmente vejo-o como explorador dos mistérios escondidos pela superior olive. Com esta podemos determinar a origem de um som mas percebemos, a diferentes distâncias, um variegado leque de dissonâncias entre dois tons sempre iguais. Veja-se (ou oiça-se) por exemplo a sua Coloninpurple, instalada no Museu Ojay Valley em Ventura, Califórnia.

Tudo isto para trazer ao Conta a mais recente produção de Gerhard Trimpin: Der Ring3, a grande escultura sonora que recebe suspensa no átrio de entrada os visitantes do Centro Phaeno de Ciência Naturais (mais uma magnífica obra saída dos estiradores de Zaha Hadid, cujo trabalho se encontra exposto até Outubro no Museu Guggenheim de Nova Iorque). Com base num estudo anterior exposto em Seattle, Trimpin explora aqui o som do movimento perpétuo. Não tanto como "mais uma acha" para a discussão inconsequente (e, por sinal, igualmente perpétua) mas como pretexto para uma nova ideia, a instalação consiste em três esferas girando em trajectórias circulares e concêntricas dispostas numa estrutura vertical. Invisíveis, os cabos que sustentam do tecto os três elementos do trabalho ligam-se à caixa de velocidades de um motor controlado (pois!) por computador. Assim à vista desarmada, não se sabe se são eles ou as esferas a causar o "bamboleio dos anéis" e correspondente ronronar. Apenas se sabe que o ruído existe e que é atraente ou desconfortável conforme a frequência relativa dos três movimentos.

Até ao momento não me perguntei o que mais existe no Phaeno, que tem de científico ou de tecnológico e se valeu ou não a pena o dinheiro público para fachadas tão futuristas. Sei apenas que no seu dissimulado epicentro reside algo de potencialmente belo.

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VB | 12:05 AM | Comentários (0)

julho 3, 2006

A Consolação

wallace.jpgRealizou-se na semana passada, em Creta, a 16a edição de um workshop sobre Biologia do Desenvolvimento, com o patrocínio da EMBO. Quem dos "blogonautas" ali esteve presente e queira resumir o aprendido, o nosso endereço de correio electrónico encontra-se no canto superior esquerdo desta página.

Por enquanto, o que mais atraiu a minha atenção ouvindo um breve resumo dos acontecimentos, foi a notícia de um prémio entregue no início do referido encontro, intitulado "Franklin and Wallace" e destinado a cientistas cujo reconhecimento tenha sido inferior aos seus méritos.

Quanto ao Franklin, suponho tratar-se do Benjamin, que aliás sempre me pareceu mais ligado à tecnologia que à ciência. Perdoem-me a heresia. Além disso, que reconhecimento maior poderá ter um homem senão a presença da sua face numa nota de dinheiro?
Quanto ao outro, perguntei a um colega: "Wallace? Qual Wallace?" Responde-me ele: "Não será o do Darwin?" No mesmo instante esclareceu-se não apenas a identidade do subestimado como também a importância do dito prémio.

O optimismo cresce. Ao cabo de uma vida de artigos com impacto "assim-assim", floresce ainda a esperança de um cubo de açúcar lambido nalgum recanto tranquilo do Mediterrâneo.

VB | 4:54 AM | Comentários (10)

maio 24, 2006

Montra Natura

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Corte sagital de um cérebro de murganho, ao nível do telencéfalo. O vermelho marca células que expressam o factor de transcrição Nkx6.2 e o verde, interneurónios onde a expressão da GFP (green fluorescent protein) está sob o controle do promotor de outro factor de transcrição, Nkx2.
Foto de Marc Fuccillo, Programa de Doutoramento em Genética do Desenvolvimento, Skirball Institute of Biomolecular Medicine, Universidade de Nova Iorque, USA.

VB | 5:01 PM | Comentários (0)

maio 21, 2006

Barroco

O seminário que acabo de assistir era rico de maneirismos científicos.

A maioria consistia no animismo aplicado por bastantes dos que encontraram emprego nas ciências biológicas, quando dissertam sobre os seus modelos experimentais. (Ouve-se por aí que as moscas estavam "felizes", que as células "não gostam" disto ou daquilo, que o cerebelo "decidiu" formar-se sem tal e tal lobo, que certa molécula "fala" com outra, que o neurónio migrante não "sabe" por onde ir, etc.) Tais hábitos de linguagem nem aquecem nem arrefecem. Ainda que imprecisões, não deixam de ser parte de quem, por ser humano, necessita de metáforas, de desesperadamente demonstrar que não é tão geek quanto parece, ou ambos.

Dentro desta categoria de rococó empregue no discurso científico, está a o verbo "sacrificar" para descrever a acção de matar animais. Ou por estar particularmente distraído ou por ser aquela uma palestra mais aborrecida do que o respectivo anúncio permitiu adivinhar, perdi-me entretido na reflexão acerca deste "sacrifício". Há muitos cientistas que usam tal expressão (de resto pouco relevante) nas suas alocuções. Quase sempre são pessoas que estudam ratazanas ou camundongos. Nunca ouvi alguém descrever o modo como as bactérias, leveduras ou moscas-do-vinagre foram "sacrificadas". Eu próprio não penso que "sacrifico" as últimas, mesmo quando as estripo vivas.

Mas o "sacrifício" tampouco se limita a "coisa de vertebrados". Ninguém a trabalhar com peixes ou galinhas usa tal termo. Mamíferos, pois. Nesse caso, que diriam, se os houvesse, os cientistas dedicados à fisiologia ou genética dos ornitorrincos? Poderia tão pequeno detalhe alimentar afinal discussões inflamadas? Creio que alguém capaz de gastar o tempo de uma conferência pública mencionando o "sacrifício" dos seus mamíferos seria muito capaz de criar um platypus gate.

Não creio porém que se trate de uma expressão exclusivamente filogenética. Aposto que muitos dos homens e mulheres que se referem ao "sacrifício" de ratinhos sobre a bancada do laboratório, não hesitariam em matar à vassourada um indivíduo daquela mesma espécie encontrado sob o lava-loiça do apartamento. Os providos com um pouco mais de remorso, talvez procurassem um modo menos "desumano" de eliminar o bicho, como as selvagens (mas rápidas) ratoeiras de mola ou os mais cruéis (para os roedores) mas menos perigosos (para os hominídeos) papéis de cola. Os verdadeiramente sensíveis pagariam a um exterminador (não sacrificador) para "limpar-lhes" a cozinha. Raríssimos seriam os que procurassem recolher vivo ao invasor de espaços domiciliários, para soltá-lo de regresso ao seu habitat "natural" (seja lá o que for natural no habitat de um rato urbano).

Como atenuante devemos considerar a possibilidade do cientista que declara ter "sacrificado" tal e tal ratazana durante o seu procedimento experimental, pretender apenas "amaciar" a fúria de um hipotético "fundamentalista dos direitos dos animais", eventualmente "infiltrado" na audiência. Um simples vocábulo lograria assim mudar a intenção original do zelota em encher de granadas as batas dos presentes e depois ir para a prisão concluir a sua existência com uma greve de fome.

O "sacrifício" poderá finalmente referir-se ao perpetrador. "Senhoras e senhores, foi com grande mágoa que retirei a vida àquele animal!" "Sacrificar" aparece assim com a qualidade paliativa para a consciência de quem, achando-se "superior em espécie", quer justificar um acto que (no fundo, no fundo) entende mau, a priori. Aqui o escrúpulo passaria a chamar-se mentira.

Sacrifices.jpg

VB | 12:43 AM | Comentários (2)

maio 15, 2006

nanoNatura

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A expressão "nano ciências" não passa de mais uma manobra de marketing para vender ao grande público algo de definição ambígua e credibilidade nebulosa ao primeiro contacto. Um exemplo mais palpável é o da palavra (ou quase-prefixo) "Engenharia", ajuntada ao título de variadíssimos cursos de Ciências que de outro modo não atrairiam mais candidatos que aqueles já quase desesperançados de ingressar no Ensino Superior.

Num aquecido debate acerca das "áreas prioritárias" para o investimento de capital público na investigação científica portuguesa, foi aqui questionada, por alguém que se acha "desgraçadamente português", a atenção do nosso Governo às "nano ciências". Distracções à parte, devo pronunciar pouco clara a intenção do referido "comentador": o sentido do seu epíteto relaciona-se mais com o desencanto da nacionalididade ou com, dado o contexto, a estatura (ou QI?) média do povo Luso? Em qualquer dos casos procurei, de modo proporcional à minha presente disposição de tempo, alguma informação básica sobre o(s) assunto(s).

Ainda que com o conceito de "Ciência" entrançado na sua semântica, uma "inesperada" anfibologia caracteriza a panóplia de campos, interesses, questões e consequências contidos no "grande" mundo das "nano ciências". Pergunto:

- As "nano ciências" referem-se ao salário médio dos post-docs?

- Esta "área emergente" alude ao esforço tecnológico de "miniaturização" da existência ou ao científico de "reorganização" da matéria ao nível atómico, com o intuito de modificar a matéria?

- Que tipo de investimento tem sido feito sobre o "nano mundo" e por quem? Que significado poderá isso ter no futuro da Ciência?

- Em que consiste realmente o B.A.N.G. (bits, atoms, neurons and genes) e o que comporta o conceito de "Tecnologias Convergentes"?

- Porque é que a Ecologia e a Saúde Pública são raramente abrangidas por tais "convergências"?

- Será que graças às "nano ciências" o trabalho do cientista deixará de ser "simplesmente" o de conhecer e controlar a matéria para tornar-se o de um "criador de propriedades" novas, desconhecidas e, provavelmente, indomadas?

- Exagero com tantos medos?

Numa recente publicação, Bernadette Bensaude-Vincent, professora de Filosofia da Ciência em Paris, diz que as "nano tecnologias"...são uma oportunidade, uma ocasião formidável para interrogarmo-nos sobre as técnicas, sobre o seu sentido, a sua evolução, as suas implicações e, se possível, para devolvê-las ao debate público."

Crie-se pois esta "nano série" que se inclina sobre o futuro do infinitamente pequeno.

VB | 12:58 AM | Comentários (17)

maio 7, 2006

Ficção Natural: fatum.

V4Vcover.jpgAlan Moore é assim como uma espécie de Tony Kushner da banda desenhada. A sua extraordinária capacidade de envolver o leitor numa teia de ideias originais, onde numerosos elementos da nossa cultura e fantasia desenham cenários fascinantes e fenómenos sociais fáceis de entender, faz com que ele, o leitor, quase se impacienta de não ver passar um "herói" alado pela janela de 25o andar do seu apartamento em Manhattan. Moore consegue colocar em relevo o que de mais atraente existe na Ficção Científica: o formidável que se transforma em plausível.

Este escritor é também capaz de reunir com humor os quatro cantos das nossas mais remotas memórias etnográficas, integrando o jazz com o clássico, o comunista com o fascista, a cultura pop com a erudita, e por aí fora. Como resultado, equacionamos muitas variáveis em simultâneo e, embora cheguemos a conclusões bem pouco distantes das que encontramos ao ruminar sobre a "vida real", consolamo-nos com ideias de utopia, com as surpresas que o futuro poderá trazer. Esta capacidade de escrever acerca de tudo surpreende mesmo os mais snobes pirrónicos desta forma de arte. Por exemplo, na saga Watchmen, Moore brica com a suposição de que o que o Ocidente assistiu durante a Guerra Fria ocorreu de modo completamente independente do conhecimento científico que a humanidade tinha ou pudesse ter tido. As diversas acções que ocorrem em paralelo (e ainda outras que decorrem em livros de banda desenhada que os próprios personagens vão lendo) são intercaladas com textos de ficção que complementam o que o desenho não é capaz de transmitir. Até textos de carácter ornitológico podem ser reescritos com acrescida beleza neste quadro futurista (Maradona? Por onde andas? Píu, píu,píu!).

Alan Moore foi recentemente anunciado ao "público global" através da conversão para o cinema de um dos seus textos mais premiados: V for Vendetta. Para a (esperada) infelicidade de ver grande parte da mensagem original ser "mastigada", "digerida" e "arredondada" sobre os grandes ecrãs do mundo, apenas encontrei refrigério na figura da Natalie Portman e na homenagem a Alexandre Dumas. Nem um nem outro se encontram no texto de Moore, cuja reflexão sonda as profundezas do terrorismo de estado, da luta de classes e de uma visão niilista da História. No campo científico "V" é provavelmente a narrativa com menor elaboração, embora contenha um aviso pouco novo mas continuamente caído no olvido:
V4Vscience.jpg

VB | 12:35 AM | Comentários (0)

maio 4, 2006

Fórum Novas Ciências - Manuel Sobrinho Simões

SSimoes.jpgSem querer dar a impressão de andar "a reboque" da Ciência HOJE, considero muito positiva e digna de comentário a compilação de transcrições dos discursos proferidos durante o Fórum Novas Fronteiras. Venho pois, por este meio, discordar com o que li da intervenção de Sobrinho Simões.

As constatações feitas pelo director do IPATIMUP acerca do Ensino Português são argutas e pertinentes, embora não me pareça que haja alguém a quem não se tenham afigurado óbvias. É como viver no Portugal de 1984 e proclamar solenemente a descoberta de que as estradas do país estão repletas de buracos. Ao que não dou apreço no discurso é o modo paternalista com que se inicia. Independentemente da diversidade académica do público daquele fórum, Sobrinho Simões denota uma certa falta de pontaria ao tentar identificar os reais interesses de quem exerce a sua investigação no domínio das "Ciências da Vida". Eu (e muitos outros cientistas, jovens e "idosos") não reconheço como fim último desta vocação o "...ser capazde fazer vida". Nem creio ser realmente esta "...a última fronteira das nossas Ciências". De um ponto de vista pragmático, o que queremos mesmo é publicar muito para poder obter o financiamento necessário à continuação da investigação. O nosso interesse é apenas parcialmente regido pelo que de facto nos dá gozo descobrir. A força que orienta a nossa mão durante um determinado procedimento experimental é pouco "romântica" e muito associada ao que é "moda" ou "quente" na mente dos editores da Cell. Tampouco é possível negar que muitos investigadores exercem por falta de outro remédio.

Como geneticista, também entristeço-me (isto é, não rio) com o frequente recurso, por parte de Sobrinho Simões, ao que "tem graça" ou "piada" neste ramo (ou, na verdade, em qualquer outro) da Biologia. Creio que a intenção de referir aqueles três exemplos de sucesso conseguido por geneticistas portugueses era a de estimular a audiência a aceitar a importância do nosso trabalho. A presença do poder PS na sala exigia uma certa "venda de peixe". Porém, não obstante a benignidade da essência, a forma apresentou-se nociva. Para lá da introdução em formato "Avô-Cantigas-vai-ao-jardim-de-infância", cada um dos exemplos tem um porte inconsequente. O significado real da descoberta da homologia entre H. sapiens e D. rerio para o "gene das riscas" deste último, passa incógnito e N√O É HUMILHANTE. Além disso, óptimos geneticistas "...como a Luísa Mota Vieira", não devem ter encontrado a sua força motriz científica no paralelismo entre a Nokia e o riso do Primeiro Ministro. A menos, é claro, que adorem a adulação recíproca (o que, de resto, não é incomum).

Por outro lado, a mobilidade como arma de combate ao inbreeding nem sempre significa que é saudável o realce sistemático de "... jovens que fazem trajectórias super-rápidas". Não digo isto como lamento pelo crescimento (igualmente rápido) da minha calvície, mas porque com tal política os "óptimos cientistas" que investem fortemente o seu capital de "tempo" em bons mas arriscados projectos, seriam injustamente punidos. Em que estado encontraríamos a Genética moderna se Gregor Mendel tivesse achado demasiado o tempo de geração de uma ervilheira?

Repetindo-me: é certo que a crítica de Sobrinho Simões tecida ao nosso sistema de ensino foi imprescindível (como toda a crítica deveria ser). A projecção de um "sistema científico" capaz de accionar mudanças fundamentais ao nível da academia tem um considerável valor (dado aquele não estar já irremediavelmente apodrecido com os males desta). Do mesmo modo, é necessária a desdramatização pública do objecto dos cientistas ditos "... da vida". Mas também é importante a aproximação correcta do protagonista ao espectador (e usando as mesmas figuras de estilo do orador), como a do futebolista aos seus fãs ou a do político ao eleitorado. Da minha nebulosa identidade ouso sugerir a Sobrinho Simões que redimensione a sua propaganda em prol da Genética e que visite, ao menos por um instante, o colóquio do próximo 3 de Junho, organizado pela associação Viver a Ciência.

VB | 4:07 PM | Comentários (7)

maio 3, 2006

Standing up scientists

A recente acusação de ser este um blogue sério, feito por gente séria para gente séria (etc., etc.), fez-me pensar no drama de ouvir um nerd contar anedotas. O problema não é termos sentido de humor mas antes encontrar suficiente público interessado...
Imagine-se, como fez Patricia Marx, o tipo de piadas "secas" que contaria um grande ícone da ciência caso se encontrasse diante de uma plateia na Village. Nem o seu companheiro alado (e provavelmente único espectador) se sentiria motivado para a repetição.
Não tentem obter do cientista o que não se encontra no seu (inteligente) design. É como pagar a pipa de massa que se cobra para ver o Woody Allen tocar clarinete ao vivo... e gostar.

einstein.jpg

VB | 7:46 PM | Comentários (6)

abril 30, 2006

Os Barões Voadores

nils_udo_21.jpg A mundialização, se existe, gira em torno do "triálogo" entre "fundações filantrópicas", organizações "militantes" e poder económico "multinacional". Como consequência do movimento de mobilização cívica que resulta, diz-se, da globalização, a chamada "elite internacional" encontra um novo tipo de poder. Tal elite é formada num espaço chamado Ivy League (embora esta seja afinal extra estado-unidense, por incluir claramente Universidades do outro lado do "Ocidente", como Cambridge, Oxford ou Sorbonne). Ali formam-se os protagonistas decisivos da nossa História presente: ONGs, políticos e capitalistas. Os jogadores deste póquer, que rege a nova governância mundial, trocam de campo com considerável facilidade. (já é esta a palavra oficial portuguesa? Ficamos com o neologismo? Usamos a velha governança? Perdoem-me os puristas) Um exemplo claro é o Benjamin Heineman, diplomado em Harvard, Oxford e Yale, funcionário de um gabinete jurídico de interesse público financiado pela Fundação Ford, membro do governo de J. Carter e ulteriormente Senior Vice President e Secretário do Conselho Geral da General Electric, a maior multinacional do planeta.

Pelo que tenho visto, o estandarte do Mercado do Desenvolvimento Sustentável (a cara lavada do que até ontem não era politicamente incorrecto chamar-se defesa do ambiente) é, como dizia o meu avô, "um pau de dois legumes". (Eu creio mesmo tratar-se de toda uma horta!) Se por um lado ele demonstra a possibilidade de entendimento entre os poderes da nova "sociedade civil", por outro pode ainda consistir noutro modo hipócrita de nomearmos o universal (os direitos humanos e da [boa] governância) para benefício do particular. Isto é, pessoas como o Benjamin tanto podem ser mercenários como elementos de unidade. Dá um certo medo.

Talvez por simples ironia conjuntural, os cientistas encontram-se no centro deste importante equilíbrio. Eles próprios saídos dos mesmos "altos-fornos do saber", podem funcionar como marionetes de interesses definidos (com possibilidades de escapar aos objectivos globais de progresso) ou como agentes de mudança. Basta que cada um tenha um "preço". Eles (nós!) foram, por exemplo, essenciais no processo de desempate quando a Fundação Ford tentou (com sucesso) mudar a rota de movimentos ambientalistas contestatários, como a Environement Defense Fund (EDF), em direcção a temas "mais responsáveis". O modo como certas ONGs "encorajam" os ecologistas a negociar com os industriais (e vice versa), com o objectivo de demonstrar que a protecção do ambiente não representa apenas um custo mas uma "fonte de lucros em potência", constitui uma "contra-ofensiva inscrita na grande tradição reformista do capitalismo filantrópico americano" com riscos globais ainda pouco avaliados.

A credibilidade dos "especialistas científicos reconhecidos" apresentados pelas ONGs, só poderia ser aceitável se as folhas de salário dos mesmos fossem anexadas aos respectivos relatórios. Caso contrário, veremos generalizado o famoso caso da limpeza do rio Hudson, imposta pela agência americana de protecção ambiental à General Electric (pura coincidência!). Poucos dias após a sentença, uma equipa "isenta", constituída por biólogos de renome, tornou público um relatório "alternativo" que defendia os recém-criados ecossistemas de bactérias que entretanto viviam do abundante PCB no rio morto!

VB | 12:59 AM | Comentários (0)

abril 23, 2006

Quem tramou Henry Louis Gates?

gates.gifCorre por aí a sentença: mentire humanum est. Pois, será do sapiens errar mas quem garante que mentir é, em qualquer circunstância, um erro?

Parece certo que a relação que a nossa espécie mantém com a busca da verdade preenche uma quantidade considerável de estantes em casa de filósofos, advogados e, obviamente, cientistas. Estes últimos fazem dela a sua praxis, embora por vezes a um ponto tão obsessivo que a invenção desiste de ser descabida. Talvez por isso os testes de DNA tenham chegado à categoria de ciência du jour em matéria de Identidade. Para o grande público, o "ácido do núcleo" deixou de ser (se é que alguma vez o foi) apenas a chave que decifra um código molecular: o indivíduo do presente procura no DNA a camada de passado onde as suas raízes se enterram. E como tudo tem um preço, a verdade última pode custar entre 200 e 1000 dólares.

Mas quanto de escrúpulo, de medo ou de vergonha existirá entre o entulho que a esconde? Quando a verdade de facto aparece nua diante daquela "outra", a emocional, à qual estávamos habituados de tanto ouvir contar, não poderá parecer surpreendentemente chocante? Aqui o DNA faz tremer a Antropologia uma vez que, para além do erro, também é humana a procura da certeza. Esta vontade subterrânea e desenfreada estabelece os "novos limites do conhecimento histórico", reabre valas e exibe o avesso das sepulturas, até satisfazer com mórbido fascínio a derradeira gota de curiosidade acerca dos mais antigos mistérios. Assim, muitos não se preocupam tanto com a instalação de máquinas de PCR nas naves lançadas para o espaço, desde que também se busquem entre terráqueas cinzas os vestígios genéticos de Joana d'Arc. E o impacto de um teste de paternidade que busque justiça a quem pariu ou foi parido? Deixou de ser tão grande como o que revela se o avô de um milionário de hoje foi capturado como escravo aquém ou além em ¡frica. O que trará de bom ou mau à memória colectiva a certeza absoluta destes tipos de passado? Pouco, digo eu. Mas para a existência de cada humano, já outro galináceo cacareja.

Aqui nos EUA, a Biologia associa-se cada vez mais à escavação arqueológica, às narrações dos antepassados, ao estudo de padrões migratórios e à recuperação de velhas transacções comerciais, num esforço colectivo pela reconstrução da história familiar de cada um. Infelizmente, tal objecto atrai a atenção dos meios de comunicação social apenas quando a poda se restringe à árvore genealógica de "proeminentes figuras Afro-americanas" como os comediantes Chris Tucker e Whoopi Goldberg, a académica Sarah Lawrence-Lightfoot e a (...não encontro profissão que a descreva) Oprah Winfrey. Daí ao show na TV vai um salto de pardal, como o demonstra a série da PBS intitulada African American Lives, organizado por em com base no trabalho literário de Henry Louis Gates Jr., director do departamento de estudos africanos e afro-americanos da Universidade de Harvard. Ele próprio, de boca aberta, descobriu da sua saliva uma verdade inesperada: aquela paternidade branca resultante da violação da bisavó escrava, não foi senão resultado de uma fabricação arbitrária por parte dos seus pais e avós. Mais, Gates descobriu que uma componente "caucasiana" existe no seu sangue mas deriva da parte materna e possui origens judias europeias.

No mundo da memória individual, o que nos chega à razão através da cultura pode ser desmentido pelo que vem da molécula. Será isto viver numa fábula? E qual a moral, se estas fábulas podem servir de lenitivo a uma realidade bastante mais dura que, quando descoberta, destrói-nos e obriga-nos a uma "reeducação histórica" num momento em que nos encontramos pouco preparados? Creio que a nobreza da procura não logra vencer o vazio do encontro.

Em todo o caso, a questão de transpor este problema estado-unidense para a sociedade lusa, por enquanto não se põe. Desconfio que tal deve-se não à falta de tecnologia ou a diferenças na política do tráfico de humanos, mas ao facto de a comunidade afro-portuguesa ser hoje demasiado pobre e rejeitada para que companhias de "Mitotipagem" vejam nela algum lucro em potência.

VB | 7:54 AM | Comentários (2)

março 21, 2006

Dilema

velhagrotesca.jpgFEV: forced expiratory volume, a razão entre a capacidade pulmonar real de um indivíduo e o valor esperado em condições óptimas de saúde, considerando os parâmetros altura, idade e sexo (isto é, masculino ou feminino, não muito ou pouco).
Um FEV exemplar deveria ser superior a 0.85. Consequentemente, a morbidade pode reflectir-se na diminuição desse valor. Por exemplo, a curva que descreve o declínio do FEV com o tempo em fumadores é dramaticamente mais acentuada que em não fumadores. Um fumador agarrado, com mais de 50 anos de idade, pode chegar a um FEV de 0.4, valor que para um não fumador saudável seria atingido, por extrapolação, ao século de vida. Durante o desenvolvimento do adolescente o FEV aumenta até atingir, em condições normais, um valor máximo aos 25 anos. A partir dos 30 o FEV diminui em contínuo até à morte. Esta decadência natural do FEV rege-se por um declive tão pequeno que, idealmente, a morte por asfixia (FEV<0.11) ocorreria para lá dos 120 anos.
Mas isso pouco importa, it's beside the point. O que custa a engolir é esta realidade: hoje cumpro 34 anos e dou por conseguinte mais um passo no pós-recém-estreado anúncio do ocaso.
É a bruxa fedorenta da velhice que vem com a sua língua de sépia dar-me as primeiras lambidelas destemidas na nuca. Não sei que faça. Demonstrar enfado para incorrer no risco de ofendê-la e passar da marmelada à canelada? Ou optar pelo riso fingido ignorando quanto do meu charme poderá apaixoná-la?

VB | 8:46 PM | Comentários (1)

março 15, 2006

Ficção Natural: vade ultra

superman-baby-buntings.gifO Superman gritou desesperado porque a mocinha morrera e voou furioso levado pela vontade cega de contrariar aquela realidade. Destacou-se assim o aspecto humano da sua super-natureza. Mas as semelhanças a Cristo não acabaram ali: ao ascender ao céu o Super-Homem também ultrapassou a estratosfera. A diferença esteve no facto de que Kal-El quis mudar o rumo à história, embora sempre com uma ressurreição em mente. Rodopiou em torno da Terra a uma velocidade de fazer corar a luz mas no sentido contrário ao da diária viagem planetária. Deu tantas voltas que o globo, por razões electromagnéticas ou extra físicas de todo desconhecidas dos astrónomos, teólogos e demais comedores de pipocas, mudou de spin retroagindo com ele o tempo. Foi assim que a comunidade "hollywoodesca" reflectiu boquiaberta acerca da função "Rew" no controlo remoto de Deus.

O biólogo, não precisou de cabine telefónica nem de super-amendoins. Desesperado pela lentidão da sua carreira, pelo comprimento das suas horas de trabalho e pela música estocástica que lhe guiava o bailarico da vida, quis negar a realidade e criar algo de memorável. Destacou-se assim o divino na sua natureza humana. Limpou a gordura do esparguete aos flancos encardidos da bata como se pudesse fazer o mesmo à memória dos oito meses de gestação imposta ao seu manuscrito por parte de um revisteca praticamente internacional. Naquele dia daria à história um devir alternativo através de uma sua auto infligida experiência: manipular os factores determinantes da actividade da DNA Polimerase de modo a reverter a sua função. Assim, ao transformar as suas próprias células com esse(s) gene(s), o biólogo fez com que a mega enzima desfizesse o que estava feito, soltando um poeiral de nucleótidos com apreciável libertação de energia. De fazer corar qualquer mitocôndria. Porém, sempre com a regressão em mente, o biólogo produziu afinal um recuo apenas fisiológico da sua própria constituição, uma redução semi-conservativa do seu material genético. Restava uma célula onde antes havia duas, diminuindo o tamanho do tecido, revertendo a morfogénese do órgão, recuando o desenvolvimento do sistema. O cabelo voltou a crescer-lhe, a barba era cada vez mais rara e a sua voz cada vez mais aguda. Rapidamente assistiu-se à reencarnação de um novo e real Benjamin Button, narrando ao vivo a adivinhação de Fitzgerald. A metamorfose foi tão significativa que o próprio biólogo passou a caminhar com os pulinhos coordenados de uma macaca imaginária. Após uma adolescência e infância galopantes o nosso herói expirou no fundo de uma alcofa, num infantário para órfãos algures na cidade. Desapareceu deixando apenas uma única célula diplóide sem saber o que fazer (e também alguns conhecidos boquiabertos).

VB | 12:04 AM | Comentários (3)

março 5, 2006

Biogaffe: Sociologicando

nerd1.jpg S.Diego em Abril é só sol diário e maresia omnipresente. Conheço uma pessoa versada em sociologia que, levada por acontecimentos furtuitos, encontrava-se naquela cidade durante esse mês, aproveitando despreocupadamente o dito clima no mesmo hotel onde decorria uma certa conferência de biólogos.

Como estou casado com essa pessoa, convenci-me que o que mais atraiu o seu "olho sociológico" à "fauna" do congresso foram não os bíceps dos estudantes mas os sinais sensíveis da obsessão geral: as "t-shirts" ilustrando insectos atacados de antropomorfismo, o ostensivo hermetismo da linguagem, enfim, o autismo (digamos) vestigial de insistir no tema das moscas-da-fruta.

"Vivemos num tempo de avançado conhecimento,..."
dizia-lhe um douto participante, como se entrevistado ao vivo no tapete vermelho dos ”scares. Embora nerd em desleixo, a sua camisola trazia uma ilustração distinta da média: um felino correndo na savana. Quase cool, não fosse a legenda em letra miúda versar: The chase for the most specific hot start PCR result is over!
"...por isso existem encontros tão especializados como este, em que não se discute senão um único organismo".

Abstendo-se de comentar a noção de "avanço" e temendo qualquer tipo de confronto ideológico acerca da velocidade das chitas ("quem ou que é PCR?"), a veraneante salvou-se do embaraço pela chegada de mais duas drosofilistas. Uma delas faz perguntas à pessoa que encontrou em companhia do seu amigo biólogo, querendo conhecer o seu laboratório de proveniência.

"Socióloga? Mas quê, socióloga de moscas?"

Não é assim tão triste que uma pessoa com doutoramento em biologia seja incapaz de reconhecer o sujeito da sociologia. O que realmente deprime é o facto dessa mesma pessoa gastar o resto da conversa defendendo a possibilidade "mais que cabal" de estudos sociológicos em moscas. Após uma tentativa frustrada para tentar fazer notar à seguidora de Morgan que a sociologia define-se pela relação entre indivíduos e instituições, a filha de Durkheim desistiu. Afinal de contas também é do sociólogo estar pronto ao confronto público, à gente que lhe cospe na cara, que arranca-lhe a barba ou, para diluir um pouco o exagero, que questiona constantemente a utilidade do seu campo de estudo.

Que o cientista tenha tendências para a secura do humor, já é sabido. Mas que além disso deixe transformar a soberba em ignorância, é aviltante. Será que a Abel Salazar ainda exibe no seu átrio a faixa com aquela famosa frase do homem que lhe deu o nome e a honra?

VB | 4:21 PM | Comentários (1)

fevereiro 19, 2006

Paralelos

polar_wideweb.jpgPresentemente, os estado-unidenses encaram a verdade como se só agora espreitassem pela porta entreaberta do armário de Imelda Marcos: quantas formas!

De um lado vêem o desolado cruzado da liberdade de imprensa falando em nome do Imperador e classificando como medieval não apenas a particular violência mas a geral indignação das comunidades muçulmanas diante das tais caricaturas de Maomé.

Por outro lado, assistem à chegada da notícia sem novidade de que o mundo está a aquecer, que os ursos são considerados, já sem relutância, como em perigo de extinção, que o Kilimanjaro ficou careca e que os furacões pioraram de humor. Pode ser que o alarmismo não passe de uma velha ficção emitida pelo "Restelo Global". Se tal for o caso, resta-nos a loucura de James Hansen, director do Instituto Goddard, associado à NASA, e iminente investigador do clima, que no mês passado acusou o Governo de impor-lhe contenção nas suas declarações públicas acerca do Efeito de Estufa. A cabeça de mais um bode rolou, neste caso a de George Deutsch, chefe das Relações Públicas da NASA e membro da equipa que (re?-)elegeu Bush em 2004. No entanto, continua ponto assente que cerca de 2 mil milhões de dólares serão "deslocados" dos projectos de investigação climática, como esparadrapo sobre as gretas de um mais "grandioso" projecto: a International Space Station.

Infelizmente ninguém senão o meu ídolo Bill Maher fez a fatal pergunta que une os dois parágrafos anteriores:

... but what could be more medieval than silencing a scientist?

VB | 10:50 PM | Comentários (0)

fevereiro 13, 2006

Ficção Natural: ad fruges.

Um jovem investigador de elevado potencial (JIEP?), produziu uma linha de moscas-da-fruta (Drosophila melanogaster) que sobrexpressavam em larvas todos os genes requeridos para a produção de canabinóides a partir de proteína de levedura, sem contudo permitir que estes atingissem níveis tóxicos para aquelas. Depois, amplificou o respectivo stock (cujos insectos também possuíam vantagens reprodutivas em relação aos do tipo selvagem) e, num belo dia de Primavera, libertou cerca 200.000.000 de indivíduos ao vento. Dez anos mais tarde o jovem, já não tão jovem, vivia de uma dieta exclusivamente baseada em bananas maduras, enquanto os traficantes de marijuana morriam de fome.

VB | 10:41 PM | Comentários (5)

setembro 16, 2005

O Macaco Anónimo

NewTiti.jpgO seu nome é Lucachi, um primata arbóreo (do género Callicebus) com pelagem alaranjada que leva na ponta da cauda preênsil uma malha branca. Da família dos titís, é tímido. Tímido e monógamo, Lucachi "inclina-se" à distribuição equitativa das tarefas essenciais de carregar os filhos na fuga dos predadores e procurar alimento na ausência dos mesmos. Ao fim da tarde, "gosta" de subir aos píncaros do seu arvoredo e comer a fruta que mais exposta esteve ao dia equatorial. Fermentados que foram os seus açúcares, com ela Lucachi se embriaga, a contemplar um sol vermelho que devido à rotação do planeta, é deixado para trás, além do leito do Undumo. Numa dança incerta de palhaço-trapezista, patas e cauda operam sobre aquele "aranhiço" cambaleante o milagre antigo atribuído à mão que deus bota por baixo do borracho e do menino. Sendo bêbada a sua condição, o titi é assim salvo. De resto muitas seriam as vergonhas do Éden diante desta floresta. Baptizada há apenas alguns séculos (nada, realmente!), o Parque Nacional de Madidi reúne numa superfície equiparável à do Alentejo, só em pássaros, mais espécies do que tudo o que tem penas e vive no continente de Lucachi desde o limite sul do Texas ao Pólo da famosa estrela.
E por falar em baptismo, desde que os primatas-sem-pêlo (essa versão "hominídea" do xoloitzcuintli) vieram com a sua linguagem canora, dar nome a tudo o que viam, aquele titi cor-de-laranja chama-se Lucachi. Embora, entre os macacos, seja rara uma língua muito mais rica que o dissílabo, o instinto etimológico sugere-nos que o nome Lucachi é a onomatopeia do vocábulo com que este macaco "fala" (na verdade, um espectáculo: cada um no seu galho, e, não obstante o olhar desconfiado, muitos aplausos e gritos. Luca! Luca! Luca!).

Continue a ler "O Macaco Anónimo"

VB | 12:49 AM | Comentários (4)

setembro 5, 2005

Ensaio

mice copy.jpg

VB | 3:55 PM | Comentários (0)

setembro 4, 2005

A Terceira Espécie

criança3.jpgAos olhos da Biologia, as crianças não são "os putos", "o melhor do mundo", a inspiração de poetas, a ternurazinha dos pais dedicados e o estorvo (ou até medo) dos mais desnaturados. Sentimentos à parte, as crianças são a pool genética, o melhor que uma geração em idade reprodutiva "conseguiu", no seu "esforço" para perpetuar a espécie. Ver assim as crianças é levantar uma série de questões que não são exclusivas de espaços dedicados à crítica ontológica das comunidades humanas.

Algures entre a evolução e a filosofia reside a base bioquímica da infância. Os cálculos de "escala biológica" que permitem, por exemplo, a adaptação da dose de um medicamento a um indivíduo tendo em conta os seus parâmetros físicos (como a massa e o volume), não são facilmente extrapoláveis para crianças. Com um processo de assimilação mais veloz e órgãos responsáveis pela degradação e eliminação de químicos (fígado e rins) ainda imaturos, uma criança de hoje, ainda que com o mesmo peso de um adulto de outrora (que as há e, infelizmente, cada vez em maior número) metabolizará mais rapidamente a mesma dose de droga. Como o fluxo sanguíneo para a pele e pulmões também é superior nas crianças, mesmo medicamentos de aplicação tópica podem ser mais rapidamente absorvidos.

Continue a ler "A Terceira Espécie"

VB | 11:17 PM | Comentários (8)

agosto 31, 2005

Biogaffe - Os Dentes

_40117520_anony_baby203.jpgUm artigo de divulgação científica saído anteontem na BBC noticia um estudo efectuado por um grupo da Universidade de Nova Iorque acerca da incidência de infecções bacterianas em crianças nascidas por parto natural ou por cesariana. A nota jornalística acaba também por involuntariamente demonstrar como a imprensa que populariza a ciência pode não apenas induzir em erro o leitor como potenciar os danos da má ciência junto da opinião pública. E isto por dividendos tão simples como salientar temas de (alguma) sensação ou simplesmente ocupar o espaço que sobra à edição.
O título e boa parte do artigo da BBC atraem os olhos falando da boca: de um grupo de 156 partos, as crianças nascidas por cesariana são infectadas por um agente da cárie (Streptococcus mutans) mais cedo que as nascidas por parto natural. O que o artigo da BBC deixa para o fim, após considerações especialistas acerca do benefício da vagina no desenvolvimento de resistências antibacterianas no recém-nascido, é que as mães em questão possuíam um nível cárie dentária superior à média e vinham de famílias do Alabama de baixo rendimento e com um historial clínico de doenças sexualmente transmissíveis. De facto, ao ler o relatório original, apercebemo-nos que os parâmetros estatísticos que dariam relevância ao factor "parto natural" para a transmissão de S. mutans são da mesma ordem de grandeza que os que sustentam o papel de factores como "tempo de gestação", "experiência de infecções transmitidas sexualmente" e "rendimento familiar".
É certo que embora limitando os planos de quem anseia uma família numerosa, a cesariana é prática constante nos hospitais europeus. Mas uma análise científica dos potenciais efeitos ou riscos, tanto sobre a criança como sobre a mãe, não pode, pela sua própria definição, seguir padrões ligados à superstição. Ouvimos falar das tendências depressivas dos nascidos por "parto cirúrgico" e que fazemos? Preocupamo-nos mais com o tratamento dos números que provam isso ou com a estratégia a aplicar para saber qual o modo como um(a) potencial namorado(a) veio ao mundo?
O desejo de, à base de iluminação néon, acender discussões públicas inexactas na decomposição do todo, não só instiga a decisões colectivas funestas como em nada melhora o interesse da comunidade pelo conhecimento científico. Os meios de comunicação social devem deixar de acreditar tanto na necessidade de "adocicar" os temas de investigação científica antes de dá-los (ou melhor, vendê-los) às massas.

VB | 10:55 AM | Comentários (1)

agosto 29, 2005

Tácticas

ratinhos.gif

VB | 10:06 PM | Comentários (0)

agosto 28, 2005

Crónica de um Parecer

maraofundo_p2.jpg Mesmo se o portal do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) não exibe os relatórios sobre o estado da aplicação das novas tecnologias à vida humana relativos aos últimos seis anos (relatórios que constituiriam por lei um recurso fundamental de informação científica ao Governo), os pareceres acerca de certas "questões actuais" no domínio das "Ciências da Vida" não têm sido emitidos com atraso. Ou melhor, tal como a mirada atenta do PP demonstrou, não têm sido emitidos com grande atraso.
O esforço português para legislar sobre o uso em investigação biomédica de embriões ou inviáveis ou excedentários das práticas de procriação médica assistida (PMA) parece, ele próprio, em início de gestação (apesar das exortações feitas pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa desde o ano da nossa adesão). Contudo, a publicação no ano passado do parecer do CNECV (44/CNECV/2004) acerca da PMA surpreendeu os informados, expressou uma vontade comum de passar do abstracto ao real e, repentinamente, colocou a esse respeito Portugal numa posição mais liberal que a da Alemanha ou Itália.
Excluo aqui a parte do parecer relativa a PMA pura e dura (por assim dizer), que elabora o fundamento moral para proteger do sofrimento o indivíduo estéril (pelo princípio da beneficência), [...]dos interesses da ciência o indivíduo humano (?), da substituição destemperada o naturalmente fértil (pelo princípio da subsidiariedade), e da transferência de mutações genéticas (a ponderar) os futuros pais. Excluo também toda a discussão acerca da protecção do futuro feto (pelo princípio da vulnerabilidade) contra a falta de um projecto parental, contra a "nefasta" influência dos casais homossexuais (artigo número 6), contra a [...]instrumentalização da vida humana, contra a intervenção de gâmetas "estranhos" (embora, se contemplem excepções que eventualmente justificam a doação de gâmetas, com as respectivas considerações quanto à comercialização do corpo humano ou fortuitas relações de identidade entre filhos e pais biológicos). Nestes domínios a nossa lei até já tem história. Por exemplo (e para que não se ande por aí a comentar de graça o machismo da sociedade portuguesa), o artigo 168o do Código Penal condena a entre 1 e 8 anos de prisão a quem [...]praticar acto de procriação artificial em mulher, sem o seu consentimento!

O parecer 44/CNECV/2004 enfrenta o uso de embriões excedentários de um modo algo desinibido quando comparado com o parecer de 1997. No presente documento, a utilização do embrião excedentário para fins de investigação científica é posta como alternativa extrema à sua destruição (artigos 19 a 21) por ser vista, de entre todos os males, como o "segundo menos pior". Pelo que entendi, a premissa do CNEV é concentrar toda a atenção moral do legislador sobre a dignidade dos nascituros (sem discriminação de estado embrionário), embora os pais, os trabalhadores médicos e os cientistas sejam também (pontualmente, alguns) considerados. O parecer inclui pois o esboço de uma tentativa de ordem moral de prioridades que culmina no artigo 22 onde se diz que, para evitar a destruição dos embriões excedentários, e descartada a possibilidade da investigação ser desenvolvida para viabilizá-los, derroga-se o enunciado geral para permitir uma investigação que, [...]não actuando em benefício dos próprios, resulte em benefício da humanidade. Os seis subsequentes (e últimos) artigos lidam com a regulamentação de procedimentos e moldes de legitimação das entidades a executá-los.

Esta demarcação entre o individual e o colectivo é, pelo aprendido da nossa experiência histórica, um factor verdadeiro de segurança. A disponibilidade para o uso científico dos embriões, sem contudo escapar à etiquetagem da Ciência como "sempre-vilã", acrescenta ainda uma possível via positiva para o progresso do conhecimento.

Mesmo se ainda no adro, a procissão rumo ao vigor da primeira lei "real" espicaça uma curiosidade vagamente semelhante à do mendigo diante da nota de mil. Como foi possível ao CNECV ultrapassar tão amplo impasse ideológico, de teor transnacional? Com a licença do Gabriel Alves, até o Conselho da Europa, que é um órgão habitualmente tão escorreito na arte de chegar a consensos, parece encontrar especial dificuldade na deliberação. Não olhando senão para a composição do corpo de conselheiros do CNECV, apenas descobri (o que já foi muito bom) que a ética é independente da geriatria e que princípios filosóficos ditos (pelos redactores do parecer) "universais", são afinal eficazes na ultrapassagem da mera imposição legal de opiniões. Será mesmo verdade que o factor tempo não joga somente a favor dos processos evolutivos segundo Darwin?
A cor política aqui tampouco importa. Não parece determinante o facto de o 44/CNECV/2004, embora mais abrangente, ter emergido de duas propostas de lei da "esquerda" (uma do PS e outra do Bloco). De resto, a última proposta de lei sobre o tema foi aprovada a decreto (vetado pelo Presidente da República em 1999) pelo voto conjunto do PS e do CDS/PP (com a abstenção do PSD e os votos contra do PCP e do PEV). É contudo difícil (e até incompetente) discernir quem representa quem no CNECV. Ainda que a filiação partidária seja por princípio relativamente independente da ética, chegou-me ao ouvido rumores de que a abstenção de Daniel Serrão na votação para a versão final do 44/CNECV/2004 (quanto às ditas derrogações da restrição de uso de embriões excedentários para a investigação) causou certa indignação nos círculos socialistas. Sem querer estar a creditar falsos testemunhos, pergunto-me se não será Agostinho Almeida Santos (outro conservador neste campo) a voz da "vigilância bioética" do PS. Ou ainda pior, pergunto-me se não planeará Sócrates aderir à "antiga" linha do Partido Socialista (a que foi capaz de atrair o voto CDS) e até tentar alterar o "relativo" equilíbrio de forças a que chegaram os actuais conselheiros do CNECV.
Ao ler a declaração de voto de Serrão quanto ao "quente" artigo 22 do parecer, fica-se consciente não tanto de uma inflexão de opinião mas de uma concessão ao "adversário" pela já referida escolha tipo "do mal o menos". A razão desta "mudança" continua oculta. Teria sido por pressão de alguma "agenda" escondida? Teria sido o desgaste da contenda no Conselho da Europa ou a digestão cuidada do significado que ele próprio deu ao seu vínculo com os princípios da ética personalista? Teria sido a posição do metodista William F. May, antigo membro do Conselho para Bioética da Administração Bush, e recentemente presente no Fórum Gulbenkian de Saúde Pública?

Talvez tenha sido apenas um esforço para colocar a posição de Portugal ao centro onde, dizem, está o melhor: entre a Alemanha e a Inglaterra. Fica tudo arrumado, destacamo-nos do fundamentalismo religioso estado-unidense e, fora do templo, levemente acenamos cúmplices ao efeito cristão (ainda subsistente) sobre o poder de Estado na Europa.

VB | 6:12 PM | Comentários (11)

agosto 23, 2005

Sobrevoando a floresta

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"Vista aérea" de astrócitos do cérebro de um ratinho, marcados com fluorescência. Em plena era estaminal, convém mostrar uma das maiores esperanças da formação e regeneração de tecido cerebral em mamíferos.
Fotografia de Gordon Fishell, Professor associado e investigador no Skirball Institut of Biomolecular Medicine, New York University.

VB | 4:14 PM | Comentários (9)

agosto 21, 2005

O Ouro Genómico

Embora a história seja muito mais longa, tudo parece ter começado no fim da década de 80. O DNA passava definitivamente para o âmbito público como instrumento inequívoco na descoberta do criminoso, do pai e, às vezes, de ambos ao mesmo tempo. Visto como manancial de respostas para qualquer pergunta, o DNA deixou de ser objecto do gozo académico de Watsons e Cricks ou base molecular para justificar Mendel e Darwin. O DNA saiu à rua. Na opinião do público com algum tempo de sobra na actividade de sobreviver, repentinamente mais sensível aos assuntos biomédicos depois daquela calamitosa década, percebeu-se (um pouco instintivamente) um novo "capital popular": o genoma.

Por todo o "mundo ocidental" (que misteriosamente relaxa o seu significado geográfico para incluir a Oceânia e o Japão), começaram a aparecer grandes repositórios de amostras de DNA genómico humano. Pessoas desejosas de contribuir de algum modo para o avanço de qualquer conhecimento que permita combater as disfunções hereditárias que as afligem, colocaram voluntariamente à disposição de organismos públicos ou semi-privados (quase sempre centros de investigação associados a hospitais universitários) o próprio DNA. Citando um relatório elaborado pela National Bioethics Advisory Commission (EUA), o jornalista de ciência Pedro Lima, informa que em 1999 estimava-se em cerca de 282 milhões o número de amostras de DNA humano armazenadas naquele país, mais de 2 milhões das quais destinados à investigação. No mesmo artigo Pedro narra como "novas políticas" fizeram descarrilar do rumo inicial a função dos bancos de DNA na Europa.

Exemplos não faltam. Um dos mais falados refere-se ao projecto Chronos, iniciado em 1991 em conjunto com o Centro de Estudos do Polimorfismo Humano (CEPH). Abstraída a ironia do nome, este projecto, através de anúncios na imprensa, logrou recolher DNA de 800 franceses com mais de noventa anos, para estudar a base genética da longevidade, isto é, para isolar e caracterizar genes ...cuja função natural seja a de controlar o envelhecimento e proteger o indivíduo contra doenças. Com efeito, os primeiros estudos pareceram prover resultados de notável interesse. No entanto, em Abril de 1996 a direcção do CEPH anunciou a assinatura de um contrato com uma agressiva empresa francesa de biotecnologia (Genset) e que incluía como mercê, o direito exclusivo de valorizar os resultados do projecto Chronos. Como contrapartida o CEPH recebeu uma contribuição financeira de mais de 5 milhões de euros. Obviamente, este negócio foi fechado longe do "inconveniente" conhecimento dos doadores e representou ao mesmo tempo uma decisão autocrática (quanto ao objectivo original do banco como instrumento de investigação fundamental) e uma mentira a centenas de pessoas idosas. Além disso, alguns cientistas que constituíam o corpo inicial de investigadores foram despedidos após denunciarem os efeitos adversos de tais manobras. Não obstante as batalhas jurídicas e alguma inevitável cobertura dos meios de comunicação, o resultado foi sem surpresas: cod fish waters.

Para quem já foi insensibilizado pelos mecanismos, pobres em escrúpulo mas ricos em versatilidade de meios, com os quais tantas pessoas ou entidades efectuam uma produção maciça de capitais, não há muita inocência sobrante para fazer crer que este foi apenas "um caso isolado". O próprio CEPH esteve na base de uma controvérsia anterior à do Chronos, a propósito da negociação do acesso exclusivo do consórcio estado-unidense Millenium a um banco de DNA para o estudo da diabete. Quantas sociedades norte-americanas dedicam-se hoje, de maneira exclusiva ao retalho do DNA? Só há informação de que existem mas muito poucos números. Parte da explicação reside no facto de que a maioria da compra e venda de direitos de acesso a determinados bancos de DNA existe sob a égide da famosa alma do negócio. Os acordos chegam pois à luz do dia muito discretamente ou quando já é demasiado tarde para tentar evitar o derramamento do leite. E as leis? Por alguma razão, igualmente secreta, estas compartem pelo menos uma propriedade das fezes do obstipado: custam muitíssimo a sair. Entre pareceres de comissões de ética (com pouco efeito legal) e relatórios encomendados a cientistas com frequentes "ligações perigosas", algumas medidas vão sendo tomadas. Esperemos que a tempo.

Porquê a urgência? Porque, ironicamente, as famílias geneticamente isoladas e com muitos filhos portadores de uma doença específica são particularmente interessantes para os geneticistas que, estudando-as, podem isolar mais facilmente os genes em causa. Ora,

famílias numerosas + forte consanguinidade + interesse dos grandes laboratórios = países do Terceiro Mundo e América Latina.

O já batido tema da falta de regras éticas no jogo dos genomas poderá levar a uma aceleração da comercialização do gene como mais uma matéria-prima, qual petróleo ou urânio. E a gravidade deste perigo não se limita ao drama do instituto público que tem que pactuar com as biotechs para conseguir o financiamento necessário a pelo menos alguma da sua investigação, nem ao do cientista que põe "óculos de couro" para concentrar-se apenas no que tem sobre a bancada e (com um pouco de sorte) continuar com o emprego. O perigo está também num novo tipo de ...colonialismo científico, que assegura o acesso de laboratórios privados a amostras de doentes...em troca de um simples convite a uma conferência científica ou de uma citação num artigo científico, para o médico ou investigador local, como diz Ségolène Aymé, directora de investigação do instituto francês de saúde e investigação médica (Iserm) e presidente da Federação Internacional de Sociedades de Genética Humana (IFGHS).

Para evitar equívocos: o mal não está nas interacções público-privado. Tais parcerias são uma óbvia fonte de financiamento para um grande número de projectos científicos. Mas deve ser salvaguardada a base moral dos procedimentos. Vale recolher amostras de DNA de um grupo de pessoas contra informadas (como por exemplo na região mexicana do